08 de agosto de 2017

 

Por: Pe. José Artulino Besen

Bisneto de Cândido Mendes de Almeida, Visconde de Vieira da Silva do Nascimento, jurista e senador do Império, Dom Luciano Mendes de Almeida, nascido no Rio de Janeiro em 1930, teve no sangue e no berço o instinto do intelectual engajado, brilhante e respeitoso de todas as opiniões. Aos 16 anos ingressou na Companhia de Jesus e foi ordenado presbítero em Roma, em 1958. Filósofo e teólogo, brilhava pela cultura cosmopolita, dominando o português, inglês, alemão, francês, italiano, espanhol e latim.

Seu engajamento social e espiritualidade comprometida despertaram a atenção de Dom Paulo Evaristo Arns, que conseguiu tê-lo como Bispo auxiliar para a região episcopal paulista de Belém, sendo ordenado bispo em 1976. Ali Dom Luciano era imagem do bom pastor e do bom samaritano. Ao final de um dia de trabalho, noite avançada, recolhia os mendigos que dormiam na soleira de sua casa, lavava-lhes os pés, fazia-lhes as unhas e preparava pessoalmente uma substancial sopa, servida carinhosamente a cada um. Colocava mendigos a dormir em sua cama, ele contentando-se com o chão. Os pobres eram os únicos que sabiam onde encontrá-lo.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB vivia a época dos grandes compromissos com os direitos humanos e a justiça social: os bispos o elegeram Secretário geral entre 1979-1987, e Presidente entre 1987-1991. Ao ser eleito Presidente, com singeleza respondeu a um jornalista que queria conhecer sua “plataforma”:

«Peço a Deus atuar na conversão dos homens do egoísmo ao verdadeiro amor, sem conformismo e sem a impaciência dos violentos, para que as estruturas da convivência humana correspondam cada vez mais à dignidade dos filhos de Deus».

E assim fez sempre, sem outra bandeira que a da dignidade dos filhos de Deus.

Augustinho Wernet, professor da USP, ex-jesuíta, assim o definiu:

«Dom Luciano era um padre que rezava de verdade, praticava a caridade de modo radical; neste mundo secularizado viveu uma religiosidade de cunho bíblico e evangélico».

Em 1988 foi eleito arcebispo de Mariana, unindo intensa vida pastoral com o dia-a-dia visitando e socorrendo doentes em hospitais e asilos. Para Dom Luciano, o rosto do pobre era tão claramente o rosto de Cristo como a luz do sol meridiano.

Dom Luciano Mendes de Almeida

A batalha de sua vida, porém, foi a Pastoral do Menor. Ninguém como ele amou os menores das ruas brasileiras. Ninguém como ele chorava ao ver os olhares dos “cristãos” pedindo a elevação da maioridade penal, da punição aos jovens. Era um prazer escutar Dom Luciano: a beleza da frase, o humor fino, a profundidade do conteúdo, proferido com tanta simplicidade que parecia evidente o que se ouvia. Inteligência de sínteses, era capaz de ouvir dezenas de opiniões e, ao final, sintetizá-las no que tinham de melhor e fazê-las aceitas. Mesmo cochilando durante graves discussões, ao acordar fazia a gentileza de resumi-las.

Nas tantas vezes que ia a Roma, ultimamente como membro Pontifícia Comissão Justiça e Paz, uma visita lhe era indispensável: a Norberto Bobbio (1909-2004), filósofo político, historiador do pensamento político e autoridade máxima na filosofia do direito, senador vitalício desde 1984. Um encontro de amigos: o bispo que alimentava a fé na Cruz de Cristo e o filósofo, ateu por causa da Cruz dos inocentes. Os dois tinham em comum o amor pelo ser humano e Dom Luciano podia afirmar o mesmo que Bobbio:

«Fomos educados a considerar todos os homens iguais e a pensar que não há nenhuma diferença entre quem é culto e quem não é culto, entre quem é rico e quem não é rico»”.

Em 1990, um acidente comprometeu a saúde de Dom Luciano. Seguidas transfusões de sangue deixaram como herança a hepatite C, causadora do câncer no fígado que o derrubou no Hospital das Clínicas. Em 2 de março passado, sofreu intensamente a perda da irmã querida, Elisa Maria, tocada pelo Mal de Alzheimer, e que residia com ele.

Daqui de meu canto, imagino Norberto Bobbio correndo ao seu encontro para lhe dizer: “Luciano, a Cruz dos inocentes é pura Luz, foi a minha salvação”. E Dom Luciano: “Deus é sempre bom”.

«Na Paz do Senhor descansa aqui o Exmo. Senhor Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida. Adepto da Companhia de Jesus, Doutor em Filosofia e na Sagrada Teologia, mas conhecido, sobretudo como Mestre na observância do Amor. Quarto Arcebispo de Mariana. Em verdade foi um lúcido Pregoeiro da doutrina evangélica, um Prelado manso e carinhoso. Afável Patrono das crianças e dos necessitados, também presidiu a Conferência dos Bispos do Brasil. Sacerdote fidelíssimo de Deus amou verdadeiramente a Igreja de Jesus Cristo. Nascido em 05/10/1930 e falecido em 27/08/2006, regeu brilhantemente esta Igreja por dezoito anos e três meses. Chorosas, as ovelhas marianenses recomendam encarecidamente a Deus um tão grande Pastor. Dom Luciano, luze na Luz».

A Irmã Morte o alcançou no dia 27 de agosto de 2006, sábado, festa de Santa Mônica. Apertando as mãos do irmão Luiz Fernando Mendes de Almeida, ingressou na eternidade dizendo: “Deus é Bom!”

(Epitáfio de Dom Luciano,
na pedra funerária que cobre seu túmulo
na Catedral de Mariana).

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