22 de junho de 2017

 

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No dia 28 de Janeiro de 1979, no Seminário Palafoxiano de Puebla de los Angeles, teve lugar a inauguração da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, presidida pessoalmente pelo Santo Padre João Paulo II. O Vigário de Cristo pronunciou o discurso inaugural que, sem dúvida, assinalou o caminho e o espírito decisivo para essa histórica Conferência. Na apresentação do Documento de Puebla, que foi acolhido muito positivamente pelos participantes, dá-se testemunho de que a presença pessoal do Santo Padre constituiu uma graça, e que a sua palavra “durante a concelebração na Basílica de Guadalupe, na homilia no Seminário de Puebla e sobretudo no discurso inaugural, representou um critério precioso, um estímulo e um percurso para as nossas deliberações” (Apresentação do documento por parte da co-Presidência e do Secretário-Geral).

Este grandioso acontecimento eclesial representou “um passo à frente” para a Igreja que peregrina na América Latina.

Na Mensagem à América Latina, aprovada de forma unânime pelos participantes, assim como já tinha sido aprovado o Documento, lê-se: “As suas palavras iluminadoras traçaram linhas claras e profundas para as nossas reflexões e deliberações, em espírito de comunhão eclesial”.

O próprio Papa, na carta em que manifestava a sua satisfação pelos resultados alcançados pelo Documento de Puebla, datada de 23 de Março de 1979, na comemoração de São Turíbio de Mongrovejo, escrevia: “Este Documento, fruto de uma oração assídua, de uma profunda reflexão e de cuidados apostólicos intensos, oferece – assim propusestes – uma vasta gama de orientações pastorais e doutrinais, acerca de questões da máxima importância. Com os seus critérios válidos, ele deve servir de luz e de estímulo permanente para a evangelização no presente e no futuro da América Latina (…) A Igreja que está na América Latina foi reforçada na sua unidade vigorosa, na sua identidade singular, na vontade de corresponder às necessidades e aos desafios atentamente considerados durante a vossa Assembleia”.

Gostaria de abordar, necessariamente em grandes linhas, alguns pontos de particular interesse sobre a Conferência de Puebla. Nos dias 14-15 do corrente mês de Fevereiro, o CELAM realizará no México uma comemoração especial em que, com a ajuda de Deus, também eu participarei.

Tratarei esta recordação da Conferência de Puebla em dois momentos e apresentações consecutivos: em primeiro lugar, discorrerei sobre a preparação da Conferência e o conteúdo do discurso inaugural do Santo Padre e, em seguida, referir-me-ei ao desenvolvimento da Conferência, de maneira particular ao Documento que os Bispos elaboraram e que o Papa João Paulo II indicou como um instrumento útil para a evangelização da América Latina, ilustrando depois a sua difusão, e ao forte impacto do mesmo sobre a Igreja, não apenas latino-americana.

1) Preparação

Revigorava-se progressivamente a ideia de consultar as Conferências Episcopais sobre a possibilidade de propor ao Santo Padre Paulo VI a convocação de uma nova Conferência Geral do Episcopado da América Latina, a dez anos de distância da II Conferência Geral, realizada em Medellín. Depois de ter procedido às relativas consultas, por ocasião de diversas reuniões, e com o acolhimento positivo da parte do Papa, que nos foi comunicado pelo então Prefeito da Congregação para os Bispos e Presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina, Cardeal Sebastiano Baggio, no CELAM começámos a estudar um tema possível para apresentar à consideração do Santo Padre. Progressivamente o Episcopado, que tinha vivido com tanto entusiasmo o Sínodo sobre a Evangelização, realizado no ano de 1974, com a sua relativa Exortação ApostólicaEvangelii nuntiandi, orientou-se de tal maneira que o tema central a abordar fosse o da evangelização, a fim de que a Igreja assumisse até às últimas consequências esta missão prioritária, essencial para a Igreja.

O acolhimento que a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi recebeu, em tão pouco tempo, foi caloroso. Os aspectos que tinham sido abordados eram realmente de importância fundamental e, sem dúvida, depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, passou a ser o documento de maior impacto pastoral. Imediatamente após o Sínodo, nos primeiros dias de Novembro de 1974, o CELAM tinha realizado a sua Assembleia Geral em Roma. Com efeito, a grande maioria dos participantes nessa Assembleia participaram no Sínodo e o CELAM coordenou a sua participação com várias reuniões. É necessário ressaltar aqui o facto de que o Cardeal Karol Wojtyla, então Arcebispo de Cracóvia, foi o Relator Generalis. Em seguida teve lugar, em tal perspectiva evangelizadora, o Sínodo sobre a Catequese (Catechesi tradendae), o Sínodo sobre a Família (Familiaris consortio) o primeiro do Pontificado de João Paulo II e os vários Sínodos sucessivos.

O Santo Padre começava a fomentar a ideia da visão dinâmica da Nova Evangelização que, na sua primeira manifestação, teve como moldura a Assembleia do CELAM no Haiti, durante o mês de Março de 1983, em que ele transmitiu a sua mensagem original.

A II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, celebrada em Medellín, teve como tema o Concílio, que acabava de chegar ao seu termo (7 de Dezembro de 1965): “A Igreja na presente transformação da América Latina, à luz do Concílio Ecuménico Vaticano II” (24 de Agosto 5 de Setembro de 1968), e foi inaugurada em Bogotá, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional, pessoalmente pelo Papa Paulo VI, então em visita à América Latina. Foi muito iluminador o discurso inaugural, que ele pronunciou na Catedral de Bogotá, e não em Medellín, para evitar deslocamentos.

Os tempos estavam maduros para uma nova Assembleia, cuja preparação foi confiada ao CELAM, com a convocação de Paulo VI no dia 12 de Dezembro de 1977, sobre o tema: “O presente e o futuro da evangelização na América Latina“.

O Santo Padre João Paulo II referiu-se de maneira expressa a esta II Assembleia no seu discurso inaugural, proferido em Puebla: “A Conferência, que se inaugura no dia de hoje, convocada pelo Venerável Paulo VI, confirmada pelo meu inesquecível predecessor João Paulo I e reconfirmada por mim mesmo como um dos primeiros actos do meu Pontificado, une-se àquela, já longínqua, do Rio de Janeiro, que teve como seu fruto mais notável a fundação do CELAM. Mas une-se ainda mais estreitamente à II Conferência de Medellín, e desta comemora o X aniversário. Durante estes dez anos, quanto caminho a humanidade percorreu e, juntamente com a humanidade e ao seu serviço, quanto caminho percorreu também a Igreja! Esta III Conferência não pode deixar de reconhecer tal realidade. Com efeito, deverá tomar como ponto de partida as conclusões de Medellín, com tudo o que elas têm de positivo, mas sem ignorar que às vezes houve interpretações erróneas e que exigem um discernimento sereno, uma crítica oportuna e tomadas de posição claras” (28 de Janeiro de 1979).

Foi muito bonita a homenagem que o Papa João Paulo II dirigiu à Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, por ele definida como um “testamento espiritual” de Paulo VI, “fio condutor de toda a Conferência”, “em que ele depositou toda a sua alma de Pastor, no crepúsculo da sua vida”. Estas palavras levam-me e evocar aquela que seria a última Audiência do Papa Paulo VI à Presidência e ao Secretário-Geral de Puebla. Então, foram entendidas como uma admoestação as suas palavras proferidas em Maio de 1978 quando, ao nosso convite a inaugurar pessoalmente a Conferência, ele respondeu: “Vou ver esta Conferência do Paraíso”. Experimentámos quanto ele tinha dito, ao recebermos em Bogotá, a notícia da sua morte, durante a última reunião da Presidência de Puebla, em 6 de Agosto de 1978, dia em que ele foi chamado para a Casa do Pai.

Tudo estava pronto para inaugurar a Conferência de Puebla, a 12 de Outubro, na Basílica de Guadalupe, e em seguida no Seminário de Puebla de los Angeles.

A Santa Sé aprovou as diversas modalidades do Regulamento da Conferência, o critério de participação para as Conferências Episcopais, os convidados, com e sem direito ao voto, os peritos, os religiosos, as religiosas e os leigos. Estava bem claro que se tratava de uma Conferência dos Bispos, convocada pelo Papa, a quem depois seria submetido o Documento, e de modo algum os Bispos podiam relegar a sua própria responsabilidade. Em síntese, no que se refere aos peritos, foi disposto que se aprovassem somente aqueles que obtivessem o placet das mesmas Conferências. A respeito dos teólogos que não foram convidados, foi apresentado este critério absolutamente lógico.

O Santo Padre nomeou a Presidência de Puebla; os Cardeais Sebastiano Baggio, Prefeito da Congregação para os Bispos; Aloísio Lorscheider, Arcebispo de Fortaleza, Presidente do CELAM; Ernesto Corripio Ahumada, Arcebispo da Cidade do México; e o Secretário-Geral, Alfonso López Trujillo, Arcebispo Coadjutor de Medellín. O CELAM deu início a uma preparação intensa e dinâmica. Em primeiro lugar, foi elaborado o documento de consulta, tendo como base o primeiro turno de sugestões dos Episcopados. Em seguida, depois de ter reunido os pareceres dos vários Episcopados, publicados fielmente, elaborou-se o instrumento de trabalho, de modo muito completo.

2) O caminho de Puebla

Na etapa de preparação, não faltaram surpresas e dificuldades.

Como eu dizia, surpreendentemente, o Papa Paulo VI, que tinha convocado a Conferência e acompanhado muito de perto os diversos aspectos com um interesse estimulador, faleceu dois meses antes da data prevista para a inauguração da Conferência de Puebla. Ele tinha acolhido com grande esperança este acontecimento eclesial e sabia muito bem como era enorme a importância do mesmo. Também os contrastes e as relativas tensões o provaram. Algumas pessoas difundiram a ideia que se pretendia dar um passo atrás, anulando a Conferência de Medellín. Apresentaram esta conjectura, com vigor particular, a certos meios de comunicação. Sem dúvida, temiam uma reflexão aprofundada e um esclarecimento sobre as mencionadas interpretações que então se faziam das conclusões de Medellín, sobretudo da conclusão relativa à paz e a conceitos como a pobreza, à luz dos critérios que impunha a análise marxista sobre a conflitualidade da luta de classe.

Vários países experimentavam a práxis dos movimentos, sobretudo de sacerdotes orientados acriticamente por esta ideologia, que constituiu uma tempestade: não se podem ocultar as rupturas e as lacerações que causavam, o enfraquecimento eclesial, a ausência de uma visão eclesial convergente. Não poucas vocações – sacerdotais e religosas – se tornaram estéreis, e a simpatia pela violência guerrilheira levou alguns a um tipo de compromisso político que interpelava dramaticamente algumas acomodações. Não faltava a generosidade, nem a dor, provocados por evidentes fenómenos de injustiça, mas o nevoeiro espalhava-se no campo teológico e penetrava determinados ambientes como um mito de esperanças messiânicas. Tratava-se do impacto de uma forma reduzida da Teologia da Libertação, sobre a qual a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi já tinha oferecido critérios oportunos, que eram objecto de contestações e de rejeição por parte de muitas pessoas. A êxitos inegáveis, a uma dinâmica pastoral renovada, uniam-se uma posição ambígua, a desconfiança crescente em relação à Doutrina Social da Igreja, apresentada como carente de profundidade e de um “pathos” revolucionário, e catalogada como uma concessão aos poderosos. Disto estavam perfeitamente conscientes os Bispos, e as reuniões prévias com os Episcopados, nas quatro regiões em que foram distribuídos, punham em evidência esta situação eclesial.

À luz de uma verdadeira evangelização devia ser examinado o presente, olhando em perspectiva do futuro. Sentimos a companhia respeitosa do Papa, da Cúria Romana, como uma ajuda experimentada e como uma expressão de diálogo e de comunhão. Foi cunhada a ideia-força de comunhão e participação, que inspirou e iluminou a elaboração dos documentos prévios, de consulta e de trabalho, assim como a realização das conferências.

A coerência de uma fé compartilhada, no fundamento de uma evangelização exigente, era um dever evidente que havia de dar uma resposta decisiva, sobretudo à cristologia e à eclesiologia.

Depois de Paulo VI, o Papa João Paulo I convocou novamente a Conferência de Puebla e começou a preparar o seu discurso inaugural, mas o Senhor chamou-o depressa para junto de si.
A Providência tinha traçado o curso dos acontecimentos: convocando pela terceira vez a Conferência de Puebla, o Santo Padre João Paulo II decidiu inaugurá-la pessoalmente, dando assim início à série interminável das suas viagens apostólicas pelo mundo.

Paulo VI tinha inaugurado a Conferência de Medellín, durante a sua primeira e única viagem à América Latina, por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional, realizado em Bogotá.
Na primeira viagem do seu Pontificado, o Santo Padre João Paulo II esteve presente no meio de nós como uma dádiva da Providência, por ocasião da sua visita pastoral ao México. A sua decisão pessoal, determinada e comprometedora tornou possível aquilo que se considerava de difícil realização. Nessa época não havia relações diplomáticas com o México, onde a Igreja não era reconhecida, e um deslocamento no início do seu Pontificado levou certas pessoas a pensar mesmo que a sua presença em Puebla não era, portanto, aconselhável. Houve uma grande sintonia entre a decisão do Papa e o veemente desejo do CELAM e dos Episcopados.

3) Pontos centrais do discurso inaugural

Já falei do acolhimento muito positivo que o discurso do Papa João Paulo II teve na Assembleia.
A clareza e o vigor profético do seu conteúdo constituíram um caminho e um modelo para as sessões, tudo em coincidência com a distribuição do trabalho por comissões e com uma dinâmica de trabalho bem estudada. Entre os Bispos, falava-se de três pilares, ou do “tripé” que o Santo Padre desenvolveu: a verdade sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem. Isto ressaltava a centralidade de uma escolha de fé radical e comprometedora, numa projecção evangelizadora que devia ser – é necessário repeti-lo – fundamental. Em primeiro lugar, ele frisou de que tipo de Conferência se tratava: de Pastores, não de políticos, mas de pessoas dedicadas ao cuidado pastoral da comunidade. Este critério central teria permitido que o estudo da realidade, com fenómenos preocupantes, se fizesse à luz da fé, com a entrega explícita e inequívoca ao Senhor e à sua Igreja: à Igreja de Jesus Cristo, com toda a força do genitivo. Deste modo, recordava-se a unidade mais íntima entre uma perspectiva cristológica e eclesiológica, com base na concepção do homem, com uma antropologia cristã genuína, que lançava luz sobre as graves ambiguidades e erros em curso. Tratava-se de uma Conferência, cuja responsabilidade competia aos Bispos, como Pastores, oportunamente coadjuvados, mas não suprimidos. A sua missão e acção deviam ser orientadas pelo Evangelho, e não substituídas por uma “práxis” ideológica e política, muito diferente da caridade pastoral; eles eram responsáveis pelo rebanho, pela comunidade como tal.

A perspectiva ia muito além do debate sobre a teologia da libertação, embora esta questão estivesse bem presente. Se desvios preocupadores terminaram numa visão eclesiológica censurável, que em seguida deu espaço a uma cristologia equívoca, era necessária a confissão autêntica do Senhor e do seu pleno senhorio. Era preciso ter bem presente o critério de não alterar a verdade de Jesus Cristo, para entender a Igreja como Povo de Deus, em relação ao Reino de Deus, embora não se identifique completamente com ele, e não como uma Igreja popular.

O “tripé” inspira-se no n. 78 da Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi “O Evangelho que nos foi confiado é inclusivamente palavra de verdade”. “Verdade sobre Deus, verdade sobre o homem e sobre o seu destino misterioso”, completado pela verdade sobre a Igreja.

A verdade sobre Jesus Cristo é o primeiro dever dos Bispos, mestres da fé. Esta constitui a única “práxis” adequada (cf. I). Ela denuncia, sem palavreados, as “releituras do Evangelho (…) Elas causam confusão, afastando-se dos critérios centrais da fé da Igreja”. “Nalguns casos ou se passa em silêncio a divindade de Jesus, ou então incorre-se de facto em formas de interpretação incompatíveis com a fé da Igreja. Cristo seria apenas um profeta“. “Noutros casos, pretende-se apresentar Jesus como um comprometido politicamente, como um lutador contra a dominação romana e contra os poderes e, inclusive, implicado na luta de classes. Esta concepção de Cristo como político, revolucionário, ou como o subversivo de Nazaré, não coincide com a catequese da Igreja” (cf. I, 4).

Quanto à verdade sobre a missão da Igreja, ela denuncia as interpretações em que “adverte-se por vezes um certo mal-estar pelo que respeita à mesma interpretação da natureza e missão da Igreja”, a interpretação secularista sobre o Reino, que derivaria da mudança estrutural sócio-política e da eliminação da Igreja “institucional” ou “oficial”, por parte da Igreja “popular”, que “nasce do povo” e se concretiza nos pobres. Viveremos num terreno dominado pelas ideologias (cf. I, 8).

Por conseguinte, não é algo de escondido, o facto de o Papa se ter interessado por esta forma de interpretação bem conhecida e questionável, assim como em seguida foi feito pela Conferência de Puebla. Podemos dizer que na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi e no discurso inaugural do Papa já se vislumbrava aquilo que, sucessivamente, seria expresso pela Congregação para a Doutrina da Fé, nas Instruções sobre a Teologia da Libertação (Libertatis nuntius e Libertatis conscientiae).

Após uma leitura deformada e parcial, afirmou-se a respeito do ensinamento fecundo e completo do Papa João Paulo II que ele é aberto, na dimensão social, mas na dimensão magisterial e doutrinal seria conservador. Já neste discurso é possível observar claramente que existe uma complementariedade total e necessária, numa unidade verdadeira, em que a fé que orienta para um compromisso genuíno a respeito do homem, da humanidade e dos pobres, tais como eles são contemplados pelo Evangelho, tais como são amados pelo próprio Senhor.

O Papa afirma: “A atitude do cristão que queira servir verdadeiramente os irmãos “mais pequeninos”, os pobres, os necessitados e os marginalizados; numa palavra, servir todos os que reflictam nas suas vidas o rosto dolente do Senhor” (I, 4). Por isso, da perspectiva de Jesus Cristo e da Igreja, ou melhor, da perspectiva da Igreja de Cristo, compreende-se a terceira verdade acerca do homem. É o homem, e não a concepção inadequada da civilização contemporânea, o que feriu os valores humanos, se não mesmo o homem, cujo mistério só encontra a luz verdadeira no mistério do Verbo encarnado (cf. Gaudium et spes, 22). Este texto do Concílio Ecuménico Vaticano II foi citado muitas vezes pelo Papa João Paulo II. Uma verdadeira antropologia cristã não se deixa poluir por outros humanismos (cf. I, 9).

Tudo isto nos deve levar a uma unidade sólida de Pastores, que há-de ser ainda mais estreita e sólida. Uma unidade com os sacerdotes, os religiosos e os fiéis leigos. A enorme contribuição dos religiosos na evangelização exige uma comunhão indissolúvel de metas e de ação com os Bispos, lealmente buscada, uma colaboração dócil e confiante com os Pastores. Por isso, o seu desejo e a sua recomendação determinada exprimem-se com os seguintes termos: “Em tal linha, grava sobre todos, na comunidade eclesial, o dever de evitar magistérios paralelos, eclesialmente inaceitáveis e pastoralmente estéreis” (II, 2).

As verdades acima referidas, que são a amálgama da comunhão, abrem a temática desenvolvida pelo Santo Padre, abordando temas de importância decisiva, sob o título de “defensores e promotores da dignidade”.

Diante da dignidade feridas de muitas maneiras na América Latina, recorda o relatório entre “a evangelização e a promoção humana ou libertação, considerando, num campo tão vasto e importante, na presença específica da Igreja” (III, 1).

Isto explica a célebre máxima, inspirada pela Evangelii nuntiandi, que se torna um critério central: “Ela (a Igreja) não precisa, pois, de recorrer a sistemas ideológicos para amar e defender o homem e colaborar na sua promoção” (III, 2). “Não (é) através da violência, dos jogos de poder e dos sistemas políticos, mas sim mediante a verdade sobre o homem” (III, 3) que se deve buscar o remédio aos sofrimentos.

No que se refere à questão da propriedade, numa interpretação fiel de S. Tomás, na Carta Encíclica Populorum progressio o Papa cria, sobre o fundamento social da propriedade, a formulação nova e expressiva de “hipoteca social”, que pesa sobre ela; através dela, trabalha-se pela sociedade humana, “evitando que os mais fortes recorram ao seu poder, em desvantagem dos mais frágeis”, preocupação esta que esteve profundamente presente em todo o ensinamento do Santo Padre. Refere-se às múltiplas e diversificadas formas de violação humana: “O direito de nascer, o direito à vida, à procriação responsável, ao trabalho, à paz, á liberdade e à justiça social…” (III, 5). Apresenta-se um amplo e preocupante panorama que leva a exigir o respeito pelo homem, ;através do caminho do Evangelho. Trata-se de uma libertação autêntica.

São páginas inteiras que o Papa João Paulo II dedica ao tema da libertação, em plena sintonia com a Evangelii nuntiandi, que seria demasiado longo repetir aqui. Uma libertação com tarefas mais amplas, evangélicas, de índole muito diferente das tarefas que difundiam uma visão limitada: libertação integral, profunda, como a que foi anunciada por Jesus, feita de perdão e de reconciliação; libertação que não se reduz às simples dimensões económico, política ou cultural; que evita o reducionismo e as ambiguidades; que não se alimenta de ideologias; e que é fiel à Palavra de Deus e à tradição da Igreja (cf. III, 6).

Explica-se perfeitamente a influência renovada que esta série de esclarecimentos teve sobre os Bispos.

Em seguida, o discurso refere-se à Doutrina Social da Igreja, cuja “eclipse” se difundia através de caricaturas de delineamento ideológico. A renovada confiança no ensinamento social foi uma recomendação expressa do Pontífice Romano, e da Conferência de Puebla e representou um renascimento repleto de esperança da doutrina social. Já nessa época o CELAM invocava, sem temor, os seus princípios para analisar as graves situações de tantos países, que se manifestavam realmente como um brado em prol do respeito da dignidade humana, do homem, imagem de Deus.

“Confiar disse então o Papa responsavelmente nesta Doutrina Social, ainda que haja alguns que procuram semear dúvidas e desconfiança sobre ela, estudá-la com seriedade, tentar pô-la em prática, ensiná-la e ser-lhe fiel é, num filho da Igreja, garantia da autenticidade do seu empenho nas delicadas e exigentes tarefas sociais e dos seus esforços em favor da libertação ou da promoção dos irmãos” (III, 7). Com efeito, as Conferências Episcopais, servidadas pelo CELAM, organizaram diversos cursos, particularmente intensos em várias regiões, sobre a doutrina social e as ideologias, o que é tão necessário para responder à situação dramática dos países, diante não apenas do colectivismo marxista e da análise marxista, mas também do capitalismo férreo que foi denunciado sem hesitações como um atentado contra a dignidade dos pobres, cada vez mais feridos nos seus direitos.

O Papa concluiu o seu discurso, mencionando algumas tafefas prioritárias, nomeadamente: a família e a juventude, assim como as vocações sacerdotais. A propósito da pastoral familiar ele ressaltou, como prenúncio da Exortação Apostólica Familiaris consortio, que “o futuro depende em grande parte da igreja doméstica”, objecto de muitas ameaças e campanhas anticoncepcionais que destroem a sociedade (IV, a).

Algumas horas antes, o Santo Padre tinha celebrado uma Eucaristia em Puebla, rodeado de uma grande multidão, no Seminário Palafoxiano. Ele manifestou a urgência da pastoral familiar, com a finalidade de revigorar o sentido da família e os sérios desafios que se enfrentam com a integridade familiar: o divórcio, o aborto, o “número alarmante de crianças (…) que nascem em lugares sem qualquer estabilidade”, e o flagelo da pobreza e também da miséria, que constituem condições desumanas.

Depois, exorta os governos a uma política familiar e, a exemplo do Papa Paulo VI na Organização das Nações Unidas, exige que “não diminua o número dos convidados para o banquete da vida”, mas que aumente o alimento à mesa, em contraposição com as famosas e hipotéticas teorias neomaltusianas. Nessa época, há cinco lustros, estávamos longe de reconhecer, como hoje, o mito da superpopulação!

O Papa quer entrar em cada um dos lares para transmitir uma palavra de coragem e de esperança. Trata-se de um bonito desejo, com que ele, dez anos mais tarde, teria começado a sua Carta às Famílias, Gratissimam sane.

A recomendação para a juventude, breve mas incisiva, sintetiza o seu amor, demonstrado durante estes lustros com um coração aberto às esperanças dos jovens: “Quanta esperança a Igreja põe na juventude! Quantas energias circulam na América Latina de que a Igreja precisa!” (IV, c).

Invocando Nossa Senhora de Guadalupe, o Santo Padre convida os Pastores a começar as suas sessões com:

audácia de profetas e prudência de pastores;

clarividência de mestres e segurança de guias e de orientadores;

força de ânimo de testemunhas e servidores, paciência e mansidão de pais.

O Sucessor de Pedro conclui a sua mensagem, com a mesma exortação que Jesus Cristo dirigiu aos seus discípulos: “Ide e ensinai todos os povos” (Mt 28, 29).

Assim, dava-se início aos trabalhos de Puebla, encetando inclusivamente a sementeira dessa visita apostólica ao México.

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