Catequese: Teologia da Eucaristia

09 de julho de 2017

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Nesta reflexão teológica sobre a Eucaristia, encontramos três conceitos-chave: memorial, sacrifício e banquete sagrado, como refere de forma sintética a Instrução Eucharisticum Mysterium: “A Missa, ou Ceia do Senhor, é ao mesmo tempo e inseparavelmente: sacrifício, no qual se perpetua o sacrifício da cruz; memorial da morte e da ressurreição do Senhor que disse: «Fazei isto em memória de mim» (Lc 22, 19); banquete sagrado no qual, pela comunhão no Corpo e Sangue do Senhor, o povo de Deus participa nos bens do sacrifício pascal” (n.º 3: EDREL 2496; cf. SC 6 e 47).

A Eucaristia, sacramento da Páscoa de Cristo

“No momento de inserir a sua libertação pascal no contexto de toda a história da salvação que era evocada pela ceia pascal judaica – na qual deixa o pão e o vinho como sacramento antecipado do seu sacrifício e, portanto, do seu mistério pascal de morte e vida – Cristo faz desse gesto e desses sinais o seu memorial, ordenando que seja celebrado como tal: «fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19; 1 Cor 11, 25)” (C. Rocchetta). A celebração pascal judaica foi substituída pela eucaristia cristã, memorial da nova e definitiva Páscoa. O acontecimento que se actualiza e torna presente no memorial é a morte de Cristo na cruz, a entrega do Crucificado-Ressuscitado por todos. Esta é a compreensão neotestamentária da Eucaristia, como emerge dos relatos da instituição.

 

A presença real do Senhor Ressuscitado

No centro da eucaristia está Cristo ressuscitado, que se faz realmente presente. Sem a presença real de Cristo, a Eucaristia seria uma mera reunião religiosa com algumas recordações do passado, drama ou teatro representando acontecimentos de outros tempos sem ligação com o presente, refeição partilhada sem eficácia sacramental. Por essa presença, Jesus “eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz dela «como que a perfeição da vida espiritual e o fim para que tendem todos os sacramentos» (S. Tomás de Aquino)” (Catecismo 1374). O Catecismo, citando Trento, afirma: “No santíssimo sacramento da Eucaristia estão «contidos, verdadeira, real e substancialmente, o Corpo e o Sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo total».

 

Antes de mais, convém sublinhar que é Cristo ressuscitado que se faz presente na Eucaristia. A presença é a do Cristo pascal. Não é uma coisa de que se possa dispor, mas uma pessoa. A Eucaristia é presença do ressuscitado no meio da comunidade, como muito bem exprime o relato dos discípulos de Emaús. Lucas sublinha que a presença do Ressuscitado é diferente da presença pré-pascal (não O reconhecem), e apresentar a nova forma de experimentar essa presença: na proclamação da Palavra e na Eucaristia. Mas esta presença é uma presença-ausência, que tem na ascensão o seu pressuposto. De facto, com a ressurreição começou a nova forma de presença de Cristo. A ascensão, ao situar o corpo de Cristo além das fronteiras de espaço e tempo, torna possível a presença sacramental. A ascensão é o pressuposto da presença eucarística, quer porque o corpo de Cristo ressuscitado-glorificado é um “corpo pneumático” para usar a expressão paulina (1 Cor 15,44), quer porque a ascensão foi a condição para o envio do Espírito, que torna possível essa nova forma de presença.

 

Esta presença eucarística não é porém a única presença real! Não esgota a presença real do Ressuscitado no meio dos seus. Cristo está presente na palavra proclamada na liturgia (SC 33, IGMR 33, OLM 4.46). Está presente na comunidade reunida, bem como naquele que preside. Isto nos diz a SC 7, mas também outros documentos magisteriais, sobretudo a Encíclica de Paulo VI Mysterium Fidei (1965). Esta doutrina em nada diminui a importância da presença eucarística e o seu carácter único. Nestas diversas formas de presença real do Senhor ressuscitado percebe-se a progressiva densidade dessa presença, que culmina precisamente na Eucaristia. “A presença eucarística só pode ser correctamente entendida se for situada no contexto de uma presença mais ampla do Senhor no mundo, que vai adquirindo maior densidade e profundidade através de sucessivos «graus de presença». A presença de Cristo acontece por densificação ou por densidade gradual – e, portanto, de forma dinâmica – e não por mera localização espacial ou estática”[1]. Daí a expressão de Paulo VI: “Esta presença chama-se «real», não por exclusão como se as outras não fossem «reais», mas por antonomásia, porque é substancial, quer dizer, por ela está presente Cristo completo, Deus e homem” (cf. Catecismo 1374).

 

A Eucaristia como sacrifício.

O carácter sacrificial da eucaristia é doutrina definida pelo Concílio de Trento. A questão é a da relação entre a eucaristia e a Cruz de Cristo, o seu sacrifício por nós. Nesta questão, os termos são muito importantes. Depois de Trento e pretendendo interpretar o Concílio, repetiu-se frequentemente que a Eucaristia era a “repetição” ou “reiteração” do sacrifício da cruz, termos que não só não são legítimos, como são errados se aplicados a esta relação. O sacrifício de Cristo é único: aconteceu uma só vez e de uma vez por todos. Convém recordar o que diz o Catecismo a propósito da liturgia, em geral, mas que directa aplicação à Eucaristia: “A liturgia cristã não se limita a recordar os acontecimentos que nos salvaram: actualiza-os, torna-os presentes. O mistério pascal de Cristo celebra-se, não se repete; as celebrações é que se repetem” (n. 1104).

 

A chave de leitura que nos permite compreender a dimensão sacrificial da Eucaristia é a noção de memorial: a Eucaristia é memorial do sacrifício de Cristo. Essa é, alias, a posição do Catecismo (n. 1356-1373): “Porque é o memorial da Páscoa de Cristo, a Eucaristia é também sacrifício” (n. 1365). Na celebração da eucaristia actualiza-se sacramentalmente o único e definitivo sacrifício de Cristo.

 

Também aqui é fundamental a referência à condição do Senhor ressuscitado, pois a Eucaristia é o sacramento da sua Páscoa. Toda a vida de Jesus Cristo foi vivida como uma permanente entrega: viveu para o Pai e o cumprimento da sua vontade; e como a vontade do Pai é a salvação de todos, Jesus viveu para os outros. Jesus foi verdadeiramente um homem-para-os-outros. A sua morte na cruz foi a consequência dessa vida. Não foi um momento isolado, mas o completar o sentido de uma vida. O essencial da cruz de Cristo é a sua entrega por, a sua entrega ao Pai pela humanidade. A cruz foi o coroar a existência de Cristo: uma “pro-existência”, uma existência voltada para o Pai e para os irmãos. A realidade sacrificial caracterizava já a vida de Jesus Cristo antes da Cruz, que é a culminação dessa “pro-existência”. Assim também, essa dimensão sacrificial, essa “existência para” e essa “entrega por” se perpetuam com a ressurreição; são permanente actualidade. A entrega ou doação de Jesus permanece no “hoje” perpétuo do Ressuscitado. Cristo torna-se presente, na Eucaristia, como “Aquele que se entrega por”. Nesta perspectiva se coloca o Papa Bento XVI, na Exortação Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis (cf.  n. 1 e 11).

 

O carácter sacrificial da Eucaristia tem ainda outra dimensão: é sacrifício da comunidade, que faz seu o sacrifício de Cristo e o oferece a Deus Pai, participando na mesma atitude de sacrifício pascal e auto-oferenda. O sacrifício pascal prolonga-se no Corpo eclesial de Cristo. É sacrifício do Cristo Total, Cabeça e membros. A comunhão com Cristo significa também comunhão no sacrifício de Cristo (cf. Catecismo 1368).

 

A Eucaristia, banquete pascal.

A última ceia foi uma refeição, tal como o próprio nome indica. A Eucaristia é também banquete pascal. O gesto cristão fundamental para entrar em comunhão com Deus é, assim, uma refeição partilhada em memória de Jesus e que tem como alimento o próprio Cristo, na sua entrega por nós. É o próprio Jesus Cristo que convida para o banquete: “tomai e comei… tomai e bebei…”. É ainda ele que diz: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6, 53). A celebração eucarística põe-nos em comunhão com o Corpo e Sangue de Jesus ante a iminência da sua morte. Esta comunhão faz-nos participar do poder redentor dessa morte por nós.

 

Porque a Eucaristia é banquete pascal, “convém que os fiéis, devidamente preparados, nela recebam, segundo o mandato do Senhor, o seu Corpo e Sangue como alimento espiritual” (IGMR 80).

 

“Receber a Eucaristia na comunhão traz consigo, como fruto principal, a união mais íntima com Cristo”, diz o Catecismo (n.º 1391). Assim como o alimento fortalece a nossa vida corporal, assim também a comunhão “conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Baptismo. Este crescimento da vida cristã tem de ser alimentado pela Comunhão eucarística, pão da nossa peregrinação até à hora da morte, em que nos será dado como viático” (Catecismo 1392). Porque nos une mais intimamente a Cristo, a Comunhão purifica-nos das nossas faltas veniais e fortalece-nos na luta contra o pecado. A comunhão realiza ainda a unidade no Corpo de Cristo que é a Igreja e tem em si uma exigência de caridade, de maior atenção aos mais desfavorecidos.

 

A Eucaristia, acção trinitária

Até há poucos anos, os estudos teológicos e os documentos da Igreja sobre a Eucaristia deixavam na sombra a sua dimensão trinitária, sobretudo porque a acção do Espírito Santo não era suficientemente posta em destaque. Sendo este um aspecto fundamental de qualquer Sacramento – e de modo especial da Eucaristia – ele permite-nos fazer a síntese dos aspectos teológicos já indicados.

 

A Eucaristia é acção de graças e louvor ao Pai (“eucaristia” e “doxologia”).

Dar graças é reconhecer que se recebeu algo como dom, de modo gratuito e desinteressado. A palavra “eucaristia” significa precisamente acção de graças e de louvor. Na última ceia, os relatos são unânimes em afirmar que Jesus deu graças, pronunciou a bênção sobre o pão e o vinho. No seguimento de Jesus, sempre que se celebra a Eucaristia, a comunidade cristã reunida dá graças a Deus pelos dons do pão e do vinho, transformados no corpo e sangue de Cristo; pela obra da criação; pelas maravilhas realizadas pelo amor de Deus em favor da humanidade; e sobretudo pelo grande acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, a verdadeira e definitiva Páscoa. Historicamente, esta era uma das dimensões mais sublinhadas nos primeiros séculos da Igreja. Com o decorrer dos séculos e a sempre maior concentração no momento da Consagração, foi caindo no esquecimento da reflexão teológica, embora sempre se tenha mantido como dimensão fundamental da celebração. Este aspecto, que atravessa toda a celebração, está particularmente presente e claramente explícito na Oração Eucarística.

 

A Eucaristia é memorial do mistério pascal de Jesus Cristo (“anamnese”).

A última ceia foi anúncio e profecia da Páscoa de Cristo. Jesus diz aos discípulos que o pão e o vinho são o seu corpo e sangue, isto é, a sua vida entregue por nós. Celebrar a Eucaristia é fazer o memorial da entrega de Jesus, memória do seu mistério pascal, do sacrifício de Jesus na Cruz. Pelo memorial eucarístico, a comunidade cristã oferece de novo este único sacrifício de Cristo. “Na Eucaristia, Cristo dá aquele mesmo Corpo que entregou por nós na Cruz, aquele mesmo Sangue que «derramou por uma multidão em remissão dos pecados» (Mt 26, 28)” (Catecismo 1365). “A Eucaristia é, pois um sacrifício”, continua o Catecismo, “porque representa (torna presente) o sacrifício da Cruz, porque é dele o memorial e porque dele aplica os frutos” (Catecismo 1366). Sendo memorial do sacrifício de Cristo, a Eucaristia é também o sacrifício da Igreja: “na Eucaristia, o sacrifício de Cristo torna-se também o sacrifício dos membros do seu Corpo. A vida dos fiéis, o seu louvor, o seu sofrimento, a sua oração, o seu trabalho unem-se aos de Cristo e à sua total oblação, adquirindo assim um novo valor” (Catecismo 1368).

 

A Eucaristia, acção do Espírito Santo (“epiclese”).

O Papa João Paulo II, na Carta Encíclica «A Igreja vive da Eucaristia» (17-4-2003), teve claramente a preocupação de nos apresentar essa dimensão trinitária da Eucaristia, sublinhando a acção do Espírito. Da mesma forma, o Papa Bento XVI, na Exortação Pós-Sinodal «Sacramento da caridade» volta a destacar essa dimensão fundamental (n. 12-13). “É em virtude da acção do Espírito Santo que o próprio Cristo continua presente e activo na sua Igreja, a partir do seu centro vital que é a Eucaristia” («Sacramento da caridade», n. 12). De facto, na grande Oração Eucarística tem particular relevo a dupla “epiclese”, sobre os dons e sobre a assembleia. É por acção do Espírito Santo que Cristo se torna presente, pela transformação dos dons do pão e do vinho no seu corpo e sangue. É também o Espírito Santo que é invocado sobre a assembleia reunida, para que se viva a comunhão/unidade celebrada na Eucaristia. “O Espírito, invocado pelo celebrante sobre os dons do pão e do vinho colocados sobre o altar, é o mesmo que reúne os fiéis «num só corpo», tornando-os uma oferta espiritual agradável ao Pai” («Sacramento da caridade», n. 13). Mas a acção do Espírito não se cinge a estas “epicleses” explícitas. É por sua acção que a Palavra proclamada se torna viva e fonte de vida para a assembleia reunida. É ele que é o vínculo que une os fiéis e forma a assembleia. Pela comunhão eucarística, é também o Espírito que recebemos: “através da comunhão do seu Corpo e Sangue, Cristo comunica-nos também o seu Espírito (…) Pelo dom do seu Corpo e Sangue, Cristo aumenta em nós o dom do seu Espírito, já infundido no Baptismo e recebido como «selo» no sacramento da Confirmação” («A Igreja vive da Eucaristia», n.º 17).

 

A Eucaristia, «Penhor da futura glória»

“Se a Eucaristia é memorial da Páscoa do Senhor, se pela nossa comunhão no altar somos cumulados da «plenitude das bênçãos e graças do céu» (Oração Eucarística I), a Eucaristia é também antecipação da glória celeste” (Catecismo 1402). De facto, a Eucaristia, se é o centro da vida cristã, alarga os nossos horizontes para as realidades que se esperam, como diz a antífona: “Ó sagrado banquete, em que se recebe Cristo e se comemora a sua paixão, em que a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da futura glória” (Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, antífona do Magnificat das Vésperas II).

 

Esta dimensão da Eucaristia está já presente na última ceia de Jesus com os seus discípulos: “Eu vos digo que não voltarei a beber deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo do Reino de meu Pai” (Mt 26, 29; cf. Mc 14, 25; Lc 22, 18). S. Inácio de Antioquia (martirizado em 107) apresentava a Eucaristia como “remédio de imortalidade, antídoto para não morrermos” e que “nos faz viver em Jesus Cristo para sempre” (Carta aos Efésios 20, 2: AL 227; Catecismo 1405). Celebramos a Eucaristia na expectativa da vinda gloriosa do Senhor; a celebração, a nós que “não temos aqui morada permanente”, orienta-nos para a pátria definitiva.

 

O culto eucarístico fora da Missa

O culto eucarístico fora da Missa nasce da celebração Eucarística. Nos primeiros séculos da Igreja, a “reserva eucarística” destinava-se a guardar de maneira digna a Eucaristia, para ser levada aos doentes e aos moribundos. Contudo, no decorrer dos séculos, “pelo aprofundamento da fé na presença real de Cristo na sua Eucaristia, a Igreja tomou consciência do sentido da adoração silenciosa do Senhor, presente sob as espécies eucarísticas” (Catecismo 1379). “A Igreja Católica sempre prestou e continua a prestar este culto de adoração que é devido ao Sacramento da Eucaristia, não somente durante a Missa, mas também fora da sua celebração: conservando com o maior cuidado as hóstias consagradas, apresentando-as aos fiéis para que solenemente as venerem, e levando-as em procissão” (Paulo VI, Carta Encíclica Mysterium Fidei: EDREL 2338).

 

O culto eucarístico desenvolveu-se no período medieval, não sem exageros. Consequência da fé na presença de Cristo na Eucaristia, a devoção eucarística medieval caiu no extremo de dar prevalência a este em relação à celebração da eucaristia; verificou-se também uma progressiva “independência” do culto eucarístico em relação á celebração eucarística. Mas ficaria sujeito a crítica semelhante aquele que, caindo no extremo oposto, negasse a sua importância. Algumas ideias fundamentais:

–         A eucaristia ordena-se primordialmente à celebração, não à adoração. Deve afirmar-se sem lugar para dúvidas a primazia da celebração.

–         O culto eucarístico está intimamente ligado à celebração, da qual é fruto, prolongamento e preparação.

–         O culto eucarístico prolonga o clima eucarístico da celebração; por outro lado, prepara-nos para uma celebração mais profunda.

–         A finalidade última da eucaristia, como o demonstram todas as OE é a comunhão de vida com Cristo, que edifica a comunidade. O culto eucarístico pode também contribuir grandemente para esse fim.

 

M. Gesteira Gars

 

Nota do Editor:

O texto está em Português de Portugal, podendo ter diferenças na grafia de algumas palavras.

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