A Atualidade e o Futuro da Teologia da Libertação

28 de julho de 2017

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A reflexão é de Jorge Costadoat Carrasco, jesuíta, professor da Pontifícia Universidade Católica do Chile e diretor do Centro Teológico Manuel Larraín, em artigo publicado no sítio Reflexión y Liberación, 24-06-2013. A tradução é do Cepat.

 

No passado, foi Jorge Mario Bergoglio contrário à Teologia da Libertação? Provavelmente em mais de um ponto. Atualmente, o Papa Francisco é um adversário desta teologia? A impressão é que não.

Consta, isso sim, que os simpatizantes da Teologia da Libertação estão exultantes com ele. É o que se pode verificar na internet. Os setores católicos da libertação se identificaram rapidamente com o novo Papa. O nome de Francisco, a simplicidade, os ataques à economia liberal, a já famosa frase “quanto gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres!”, foram sinais inequívocos de um giro que os setores progressistas católicos interpretam como um roteiro favorável.

Que importância teria se o Papa reconhecesse a importância desta teologia? E para os movimentos, congregações religiosas e comunidades de base que se inspiraram nela, dando-lhe ao mesmo tempo chão para o seu desenvolvimento?

João Paulo II não a condenou, mas criticou-a severamente e manteve seus teólogos na linha. O cardeal Ratzinger, que exerceu este controle como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, uma vez convertido em Bento XVI, foi mais tolerante. No ano passado, nomeou para esse cargo Gerhard Müller, bispo alemão que, em 2005, escreveu, junto com o seu amigo Gustavo Gutiérrez, um livro intitulado Do lado dos pobres. Teologia da Libertação. O próprio Ratzinger – sabia-se – sempre teve uma simpatia por Gutiérrez, o “pai” desta teologia. A nomeação de Müller foi um sinal de distensionamento, certamente poderoso, de uma guinada que pode acabar sendo decisiva.

Não o será, no entanto, se os simpatizantes de Gutiérrez, Boff, Segundo, Sobrino, Gebara, Codina, Galilea, Trigo, Muñoz, Ellacuría e os outros muitos teólogos da libertação pretenderem revitalizar aquela teologia que motivou o compromisso cristão dos anos 1960 e 1970. Hoje, o tema não é a reforma agrária, nem o imperialismo yankee, nem o marxismo, nem a guerrilha do Che ou de Camilo Torres, nem os anos cinzentos da ditadura de Pinochet. Deve-se recordar isso, porque a tendência de reviver esses tempos é uma tentação inútil e, para completar a torpeza, infiel ao método da própria Teologia da Libertação.

A Teologia da Libertação tem uma atualidade extraordinária. Nunca foi condenada. O próprio João Paulo II advertiu que ela, em alguns casos, era mesmo “necessária” (Brasil, 1986). Também não teria sido fácil fazê-lo, pois o próprio Magistério latino-americano formulou a “opção pelos pobres”, núcleo da convicção mística e teológica desta teologia. Sua atualidade reside em seu método. Os bispos do continente se aproximaram da realidade na chave do “ver, julgar e agir”. Eles popularizaram este procedimento metodológico. Levaram a Igreja a reconhecer a ação de Deus na história presente e a somar-se a ela.

Deve-se reconhecer ao Vaticano II a paternidade ulterior deste método. O documento Gaudium et Spes quis compreender os “sinais dos tempos”; “discernir nos acontecimentos, nas exigências e nas aspirações de nossos tempos, em que (o Povo de Deus) participa com os homens, quais sejam os sinais verdadeiros da presença ou dos desígnios de Deus” (GS 11). Ou seja, que em acontecimentos humanos especialmente significativos é possível reconhecer a ação de Deus e refletir sobre ela. Isto exigiu à Igreja não querer “ensinar” ao mundo o que Deus quer sem “aprender” do mundo o que Deus quer.

Dali em diante, a teologia pôde considerar que o contexto histórico não apenas permite interpretar a doutrina tradicional acomodando-a, a adaptando-a, a novas circunstâncias, mas que o próprio contexto tem algo a dizer sobre Deus e sobre sua vontade. Deus que se revelou na história, na história continua se revelando. A Igreja não veio ao mundo com um pacote de doutrinas debaixo do braço. Ela foi amadurecendo ao longo de séculos sua doutrina, a qual não é senão interpretação da Escritura como Palavra de um Deus que continua falando no presente e que, porque o seguirá fazendo no futuro, obriga a considerar as formulações teológicas como provisórias.

Sendo assim, a Igreja deve hoje estar atenta à história, caso quiser ser historicamente relevante. Como fazê-lo? Ela deve arraigar profundamente na humanidade sofredora, sofrer com ela, esperar com ela, indagar suas necessidades de libertação e de dignificação. Deve, em suma, sintonizar com o Espírito de Cristo que clama nos pobres; e, por outro lado, deve recorrer ao serviço das ciências sociais, que lhe permitirão compreender melhor o que está acontecendo com as pessoas e as sociedades.

Sabemos que Francisco Papa é um homem conectado com o sofrimento do mundo. Quer muito a libertação dos diversos oprimidos deste mundo. Será muito importante, além disso, que tome a sério a contribuição das ciências modernas. Sem estas, o discernimento da viabilidade da libertação é hoje culturalmente impossível. Tomemos, a título de exemplo, o caso da homossexualidade. A doutrina da Igreja pôde variar na medida em que o conhecimento desta realidade humana foi evoluindo. A psicologia moderna em certo momento deixou de considerá-la uma doença, para afirmar que é uma variante da sexualidade humana. A Igreja, neste campo, está se servindo da psicologia para melhorar a sua doutrina. Algo semelhante fez com a compreensão do fenômeno do suicídio.

Hoje, a Igreja necessita que o Papa Francisco estimule e se sirva da Teologia da Libertação, entendida como uma abertura reflexiva e crítica ao agir humano contemporâneo, especialmente aquele de quem sofre algum tipo de discriminação e exclusão. Caso não o fizer, a humanidade continuará a ter a dianteira em relação à Igreja em matérias nas quais a Igreja presumia ter razão. O simples desenvolvimento das ciências não elevou a humanidade ao seu patamar mais elevado. Às vezes, afundou-a em involuções atrozes e aterroriza pensar nas experiências em curso. Mas a Igreja só pode tratar legitimamente de contornar os excessos da modernidade ou de canalizá-los, caso reconhecer, para anunciar que Cristo é uma Boa Notícia, a necessidade do uso da razão – a ciência e a técnica – para dar com uma fé em Deus autenticamente humanizadora.

Atualmente, abrem-se novas possibilidades de interesse à Teologia da Libertação. Ela, que se ocupa da libertação, costuma também dar suma importância à criatividade que amplia os horizontes da vida. Os seres humanos combatem a opressão, a injustiça, as novas e velhas escravidões. Mas também criam e recriam mundos insuspeitos, inovam na estética e na moral. Nas inumeráveis experiências da humanidade, Deus mesmo pode estar se revelando como Criador. Deus não se cansa nem se repete. Há anos, a Teologia da Libertação valoriza as diferentes culturas, e inclusive as diferentes religiões, pois acredita, por princípio, que Deus acontece incessantemente no mundo. Sua contribuição mais característica nesta sua abertura a todo o real consistiu em valorizar a criatividade dos pobres. Para esta teologia, os pobres não são somente objeto de caridade. Eles devem ser considerados sujeitos que inventam um mundo novo com recursos escassos, mas com a compreensão vital de um Evangelho que foi anunciado a eles antes que a ninguém. Doravante, a maior contribuição da Teologia da Libertação está em crer na criatividade dos pobres.

Isto explica o fato de que os simpatizantes da Teologia da Libertação aplaudam o Papa Francisco. Veem nele alguém que aposta nos pobres.

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