Francisco e o Valor Humano

Quarta feira, 07 de junho de 2017.

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Notícias que nos dão a impressão de retrocessos dos valores conquistados pela modernidade: Trump cassa o direito dos pobres à saúde; Marine Le Pen falsifica documento para acusar o adversário Emmanuel Macron de manter contas em paraíso fiscal; terroristas islâmicos atacam acampamento de refugiados; deputado do PSDB assina projeto de lei em prol da neoescravatura do trabalhador rural; a corrupção no Brasil parece não ter fim; bispos denunciam reformas trabalhista e previdenciária como violação de direitos dos trabalhadores etc.

Talvez a contradição seja inerente à nossa condição humana, o que a Bíblia chama de pecado original. Sempre houve malfeitos. Não havia, porém, meios de comunicação que dessem notícias da aldeia vizinha. Como ainda hoje pouco se divulga o lado positivo da vida.

Na Igreja primitiva também havia fiéis que prestavam culto a Deus embora se mantivessem insensíveis aos direitos dos excluídos: “Queres honrar o corpo de Cristo? Então não deixes que ele seja alvo de desprezo nos seus membros, ou seja, nos pobres, que não têm roupa para se vestir. Não o honres aqui na igreja com retalhos de seda, enquanto lá fora o deixas padecer de frio e nudez.” (Homilia de São João Crisóstomo [344-407], patriarca de Constantinopla).

Não é fácil criar uma cultura que induza todo ser humano a encarar o outro como digno de supremo respeito. Na linguagem evangélica, como “morada de Deus” (Carta a Timóteo 3, 15). Não haveria massacres de sem-terras no Mato Grosso, ataque a índios no Maranhão ou a refugiados em São Paulo, fuzilaria nos morros do Rio.

Onde a causa dessa incivilidade? Na cultura neoliberal que respiramos, na qual os bens valem mais que as pessoas. Merecem valor apenas as pessoas portadoras de bens materiais ou simbólicos (fama, poder, riqueza).

A essa óptica equivocada reagiu o papa Francisco: “Gostaria de vos contar uma história que aparece no midrash bíblico de um rabino do século XII. Relata a construção da Torre de Babel. Para construir a torre era preciso fazer tijolos: amassar a lama, formatar na palha, pôr as peças no forno. Quando o tijolo estivesse pronto, tinha de ser levado para cima. Um tijolo era um tesouro, tendo em vista todo o trabalho necessário para fabricá-lo. Cada vez que caía um, era uma tragédia, e se punia o operário culpado. Um tijolo era muito precioso. Mas se caísse um operário, era diferente, não acontecia nada.

É o que acontece hoje: se os investimentos nos bancos diminuem minimamente, eis uma tragédia! Mas se as pessoas morrem de fome, não têm o que comer, não gozam de boa saúde, não faz mal! Eis a nossa crise de hoje! E o testemunho de uma Igreja pobre para os pobres vai contra essa mentalidade.” (Galleazzi, Giacomo; Tornielli, Andrea. Papa Francisco, esta economia mata. Lisboa, Bertrand Editora, 2016, pp. 24-25).

Ao receber embaixadores junto à Santa Sé, em 16 de maio de 2013, Francisco sublinhou: “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma imagem nova e desapiedada no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem objetivo realmente humano. A crise mundial que atinge as finanças e a economia parece evidenciar as deformidades e, sobretudo, a grave falta de perspectiva antropológica, que reduz o homem a apenas uma das suas exigências: o consumo. E, pior ainda: hoje o próprio ser humano é considerado um bem de consumo descartável.

Inauguramos esta cultura do desperdício. Nesse contexto, a solidariedade, o tesouro dos pobres, é muitas vezes julgada contraproducente, contrária à racionalidade financeira e econômica. Enquanto os rendimentos de uma minoria crescem de maneira exponencial, os da maioria diminuem. Este desequilíbrio deriva de ideologias que promovem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, negando assim o direito de controle aos Estados, aos quais caberia a responsabilidade de zelar pelo bem comum.”

A voz do papa clama no deserto? Há que atacar as causas desses efeitos que tanto nos horrorizam.

Frei Betto

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