O Estudo da Palavra de Deus sob a ótica do Concílio Vaticano II

29 de julho de 2017

 

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Por Frei Carlos Mesters

 

A PALAVRA DE DEUS NO CONCÍLIO VATICANO II

A Constituição Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II é fruto de uma longa caminhada que vinha desde o começo do século XX e até antes. Papa João XXIII definiu o objetivo do Concílio dizendo que queria dar maior atenção aos Sinais dos Tempos. Queria atualizar a Igreja. “Aggiornamento”. Queria que ela fosse novamente uma irradiação da Boa Nova que Jesus nos trouxe.

Para poder entender todo o alcance da influência do Concílio Vaticano II para a leitura e a interpretação da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, é importante ver, primeiro, como era antes; em seguida, ver o que aconteceu durante e, no fim, o que foi acontecendo depois.

ANTES: desde o início do século XX

Nesta primeira parte, acentuaremos três aspectos: a realidade da Europa nos anos cinquenta e sessenta, a incipiente renovação da Igreja e o novo interesse pela leitura da Bíblia.

A realidade da Europa

Era ainda a realidade (que definia os rumos da Igreja e) da qual João XXIII procurava ler os Sinais dos Tempos. Ela era marcada pelas duas guerras de 1914 a 1918 e de 1939 a 1945. Guerras absurdas e suicidas, realizadas por nações cristãs da Europa. Só a segunda guerra mundial provocou a morte de em torno de 60 milhões de pessoas. A secularização crescente estava esvaziando as igrejas. Muita gente saía, deixando de frequentar. Ao mesmo tempo, em todo canto, crescia a busca por um novo sentido para a vida e por novas formas de viver o relacionamento com Deus. A igreja na sua forma tradicional já não respondia mais aos anseios das pessoas na Europa.

A incipiente renovação da Igreja

Nos anos cinquenta e sessenta, na Europa Ocidental, a Igreja estava iniciando uma atualização aos novos tempos. Animada pelas encíclicas do Papa Pio XII, a renovação litúrgica estava em plena evolução. Nas missas, que eram ainda em latim, de costas para o povo, já se começava a fazer as leituras da Bíblia na língua vernácula. Nesses anos do pós-guerra foi muito forte a missão Ad Gentes. Irlanda, Holanda, Bélgica, França, Itália, Espanha e outros países da Europa enviaram milhares de missionários e missionárias para os países da África, Ásia e América Latina. Além disso, novos movimentos pastorais retomavam fôlego, como a Ação Católica nas suas várias formas. A JOC, nascida na Bélgica entre as duas guerras, teve grande influência aqui no Brasil.

O novo interesse pela Bíblia

Destacamos quatro pontos:

  1. A renovação da exegese bíblica na Igreja católica já vinha de mais de cem anos atrás. Os resultados da exegese científica ajudavam o povo a entender melhor a Bíblia. Ficava claro que nem tudo podia ser tomada ao pé da letra, o que ajudou a vencer o fundamentalismo. A novidade era tanta que a Igreja chegou a criar a Pontifícia Comissão Bíblica (PCB) para orientar melhor os estudos e a interpretação da Bíblia. No fim do século XIX surgiu em Jerusalém a “École Biblique” dos frades Dominicanos e em Roma criou-se o Pontifício Instituto Bíblico dos padres Jesuítas. Ambas tiveram grande influência na preparação do ensinamento do Concílio sobre a Leitura da Bíblia.
  2. Cresceu o estudo da história da interpretação da Bíblia e chegou-se a perceber a melhor importância da Exegese dos Santos Padres com seu método que busca o sentido do Espírito dentro da Letra e a Alegoria dentro da História e com sua maneira peculiar de entender a ligação entre o Antigo e o Novo Testamento.
  3. A pesquisa bíblica revelava também como a própria Bíblia usa e interpreta a Bíblia: como Jesus usou e interpretou a Bíblia para os discípulos de Emaús, como Maria (lia?) e rezava a Bíblia, como os primeiros cristãos interpretavam o Antigo Testamento. Esta pesquisa mostrava como a Bíblia nasceu e cresceu num ambiente comunitário litúrgico, o que influenciou e motivou a Lectio Divina, a prática orante da Bíblia. Ficou evidente também como a própria Bíblia interpreta com liberdade a história do povo. Isto ajudou a relativizar a rigidez na compreensão da historicidade dos fatos e a perceber melhor o essencial da mensagem. Descobriu-se ainda que é muito difícil saber qual o texto original de vários livros da Bíblia. Isto ajudou a perceber que o texto não pode ser desvinculado da Tradição viva da Igreja.
  4. Crescia em todo canto o interesse do povo pela leitura e meditação da Bíblia. A Bíblia começava a ser divulgada na linguagem do povo. No Brasil o movimento bíblico começou nos anos cinquenta com a divulgação da Bíblia da Ave Maria, a primeira Bíblia pastoral e popular, que levou a Palavra de Deus para perto do povo. Mais de duzentas edições sucessivas.

É com este conjunto de experiências anteriores ao Concílio que se iniciou o Vaticano II

DURANTE: os anos de 1962 a 1965

Nesta parte destacamos os seguintes pontos para ajudar a perceber o alcance do Concílio Vaticano II para a leitura e a interpretação da Bíblia: a atitude do Papa João XXIII, a experiência e a atitude dos bispos conciliares, a demorada e difícil elaboração do Documento Dei Verbum, uma breve síntese do conteúdo do Documento, e uma amostra do novo olhar que anima a interpretação da Escritura.

A atitude do papa João XXIII

A convocação do Concílio em 1959 foi algo inesperado. Surpreendeu a Igreja. Depois que fez o anúncio, papa João, por diversas vezes, explicitou o objetivo da convocação, dizendo que era uma inspiração de Deus à qual queria ser fiel. Sua preocupação maior era ser fiel aos Sinais dos Tempos e entrar em diálogo com o mundo que estava mudando no pós-guerra. Papa João foi categórico. O Concílio não podia ser um Concílio para condenar os erros, como tinha acontecido tantas vezes no passado, até no passado mais recente da Igreja. (Vaticano I e Pio IX e Pio X). João XXIII queria que o Concílio apontasse os rumos para a ação pastoral da Igreja. O título de um dos seus discursos inaugurais dizia: “O Cálice e o Livro“. Com isto ele indicava que o Concílio devia valorizar os dois fundamentos maiores da vida da Igreja: a Eucaristia e Bíblia. A eucaristia sempre teve um papel preponderante. Chegou a hora de revalorizar o outro fundamento que é a Bíblia, a Palavra de Deus. De fato, houve uma insistência muito grande da parte do Concílio em estimular o povo de Deus a retomar a Bíblia como seu livro de espiritualidade pessoal e a retomar a prática da Leitura comunitária e orante da Bíblia que, no passado remoto, tinha marcado tanto a vida da Igreja, como a origem e o surgimento da própria Bíblia.

A experiência e atitude dos bispos conciliares.

Os quatro anos do Concílio foram muito importantes para os próprios bispos, sobretudo para os bispos brasileiros. Eles tiveram encontros com os grandes teólogos da época, que orientavam os Padres Conciliares. Na parte das manhãs, os bispos brasileiros estavam na basílica de São Pedro, ocupados nos trabalhos conciliares. Na parte das tardes, muitos deles escutavam as palestras dos teólogos na Domus Mariae. Foi um curso de atualização como nunca houve antes, nem depois.

A experiência conciliar contribuiu também para a “internacionalização” das preocupações dos bispos. Eles estavam reunidos com bispos colegas de todos os continentes. Ficavam sabendo tudo de todos. Criaram-se grupos e organizações internacionais. É célebre o grupo dos bispos que se reuniram nas catacumbas e juraram viver a opção pelos pobres. Também se criou o grupo “Coetus Internationalis Patrum”, mais conservador, que buscava maior fidelidade à tradição. Nasceram duas revistas: Concilium e Communio. As duas existem até hoje.

Toda esta experiência contribuiu ainda para uma certa independência e liberdade dos bispos, antes tão obedientes às diretrizes do Vaticano. A comissão preparatória do Concílio tinha redigido em torno de setenta textos a serem discutidos e aprovados pelos bispos. Os Bispos recusaram vários textos e elaboraram outros que não tinham sido pensado antes. Durante os três anos do Concílio, surgiu até um novo documento, chamado “Gaudium et Spes”, que não tinha sido previsto. Isto revela a preocupação dos bispos em serem fiéis aos apelos de Deus que vem da realidade do mundo de hoje e que não podem ser ignorados por nós Cristãos.

A longa elaboração do documento Dei Verbum

A Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Leitura da Bíblia, é fruto de quatro anos de trabalho ao longo do processo envolvendo o Concílio Vaticano II. Na diferença entre o texto preparado pela Comissão Preparatória “Sobre as fontes da Revelação” e o texto conciliar Dei Verbum, que finalmente foi aprovado pelos bispos, transparecem os dois enfoques diferentes e até opostos a respeito da Revelação Divina, que marcavam as discussões entre os bispos ao longo dos quatro anos do Concílio.

1) A Comissão teológica pré-conciliar tinha preparado um esquema intitulado “Sobre as Fontes da Revelação”. Este esquema, elaborado dentro da mentalidade que antecedeu o Concílio, apresentava-se dogmático e restritivo, tendo como objetivo combater os erros relacionados à interpretação das Escrituras sem mencionar nenhuma função ativa da escritura na vida e na pastoral da Igreja. Na mentalidade anterior ao Concílio, a revelação divina já estava completa e encerrada. Tinha terminada com a morte do último apóstolo. Agora ela está guardada na Bíblia e na tradição apostólica. Este patrimônio da fé está confiado ao papa que, através do Magistério dá as diretrizes aos bispos que, por sua vez, as repassam aos fiéis. Para este grupo, se já temos o Magistério, para que insistir tanto na leitura e na interpretação da Bíblia por parte do povo?

2) Segundo o novo documento Conciliar Dei Verbum, nascido e elaborado ao longo dos quatro anos e finalmente aprovado na última sessão do Concílio, Deus fala é hoje pela realidade, pelos fatos, pela criação. A Bíblia é o Instrumento que Deus nos deu para poder descobrir onde Ele fala hoje. A Igreja com o seu magistério orienta com fidelidade este esforço para o povo poder descobrir a Palavra viva de Deus na vida. Esta nova visão da revelação divina foi retomada em quatro belíssimas comparações na mensagem do Sínodo dos bispos de 2008: Voz da Palavra, Rosto da Palavra, Casa da Palavra e Caminho da Palavra.

O documento Dei Verbum, o menor de todos os documentos, é o que levou mais tempo para ser elaborado e aprovado. Começou a ser discutido na primeira sessão em 1962 e só foi aprovado na última sessão em 1965, quatro anos depois. Foi o documento que, na época, levantou muita polêmica entre grupos conservadores e grupos mais abertos. Dois padres Jesuítas, professores no Pontifício Instituto Bíblico, M. Zerwick e Alonso Schöckel, foram proibidos de dar aula. Foi uma tempestade num copo de água.

Aqui é importante lembrar a intervenção do Papa João XXIII no processo da elaboração do Documento Dei Verbum. O regimento interno do Concílio, aprovado pelos bispos, dizia que um documento preparado pela comissão só podia ser recusado, se fosse rejeitado por dois terços dos votos. Quando, em 1962, o esquema preparado pela Comissão foi levado ao plenário para a votação, ele foi rejeitado pela grande maioria. Mas faltavam alguns poucos votos para completar os dois terços necessários para a rejeição. Dos quase três mil bispos, perto de dois mil eram contrários. Rigorosamente, o texto deveria servir de base para a discussão dos bispos. Foi um impasse. Diante deste impasse, o papa João XXIII interveio. Suspendeu a discussão do esquema e nomeou uma nova comissão, mais ampliada, incluindo membros da Comissão Teológica e do Secretariado para a União dos Cristãos. Este talvez tenha sido o momento em que mais se tornou palpável a ação do Espírito Santo na condução dos trabalhos conciliares. Alguns diziam: “O Espírito Santo foi pegou em flagrante!”.

A nova comissão rejeitou totalmente o antigo esquema e começou a elaborar um novo documento. Surge assim o “Documento da Comissão Mista” com o nome provisório de “Sobre a Revelação Divina”. O enfoque agora era mais propositivo, buscando apresentar pontos de avanço e não apenas condenações. O documento tornou-se mais enxuto e objetivo. Mas este novo documento nem chegou a ser apresentado para debates nas sessões de 1963, pois tinha recebido cerca de 280 emendas de bispos antes de qualquer discussão. Por isso, o esquema foi novamente rejeitado.

Uma nova comissão se pos a trabalhar no início de 1964, aproveitando o trabalho da comissão anterior e as emendas feitas pelos bispos. Em julho de 1964 o documento estava pronto para ser enviado à III sessão conciliar, onde foi amplamente discutido e emendado nas sucessivas congregações. Tais emendas exigiram uma nova revisão do esquema. Este trabalho foi feito pela comissão ao longo do primeiro semestre de 1965 gerando assim um quarto esquema que foi enviado ao plenário nas sessões conciliares do mesmo ano. Na IV sessão conciliar de 1965 ele foi aprovado definitivamente por 2344 votos a favor e 6 contrários. Foi promulgado em sessão pública de 18 de novembro de 1965 com o nome de Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina.

Uma breve síntese do conteúdo do documento Dei Verbum

A Dei Verbum é um dos menores documentos do Vaticano II. São seis pequenos capítulos com 26 parágrafos. Mas é um escrito bastante objetivo e denso, com um conteúdo muito amplo. Ela apresenta como linha central o processo de comunicação, iniciado por Deus, buscando levar a humanidade para o próprio Deus, passando pela caminhada histórica do povo de Israel, pelo mistério de Jesus Cristo e pela caminhada histórica da Igreja até chegar aos nossos dias e prolongando-se em direção aos fins dos tempos. Todo este processo é fruto da atuação do Espírito Santo, revelando um rosto trinitário a este processo de comunicação divina. O centro e a plenitude de todo este processo é o mistério de Cristo.

Para descrever este processo de comunicação divina, a Dei Verbum se apresenta em capítulos com os seguintes conteúdos:

Capitulo I – A Revelação como tal

Capítulo II – Transmissão da Divina Revelação

Capítulo II – Inspiração divina da Sagrada Escritura e sua interpretação

Capítulo IV – O Antigo Testamento

Capítulo V – O Novo Testamento

Capítulo VI – A Sagrada Escritura na vida da Igreja.

A declaração feita por ocasião da promulgação da Dei Verbum reafirma o objetivo pastoral desta Constituição, dentro do espírito do próprio Concílio: “Segundo o costume conciliar e a finalidade pastoral do presente Concílio, este Santo Sínodo define como verdade de fé apenas aquilo que expressamente declarar como definitivo em matéria de fé e moral. Tudo o mais que o Concílio propõe, sendo doutrina do Magistério Supremo da Igreja, deve ser acatado e aceito por todos e cada um dos fiéis segundo a mente do mesmo Concílio, que transparece quer da matéria versada quer do modo como é expressa, segundo as normas da interpretação teológica”.

Uma amostra do novo olhar que anima a interpretação da Escritura

O documento Dei Verbum começa com estas palavras: O sagrado Concilio, ouvindo religiosamente a Palavra de Deus proclamando-a com confiança, faz suas as palavras de S. João: «anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e nos apareceu: anunciamos-vos o que vimos e ouvimos, para que também vós vivais em comunhão conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo. 1, 2-3).

Nesta citação explícita da primeira carta de São João, os bispos se referem ao que eles mesmos puderam ver e ouvir nos dias do Concílio. O nós que, no texto original, é João, agora, no documento conciliar, são os bispos. Os destinatários eram cristãos do século I, agora são os cristãos do século XX. Os bispos usam as mesmas palavras usadas por João, mas na boca dos bispos estas palavras se tornam veículo de uma experiência bem diferente. Mudou tudo: os destinatários, o remetente, o conteúdo, o lugar e a data. A única coisa que não mudou é a letra da Bíblia, o envelope, a embalagem.

Todos nós usamos a Bíblia assim: você, eu, Jesus, Pedro, Paulo, Lutero, São Francisco, Santa Teresinha, os bispos, os pastores, os papas, as comunidades, os religiosos e as religiosas, os católicos, os protestantes, os crentes, todos e todas! Todos e todas, quando temos uma experiência de Deus e da vida, tentamos expressá-la usando as palavras da Bíblia.

Nesta maneira de ligar a Bíblia com as experiências da vida, transparece a incrível novidade deste livro antigo e nela se revela algo do novo olhar com que a Bíblia começou a ser lida e interpretada pelos padres conciliares. É o olhar de uma nova experiência de Deus que se faz presente, quase imperceptivelmente, nesta surpreendente e tão sincera ligação entre Bíblia e Vida, a partir do desejo do Papa João XXIII para que o Concílio fosse pastoral e revelasse a Boa Nova de Deus ao povo e a partir da experiência e das atitudes dos bispos ao longo dos quatro anos do Concílio (   ). É a fé na presença do mesmo Deus de Jesus Cristo, que acompanha o seu povo desde os tempos de Abraão até hoje.

O mesmo está acontecendo na leitura popular da Bíblia. A partir da nova ligação entre Bíblia e Vida, os pobres fazem a descoberta, a maior de todas: “Se Deus esteve com aquele povo no passado, então ele está também conosco nesta luta que fazemos para nos libertar. Ele escuta também o nosso clamor!” (cf. Ex 2,24; 3,7). Assim foi nascendo, imperceptivelmente, uma nova experiência de Deus e da vida que se tornou o critério mais determinante da leitura popular e que menos aparece nas suas explicitações e interpretações. Pois o olhar não se enxerga a si mesmo. O mesmo se pode dizer do Documento Conciliar Dei Verbum.

DEPOIS: de 1965 até hoje

Nesta parte final destacamos os seguintes pontos: a realidade dos anos 60 e 70 tanto na Europa como na América Latina, o surgimento da Teologia da Libertação na América Latina, o impulso dado à leitura popular da Bíblia nas Comunidades Eclesiais de Base, dez pontos que caracterizam o acompanhamento da interpretação da Bíblia pelo magistério e a mensagem do Sínodo de 2008

A realidade dos anos 60 e 70 tanto na Europa como na América Latina.

Eram os anos da revolução da juventude e da ditadura militar aqui no Brasil e em vários outros países da América Latina. Surgem muitos movimentos populares, nascem novos instrumentos pastorais, cresce a influência do método de Paulo Freire. O ano 1968 entrou na história como o ano de revolução da juventude, do endurecimento do golpe militar e da publicação do livro “Teologia da Libertação”.

Em 1968 começa em Medellin a releitura do Concílio Vaticano II para América Latina, que teve uma influência muito grande na leitura popular da Bíblia. Surgem em todo canto as Comunidades Eclesiais de Base.

São anos de várias tendências, muitas vezes conflitantes: abertura de um lado e fechamento de outro lado. Na Itália um Cardeal chegou a dizer: “Precisamos de 40 anos para desfazer o que João XXIII fez de errado em 4 anos”. Muitos sacerdotes puderam fazer revisão das suas opções. Paulo VI foi paciente e compreensivo.

O surgimento da Teologia da Libertação

A teologia da libertação teve grande influência e criou muito debate. Ela só podia nascer aqui na AL onde durante séculos o Evangelho foi usado para legitimar situações antievangélicos. A teologia da Libertação nasce da prática do povo nas comunidades eclesiais de base e tenta verbalizar o que lá se vivia na realidade. (Afirmação de Gustavo Gutierrez em Vitória do Espírito Santo durante o segundo intereclesial). Ela marca também o fim do monopólio europeu no pensamento católico. Surge um pensamento teológico na periferia da Igreja. Isso causou muita reação em pensadores europeus.

Surgem e crescem as Comunidades Eclesiais de Base e os encontros inter-eclesiais. Em 2014 será celebrado o XIII encontro intereclesial em Crato, Ceará. Nascem novos instrumentos de Pastoral: CIMI, CPT, CPO e CPP, que tentam defender os direitos dos índios, agricultores, operários e pescadores. Todos eles são ecumênicos e suscitam até polêmicas por dar voz aos sem-voz.

Início do pontificado de João Paulo II que durou 26 anos e marcou a época pos-conciliar até hoje. Surgem os movimento internacionais conservadores vindos de Roma como Neo-catecúmenos, Focolaris, Legionários de Cristo. Opus Dei e Comunione e Liberazione.

Impulso dado à leitura popular da Bíblia nas Comunidades Eclesiais de Base

Surgem novas traduções. No momento já temos mais de quinze traduções em português no mundo católico; novos instrumentos de divulgação: cursos bíblicos, círculos bíblicos, semanas bíblicas, SAB (Serviço de Animação Bíblica), inumeráveis publicações, revistas. Crescem a dimensão ecumênica e a preocupação em ligar a Bíblia com a vida de cada dia. Surge e se fortalece o que foi chamado a Leitura Popular da Bíblia, animada pelo CEBI (Centro Ecumênico de estudos Bíblicos) . A leitura popular que cresceu e se divulgou enormemente em todo canto, foi elogiada pelo Papa João Paulo II e pelo Papa Bento XVI. Sobre este assunto veja o Verbete Leitura Popular da Bíblia.

Dez características

do acompanhamento da leitura da Bíblia pelo Magistério

Este crescimento surpreendente da leitura da Bíblia era animado pelos pastores da Igreja. Nos anos depois do Concílio saíram vários documentos da parte do Magistério para estimular e orientar a leitura e a interpretação da Bíblia na Igreja. Pois a fidelidade à Igreja, à Tradição e ao Magistério é tão importante para a interpretação da Bíblia quanto a raiz para a árvore. Sem ela, a árvore morre. Mas a raiz deve ficar debaixo do chão. Ela não aparece, nem pode aparecer. Raiz descoberta coloca em perigo a vida da árvore. Apresentamos aqui dez normas hermenêuticas, frutos do Vaticano II, que estão orientando a leitura e a interpretação da Bíblia na Igreja.

  1. Crer que a Bíblia é Palavra de Deus (DV 11)

A fé de que a Bíblia é Palavra de Deus é o que mais caracteriza a leitura cristã da Bíblia. É por ser Palavra de Deus que a Bíblia tem aquela autoridade. A Palavra de Deus, porém, não está só na Bíblia. Deus também fala pela vida, pela natureza, pela história (DV 3). A leitura da Palavra escrita da Bíblia ajuda a descobrir a Palavra viva de Deus na vida.

Existe uma ligação entre Criação e Salvação, pois ambos são fruto da Palavra de Deus. “Deus que cria (cf. Jo 1,3) e conserva todas as coisas pelo Verbo, oferece aos homens nas coisas criadas um perene testemunho de si mesmo” (cf. Rom 1,19-20) (DV 3). Santo Agostinho ensina que Deus escreveu dois livros. O primeiro livro é a criação, a natureza, a vida. O segundo livro é a Bíblia, inspirada por Deus para nos “devolver o olhar da contemplação”, para que possamos ler e interpretar melhor o Livro da Vida e da Natureza.

Por ser Palavra de Deus, a Bíblia, quando ”lida e interpretada naquele mesmo Espírito em que foi escrita” (DV 12), comunica a luz e a força deste mesmo Espírito aos que a lêem. Por isso, a Palavra de Deus tem força para realizar o que transmite (DV 21).

  1. É Palavra de Deus em linguagem humana (DV 12)

A linguagem usada por Deus para comunicar-se conosco na Bíblia é em tudo igual à nossa linguagem, menos no erro e na mentira. Por isso ela deve ser interpretada com a ajuda dos mesmos critérios que se usam para interpretar a linguagem humana: crítica textual, crítica literária, pesquisa histórica, etnologia, arqueologia, etc (DV 12; Pio XII 20). Do contrário, caímos no erro do fundamentalismo que tanto mal faz, pois desliga a Bíblia do contexto da realidade humana daquela época, isola o leitor e a leitora da comunidade e da tradição e separa vida e fé. O fundamentalismo foi condenado no documento da Pontifícia Comissão Bíblica [1].

Sob a pressão dos problemas que questionam a fé surgem sempre novos métodos de análise dos textos bíblicos. O Papa João Paulo II, no seu discurso à Pontifícia Comissão Bíblica (1989) reconheceu a legitimidade do uso destes métodos. Ele disse: ”A grande variedade dos métodos pode, por vezes, dar a impressão de uma certa confusão. Mas também tem a vantagem de nos fazer perceber a inesgotável riqueza da Palavra de Deus” [2]. A própria Pontifícia Comissão Bíblica no seu mais recente documento analisa e avalia estes vários métodos [3]. Ao mesmo tempo, é bom ter consciência clara dos limites de cada método.

  1. Deus se revela a si mesmo na sua Palavra (DV 20)

O povo cristão procura e encontra na Bíblia “o conhecimento de Deus e do homem e o jeito pelo qual o justo e misericordioso Deus trata com os homens” (DV 15). A Leitura Orante faz com que o modo de pensar de Deus, aos poucos, se torne o nosso modo de pensar. Por isso mesmo, ela ajuda a descobrir e quebrar em nós as falsas ideologias, e contribui para que aprendamos a olhar a vida com os olhos de Deus.

Antes de ser um catálogo de verdades, a Bíblia é a revelação da graça e da misericórdia de Deus (DV 2). Ele nos amou primeiro! Para os pobres e oprimidos, esta revelação significa, desde sempre, que Deus se inclina para escutar o seu clamor e estar com eles na sua aflição, para caminhar com eles e libertá-los do cativeiro (Ex 3,7-8; Sl 91,14s).

O objetivo primeiro da Bíblia é ajudar-nos a descobrir na vida esta presença amiga de Deus e experimentar o seu amor libertador. Este é o cerne de toda a revelação expresso no Nome Yhwh,  Deus-Conosco. A leitura da Bíblia funciona como um colírio que vai limpando os olhos. Como diz Santo Agostinho, ela devolve o olhar da contemplação que nos foi roubado pelo pecado [4] .

Esta revelação e experiência de Deus são fruto, ao mesmo tempo, da graça de Deus e do esforço humano. De um lado, a revelação que Deus faz de si mesmo provoca nossa colaboração e participação e exige observância da Aliança. De outro lado, ela “nos faz participar dos bens divinos que superam inteiramente a capacidade da mente humana” (DV 6). Eficiência e gratuidade, luta e festa, natureza e graça, ambos se misturam na caminhada conflituosa em direção a Deus. Este olhar libertador, nascido de Deus, liberta e abre o sentido da Bíblia.

  1. Jesus é a chave principal da Sagrada Escritura (DV 2.4.16)

Para nós cristãos, Jesus é o centro, a plenitude e o objetivo da revelação que Deus vinha fazendo de si desde o Antigo Testamento (DV 2.3.4.15.16.17). “Os livros do Antigo Testamento adquirem e manifestam sua plena significação no Novo Testamento e, por sua vez, o iluminam e explicam” (DV 16). Sem o Antigo Testamento não se entende o Novo, e sem o Novo não se entende o Antigo.

A experiência viva de Jesus na comunidade é a luz nova nos nossos olhos para poder entender todo o sentido do Antigo Testamento (DV 16). Cristo está como que do nosso lado, olhando conosco para o Antigo Testamento, clareando-o com a luz da sua presença. Dizia Santo Agostinho: “Novum in Vetere latet, Vetus in Novo patet”, o que significa “O Novo está escondido no Antigo, o Antigo desabrocha no Novo”.

Tudo isto tem uma atualidade muito grande. Não se trata só de descobrir como os primeiros cristãos souberam encontrar as figuras de Jesus no Antigo Testamento (DV 15). Trata-se sobretudo de fazer hoje o que eles fizeram, a saber: descobrir como o nosso “antigo testamento”, isto é, a nossa história pessoal e comunitária, está sendo empurrada pelo Espírito de Deus para a vida plena em Cristo. A conversão para Cristo tira o véu dos olhos e faz entender o sentido da Bíblia e da vida (2 Cor 3,16).

De um lado, a Bíblia ajuda a entender e a aprofundar aquilo que estamos vivendo em Cristo. De outro lado, nossa vida e nossa prática nos ajudam a entender melhor o sentido cristológico da Escritura. Antigamente, este sentido era chamado de “sentido espiritual”. Isto é, o Espírito nos ajuda a descobrir o sentido que o texto antigo tem para nós hoje. Também era chamado “sentido simbólico”, pois unia (sym-ballo) a vida e a Bíblia.

  1. Aceitar a lista completa dos livros (DV 16)

Existem duas listas de livros inspirados: a lista judaica, que compreende o que nós chamamos o Antigo Testamento, e a lista cristã, que compreende os livros do Antigo e Novo Testamento. Aceitar a lista completa é aceitar a unidade dos dois Testamentos e admitir que uma e mesma economia divina une os dois Testamentos num único projeto de salvação e de libertação, projeto que só se revela plenamente na medida em que o Antigo passa a ser Novo.

Esta passagem do Antigo para o Novo começou no momento da Ressurreição de Jesus e ainda não terminou. A cada momento novos povos, novas pessoas e novos setores da nossa vida pessoal e comunitária vão entrando no “Caminho” (At 9,2; 18,25.26). Esta passagem, páscoa, envolve tudo e todos, pois tudo foi criado por Deus para Cristo (Cl 1,16). Assim, cada pessoa, cada grupo, cada comunidade, povo ou nação tem o seu Antigo Testamento, tem a sua história de salvação e deve fazer a sua passagem do Antigo para o Novo, isto é, deve aprofundar a sua vida até descobrir lá na raiz, a presença amiga e gratuita de Deus, empurrando tudo para a plena vida em Cristo.

A Bíblia com seus dois Testamentos é norma, é cânon, dado por Deus, para ajudar-nos no discernimento e na realização desta nossa páscoa de salvação e de libertação. “Renovar” é fazer com que também hoje nas nossas vidas o Antigo se torne Novo.

  1. A Bíblia é livro da Igreja (DV 21)

Quando nos reunimos em torno da Palavra de Deus, formamos um pequeno santuário ou sacrário, tão santo quanto o sacrário que conserva o Corpo de Cristo. Na Igreja existem o Livro e o Cálice (João XXIII), o santuário da Palavra de Deus e o santuário do Corpo de Deus (DV 21). Os inúmeros pequenos santuários da Palavra de Deus que, assim, se espalham pelo mundo, sobretudo entre os pobres, são as pontas finas e frágeis da raiz que dão força e vigor à árvore da Igreja. Estes pequenos santuários em torno da Palavra de Deus são o lugar, onde a Igreja nasce como a água da sua fonte.

A Bíblia não é, em primeiro lugar, um livro de piedade individual, nem uma cartilha de transformação social, mas é o livro de fé da comunidade, livro de cabeceira. A Palavra de Deus gera a comunidade. Interpretar a Palavra de Deus não é a atividade individual do exegeta que estudou um pouco mais que os outros, mas é e deve ser uma atividade comunitária, na qual que todos participam, cada um a seu modo com os seus dons, inclusive o exegeta.

Deste modo, surge e cresce o sentido comum, aceito e partilhado por todos. É o “sensus ecclesiae”, o “sensus fidelium”, o “sentido de fé da Igreja”, com o qual todos se comprometem como se fosse com o próprio Deus. Este “sentido de fé da Igreja”, quando partilhado por todos nos Concílios Ecumênicos e expresso pelo Magistério, cria o quadro de referência dentro do qual se deve ler e interpretar a Bíblia.

  1. Levar em conta os critérios da fé (DV 12)

Não basta a razão para poder captar todo o sentido que a Bíblia tem para a nossa vida. É necessário levar em conta também os critérios da fé e ler a Bíblia “naquele mesmo Espírito em que foi escrito” (DV 12). Os critérios da fé são três: “Atender com diligência ao conteúdo e à unidade de toda a escritura, levada em conta a Tradição viva da Igreja toda e a analogia da fé” (DV 12). Ou seja, a interpretação cristã da Bíblia deve levar em conta: (1) a “unidade de toda a Escritura”, isto é, a Visão Global da Bíblia; (2) a “tradição viva da Igreja” dentro da qual a Bíblia foi gerada e é transmitida; (3) a “analogia da fé”, isto é, a vida da Igreja dentro da qual e em função da qual a Bíblia é lida e interpretada. Os três têm o mesmo objetivo: descobrir o sentido pleno da Escritura, impedir que o seu uso seja manipulado, e evitar que o texto seja isolado do contexto histórico e da tradição eclesial que o geraram e transmitiram. Vejamos cada um dos três:

  1. A unidade de toda a Escritura. A Bíblia é um conjunto, onde cada livro, cada frase tem o seu lugar e a sua função para nos revelar o Projeto de Deus. As suas várias partes são como tijolos numa grande parede: juntos formam o desenho do Projeto de Deus. Este critério da Unidade da Escritura proíbe isolar textos, arrancá-los de seu contexto e repeti-los como verdades isoladas e absolutas. Um tijolo só não faz a parede. Um traço só não faz o desenho do rosto. A Bíblia não é um caminhão de tijolos, mas uma casa onde se pode morar.
  2. A Tradição viva da Igreja. A Tradição envolve a Bíblia antes, durante e depois. Antes de ser escrita, a Bíblia era narrada. Foi sendo escrita dentro de um processo de transmissão das histórias e tradições do povo. No fim, uma vez escrita, continuou e continua sendo transmitida de geração em geração, até hoje. Ou seja, o texto bíblico não caiu pronto do céu, mas nasceu de dentro e em função de uma situação concreta do povo de Deus. Como tal deve ser lida e vivida.
  3. Levar em conta a analogia da fé. O texto deve ser lido não só dentro do conjunto da Bíblia, nem só dentro do conjunto da Tradição, mas também dentro do conjunto da vida atual da fé da Comunidade. Deve obedecer não só às exigências de fé de ontem, mas também às exigências de fé de hoje. A fidelidade à Palavra exige que ela se torne contemporânea dos homens de hoje (Paulo VI) [5]. Isto é, deve levar em conta as dificuldades que o homem moderno tem para crer.
  4. Levar em conta os Critérios da Realidade (Paulo VI)

Os critérios da realidade situam-se em dois níveis: a realidade da época em que foi escrita a Bíblia, e a realidade do povo que hoje lê a Bíblia. Ambas têm as suas exigências a serem levadas em conta na interpretação.

  1. A realidade do tempo em que foi escrita. “O intérprete deve transpor-se com o pensamento àqueles tempos antigos do Oriente” (Pio XII) [6]. Com a ajuda das ciências, ele estabelece o sentido-em-si do texto e o prepara para que o leitor possa descobrir nele o sentido espiritual que lá existe para nós. Ou seja, ele estabelece “uma certa conaturalidade entre os interesses atuais e o assunto do texto, para que se possa estar disposto a ouvi-lo” (Paulo VI) [7].
  2. A realidade do povo que hoje lê a Bíblia. A Bíblia nasceu da preocupação do povo de reencontrar, na realidade conflituosa de cada época, os sinais da presença e dos apelos de Deus. O próprio Jesus explicou a Bíblia partindo da realidade e dos problemas dos dois discípulos de Emaús: “De que vocês estão falando?” (Lc 24,17). Não basta o intérprete expor o sentido histórico do texto. Ele deve expô-lo também “em relação do homem contemporâneo” (Paulo VI) [8]. Isto significa levar em conta a realidade que hoje nos envolve e ter uma visão crítica desta realidade, para não ser vítima ingênua da ideologia dominante.

Assim, usando este duplo critério da realidade, descobrimos o chão comum humano que une o povo de Deus de hoje e o povo de Deus da Bíblia numa mesma situação diante de Deus, e cria assim a abertura para se perceber o alcance do texto para a nossa realidade.

  1. Leitura Orante da Bíblia (DV 25)

“A Sagrada Escritura deve ser lida naquele mesmo Espírito em que foi escrita” (DV 12). Pois a descoberta do sentido não depende só da força da inteligência, mas também da ação do Espírito que só se consegue pela oração (cf. Lc 11,13). Por isso, a leitura da Bíblia “deve ser acompanhada pela oração, a fim de que se estabeleça um colóquio entre Deus e o ser humano pois com Ele falamos quando rezamos; ouvimo-lo quando lemos os divinos oráculos” (DV 25). O documento da Pontifícia Comissão Bíblica sobre a Interpretação da Bíblia na Igreja dá uma atenção muito grande à Leitura Orante da mesma [9]

Neste ponto, a leitura do povo das Comunidades Eclesiais de Base nos dá uma lição. Ele envolve a leitura pela oração e pelo canto e cria, assim, um ambiente comunitário de fé, onde o Espírito pode atuar, agir livremente e revelar o sentido que o texto antigo tem para nós hoje.

Isto significa que se deve criar um ambiente de silêncio, de escuta e de partilha e, ao mesmo tempo, ter uma preocupação constante em aprofundar a vida do povo com seus problemas e permitir que as alegrias e tristezas do povo estejam em nossa mente e no nosso coração.

  1. Toda a interpretação a serviço da Evangelização (João Paulo II)

A interpretação da Bíblia não tem finalidade em si mesma, mas está a serviço da vida e da missão da Igreja. A missão principal é a evangelização, o anúncio da Boa Nova de Deus (Mc 1,14). “Na Igreja, todos os métodos de interpretação devem estar, direta ou indiretamente, a serviço da evangelização” (João Paulo II) [10].

Para que isto possa acontecer, são necessárias duas coisas: 1. Durante todo o tempo da leitura da Bíblia ter presente a realidade do povo a ser evangelizado. 2. Para que a comunidade seja realmente evangelizadora, ela deve permitir que a Palavra a transforme em amostra viva do Evangelho que anuncia. Toda a nossa vida deve ser alimentada e permeada pela Palavra de Deus a ponto de “iluminar a mente, fortalecer a vontade e inflamar o coração” (DV 23).

Dez características da Leitura Popular

Existe uma leitura bíblica que começou a se desenvolver entre os pobres do continente latino-americano, nas comunidades eclesiais de base (CEBs) e nos pequenos círculos de estudo. Esta leitura dos pobres, apesar das diferenças próprias em cada país e região, tem causas comuns. Em primeiro lugar, os pobres levam para o interior da Bíblia os problemas de sua vida pessoal e de suas famílias. Fazem uma leitura bíblica que os auxilia na luta pela vida. Esta leitura bíblica é feita em comunidade, num trabalho de interpretação coletiva, um verdadeiro ato de fé na presença de Deus no meio da comunidade. Nesta leitura os pobres acolhem o texto naquilo que ele tem de mais fundamental: o texto é Palavra de Deus para nós hoje. Desta forma, se colocam na escuta do que Deus quer dizer, dispostos a mudar de vida se assim pedir o que está no texto bíblico. Esta prática tão simples e tão humilde das comunidades pobres gerou aquilo que chamamos de Leitura Popular da Bíblia. Ao longo destes últimos anos, recolhendo as experiências de muitos grupos de vivencia aqui no Brasil, podemos destacar 10 pontos a respeito da Leitura Popular da Bíblia.

  1. Três premissas que modelaram o jeito de o povo ler a Bíblia
  2. a) A Bíblia é acolhida pelo povo como Palavra de Deus. Esta fé já existia antes de nós chegarmos até ele com nossos métodos. É nela que penduramos todo o nosso trabalho com a Bíblia. Sem esta fé tanto o método quanto os resultados seriam diferentes. Este é o ponto fundamental que faz com que nossa leitura bíblica aqui no Brasil impede qualquer tentativa de transpor esta metodologia para países da Europa. Lá a Bíblia é um livro oficial e eclesiástico.
  3. b) As primeiras experiências de círculos bíblicos já encontraram uma pastoral construída a partir do método Ver-Julgar-Agir, usado pela Juventude Operária Católica (JOC) e pela Juventude Universitária Católica (JUC). Este método mudou a visão que tínhamos da revelação de Deus. Procura-se, primeiro, ver a situação do povo. Em seguida, com a ajuda do texto bíblico, procura-se julgar ou iluminar a situação, anunciando a presença de Deus ou denunciando a ausência de Deus nas situações humanas do grupo que faz sua interpretação. Assim, a fala ou a revelação de Deus não vem da Bíblia, mas dos fatos iluminados pela leitura bíblica. E são estes que levam o grupo a agir de maneira nova.
  4. c) O povo faz a descoberta de que a Palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na vida. Com a ajuda da Bíblia, descobre onde e como Deus nos fala hoje, através dos fatos. Para muitos, a Bíblia chega a ser o primeiro instrumento para uma análise mais crítica da realidade que vivemos hoje. Esta visão mais ampla da Palavra de Deus contribui para evitar a visão mágica da Bíblia que favorece a leitura fundamentalista.
  5. Fiel à Tradição.

Ao ler a Bíblia, o povo das Comunidades traz consigo a sua própria história e tem nos olhos os problemas que vem da realidade dura da sua vida. A Bíblia aparece como um espelho, sím-bolo (Hb 9,9; 11,19), daquilo que ele mesmo vive hoje. Estabelece-se, assim, uma ligação profunda entre Bíblia e vida que, às vezes, pode dar a impressão aparente de um concordismo superficial. Na realidade, é uma leitura de fé muito semelhante à leitura que faziam as comunidades dos primeiros cristãos (At 1,16-20; 2,29-35; 4,24-31) e os Santos Padres nos primeiros séculos das igrejas.

  1. Emanuel, Deus Conosco.

A partir desta nova ligação entre Bíblia e vida, os pobres fazem a descoberta, a maior de todas: “Se Deus esteve com aquele povo no passado, então Ele está também conosco nesta luta que fazemos para nos libertar. Ele escuta também o nosso clamor!” (cf. Ex 2,24; 3,7). Assim vai nascendo, imperceptivelmente uma nova experiência de Deus e da vida que se torna o critério mais determinante da leitura popular e que menos aparece nas suas explicitações e interpretações. Pois o olhar não se enxerga a si mesmo.

  1. Livro da Vida de cada dia.

Antes de o povo ter esse contato mais vivido com a Palavra de Deus, para muitos, sobretudo na igreja católica, a Bíblia ficava longe. Era o livro dos “padres”, do clero. Mas agora ela chegou perto! O que era misterioso e inacessível, começou a fazer parte da vida quotidiana dos pobres. E junto com a sua Palavra, o próprio Deus chegou perto! “Vocês que antes estavam longe foram trazidos para perto!” (Ef 2,13) Difícil para um de nós avaliarmos a experiência de novidade e de gratuidade que tudo isto representa para os pobres.

  1. Escrita para nós.

Assim, aos poucos, foi surgindo uma nova maneira de se olhar a Bíblia e a sua interpretação. A Bíblia já não é vista como um livro estranho que pertence ao clero, mas como nosso livro, “escrito para nós que tocamos o fim dos tempos” (1Cor 10,11). Às vezes, para alguns, ela chega a ser o primeiro instrumento para uma análise mais crítica da realidade que hoje vivemos. A respeito de uma empresa opressora do povo, o pessoal da comunidade dizia: “É o Golias que temos que enfrentar!”

  1. Revela Deus na vida.

Está em andamento uma descoberta progressiva de que a Palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na vida, e de que o objetivo principal da leitura da Bíblia não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. Descobre-se que Deus fala hoje, através dos fatos. Isto gera um entusiasmo muito grande. Não é tanto por causa das coisas novas que eles descobrem na Bíblia, mas muito mais por causa da confirmação que recebem de que a caminhada que estão fazendo é uma caminhada bíblica e, assim, neles se renova a esperança. A Bíblia ajuda a descobrir que a Palavra de Deus, antes de ser lida na Bíblia, já existia na vida. “Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Gn 28,16)!

  1. Boa Notícia para os pobres.

A Bíblia entra por uma outra porta na vida do povo: não pela porta da imposição autoritária, mas sim pela porta da experiência pessoal e comunitária. Ela se faz presente não como um livro que impõe uma doutrina de cima para baixo, mas como uma Boa Nova que revela a presença libertadora de Deus na vida e na luta do povo. Os que participam dos grupos bíblicos, eles mesmos se encarregam de divulgar esta Boa Notícia e atraem outras pessoas para participar. “Venham ver um homem que me contou toda a minha vida!” (Jo 4,29). Por isso, ninguém sabe quantos grupos bíblicos existem. Só Deus mesmo!

  1. Orienta para o estudo da Bíblia.

Lendo assim a Bíblia, produz-se uma iluminação mútua entre Bíblia e vida. O sentido e o alcance da Bíblia aparecem e se enriquecem à luz do que se vive e sofre na vida, e vice-versa. Para que se produza esta ligação profunda entre Bíblia e vida, é importante: a) Ter nos olhos as perguntas reais que vêm da vida e da realidade sofrida de hoje. Aqui aparece a importância de o estudioso da Bíblia ter convivência e experiência pastoral inserida no meio do povo. b) Descobrir que se pisa o mesmo chão, ontem e hoje. Aqui aparece a importância do uso da ciência e do bom senso tanto na análise crítica da realidade de hoje como no estudo do texto e seu contexto social. c) Ter uma visão global da Bíblia que envolva os próprios leitores e leitoras e que esteja ligada com a situação concreta das suas vidas.

  1. Leitura envolvente.

A interpretação que o povo faz da Bíblia é uma atividade envolvente que compreende não só a contribuição intelectual do exegeta, mas também e sobretudo todo o processo de participação da Comunidade: trabalho e estudo de grupo, leitura pessoal e comunitária, teatro, celebrações, orações, recreios, “enfim, tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer maneira merece louvor” (Fl 4,8). Aqui aparecem a riqueza da criatividade popular e a amplidão das intuições que vão nascendo.

  1. Ambiente comunitário de fé.

Para uma boa interpretação, é muito importante o ambiente de fé e de fraternidade, através de cantos, orações e celebrações. Sem este contexto do Espírito, não se chega a descobrir o sentido que o texto tem para nós hoje. Pois o sentido da Bíblia não é só uma idéia ou uma mensagem que se capta com a razão e se objetiva através de raciocínios; é também um sentir, uma consolação, um conforto que é sentido com o coração, “para que, pela perseverança e pela consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15,4).

 

Dez características da mística da leitura orante

Jesus passava noites em oração meditando a Escritura . Ele podia dizer: “O Senhor me concedeu o dom de falar como seu discípulo, para eu saber levar uma palavra de conforto a quem está desanimado. Cada manhã Ele me desperta, sim, desperta o meu ouvido, para que eu O escute como um discípulo” (Is 50,4). Este é o sentido e o objetivo da Leitura Orante diária.

  1. “Faça-se em mim segundo a tua palavra!”

Ao iniciar a Leitura Orante, você vai ler a Bíblia não para ter experiências extraordinárias, mas sim para escutar o que Deus lhe tem a dizer, para conhecer a sua vontade e viver melhor o Evangelho de Jesus Cristo. Em você devem estar a pobreza e a disposição que o velho Eli recomendou a Samuel: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!” (1Sam 3,10). Deve estar a mesma atitude obediente de Maria: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38).

  1. Pedir o Espírito Santo: “Pedi e recebereis!”

O ponto de partida da Leitura Orante deve ser a humildade. Para poder escutar a Palavra de Deus é necessário que você se prepare, vigiando em oração, pedindo que ele mande o seu Espírito. Pois, sem a ajuda do Espírito de Deus, não é possível descobrir o sentido que a Palavra de Deus tem para nós hoje. (cf. Jo 14,26; 16,13). E o dom do Espírito não se compra em supermercado, mas só se alcança através da oração (Lc 11,13).

  1. Criar um ambiente de recolhimento e de escuta

Ler a Bíblia é como freqüentar um amigo. Os dois exigem o máximo de atenção, respeito, amizade, entrega e escuta atenta. Para isso você deve aprender a cultivar o silêncio dentro de si, durante todo o tempo da Leitura Orante. E lembre-se: uma boa e digna posição do corpo favorece o recolhimento da mente.

  1. Receber a Bíblia como o Livro da Igreja e da Tradição

Abrindo a Bíblia, você deve estar bem consciente de que está abrindo um livro que não é seu, mas da comunidade, da Igreja. Fazendo a Leitura Orante, você está entrando no grande rio da Tradição da Igreja, que atravessa os séculos. Mesmo fazendo sozinho a Leitura Orante da Bíblia, você não está só, mas estará unido aos irmãos e às irmãs das várias comunidades e igrejas que, antes de você, procuraram “meditar dia e noite na lei do Senhor” (Sl 1,3). São muitos! Mesmo aqueles e aquelas que não sabiam ler o texto escrito, mas sabiam ler o texto da vida no rosto dos irmãos e das irmãs.

  1. Ter uma correta atitude diante da Bíblia 

Fazer a Leitura Orante é como subir uma escada de quatro degraus que nos leva até Deus: Leitura, Meditação e Oração, que culminam no quarto degrau que é a Contemplação:

  • 1º Degrau: Leitura. Antes de tudo, você deve ter a preocupação de investigar: “O que o texto diz em si?”  Isso exige silêncio. Dentro de você, tudo deve silenciar, para que nada o impeça de escutar o que o texto tem a dizer, e para que não aconteça que você leve o texto a dizer só aquilo que você gosta de ouvir.

  • 2º Degrau: Meditação. Você também deve ter a preocupação de se perguntar: O que o texto diz para mim, para nós? Neste segundo passo, você entra em diálogo com o texto, para que o sentido se atualize e penetre a sua vida. Como Maria, rumine o que escutou (Lc 2,19.51), e assim descobrirá que “a Palavra de Deus está muito perto de ti: está na tua boca e no teu coração, para que a ponhas em prática” (Dt 30,14).

  • 3º Degrau: Oração. Além disso, você deve estar sempre preocupado em descobrir: “O que o texto me faz dizer a Deus? É a hora da prece, o momento de vigiar em oração. Até agora, Deus falou para você; chegou a hora de você responder a ele.

  • 4º Degrau: Contemplação. Contemplação é saborear, desde já, algo do amor de Deus que supera todas as coisas; é começar a ver o mundo e a vida com os olhos dos pobres, com os olhos de Deus; é assumir a própria pobreza e eliminar do seu modo de pensar tudo aquilo que vem dos poderosos; é tomar consciência de que muita coisa da qual você pensava que fosse fidelidade ao Evangelho, na realidade nada mais era do que fidelidade aos seus próprios interesses e idéias; é mostrar com a vida que o amor de Deus se revela no amor ao próximo; é dizer sempre “faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38).

  1. Colocar-se sob o julgamento da Palavra de Deus

A Leitura Orante é o momento forte do confronto entre a vontade de Deus e as próprias aspirações. Meditar a Palavra de Deus é fazer o que fazia o filho pródigo quando estava longe da casa do Pai: cair em si e confrontar-se com a vida na Casa do Pai, com a Palavra de Deus; resolver mudar de idéia e de vida, por mais doloroso que seja, erguer-se e decidir voltar para o Pai, para os irmãos e as irmãs.

  1. Procurar por todos os meios que a interpretação seja fiel

Para que a Leitura Orante não fique entregue às conclusões dos próprios sentimentos e pensamentos, mas tenha uma firmeza maior, é importante levar em conta três exigências fundamentais:

  • 1ª Exigência: confrontar com a fé da Igreja. Confronte sempre o resultado da sua Leitura com a comunidade a que você pertence, com a fé da Igreja viva. Do contrário, pode acontecer que o seu esforço não leve a lugar nenhum (Gl 2,2). Pois é lá, na pequena comunidade eclesial, alimentada e sustentada pela Palavra de Deus, que nasce a fé da igreja, como da pequena fonte nasce o grande rio que irriga a terra.

  • 2ª Exigência: confrontar com a realidade. Confronte sempre aquilo que você lê na Bíblia com a realidade que vivemos. Quando a Leitura Orante não alcança seu objetivo na nossa vida, a causa nem sempre é falta de oração, falta de atenção à fé da Igreja ou falta de estudo crítico do texto. Muitas vezes, é simplesmente falta de atenção à realidade nua e crua que vivemos. Dizia Cassiano: “Quem vive na superficialidade, não atinge a fonte dos Salmos”.

  • 3ª Exigência: confrontar-se com o resultado da exegese. Confronte sempre as conclusões de sua leitura com os resultados da exegese que investiga o sentido da Letra. A Leitura Orante deve procurar o sentido do Espírito (2Cor 3,6). Porém, querer estabelecer o sentido do Espírito sem fundamentá-lo na Letra é o mesmo que construir um castelo no ar, no dizer de Santo Agostinho. É cair no engano do fundamentalismo.

  1. Imitar o exemplo de São Paulo

O Apóstolo Paulo foi um bom intérprete da Sagrada Escritura. Ele procurava ter nos olhos a fé em Jesus Cristo, pois, assim ele diz, é só pela conversão a Jesus que o véu cai e que a Escritura nos revela o seu sentido (2Cor 3,16) e nos comunica a sabedoria que leva à salvação (2Tm 3,15). Paulo falava de Jesus crucificado (2Cor 2,2), escândalo para uns e loucura para outros, mas para nós expressão da sabedoria de Deus (1Cor 1,23-24). Foi a fé em Jesus que lhe abriu os olhos para perceber a Palavra viva no meio dos pobres da periferia de Corinto, onde a loucura e o escândalo da cruz estavam confundindo os sábios e os poderosos deste mundo (1Cor 1,21-31). Paulo se libertou da prisão da letra que mata e descobriu o sentido que o Espírito de Jesus nos comunica (2Cor 3,6). Ele interpretava a Bíblia a partir dos problemas do povo das comunidades por ele fundadas (1Cor 10,1-13) e dizia que a própria comunidade era uma carta de Cristo (2Cor 3,3). Paulo se considerava destinatário da Bíblia: “Tudo foi escrito para nossa instrução, para nós que vivemos neste final dos tempos” (1Cor 10,11; Rm 15,4).

  1. Descobrir na Bíblia o espelho do que vivemos hoje

Ao fazer a Leitura Orante, tenha bem presente que o texto da Bíblia não é só uma janela por onde você olha para saber o que aconteceu com os outros no passado; é também um espelho, um “símbolo” (Hb 11,19), onde você olha para saber o que está acontecendo com você (1Cor 10, 6-10). A Leitura Orante diária é como a chuva que vai fecundando o terreno (Is 55,10-11). Entrando em diálogo com Deus e meditando a sua Palavra, você cresce como árvore plantada à beira dos córregos (Sl 1,3). Você não vê o crescimento, mas percebe o resultado no encontro renovado consigo, com Deus e com os outros.

  1. Seguir os três passos do método usado por Jesus na estrada de Emaús

O primeiro passo: aproximar-se das pessoas, escutar sua realidade e seus problemas; ser capaz de fazer perguntas que ajudem a olhar a realidade com um olhar mais crítico (Lc 24,13-24). O segundo passo: com a luz da Palavra de Deus iluminar a situação que os fazia sofrer e fugir de Jerusalém para Emaús; usando a Bíblia, fazer arder o coração (Lc 24,25-27). O terceiro passo: criar um ambiente orante de fé e de fraternidade, onde possa atuar o Espírito que abre os olhos, faz descobrir a presença de Jesus e transforma a cruz, sinal de morte, em sinal de vida e de esperança. Assim, aquilo que antes gerava desânimo e cegueira, torna-se agora luz e força na caminhada (Lc 24,28-32). O resultado: criar coragem e voltar para Jerusalém, onde continuam ativas as forças de morte que mataram Jesus, e experimentar a presença viva de Jesus e do seu Espírito na experiência de Ressurreição (Lc 24,33-35). O objetivo último da Leitura Orante não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. Não é conhecer o conteúdo do Livro Sagrado, mas, ajudado pela Palavra escrita, descobrir, assumir e celebrar a Palavra viva que Deus fala hoje na nossa vida, na vida do povo, na realidade do

 

A mensagem do Sínodo de 2008

sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja

Na mensagem final do Sínodo ao Povo de Deus, realizado em 2008, os bispos sintetizaram todo o processo da descoberta, leitura e meditação da Palavra de Deus em quatro símbolos muito sugestivos: a Voz da Palavra, o Rosto da Palavra, a Casa da Palavra e o Caminho da Palavra.

A Voz da Palavra ressoa não só na Bíblia, mas também se faz ouvir na natureza, no universo, na vida, nos fatos, “sem fala e sem palavras, sem que sua voz seja ouvida” (Sl 19,4). “De fato, desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, tais como o seu poder eterno e sua divindade, podem ser contempladas, através da inteligência, nas obras que ele realizou” (Rom 1,20).

O Rosto da Palavra é Jesus de Nazaré, sua vida, seus gestos, suas palavras, seus ensinamentos. Ele é a revelação do Pai. Nele a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Ele podia dizer: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9).

A Casa da Palavra é a Comunidade, a Igreja. É onde o povo se reúne em torno da Palavra de Deus: “Como pedras vivas, vocês vão entrando na construção do templo espiritual, e formando um sacerdócio santo, destinado a oferecer sacrifícios espirituais que Deus aceita por meio de Jesus Cristo” (1Pd 2,5). Jesus dizia: “Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). A Casa da Palavra de Deus somos nós, quando estamos reunidos no Círculo Bíblico.

O Caminho da Palavra é a missão que recebemos como discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida. “Caminho” é a palavra usada no livro dos Atos para identificar os cristãos (At 9,2; 19,9; 22,4; 24,14). Indica o compromisso assumido de levar a Boa Nova pelo mundo afora.

[1]   Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja, Documentos Pontifícios, nº 260, Vozes Petrópolis, 1994

[2]   João Paulo II, Alocução aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica, Sobre os métodos usados na interpretação da Bíblia, 7 de abril de 1989. Tradução do texto oficial francês, publicado no Osservatore Romano de 8 de abril de 1989.

[3]   Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja, Documentos Pontifícios, nº 260, Vozes Petrópolis, 1994, páginas 29 a 65.

[4]   A expressão é de Santo Agostinho. Cf H.de Lubac, Esegesi Medievale, I quattro sensi della Scrittura, Ed Paoline, Roma 1962, pp.220-221.

[5]   Paulo VI, Alocução aos professores da Sagrada Escritura, Sobre a obra da Igreja para a Interpretação da Palavra de Deus, 25 de setembro de 1970, em: Como ler e entender a Bíblia hoje, Textos oficiais da Igreja, Vozes Petrópolis, 1982, p. 12.

[6]    Pio XII, Encíclica Divino Afflante Spiritu, Documentos Pontifícios, Nº 27, Vozes, Petrópolis, 1964, nº 20, p.22.

[7]    Paulo VI, ibid., p.11.

[8]   Paulo VI, Alocução aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica, Sobre a importância dos estudos bíblicos, 14 de março de 1974, em: Como ler e entender a Bíblia Hoje, Textos oificiais da Igreja, Vozes, Petrópolis, 1982, p15.

[9]     o.c., pp.112-113.

[10]   João Paulo II,  Alocução aos membros da Pontifícia Comissão Bíblica, Sobre os métodos usados na interpretação da Bíblia, 7 de abril de 1989. Tradução do texto oficial francês, publicado no Osservatore Romano de 8 de abril de 1989.

 

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