30 de julho de 2017

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Os cristãos estão cada vez mais comprometidos com uma Igreja pobre e livre. Querem construir e viver a radicalidade do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo em diálogo com o mundo, com as pessoas e inseridos na transformação da sociedade. Desejam propor e experimentar uma Igreja engajada na libertação e que diga palavras grávidas de liberdade e amor. Propor e atuar como uma Igreja inserida no mundo (pro vita mundi) a serviço da humanidade (considerada como sua grande família) faz de nossa ação cristã um serviço direto ecoando a mensagem de Jesus no serviço direto e profético aos pobres, assumindo as dores e as angústias, as alegrias e as esperanças de cada ser humano como as próprias experiências de fé de cada fiel. Assim um cristão vive reverberando no próprio coração o que toca e mexe com o coração de cada ser humano. Não há nada de verdadeiramente humano que não ecoe e aqueça o coração de um discípulo de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. Esta foi a bela constatação da Constituição Pastoral Gaudium et Spes: sobre a Igreja no mundo actual, promulgada em 7 de dezembro de 1965 pelo Paulo VI (1897-1978), unido aos padres conciliares no Vaticano II (1962-1965).

Uma Igreja sensível aos novos problemas do mundo, e suas mutações, buscará com todos os seres humanos (de todas as confissões e culturas, pensamentos e ideologias) as soluções que correspondam às aspirações mais profundas, nesta sede de infinito que está em cada coração na sua busca por felicidade para que a Igreja, sem fronteiras, seja fiel ao Espírito de Deus. Cada ação eclesial está sempre voltada para produzir, gestar e organizar ações que humanizem o humano e plenifiquem a vida social.

Fiéis cristãos devem, portanto, respeitar o homem e a mulher concretos, pois, silhuetas de Deus, particularmente respeitando a consciência e liberdade de cada pessoa e de cada cultura. Cada pessoa possui uma vocação de liberdade inscrita por Deus em seu coração. A Igreja precisa decifrar esse mistério pessoal em cada ser e orquestrar e unir as vocações na sinfonia da humanidade. Ser cristão é assumir-se como pessoa alegre, que dialoga com todos os humanos, incluindo agnósticos e ateus, pois estes participam, mesmo sem saber, do mistério de Jesus Cristo e pela inteligência e pela verdade podem chegar a Deus. Comunidades e grupos evangelizadores vão sempre valorizar a comunidade humana e o cultivo da pessoa e de sua dignidade intrínseca, participando da responsabilidade e dos benefícios sociais e políticos, agindo como cidadãos convictos e honestos participantes da vida pública de seu país. O único lugar interditado a um cristão é aquele que nega a dignidade da pessoa humana, que nega a Deus e que impede a cada pessoa pensar com a própria cabeça e defender seus valores e seus sonhos.

Cristão não pode ser corrupto nem corruptor. Desonestidade e cristianismo não se coadunam jamais. Cristãos participam da atividade e do progresso humanos, em vista da realização do desígnio de Deus sobre o mundo, e estão sempre empenhados na promoção humana e na construção e transformação do mundo, agindo em sintonia e em tensão criativa com as forças políticas e sociais de seu povo e nação. A Igreja não quer ser um gueto, nem um poder acima do povo. Quer viver mergulhada na vida comum de seu povo, propondo sua mensagem evangélica com serenidade e vigor. Os cristãos são pessoas que assumem uma nova concepção antropológica de cada ser humano, rejeitando sempre a escravidão, o utilitarismo e os reducionismos do Estado opressor, afirmando o caráter divino da pessoa, do matrimônio e da sexualidade como dons da personalidade e do amor. Inspirados na comunidade conjugal de vida e de amor, os cristãos assumem a sexualidade como revelação do amor de Deus. A família é sempre uma imagem e um exemplo da Igreja doméstica. É um sacramento.

Uma Igreja aberta ao pluralismo cultural do mundo moderno participa de pesquisas cientificas e artísticas colaborando com o mosaico cultural e a reflexão das questões-chave sobre vida, morte e sofrimento. Uma Igreja empenhada seriamente no processo do desenvolvimento econômico equitativo de todos os povos respeita e valoriza cada trabalhador e trabalhadora, reconhecendo no trabalho um valor inestimável para sustentar e fazer valer a dignidade e a identidade de cada ser humano. A economia deve ser pautada pela ética, não pelo lucro nem pela supremacia da mercadoria sobre o ser humano. Uma Igreja empenhada na promoção humana e na construção do mundo, com o qual cresce em sintonia e em tensão criativa, promovendo a paz e atuando em instituições de caridade e movimentos sociais e libertários. A Igreja é um ator político e quer sê-lo, sem vincular-se a partidos ou grupos ideológicos sectários, mas valorizando a sociedade civil e honesta comunidade política. A política é a melhor forma de amar e a Igreja crê nisso, apesar de tantos contraexemplos que todos conhecemos. As pessoas que assumem uma concepção antropológica e integradora do cristianismo apoiarão as lutas das classes populares e o processo de sua emancipação e conscientização sem preconceitos nem falácia. Com ação e empenho pessoal. Com mangas arregaçadas.

Uma Igreja aberta ao pluralismo cultural do mundo moderno faz-se crítica do capital e da exploração do mercado totalitário valorizando o trabalho, preconizando a reforma de empresas, pregando o direito de todos à propriedade, defendendo a reforma agrária e ficando ao lado dos empobrecidos como advogada dos pobres, que são seu tesouro mais precioso. Uma Igreja que prega a participação de todos na vida pública em regime pluralista, a partir dos pobres e caminhando com eles, em uma vida frugal e franciscana, faz-se sinal do caráter transcendente do humano. Atua no mundo, ainda que seus valores sejam os de Deus e da eternidade. Estamos no tempo vivendo na eternidade. Afinal, como diz o apóstolo João: “Deus ama tanto o mundo que envia Seu Filho para salvar o mundo” (cf. Jo 3,16). Essa Igreja defende o direito internacional contrário ao conflito armado entre as nações e quer ser profetisa de paz e justiça social. Vive sua dimensão ecumênica de forma convicta na cooperação internacional entre as igrejas-irmãs e aos crentes em outros credos por meio do diálogo inter-religioso. Também encontra a força dessa tarefa enraizada na verdade e na paz ofertadas pelo Divino Espírito Santo de Deus. Tudo é graça divina, muito mais que trabalho humano. É Deus quem nos une e nos fortalece. Basta de “cristãos moles”, como nos dizia Santo Antônio de Pádua Santo Antônio de Pádua (1195-1231), no “Sermão do 7° Domingo depois de Pentecostes”. Precisamos de homens virtuosos, apóstolos a quem o Senhor confie a Sua Igreja.

Flores brotam na Igreja fiel ao Cristo

Campanhas da Fraternidade, desde 1964, como sinal de compromisso e de conversão de todos os brasileiros. Os temas polêmicos e atuais são sinais claros da mensagem da libertação. Questionam e exigem mudanças pessoais e estruturais.

Os Planos de Pastoral de Conjunto (PPC), gestados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) logo no pós-concílio e que ensinaram padres e bispos a trabalhar em comunhão e de forma planejada e orgânica.

O método “ver, julgar e agir”, recebido da ação católica belga e difundido no Brasil pela Juventude Operária Católica (JOC) e pela Juventude Universitária Católica (JUC), fundamentalmente. Precioso estilo de ação e meditação do Evangelho na vida de cada dia.

Colegialidade e participação ativa de todos nas comunidades, sem chefes nem autoritarismo. Uma Igreja sinodal e plenamente ministerial.

As diversas pastorais, em particular as de fronteira ou que atingem as periferias geográficas e humanas (presos, camponeses, indígenas, dependentes químicos etc.). São verdadeira dádiva do Espírito Santo.

Laicato adulto e competente em seus serviços profissionais e familiares.

As mais de cinquenta mil Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), espalhadas pelo Brasil como verdadeiras raízes subterrâneas sustentando toda a árvore eclesial.

Missionários religiosos, sacerdotais e leigos que se espalharam pelo Brasil inteiro e alguns até pelo mundo. De um país que só recebia, passamos a ser país que envia seus filhos em missão universal, como sinal da vitalidade de nossa Igreja.

Bispos pastores e amigos dos pobres e da liberdade, como: Aloisio Lorscheider (1924-2007), Antonio Batista Fragoso (1920-2006), Enrique Angel Angelelli (1923-1976), Helder Pessoa Camara (1909-1999), Ivo Lorscheiter (1927-2007), Luciano Mendes de Almeida (1930-2006) e Oscar Romero (1917-1980), entre tantos profetas e santos de nossas igrejas particulares.

Patriarcas ainda vivos e defensores dos direitos humanos: Angélico Sândalo Bernardino (1933-), Celso de Queiroz (1933-), Erwin Kräutler (1939-), José Maria Pires (1919-), Paulo Evaristo Arns (1921-), Pedro Casaldáliga (1928-) e Tomás Balduíno (1922-).

Padres e diáconos permanentes, que se tornaram amigos do povo com cheiro de periferia, mostrando em sua prática ministerial o rosto de Cristo Ressuscitado.

Mártires de nossas Igrejas: Dorothy Stang (1931-2005), Josimo Moraes Tavares (1953-1986) e Santo Dias (1942-1979), entre centenas de testemunhas assassinadas pela Igreja e pelo Cristo.

Liturgias vivas e contemplativas.

As corajosas e imprescindíveis Comissões de Justiça e Paz (CJP).

Centro Santo Dias de Direitos Humanos e tantos centros de ação popular em nosso país.

O Projeto Igrejas-Irmãs.

O Ecumenismo e as Comissões de Diálogo Inter-Religioso, na ação de grandes atores como o padre Elias Wolff, o reverendo Jaime Wright (1927-1999) e o padre José Bizon, entre tantos pastores e pastoras que amam o ecumenismo e vivem por ele.

As religiosas engajadas e inseridas nos meios populares.

A presença ativa e alegre do povo negro em nossas comunidades.

A leitura bíblica e a lectio divina, como escolas de escuta e contemplação da Palavra de Deus.

Intelectuais e professores universitários comprometidos com as causas sociais.

A ação litúrgica participativa e a mística contemplativa dos mosteiros e grupos pentecostais. Verdadeiro Pentecostes no mundo.

Poderíamos ainda elencar uma lista imensa de ações e grupos pastorais para exemplificar como vai se fazendo essa Igreja inserida no mundo e vivendo o Evangelho de Cristo. 

Desafios para viver o Evangelho hoje nas cidades

É preciso assumir alguns desafios na inserção pastoral para que brotem muitos frutos promissores, entre os quais podem ser:

Trabalhar para que nossa Igreja seja uma comunidade aberta e fraterna, em comunhão afetiva e efetiva na fé pascal, assumindo uma palavra pública e comunicativa na pregação e vivência do Evangelho de Jesus Cristo.

Estimular e cultivar o protagonismo de um laicato consciente e adulto, nas grandes causas de negação da dignidade humana, sem infantilismos nem clericalismos.

Assumir a evangelização personalizada de cada habitante das cidades a partir de uma rede de missionários e de serviços no mundo.

Visitar os pobres, os doentes, os excluídos, os marginalizados, os perseguidos, os sem-teto, os drogados, os jovens solitários e depressivos, os idosos para ouvi-los, para celebrar com eles e elas, aprendendo e ensinando, comungando na luta, ao celebrar e rezar com cada uma dessas pessoas, amando-as como ao próprio Cristo Jesus.

Cada um desses desafios exigirá novos ministros e nova ação transformadora. Será preciso sair de capelas, de sacristias e de muros para andar, visitar, mover-se. Será preciso usar os meios de comunicação e as redes sociais. Será preciso beber e viver da Palavra de Deus. Será preciso conversar pessoalmente com Jesus Cristo a cada manhã e celebrar a Eucaristia para abastecer nossos motores. Será preciso sair na inércia e do comodismo, que se tornam sinônimos de mediocridade, para enfrentar a tarefa missionária com ardor e audácia.

Prof. Fernando Altemeyer Junior

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