17 de julho de 2017

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Regina Navarro Lins, em seu livro A Cama na Varanda, traz uma explicação interessante sobre a questão do machismo em nossa história. Usando fontes históricas, explica que, no início, o homem não tinha conhecimento da sua participação no ato de gerar filhos. Para ele, somente a mulher tinha o poder criador. Só ela podia gerar vida. Por isso, a venerava e a tratava como deusa.

Prova disso é a presença de muitas ‘deusas’ na mitologia antiga. Durante séculos não se falava em deus masculino.

Quando o homem descobriu que era a partir da sua relação com a mulher que acontecia a fecundação, houve uma reviravolta. Sentindo-se traído, deixou-se dominar por um desejo insaciável de vingança. Começou a divulgar que ele sim era o criador da vida. A mulher seria apenas um recipiente onde se desenvolvia o feto.

É nesse contexto que surge também a religião judaica, da qual surge o cristianismo. Gênesis revela isso quando narra a criação do homem e da mulher com a primazia de Adão (homem) de quem Deus forma a mulher (Eva). Durante muito tempo prevaleceu a leitura de que, por causa disso, o homem é superior à mulher. É como se Eva estivesse distante do divino e só Adão fosse filho de Deus, sua imagem e semelhança. Assim, a partir de Eva, a mulher deveria ser agradecida ao homem, por ele ter lhe dado a vida. “Será dependente, por ter nascido dele; submissa, por ser inferior”.

Deus assume feições masculinas. É o Pai poderoso. Os patriarcas são os pilares da fé. Moisés é o grande libertador do povo. Mesmo se sabendo que isso só foi possível graças à coragem de muitas mulheres, entre elas, as parteiras que enfrentaram o Faraó, sua mãe, sua irmã, a filha do Faraó, a criada e tantas outras.

O Primeiro Testamento afirma que Eva é a única responsável por todos os males, pois pecou e fez Adão pecar (cf. 1Tm 2,11-14).

Os tempos mudaram. Mas nem tanto. Ainda é muito forte o machismo. A sociedade em geral e a religião ainda são marcadamente masculinas. A ausência feminina na hierarquia e nas instâncias de decisão é muito sentida. E mesmo em questões mais simples. Quando o papa Francisco, por exemplo, lavou os pés de mulheres numa Quinta-feira Santa, muita gente ficou escandalizada.

Na sociedade, há muita discriminação e preconceito. Ainda incomoda a imagem da “mulher-objeto”. Até porque muitas delas, por motivos que não vamos julgar, alimentam essa visão. Outras, por necessidade, por medo, por dependência (seja financeira, emocional, afetiva), pela formação que tiveram, e mesmo por questões religiosas, acabam se sujeitando a humilhações, se calando diante da violência, se anulando e abrindo mão da própria dignidade e da liberdade.

O bom disso tudo é que há muita gente consciente e corajosa. Muita gente lutando pelo respeito que merece, pelo espaço que é seu, pela dignidade que ninguém pode negar.

Hoje as questões de gênero estão em foco de debates.  Momento de debate, de luta, de mobilização. Hora de “mostrar a cara” e abrir o coração. De gritar a todos os cantos que “lugar de mulher é onde ela quiser”. Que “sexo frágil” é quem não sabe amar, dar carinho, cuidar e respeitar. Que o melhor movimento das mulheres não é o dos quadris, como diz Millôr Fernandes, mas o da mobilização e da organização.

Em nossa Igreja, devemos deixar que estes temas venham sempre à baila. Empoderamento feminino. Não por igualdade, porque homem e mulher são muito diferentes. E é bom que seja assim, porque se completam. Mas por igualdade de oportunidades e de tratamento.

E essa luta não é só das mulheres. É de quem acredita que somos todos iguais em dignidade. De quem luta pela vida, pela justiça, pelo direito. De quem acredita que entre pessoas normais, e sobretudo entre cristãs e cristãos, ninguém tem o direito de olhar alguém de cima para baixo; e ninguém deveria ser obrigado a olhar para outro de baixo para cima.

Pe. José Antônio de Oliveira

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