13 de junho de 2017

 

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Chegamos ao fim da primeira quinzena do mês de junho. Festas populares, religiosidade e aquele friozinho gostoso.

Há pessoas que não poderão ter a alegria de celebrar Santo Antônio, São Pedro e São João. Não por serem arreligiosos ou menos devotos. Seus corações encontram-se enlutados. No estado do Pará, famílias choram seus entes queridos assassinados.

Nas décadas de 1980 e 1990, eram comuns as denúncias sobre a guerra no campo. Sobretudo, no Pará. Conflitos por questões de terra, desrespeito aos direitos indígenas, entre outras violações dos Direitos Humanos. A Igreja no Norte do país esteve profundamente comprometida com a dor destas pessoas. A exemplo estão Dom Erwin Krautler, Dorothy Stang (assassinada por defender os pobres no Pará), Frei Florêncio Vaz, entre outros.

A Igreja no Brasil e exterior esteve em comunhão com a luta. Chorou o martírio de Ir. Dorothy, denunciou. Hoje? Parece esquecida. Seria como se houvesse uma paz no campo, onde essa realidade fosse só uma marca triste no passado. Não.

Os cinco primeiros meses de 2017 já registram 37 mortos no campo. É o início de ano mais violento do século, segundo dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra). As dez mortes durante a operação policial em Pau D’Arco, no sudeste paraense, na quarta feira (24 de maio), se configuram a maior chacina registrada desde 1996, quando houve o famoso caso de Eldorado dos Carajás, onde 19 trabalhadores rurais foram assassinados e dois comandantes foram condenados.

O número de mortos superou a violência registrada em 2016, quando 27 pessoas foram assassinadas. “A gente já viveu situações terríveis na ditadura, nos anos 80 também, mas essa época está terrível. Não tínhamos números tão alarmantes desde a chacina de Carajás, cometida há 21 anos, e pela mesma polícia”, afirma Rubens Siqueira, da coordenação nacional da CPT.

O último mês de maio foi marcado como mês de sangue. Não só no Pará. Em Mato Grosso do Sul, em Colniza, 9 trabalhadores rurais foram assassinados.

Devemos ainda acreditar que a Igreja não deve mais ter um discurso sócio-libertador? Deve a Igreja se prender aos assuntos celestes, às devoções simplesmente?

Recentemente autores de textos críticos e engajados foram chamados de hereges em comentários neste blog por defender uma Igreja mais engajada com os problemas da sociedade. Uma Igreja que se sustenta no compromisso com a vida e não em “devoções e amuletos”. Heresia é fechar os olhos aos sofrimentos dessas famílias que tiveram seu entes ceifados em nome do lucro. Teologia satânica é aquela que defende a alienação da realidade​, fabricando cristãos piedosos, porém, cúmplices de políticas de morte. Cúmplices, pois como diziam os antigos: “quem cala, consente”. E consentir é ser cúmplice.

Passou-se maio. Festejamos junho. Nós. Não as famílias dos martirizados. Por isso, devemos nós, juntar nossa voz às muitas vozes caladas pela hipocrisia – baseada na santa doutrina – e clamar por justiça. Imploramos. Exortamos. Exigimos. Ordenamos: parem essa repressão! E “se calarem a voz dos profetas, as pedras clamarão” (cf Lc 19,40).

Fr. Hermes Fernandes

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