Catequese: O Sacramento da Penitência ou Reconciliação

10 de julho de 2017

 

 

Mesmo após o Batismo, continuamos a experimentar as fragilidades próprias da natureza humana e a concupiscência, – isto é, o desequilíbrio que o Pecado Original deixou em nós, uma certa inclinação ou tendência para o pecado. – A concupiscência vem do pecado e pode levar ao pecado (CIC §405-409 / 418 / 1425-6 / 1484).

Apenas desejar algo errado é fruto da concupiscência. Mas se você consente e pratica o que pensou de ruim, aí cai no pecado. Um mal pensamento que vem a mente não é pecado até que você se entregue a este pensamento, desfrute dele, entretenha-se propositalmente com ele. Se você resiste, não peca: venceu o mal em Cristo! A concupiscência é, então, ocasião para “combater o bom combate e guardar a fé”, como disse o Apóstolo Paulo (2Tm 4,7).

Assim, o cristão, apesar de ser nova criatura, não mais vivendo no pecado, experimenta ainda situações de pecado: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8).

A Igreja pode perdoar os pecados?

O pecado é infidelidade e injúria a Deus: somente Deus pode perdoá-lo. Mas Jesus, que é Deus e tem o poder de perdoar os pecados (Mc 2,7-12) concedeu à sua Igreja este poder, para ser exercido em seu Nome: “O que ligares na Terra será ligado no Céu, e o que desligares na Terra será desligado nos Céus”, está dito clara e categoricamente, mais de uma vez, nos Evangelhos (Mt 16,19; 18,18; Jo 20,22ss). E os Apóstolos confirmaram que receberam esta missão diretamente do Senhor Jesus, como vemos na Escritura: “Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo e nos confiou o Ministério da Reconciliação” (2Cor 5, 18).

Para alguém que realmente crê e observa a Bíblia, não há como negar algo dito e confirmado assim, tão claramente, nas Escrituras. Espantosamente, porém, alguns insistem em procurar subterfúgios, apelando para os maiores “malabarismos mentais” na tentativa de negar esta realidade concreta, esta ordem divina explícita que é fundamental para todo cristão; o Cristo, que pode perdoar os pecados, deu à sua Igreja o poder de perdoar os pecados em seu Nome: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles aos quais os retiverdes (não perdoardes), serão retidos” (Jo 20,22ss).

Confissão, Penitência ou Reconciliação?

O Sacramento que ora estudamos é corretamente chamado tanto “da Penitência”, “da Confissão” ou “da Reconciliação”, mas estes três termos aparentemente diversos estão não só relacionados como também se integram harmoniosamente.

Se eu me converti, fiz a conversão, isto é, mudei o sentido da caminhada da minha vida. Mas se num determinado momento olhei para trás ou voltei atrás, retomando a direção anterior, é preciso retomar a minha conversão. É para isso que serve o Sacramento de que estamos tratando. – É enquanto convertido que eu confesso os meus pecados, os meus erros, os meus desvios do Caminho que escolhi, que é o próprio Cristo, porque escolhi ser fiel, porque fiz um pacto com Deus e comigo mesmo, que é para toda a vida. – Se eu pequei, se rompi este pacto, é preciso reatá-lo, a não ser que eu não o queira mais. Assim, confessar-me é um gesto de profunda humildade, no qual eu me prostro diante de Deus, na pessoa de um sacerdote, e digo: “Errei. Perdoa-me, e eu me esforçarei ao máximo para nunca mais cometer o mesmo erro novamente”.

Confesso os meus pecados também como uma forma de reconhecimento, para dizer que eu assumo aquela culpa, pois sem isso não é possível uma verdadeira conversão, isto é, uma mudança de direção autêntica: o Mea Culpa. O que vem a ser isto? Quer dizer que, depois do exame de consciência, – que é quando eu me coloco diante de Deus para examinar como vivi, se fui realmente fiel e em quais ocasiões eu falhei, e como falhei, – eu preciso assumir os meus erros, para que possa verdadeiramente me comprometer a não repeti-los. Se eu não assumo que errei, se não aceito a responsabilidade por aquelas falhas, como poderei dizer que não errarei novamente? Ora, se não há nada de errado com o que eu fiz, porque não voltaria a fazê-lo?

Confessados os meus pecados, é hora de cumprir a penitência. Normalmente o sacerdote prescreve algumas orações, ma a penitência vai muito além disso. A contínua conversão e reconversão pela penitência é o remédio para o pecado. A penitência, falando do modo mais simples possível, é um conjunto de atitudes e gestos que buscam e revelam a mudança interior, a conversão do coração.

 

“A conversão interior impele à expressão exterior, com gestos e sinais visíveis, gestos e sinais de penitência (…) A penitência interior é a reorientação de toda a vida, um retorno, uma conversão a Deus, de todo o coração, a ruptura com o pecado, a aversão ao mal, juntamente com a reprovação das más ações cometidas.” (CIC §1421; §1430)

 

Vemos então como a Penitência é coisa muito diferente (e infinitamente mais profunda) do que simplesmente deixar de comer chocolate no período da Quaresma, – embora esse gesto possa ser válido, sem dúvida. – A Penitência é como um reflexo da fé, ou uma consequência sua, ou ainda uma forma de expressar e viver esta mesma fé. É expressão do próprio processo de conversão, que não é simples, mas se dá num avanço que precisa ser contínuo e constante.

É por meio, portanto, da Confissão e da Penitência que se dá a Reconciliação com Deus, que precisa ser praticada diariamente, todo o tempo. O ato da confissão dos pecados é parte da penitência, que é necessária para a reconciliação. Daqui por diante, portanto, para facilitar a leitura, usaremos o termo “Sacramento da Reconciliação”, que nos parece, de algum modo, mais abrangente, embora não exclusiva nem necessariamente.

 

O que é preciso para receber a Reconciliação?
Antes de tudo, é preciso a contrição, – isto é, o sincero reconhecimento do pecado cometido e um verdadeiro arrependimento. – A contrição é uma certa dor da alma e uma profunda aversão ao pecado cometido, com a decisão de não pecar mais. Cristo perdoou a mulher adúltera que seria apedrejada, mas advertiu: “Vai e não peques mais!” (Jo 8,11).

Para essa contrição sincera, como já vimos, é necessário o exame de consciência conforme a Igreja orienta. Não devo confessar o que é pecado “para mim”, mas o que realmente é pecado, segundo a Fé de toda a Igreja, da qual sou membro. O verdadeiro cristão precisa manter sempre em mente que “Eu” não sou a medida de todas as coisas, pelo mesmo motivo que a leitura da Sagrada Escritura não é para a interpretação pessoal, do Eu que se coloca como o insofismável intérprete da Vontade divina (cf. 2 Pd1,20).

Assim, no exame de consciência, é bom questionar-se principalmente sobre três áreas: minha relação com Deus, minha relação com os outros e minha relação comigo mesmo. Quanto mais cuidadoso for o exame de consciência e mais sincera e profunda a contrição, mais frutuosa será a Reconciliação. Se não há um exame de consciência cuidadoso, não se chega a um sincero arrependimento. Atenção: nesses casos, o Sacramento pode ser inválido. Sacramento não é “mágica”, é encontro entre o SENHOR, que concede a Graça, e o ser humano, sedento da Misericórdia e da vida que vêm de Deus. Existem alguns bons livrinhos que orientam muito bem sobre a prática do exame de consciência e a confissão. Recomendaria a obra do Padre Rafael Stanziona de Morais, cujo título é: “Por que confessar-se?”.

Efeitos da Confissão
O pecado é a ruptura da Comunhão com Deus, que nos desordena internamente e nos faz romper com a Igreja, e com os irmãos de fé, deste mundo e do Céu. O pecado provoca uma ferida não só em nós mesmos, mas também no Corpo de Cristo, a Igreja. Você é um membro desse Corpo, e um membro ferido prejudica todo o Corpo do Senhor. Com a Confissão e a Penitência, vem a Reconciliação, as feridas são curadas e o membro volta a ficar são: todo o Corpo ganha.
Além de tudo, confessar os pecados também é, psicologicamente falando, um bálsamo. Dom Aloísio Roque Oppermann, scj, Arcebispo de Uberaba (MG), aponta: “Muito tempo antes de Freud, o Sacramento da Penitência já era um alívio para as angústias. A confissão pode provocar uma cura da alma que a ciência não pode. Pela Graça do Divino Espírito Santo, a Penitência pode restituir a vida em Cristo!”1
O Sacramento da Reconciliação ou Confissão na Prática
Por que confessar os pecados ao padre? Porque é ele o ministro deste Sacramento. “Jesus Cristo confiou o Ministério da Reconciliação aos seus Apóstolos, aos seus sucessores, os bispos, e aos presbíteros, seus colaboradores, os quais são instrumentos da Misericórdia e da Justiça de Deus. Eles exercem o poder de perdoar os pecados em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (CIC §1461-1466/1495).
Com que frequência confessar os pecados?

“Todo fiel, tendo atingido a idade da razão, é obrigado a confessar os próprios pecados graves pelo menos uma vez ao ano, e sempre antes de receber a Santa Comunhão” (CIC §1457). Os pecados mortais devem ser  confessados diretamente ao padre, sempre que forem cometidos e com a máxima urgência. Já os pecados veniais são confessados em toda Santa Missa, no momento do Ato Penitencial, para que possamos comungar em estado de graça. Isso não quer dizer que não é preciso confessar também os pecados veniais ao padre.

Note que o Catecismo esclarece que os pecados que devemos confessar são os nossos próprios, e não os pecados de outras pessoas. O momento da confissão não é para desabafar mágoas nem para acusar defeitos de ninguém. É o momento para aliviar e purificar a sua própria alma.

 

“O Filho Pródigo” – Pompeo Batoni (1708-1787)
Não é preciso ter receio de confessar suas faltas ao padre!

“Dada a delicadeza desse ministério e o respeito devido às pessoas, todo confessor é obrigado, sem exceção alguma e sob penas muito severas, a guardar o sigilo sacramental, ou seja, segredo absoluto acerca dos pecados conhecidos na confissão.” (CIC §1467)

Não é preciso ter receio algum, por mais grave ou constrangedor que seja o seu pecado, de confessá-lo, pois absolutamente ninguém ficará sabendo dele, além do sacerdote, na condição exclusiva de ministro da Reconciliação, a Aquele que já conhecia muito bem as suas faltas: Deus. Agora, se você se sente realmente muito envergonhado, talvez seja o caso de procurar um padre de uma paróquia mais distante, que não a sua, alguém que possivelmente você não tornará a ver nesta vida. Mas saiba que o padre não está preocupado em saber quais foram os seus pecados, por curiosidade ou interesse pessoal. Logo após ouvir o que você disse, ele como que “deleta” tudo o que ouviu, – o que, aliás, é sua obrigação: seu único objetivo é ser um canal entre quem confessa e o Perdão de Deus.

A belíssima fórmula de Absolvição Sacramental revela, de modo admirável, o sentido do Sacramento da Reconciliação: “Deus Pai de Misericórdia, que pela Morte e Ressurreição de Seu Filho reconciliou o mundo consigo e infundiu o Espírito Santo para a remissão dos pecados, te conceda, pelo Ministério da Igreja, o perdão e a paz. Eu te absolvo dos teus pecados, em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!”, e todo cristão fiel sabe quanto peso sai de suas costas logo após ouvirmos estas santas palavras!

Fonte: Catequeses da Arquidiocese de Ribeirão Preto

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Fontes e referência bibliográfica:

1. OPPERMANN, Aloísio Roque, scj. Confissão: prática mais do que moderna. Disponível em:
http://comshalom.org/formacao/exibir.php?form_ id=2918
Acesso em: 20 abr. 2012.

• COSTA, Henrique Soares da, Dom. O Sacramento da Penitência. Disponível em:
http://padrehenrique.com/index.php/sacramentos/penitencia
Acesso em: 20 abr. 2012.

• MIRANDA, Mário de França. Sacramento da Penitência. 5ª ed. São Paulo: Loyola, 1996.

• MORAIS, Rafael Stanziona. Por que confessar-se?. São Paulo: Quadrante, 2012, pp. 76-94.

http://ofielcatolico.blogspot

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