13 de junho de 2017

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Frei Celso Márcio Teixeira

 

Um costume antes muito difundido nas igrejas era o do “pão de Santo Antônio”. Tratava-se de um cofre de esmolas colocado nas igrejas com a inscrição “pão de Santo Antônio”. A coleta daquele cofre destinava-se única e exclusivamente aos pobres. Mais precisamente, com aquela arrecadação comprava-se o pão que semanalmente era distribuído aos pobres. Esse costume pode-se ainda perceber em algumas igrejas em que, todas as terças-feiras, são benzidos os pãezinhos – geralmente após a missa – e distribuídos aos fiéis. Três são os episódios apontados como origem do “pão de Santo Antônio”. O primeiro narra que Santo Antônio, certa vez, comovido com a situação dos pobres, distribuíra entre eles todo o pão do convento. O frade padeiro, na hora da refeição, desesperado por não ter um pão sequer para alimentar os confrades, veio a Antônio para contar-lhe que todo o pão tinha desaparecido. Antônio pediu-lhe que verificasse mais atentamente o cesto onde se colocavam os pães. Pouco depois, voltou o frade padeiro com a notícia de que o cesto estava transbordando de tanto pão. Daquele pão foram saciados os frades e todos os mendigos que vieram pedir-lhes esmolas. Outro episódio conta que um menino caíra e se afogara num tanque cheio de água. A mãe, em prantos, recorreu a Santo Antônio, prometendo que, se o menino recuperasse a vida, ela tomaria uma quantidade de farinha de trigo, equivalente ao peso do menino, e faria pão para distribuir aos pobres. O milagre aconteceu, e a promessa foi cumprida. Por isso, o costume teria tido no início o nome de pondus pueri (peso do menino). Ainda outro episódio liga o “pão de Santo Antônio” a uma senhora de Toulon (França). Não conseguindo abrir a porta de seu estabelecimento, fez uma promessa a Santo Antônio que, se não fosse preciso arrombar a porta, daria certa quantidade de pão aos pobres. Conseguida a graça, cumpriu a promessa. Colocou ainda em seu estabelecimento uma imagem de Santo Antônio e um cofre com a inscrição “pão de Santo Antônio”. Todas as esmolas que os fregueses ali depositavam eram usadas para comprar pão para os pobres. Mesmo que o costume do “pão de Santo Antônio” esteja hoje quase totalmente esquecido, fato é que o nome de Santo Antônio ainda continua de alguma forma ligado aos pobres, pois muitas obras de caridade, de promoção social e de educação trazem o nome do santo. E embora divirjam os episódios que são colocados como origem da tradição do “pão de Santo Antônio”, a pergunta de fundo que se nos apresenta é esta: qual foi o relacionamento de Santo Antônio com os pobres? Por que Santo Antônio mereceu receber do teólogo franciscano João de la Rochelle o título de “doce consolador dos pobres”? Uma coisa é certa: no tempo de Santo Antônio, a pobreza era crescente. A passagem de uma sociedade feudal para uma sociedade burguesa trouxe muita pobreza, especialmente nas cidades. Enquanto a sociedade feudal se caracterizava pela posse, distribuição e uso da terra, tendo, portanto, seu centro de gravitação no campo, a burguesa caracterizava-se pelo comércio, pelo uso do dinheiro, pelo giro do capital, pelo trabalho assalariado, tendo como centro gravitacional as cidades. E a pobreza das cidades era mais aguda do que a pobreza do campo. No campo, onde se colhia o produto da terra, o pobre sempre encontrava meios de matar sua fome e de cobrir sua nudez contra o frio. Nas cidades, o pobre não tinha muitas vezes nem sequer como matar sua fome. A falta de trabalho, a exploração por parte dos que ofereciam trabalho, os baixos salários e os altos preços das mercadorias básicas para o sustento geravam pobreza extrema, fome negra, desnutrição e doenças inevitáveis. E a nova sociedade não estava preparada para socorrer as massas de pobres que ela mesma produzia. Além de leprosários e de hospitais para peregrinos e viajantes, não havia instituições caritativas que atenuassem a indigência dos pobres. Estes dependiam unicamente da caridade (esmola) das pessoas de boa vontade. Não consta que Santo Antônio se tenha dedicado a obras caritativas e de assistência aos pobres. O que certamente acontecia – que também se dava com Francisco e com os demais frades – é que os pobres que a ele recorriam eram acolhidos benignamente e recebiam alguma esmola. Mas Santo Antônio, mais do que pelo fato de receber benignamente o pobre e de dar-lhe esmolas, merece o título de “doce consolador dos pobres” por ter atacado a raiz da pobreza e da miséria. Pelo que nós percebemos em seus sermões, dar-lhe-íamos antes o título de “estrênuo defensor dos pobres”. Em seus sermões, de fato, Antônio não se cansa de atacar o egoísmo dos ricos, a exploração dos operários, a opressão e espoliação dos pobres por parte dos poderosos, as violências contra a vida deles. Menção especial merece o combate que Antônio trava do púlpito contra os usurários, espoliadores inescrupulosos dos pobres, agentes de sua própria riqueza e causadores da pobreza e da desgraça de muitos infelizes, concentradores de riquezas e geradores de miséria. A melhor defesa dos pobres, portanto, foi a crítica que Antônio fez a uma sociedade que privilegiava, com grandes riquezas, a alguns, e privava a inúmeras famílias do mínimo necessário para a própria sobrevivência. E a sua crítica não era dirigida à sociedade em si, mas às pessoas diretamente envolvidas, isto é, aos ricos, aos avarentos, aos poderosos, aos usurários e até ao clero. Para Antônio, a própria situação de riqueza de alguns constituía uma afronta aos pobres. Ao comentar, por exemplo, a parábola do rico e de Lázaro (Lc 16,19-31), assim ele se expressa: “O rico afligia a Lázaro, porque lhe roubava o benefício que lhe devia dar. Diz Isaías àqueles que não dão aos pobres o que lhes pertence: ‘As rapinas feitas ao pobre encontram-se em vossa casa. Por que razão calcais aos pés o meu povo e moeis a pancadas os rostos dos pobres?(. .. )’ A abundância do rico afrontava a miséria do pobre e lançava-lhe ao rosto; o rico exprobrava Lázaro coberto de chagas, quando passava vestido de púrpura diante de Lázaro, que estava em frente de suas portas” (l). Em outro sermão, comentando o texto bíblico “vi entre os despojos uma capa de escarlate muito boa” (Js 7,21), Antônio indica quem são as pessoas que tiram os poucos bens dos pobres: “A capa escarlate significa os haveres dos pobres adquiridos com muito suor e sangue … Os soldados e os burgueses avarentos e os usurários roubam a capa de escarlate … Os ricos e os poderosos deste mundo tiram aos pobres, a quem chamam de vilãos – sendo que eles próprios são os vilãos do diabo – os seus pobres haveres adquiridos com sangue, de que se vestem de qualquer maneira” (2). A terminologia de Antônio tornava-se agressiva, quando se tratava de defender os “pobres de Cristo”, como ele costumava chamá-los. Usava comparações que certamente em nada agradavam aos usurários. Sua linguagem era muito próxima à dos grandes profetas bíblicos, como se pode perceber neste pequeno texto: “O povo amaldiçoado dos usurários tornou-se grande e forte sobre a terra. Seus dentes são como presas de leões. O leão tem duas características: a nuca inflexível formada de um único osso e a boca malcheirosa. Igualmente inflexível é a nuca do usurário, pois ele não teme nem a Deus nem aos homens; sua boca cheira muito mal, pois ele não tem outra coisa na boca, a não ser o imundo dinheiro e sua imunda usura. Seus dentes são como os dos leõezinhos, pois ele devora os bens dos pobres, dos órfãos e das viúvas” (3). Ao defender os pobres, Antônio não recua diante dos prelados e poderosos. Não será o fato de uma pessoa estar constituída em dignidade eclesiástica ou civil que o fará calar no peito o seu clamor profético: “Não é sem grande dor que referimos atitudes de prelados da Igreja e de grandes varões deste século: fazem esperar muito tempo os pobres de Cristo que se demoram a clamar à sua porta e a pedir esmola, com voz embargada pelas lágrimas. Por fim, depois de terem comido bem e talvez, uma vez ou outra, inebriados, mandam dar-lhes alguns restos de sua mesa e as lavaduras da cozinha (4). Antônio era um homem cheio de compaixão pelos pobres. Ele sentia todo o drama da vida dos pobres de seu tempo. E percebia que a dramaticidade da vida do pobre eram as mãos gananciosas dos ricos e poderosos a tirar-lhe a vida. O seguinte texto mostra como é dramática a situação do pobre: “Quem segura uma pessoa pela goela, tira-lhe a voz e a vida. As posses do pobre são a vida dele; como a vida vive do sangue, assim ele deve viver disso. Se tiras ao pobre seus parcos haveres, sugas o sangue dele e o asfixias; e, no fim, serás tu mesmo asfixiado pelo demônio” (5). Como Francisco, Antônio também vê na pessoa do pobre o sacramental do próprio Cristo. E é exatamente esta compreensão do pobre que restitui a este a sua dignidade de pessoa humana, o que, aliás, vale muito mais do que qualquer quantidade de esmolas. A esmola, por sua vez, dada a partir desta concepção, reverterá em beneficio também do doador. Sobre isto, assim se expressa Antônio: “Agora, o Senhor está à porta, na pessoa dos seus pobres, e bate. Abre-se-lhe, quando se dá de comer ao pobre. A refeição do pobre é o descanso de Cristo. O que fizerdes a um dos meus irmãos mais pequeninos é a mim que o fareis … ‘Deita a esmola no seio do pobre e ela (a esmola) pedirá por ti, para que os pecados te sejam perdoados, o teu espírito seja iluminado e a glória eterna te seja concedida” (6). E o martelo da palavra de Antônio bate forte contra aqueles que não vêem nos pobres a pessoa de Cristo: “Esta é a resposta do avarento dada aos pobres de Cristo. Nada lhes dá, blasfema e envergonha-os. Por isso, acontecerá o que segue: ‘E o seu coração morreu interiormente e ele se tornou como uma pedra.’ Tudo isto acontece ao avarento, quando se lhe subtrai a graça e é privado de entranhas de piedade (7). A visão do pobre como sacramental de Cristo, ao mesmo tempo que provoca em Antônio indignação contra os avarentos e usurários, move-o de compaixão para com os defeitos dos pobres. E ele vê na pobreza, e não na riqueza, a medicina capaz de curar os defeitos das pessoas. Assim, ele diz em um de seus sermões: “Se acaso vemos coisas repreensíveis nos pobres, não devemos desprezá-los, porque talvez a medicina da pobreza cure os que a fraqueza do caráter vulnera” (8). O combate de Antônio a partir do púlpito teve efeito muito concreto. Não se sabe qual o conteúdo de suas pregações quaresmais na cidade de Pádua no ano de 1231. Mas ele deve ter batido muito e fortemente na tecla dos usurários. Resultado destas suas pregações foi uma lei, promulgada em Pádua, que dizia respeito à usura e às leis válidas para o empréstimo de dinheiro. As leis vigentes puniam os devedores e fiadores insolventes com a prisão perpétua, independentemente se a pessoa apenas estava impossibilitada de pagar ou se dolosamente se recusava a pagar suas dívidas. Com isto, os usurários, os magnatas do capital, apossavam-se dos bens do devedor e do fiador insolventes. Deste modo, o devedor, além de ser vítima do sistema iníquo da usura, era vítima de uma lei injusta. Aos 15 de março de 1231, o governo de Pádua promulgou uma lei nova nos seguintes termos: “A pedido do venerável irmão Antônio, confessor da Ordem dos Frades Menores, para o futuro, nenhum devedor ou fiador poderá ser privado pessoalmente de sua liberdade, quando ele se tornar insolvente. Somente suas posses poderão ser apreendidas neste caso, não porém sua pessoa e sua liberdade”. Diz o provérbio: percam-se os anéis, salvem-se os dedos. Com esta lei promulgada por sua intercessão, Antônio conseguia pelo menos salvar a dignidade das vítimas da usura.

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