Sexta feira, 02 de junho de 2017

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A alegria franciscana abrange todas as fontes de satisfação humana e cristã. Entre as fontes humanas é muito importante a contemplação da beleza que arrebatava São Francisco mesmo durante as torturas de doença, e que ainda lhe permitiam rever as estrelas e as flores, a terra e o fogo, a água e o vento, quando já os seus olhos inflamados não permitiam mais discernir os objetos; aquele gosto pela arte e pela música, em particular que despertava nele o desejo de ouvir tocar a cítara, durante suas noites de dolorosa insônia, e lhe inspirava a necessidade de cantar até na agonia. Em vez de se concentrar sobre suas próprias dores, o que é supremo egoísmo, o franciscano deixa-se imergir na harmonia do universo; essa harmonia proporciona-lhe o esquecimento de si mesmo e um sutil prazer, mesclado de melancolia, a qual se dissipa como uma neblina, quando da admiração pelas criaturas ele consegue se elevar até à gratidão pelo Criador (…). O franciscano, em qualquer parte em que perceba a beleza, numa flor ou num rosto, numa nesga de céu sobre os telhados, ou numa vasta paisagem montanhosa, acolhe-a como um dom de Deus. A beleza é realmente um dom reservado a quem saiba prezá-la. Aqueles que sabem prezá-la não são os estetas, que tentam dominá-la para defini-la, não são os retóricos que pretendem aprisioná-la numa frase ou numa página, mas os que são puros e humildes de coração, os pobres que empregam de boa vontade o tempo em contemplá-la, aqueles que se sentem pequenos no vaso mundo e, por isso, se esquecem mais facilmente e não sofrem demasiado perdendo suas lágrimas na torrente da dor humana, cuja necessidade providencial compreendem.

Agostinho Gemelli, OFM

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