12 de junho de 2017.

 

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Por Frei Antônio Moser*

Todos, temos ainda bem presentes dois documentos emanados da Congregação da Doutrina da Fé na década de 1980. O primeiro é de 1984 e tem como título “Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação”. O segundo, de 1986, vem sob o título “Libertatis conscientia”. Ambos tinham como objetivo pontuar alguns aspectos que seriam doutrinariamente problemáticos. Foi mais a partir das interpretações do que dos próprios documentos, que se desencadeou em certos setores da Igreja uma verdadeira guerra contra tudo o que se referisse à libertação.

 

Apesar das pressões, a Teologia da Libertação continuou viva por ao menos mais uma década. Aos poucos ela foi arrefecendo tanto nos escritos, quanto nas falas. Entretanto, estaria bem enganado quem pensasse que ela não tenha deixado marcas profundas ou até que ela tenha morrido. De alguma forma pode-se dizer que ela foi hibernando, seja pelo receio de repressões, seja pela própria dinâmica da história. Para ser mais claro: certo número de teólogos passou a evitar uma referência direta a certas expressões, mas sem abandonar a temática propriamente dita. O problema de fundo não só permaneceu como de alguma forma até se intensificou. Trata-se da fome que afeta cerca de dois bilhões e meio de pessoas no mundo. É verdade que a grande bandeira da luta pela libertação dos pobres passou a outras mãos. Em vários países, inclusive no Brasil, os pobres passaram a ser uma espécie de nova bandeira do poder. Ademais, foram eles que passaram a ser eleitores dos que se proclamavam seus defensores.

 

No tocante à fome é muito significativo o movimento atual de criar um fundo mundial para socorrer os mais pobres que continuam morrendo de fome. Ainda nesses dias, o Papa Francisco aderiu a esse movimento dizendo que no mundo com tanto progresso tecnológico é inconcebível que tantos sofram diariamente de fome.

 

Entretanto, uma comparação com outras correntes de pensamento que levantaram certas problemáticas, talvez ajude a compreender melhor o que se passou com a Teologia da Libertação. Um caso bem elucidativo é o do feminismo. Inicialmente o que estava em causa era a libertação da mulher e sua entrada em todos os setores da vida social e eclesial. Como aos poucos as mulheres foram conquistando espaços sempre maiores, hoje a luta assumiu outros objetivos, mais no sentido da liberação sexual e já não tanto no sentido originário. Algo de parecido aconteceu com a causa dos negros. Inicialmente tratava-se de uma luta por reconhecimento e por um espaço em todas as frentes. Estes espaços, ao menos em parte, já foram conquistados. Basta pensar no fato de que hoje ninguém mais quer ser chamado de racista. Mas, é claro, que os negros e afro descendentes, com razão, percebem que existe ainda muito terreno para ser conquistado.

 

Assim também parece estar ocorrendo com a causa da libertação: as mudanças sócio-políticas foram criando outro panorama e de alguma forma tirando esta bandeira das mãos dos teólogos. E, no entanto, justamente quando se pensava que este enfoque teológico já não tinha mais lugar, eis que surge um novo fenômeno, com grande expressão eclesial e social. Ele se chama Francisco. Não apenas fez gestos significativos em direção aos teólogos proscritos, como, sobretudo, retomou com força o que sempre foi o motor da Teologia da Libertação. Sem ser propriamente teólogo profissional e nem mesmo grande escritor, é um homem que fala mais por gestos do que por palavras. Por isso mesmo é aos seus gestos que devemos dar maior atenção do que ao eventual uso de um vocabulário consagrado no auge da Teologia da Libertação.

 

O fenômeno Francisco já ocorria, sob outro nome e com menos evidência, quando ele era Bispo e Cardeal em Buenos Aires. O Pe. Bergoglio não apenas inquietou os governantes do seu país, como passou a ser conhecido mais por suas andanças por bairros pobres e pela utilização de meios pobres do que por grandes discursos. Mas, é claro, que o Pe. Bergoglio, apenas eleito, já teria, ao menos segundo boatos, feito um primeiro gesto nos bastidores, antes mesmo de se apresentar no balcão da Basílica de São Pedro. Ele teria se recusado a colocar sobre os ombros uma espécie de véu que os antecessores usaram, mas que lhe pareceu ser expressão de poder e riqueza. Ao que se ouve, ele teria dito que o carnaval acabou. E logo ao se apresentar às multidões ele já foi tirando de seus ombros outros apetrechos que pudessem revelar qualquer tipo de ostentação. Aliás, dentro do contexto do Sínodo para as famílias, o que mais se percebe é o desprendimento de muitos hierarcas que no passado chamavam mais atenção pelas vestes do que por sua dedicação à igreja.

 

Tudo começou com o nome anunciado pelo porta-voz: Francisco. Só este nome já provocou uma espécie de arrepio em muitas pessoas. Como no caso do nome de São João Batista, certamente não pouca gente sentiu a estranheza dos parentes. Maior foi ainda a estranheza quando ficou claro que não se tratava de uma homenagem ao grande missionário jesuíta São Francisco Xavier, mas de um verdadeiro gesto profético: era o pré anúncio de um programa de vida para si e para a Igreja. Ele quer uma Igreja pobre e dos pobres.

 

Logo em seguida, um “boa noite” causou novo impacto. Não era esta a saudação tradicional de seus antecessores. E não demorou mais nem um minuto para que Francisco provocasse um verdadeiro choque, sobretudo nos mais tradicionais guardiães do que julgavam ser doutrinário, quando era um título meramente condicionado ao tempo e um outro contexto histórico: “meus irmãos no episcopado me chamaram lá do fim do mundo para ser o “bispo de Roma”. Embora esse tivesse sido o título original dos que depois receberiam uma série de outros adjetivos, esta auto denominação provocou não poucos calafrios ao menos para os mais entendidos. Se ele se auto denomina apenas “bispo de Roma”, significa que renuncia ao título de Sumo Pontífice e a prática de uma concentração de poder nas mãos do Papa e de Roma. Fica subentendido que Francisco (como ele assina todos os seus documentos) quer ser uma mera ponte entre as Igrejas do mundo inteiro e presidi-las na caridade.

 

A Encíclica “Evangelii Gaudium” não apenas já faz o traçado de uma nova eclesiologia, que valoriza as Conferências e todo o Povo de Deus, como também acentua que ele não veio para utilizar o báculo como bordão para recriminar os pecadores. Veio para ser mensageiro da alegria do Evangelho, justamente aos que se sentem mais oprimidos por toda sorte de adversidades.

 

A Encíclica seguinte, precedida de incontáveis gestos e homilias que vão acentuando sempre uma mesma tônica, não deixa dúvidas:  A “Laudato Sí” é um retrato vivo do espírito de Francisco de Assis, aquele homem que se considerava insignificante, mas que se mostrou capaz de abraçar toda a Criação. Não se trata apenas de uma extraordinária abordagem, muito bem fundamentada teológica e cientificamente, dos desafios ecológicos, mas de uma verdadeira mística. Mais concretamente esta mística franciscana procura manifestar que o futuro da humanidade e de todo o universo só poderá ser garantido quando ninguém se julgar mais dono de nada, mas simplesmente irmão de todos e de tudo. Com isto fica evidenciado que a solução do drama ecológico, cada dia mais sentido, só será superado mediante uma verdadeira conversão de todos. Os lobos de Gúbbio deverão se colocar de joelhos para que então deixem de devorar os seres humanos e se transformem em verdadeiros irmãos. A crise ecológica é no fundo uma crise de relações quebradas em todos os níveis e em todas as direções. Sem o resgate da fraternidade em nível universal não há como pensar na superação dos dramas atuais.

 

Mas há outra manifestação clara de que Francisco não apenas absorveu o que há de melhor em termos de Teologia da Libertação, como já deu grandes passos para que as ideias se transformem em fatos. Basta lembrar alguns. O primeiro foi a maneira como em jogada de mestre obrigou todos os hierarcas a deporem suas vestes de pompa. O segundo foi à maneira como conseguiu acabar com dois grandes escândalos: o da administração das finanças do Vaticano e o segundo na maneira de enfrentar a praga da pedofilia. Sem acobertar ninguém, simplesmente deixou claro de que esta é uma página virada de uma face sombria de setores da Igreja. No primeiro caso deixou claro para que servem as finanças; no segundo deixou claro que o perdão dos pecados passa pela confissão de uma triste realidade. É um gesto de despojamento que não é facilmente percebido, mas que é profundamente significativo na linha da pobreza: é preciso despojar-se de todos os artifícios e assumir humildemente suas próprias feridas, por mais repugnantes que sejam.

 

Finalmente o objetivo da Teologia da Libertação, na medida em que denunciava as desigualdades e buscava a justiça, apontava também na direção de uma verdadeira sociedade participativa, contraposta a uma sociedade excludente. Ora, a dinâmica do Sínodo que transcorre neste mês de outubro de 2015, se constitui numa espécie de virada eclesiológica sem precedentes. Desde quando se poderia pensar numa “consulta aberta” sobre questões mais espinhosas e sobre as quais qualquer pessoa poderia manifestar sua posição? Como se poderia esperar que um Sínodo brotasse das bases, que passasse por sucessivas elaborações, e não escondesse divergências? Pois no Instrumento de trabalho que agora está sendo uma vez mais debatido, são bastante frequentes as observações de que “nem todos concordam com esta posição”. Ou seja, o texto revela uma transparência inusitada, onde emergem diferenças de ordem cultural, pastoral e até teológica. Isso se constitui num gesto libertador inesperado: não é proibido discordar, nem é proibido pensar. Os debates não deverão ser formais, mas o próprio texto revela que alguns debates estão sendo calorosos. Com isto se pode dizer que agora o povo de Deus tem novamente voz e vez. Já não nos encontramos na fase da guerra de palavras, mas numa fase em que as pessoas se sentem mais livres e com isso se sentem convidadas a participar de uma missão libertadora.

 

* Frei Antônio Moser foi Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis/ RJ, Pároco da Igreja de Santa Clara, Diretor do Centro Educacional Terra Santa, além de conferencista no Brasil e no exterior.

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