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Nos Caminhos de Francisco

Seguir Jesus a exemplo de Francisco de Assis

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junho 2017

A Palavra de Deus é Luz para nossa Vida

01 de junho de 2017

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Por Maria Aparecida de Cicco

Há um cântico católico que diz que a Bíblia é lâmpada para os nossos pés, luz para o nosso caminho.  Essa expressão “lâmpada para os nossos pés” é simbólica e muito apropriada, mas é preciso entender bem o seu significado.

Em primeiro lugar devemos entender o que é luz e o que é lâmpada:

  • Luz é uma energia radiante
  • Lâmpada é o instrumento que recebe essa energia e a propaga, iluminando o lugar que está escuro.

Assim sendo, podemos ver que lâmpada não é luz, mas contém a luz. Assim também a Bíblia, como a lâmpada, é o instrumento onde a Palavra de Deus, que é a luz que deve iluminar a nossa vida, está contida e de onde pode ser propagada.

A Bíblia é como a lâmpada, recebe a energia transformadora da Palavra viva de Deus e quando ligamos o interruptor da nossa consciência ao ler suas palavras ela transforma as trevas com sua luz, iluminando nossa vida e revelando as sombras provocadas pelo mal.

Pela leitura orante ou pelo estudo da Bíblia, acionamos o interruptor que libera a Palavra Viva de Deus, e ela ilumina a nossa própria vida e a nossa história. Ela ilumina a realidade em que vive nossa família, realidade em que está inserida nossa comunidade, realidade em que vive nosso povo.

Porém, as lâmpadas devem ser adequadas à energia que deverá liberar, à voltagem que irá receber e também à eficiência de consumo e ao local onde será instalada, pois ninguém vai iluminar um salão usando uma lâmpada de poucos watts escondida atrás de uma parede, ou usar uma lâmpada de 110 volts em uma rede de tensão de 220 volts, ou ainda utilizar lâmpadas de baixa eficiência, que gastam muita energia para produzir pouca luz. Somente assim a luz produzida pela lâmpada vai brilhar em todo seu esplendor.

Assim também, para que a Bíblia seja a lâmpada adequada para iluminar a nossa vida, é necessário coloca-la no centro da nossa vida e pedir a força do Espírito Santo para que ela possa liberar toda a energia da Palavra viva; é necessário buscar o significado dos símbolos e das expressões usadas para dar vida à Palavra; e também confrontar a Palavra viva com a realidade vigente. Dessa forma, a Palavra de Deus vai resplandecer em nossa vida.

A Palavra viva de Deus vai muito além do conteúdo que a Bíblia apresenta, pois ela está no sentido global do texto que depende da forma como o conteúdo é apresentado, isto é, do jeito de escrever do autor de cada texto bíblico.

A Bíblia é uma coleção de livros e textos de épocas diferentes, que sofreu a influência de culturas diferentes, que expressam a história de povos diferentes. É na unidade das diferenças que a Palavra de Deus se revela e ecoa. É por traz das palavras humanas, as vezes imperfeitas, que está a Palavra viva e perfeita de Deus.

Setembro é o mês da Bíblia, aproveitemos este tempo para refletir sobre a Palavra e sobre como ela se revela; aproveitemos para aprofundar a intimidade entre nós e ela; aproveitemos para manter um diálogo aberto com o Senhor, de tal modo que a sua Palavra transforme a nossa vida em uma perfeita oração.

O que vem a ser um Círculo Bíblico? (Por Frei Carlos Mesters)

30 de junho de 2017

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frei Carlos Mesters, carmelita

Muita gente pergunta: “O que vem ser um círculo bíblico?” Círculo Bíblico não é uma coisa nova. A prática do Círculo Bíblico vem desde o Concílio Vaticano II dos anos sessenta do século passado. O Concílio insistiu muito para que os cristãos retomassem a Bíblia em mãos e começassem a fazer dela seu livro de cabeceira. Assim, desde aquela época do Concílio, os círculos bíblicos cresceram e aumentaram. Só Deus é quem sabe quantos são os Círculos Bíblicos no Brasil. São milhares e milhares! É bom que a Ordem Terceira acompanhe este movimento de renovação. Na realidade, quase todas as famílias já possuem uma Bíblia em casa. A semente já está no chão. Só falta o sol e a chuva da reza e da reunião.
Círculo bíblico não é uma coisa nova. O primeiro encontro em torno da Palavra de Deus vem do próprio Jesus, quando andava com os dois discípulos na estrada de Emaús. Antes disso, ele mesmo, durante os trinta anos que viveu em Nazaré, todo sábado, participava da reunião da comunidade na sinagoga, onde se faziam três coisas, que até hoje fazemos nos círculos bíblicos:
Primeiro, eles rezavam e cantavam juntos. Segundo, eles liam e meditavam um trecho da Bíblia. Terceiro, eles procuravam ver como podiam ajudar-se mutuamente para colocar em prática a Palavra e, assim, resolver os problemas da vida. Um grande Rabino daquela época, chamado Aquiba, dizia o seguinte sobre estes encontros semanais na sinagoga: “O mundo repousa sobre três colunas: a Lei, o Culto, o amor”. A Lei era a Palavra de Deus. O Culto era a reza, a celebração. O Amor era a ajuda mútua para resolver juntos os problemas da vida. Foi o que Jesus fez durante todos os anos da sua vida. No fim, já depois da ressurreição, ele o fez pela última vez com os discípulos na estrada de Emaús (Lc 24,13-35).
No caminho de Emaús, a primeira coisa que Jesus fez foi aproximar-se dos dois discípulos, caminhar com eles, escutar e sentir de perto o problema deles. Eles ainda não se davam conta que aquela pessoa era Jesus (Lc 24,13-16). Jesus fazia perguntas. Queria saber porque estavam tristes. Mas eles não queriam muita conversa. Jesus insistiu em perguntar (Lc 24,17-18). Eles estavam tristes porque o governo e os anciãos tinham matado Jesus: “Nós esperávamos que ele fosse o libertador, mas já faz três dias que isto aconteceu” (Lc 24,19-21). Estavam desanimados. Nem foram capazes de crer no testemunho das mulheres que já tinham visto Jesus ressuscitado (Lc 24,22-24).
Aí Jesus começou a usar a Bíblia para iluminar aqueles problemas com a luz da Palavra de Deus. Ele disse: “Como você demoram em crer tudo que os profetas falaram! Então, vocês não sabiam que o Messias devia passar por tudo isto para poder entrar na sua gloria?” (Lc 24,25-27). Enquanto assim conversavam, eles iam andando, chegando mais perto de Emaús. Foi uma conversa boa. Os dois gostaram. O coração ardia dentro deles enquanto Jesus explicava a Bíblia (Lc 24,32). Mesmo assim, eles ainda não perceberam que aquela pessoa era Jesus. A Bíblia, ela sozinha, não chegou a abrir os olhos. Então o que é preciso fazer para que a Palavra de Deus possa abrir os olhos e nos faça perceber Jesus presente no meio de nós?
Quando eles chegaram em Emaús, Jesus fez de conta que queria ir mais adiante. Mas os dois disseram: “Fique com a gente. Já é tarde. Passe a noite aqui e amanhã o senhor segue sua viagem” (Lc 24,29). Jesus aceitou o convite e entrou com eles. Sentaram à mesa, rezaram juntos e partilharam o pão. Neste exato momento os olhos se abriram e eles perceberam que era Jesus. E aí, Jesus desapareceu. (Lc 24,28-31). Aquilo que abriu os olhos e os fez perceber a presença de Deus, foi o gesto comunitário de convidar para entrar, sentar juntos à mesa, rezar juntos, partilhar o pão. Foi na partilha do pão que eles reconheceram Jesus (Lc 24,35).
Três coisas aconteceram neste primeiro círculo bíblico. Primeiro: a preocupação de Jesus com a vida dos dois discípulos. Segundo: meditar a Bíblia para clarear o problema dos discípulos com a luz da Palavra de Deus. Terceiro: o encontro comunitário de sentar juntos à mesa, rezar juntos e partilhar o pão. Até hoje, estas três coisas juntas, acontecem nos nossos círculos bíblicos, abrem nossos olhos e nos ajudam a perceber Jesus caminhando conosco. Até hoje, quando nos reunimos nas nossas casas em torno da palavra de Deus, caminhamos com Jesus na estrada de Emaús e o coração da gente começa a arder, os olhos vão se abrindo e, aos poucos, vamos percebendo Jesus presente no meio de nós.
Numa destas reuniões dos círculos bíblicos, alguém perguntou: “Para onde é que foi Jesus depois que desapareceu diante dos dois discípulos?” Um outro respondeu: “Eu sei. Ele foi para dentro deles!” Resposta boa e muito bonita. Na realidade, eles mesmos ressuscitaram, porque naquela hora, de repente, tudo mudou. Eles estavam tristes, e ficaram alegres. Tinham perdido a esperança, e ficaram animados. Estavam com medo, e ficaram cheios de coragem. Tinham separado dos outros, e voltaram a reunir-se com eles em Jerusalém. Tinham perdido a fé em Deus e no testemunho das mulheres, e renasceu em neles a convicção de fé. Pareciam mortos, cadáveres ambulantes, e estavam vivos mais do que nunca. Eles mesmos ressuscitaram! Imediatamente levantaram e voltaram para Jerusalém para contar para os outros o que tinha acontecido com eles e como tinham reconhecido Jesus no partir do pão. A ressurreição que tinha acontecido em Jesus, estava acontecendo com eles e acontece conosco quando nos reunimos em torno da Palavra de Deus.

Temas do Mês da Bíblia de 1971 a 2019

01) 1971 Bíblia, Jesus Cristo está aqui
02) 1972 Deus acredita em você
03) 1973 Deus continua acreditando em você
04) 1974 Bíblia, muito mais nova do que você pensa
05) 1975 Bíblia, palavra nossa de cada dia
06) 1976 Bíblia, Deus caminhando com a gente
07) 1977 Com a Bíblia em nosso lar, nossa vida vai mudar
08) 1978 Como encontrar justiça e paz? O livro de Amós
09) 1979 Bíblia, o livro da criação – Gn 1-11
10) 1980 Buscamos uma nova terra – História de José do Egito
11) 1981 Que todos tenham vida! – Carta aberta de Tiago
12) 1982 Que sabedoria é esta? – As Parábolas
13) 1983 Esperança de um povo que luta – O apocalipse de São João
14) 1984 O caminho pela Palavra – Os atos dos Apóstolos
15) 1985 Rute, uma história da Bíblia – Livro de Rute
16) 1986 Bíblia, livro da Aliança – Êxodo 19-24
17) 1987 Homem de Deus, homem do povo – profeta Elias
18) 1988 Salmos, a oração do povo que luta – O livro dos Salmos
19) 1989 Jesus: palavra e pão – Evangelho de João, cap 6
20) 1990 Mulheres celebrando a libertação
21) 1991 Paulo, trabalhador e evangelizador – Vida e viagens de Paulo
22) 1992 Jeremias, profeta desde jovem – Livro de Jeremias
23) 1993 A força do povo peregrino sem lar, sem terra – 1ª Carta de Pedro
24) 1994 Cântico: uma poesia de amor – Cântico dos Cânticos
25) 1995 Com Jesus na contramão – o Evangelho de Marcos
26) 1996 Jó, o povo sofredor – Livro de Jó
27) 1997 Curso Bíblico Popular – Evangelho de Marcos
28) 1998 Curso Bíblico Popular – Evangelho de Lucas
29) 1999 Curso Bíblico Popular – Evangelho de Mateus
30) 2000 Curso Bíblico Evangelho segundo João: luz para as Comunidades
31) 2001 Curso Bíblico Atos dos Apóstolos, capítulos de 1 a 15
32) 2002 Curso Bíblico Atos dos Apóstolos, capítulos 16 a 28
33) 2003 Curso Bíblico Popular – Cartas de Pedro
34) 2004 Curso Bíblico Popular – Oséias e Mateus
35) 2005 Curso Bíblico Popular – Uma releitura do II e III Isaías
36) 2006 Come teu pão com alegria – Eclesiastes
37) 2007 Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom – Gênesis
38) 2008 A Caridade sustenta a Comunidade – Primeira Carta aos Coríntios
39) 2009 A alegria de servir no amor e na gratuidade – Carta aos Filipenses
40) 2010 Levanta-te e vai à grande cidade – Introdução ao estudo do profeta Jonas
41) 2011 Travessia: passo a passo, o caminho se faz (Ex 15,22-18,27) com o lema “Aproximai-vos do Senhor” (Ex 16,9)
41) 2012 Discípulos missionários a partir do evangelho de Marcos
42) 2013 Discípulos missionários a partir do Evangelho de Lucas – Lema: Alegrai-vos comigo, encontrei o que estava perdido (Lc 15).
43) 2014 Discípulos missionários a partir do Evangelho de Mateus – Lema: Ide, ensinai e fazei discípulos (cf. Mt 28,18-19)
44) 2015 Discípulos e Missionários a partir do Evangelho de João. – Lema: Permanecei no meu amor para dar muitos frutos. (Cf. Jo 15,8-9)
45) 2016 Para que n’Ele nossos povos tenham vida – Livro de Miquéias
46) 2017 Para que n’Ele nossos povos tenham vida – Primeira carta aos Tessalonicenses
47) 2018 Para que n’Ele nossos povos tenham vida – Livro da Sabedoria
48) 2019 Para que n’Ele nossos povos tenham vida – Primeira Carta de João

Louvamos e agradecemos a Deus por estes anos de compreensão, vivência e anúncio da Palavra de Deus. Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo para podermos cada vez mais amá-La (cf. Verbum Domini, 5).

Ideologia de Gênero

29 de junho de 2017

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Por Frei Betto*

“Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”, afirmou Shakespeare. Na versão tupiniquim do Barão de Itararé, “há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira.”

Isso se aplica à sexualidade pós-moderna. Embora sejamos todos, por nascimento, do sexo masculino e feminino (ou hermafrodita), há mais gêneros sexuais do que hetero e homossexualidade.

A homossexualidade é, hoje, considerada, pela maioria dos países do Ocidente e pela Igreja Católica, uma tendência natural do ser humano. Foi banida da lista de doenças mentais da Organização Mundial da Saúde (1993) e, no Brasil, do Conselho Federal de Psicologia. Embora alguns evangélicos insistam em qualificá-la de “demoníaca” e prescrevam a “cura gay”…

Há pouco trabalhei o tema com educadores da Rede Azul, que congrega, em São Paulo, uma dezena de escolas. Há quem enumere mais de cinquenta gêneros sexuais, além de transexuais, bissexuais, HSH etc.

Quando se fala em ideologia de gênero passa-se a impressão de que o conceito deriva de uma cabeça pornográfica, sem refletir a realidade. Certos pais e professores fazem de conta que acreditam na heterossexualidade de seus jovens, deixando-os à deriva em práticas sexuais outrora encobertas pelo moralismo, o tabu e o preconceito.

Família e escola costumam silenciar quando se trata de temas radicais (de raiz) da vida, como sexo, dor, morte, fracasso, ruptura conjugal, falência etc. Não raramente dão educação sexual como meras aulas de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis. O fundamental não é abordado: a constituição do amor como vínculo afetivo e efetivo.

Os nascidos no século XXI se iniciam na vida sexual em idade mais precoce do que as gerações do século XX. Meninas transam com meninas, meninos com meninos, sem que isso expresse necessariamente uma identidade sexual. “Ficar”, “selinho”, rotatividade de parceiros, tendem a banalizar o sexo, praticado como se fosse um esporte prazeroso, sem o peso da culpa ou envolvimento emocional para se impor como projeto de vida  a dois.

Vários fatores contribuem para essa revolução sexual: a indiferença religiosa ou a espiritualidade desprovida da noção de pecado; a erotização da cultura hedonista e consumista do neoliberalismo (vide peças publicitárias e programas como Big Brother e Pânico na TV); o fim da censura (qualquer adolescente pode acessar todo tipo de pornografia na internet); e a velha moral burguesa que privatiza os bons costumes e publiciza a degradação da mulher (o mesmo empresário que proíbe a filha de usar roupas insinuantes, patrocina o programa ou o anúncio no qual a mulher é reduzida a objeto de deleite machista).

O que fazer? Liberar geral, com todos os riscos de aids e gravidez indesejada? Resgatar o moralismo, reaquecer o fogo do inferno e estimular a homofobia e o genocídio de LBGTodos?

Há que ir ao cerne da questão: formar a subjetividade. O jovem que se droga clama: “Não suporto essa realidade. Quero ser amado!” A jovem que transa com diferentes parceiros grita: “Quero ser feliz!” Porém, ninguém ensinou a eles que a felicidade não resulta da soma de prazeres. É um estado de espírito do qual se desfruta mesmo em situações adversas. E requer algo que os jovens buscam intensamente sem encontrar quem lhes ofereça: espiritualidade, como abertura à dupla relação: amorosa (uma pessoa, uma causa, um projeto de vida) e à transcendência. Não confundir com religião. Esta é a institucionalização da espiritualidade, como a família é do amor.

Pretender evitar a promiscuidade sexual dos jovens sem educação da subjetividade (e há excelentes ferramentas, como filmes, romances e poesias) é esperar que alguém seja honesto sem estar impregnado de valores éticos.

*Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff e Mário Sérgio Cortella, de “Felicidade foi-se embora?” (Vozes), entre outros livros.

Prece por uma Igreja Comprometida

28 de junho de 2017

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Quantos Joãos, quantas Marias habitam este chão? Esta Terra Brasilis os tem como números mas não os abraça. São filhos da Terra mas esta terra não lhes têm como filhos. São Pedros e Paulos, operários, lavradores, mas não têm direito. Experimentaram o desemprego. A marginalidade. Vivem a fome. O desalento das ruas. Alguns por casas têm marquises. Por pão de cada dia, a esmola.

São todos Povo de Deus mas não são dos humanos irmãos. Ah, Brasil, terra ingrata que exclui seus filhos!

Enquanto no senado e na câmara federal, mentirosos lutam arduamente para manter um usurpador no poder; nas calçadas, vidas lutam pela sobrevivência face ao frio das madrugadas. Povo da Rua, moradores de rua. Gente da gente.

Ah como dói em nossos corações o calor de nossas camas e cobertas. Dói saber que estamos aquecidos em nossas vidas remediadas, enquanto milhares, quiçá milhões, padecem de frio e fome.

Pensando nestes Joãos e Marias, faço uma prece a Deus pedindo justiça: Pai, faze-nos Igreja comprometida. Igreja dos pobres e pelos pobres. Faze-nos comprometidos com a dor dos moradores de rua. São homens e mulheres, não são anjos. Carecem de comida, de abrigo. A quem irão? Ao poder público? A Terra Mãe os abandonou. Não permita, Senhor, que nossos corações se endureçam. Não permita que nos percamos em nossas teologias. Em nossas rubricas litúrgicas. Vãs são nossas teologias face às dores dos pequeninos. Pai, dá-nos a inquietude dos profetas. A sabedoria do Santo Espírito para construir um mundo em que caiba todos estes Pedros e Paulos, também seus filhos. Ensina-nos a amar os pobres assim como Jesus os amou. Faze-nos pobres, com os pobres.

Hermes Fernandes

Deus e a diversidade de gêneros

Diego escreveu ao papa Francisco antes do Natal de 2014. Indagou qual o seu lugar na “casa de Deus”. Francisco telefonou duas vezes para ele. Convidou-o a Roma, a 24 de janeiro. Diego, em companhia de sua noiva, foi recebido na casa Santa Marta, onde reside o papa. Francisco demonstrou que a Igreja Católica está aberta à diversidade sexual. Ao sair do encontro, Diego disse sentir uma imensa paz.

O papa abraça a ousadia de Jesus, que defendeu a mulher adúltera do ataque dos fariseus; acolheu Madalena, que portava “sete demônios”, como discípula e primeira testemunha de sua ressurreição; e elogiou a veracidade de samaritana, que estava no sexto marido, e fez dela a primeira apóstola.

O amor e, com ele, a compaixão e a misericórdia, deve soterrar preconceitos e discriminações.

“Quem sou eu para julgar os gays?”, expressou Francisco em julho de 2013, ao deixar a Jornada Mundial da Juventude, no Rio. “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”

O papa está à frente da Igreja Católica no duplo sentido – como seu chefe e por sua atitude profeticamente evangélica. Em outubro de 2014, durante o sínodo dos bispos sobre a família, em Roma, cardeais rejeitaram a proposta de maior aceitação, na Igreja, de casais homossexuais. Francisco, que prefere a democracia a se impor como soberano absoluto (aliás, ele é o único do Ocidente), não contrariou os cardeais. Preferiu levantar uma pergunta que encurralou os prelados homofóbicos: casais homossexuais têm filhos. “Vamos deixar essas crianças fora da catequese?”

Na Parada Gay de São Paulo, a 7 de junho, a atriz transexual, Viviany Beledoni, se apresentou seminua pregada à cruz. Muitos cristãos a acusaram de “blasfêmia”. Os mesmos que não consideram pecado ou crime a homofobia, e não mexem um dedo para combater a servidão da mulher como corpo-objeto abusado e explorado por homens de todas as épocas.

No Brasil colonial os pregadores exaltavam Jesus Crucificado para que escravos se submetessem resignadamente à chibata dos senhores. Quando uma transexual utiliza a cruz como símbolo dos sofrimentos de LGBTodos, os fariseus de hoje jogam pedras na Geni… Como se a cultura machista decorresse da vontade de Deus. Isso, sim, é tomar o seu Santo Nome em vão. E querer reduzir a moralidade social à questão sexual, como enfatiza a teóloga Ivone Gebara.

Quando a violência à diversidade de gêneros se reveste de roupagem religiosa, acende o alarme de que se choca o ovo da serpente. O nazismo resultou também da perversa ideologia religiosa que acusa os judeus de “assassinos de Cristo”.

Matar é pecado mortal. Matar em nome de Deus é ainda mais grave. E não se mata apenas pela eliminação física. A morte simbólica usa as armas do preconceito e da discriminação para demonizar também os gays criados à imagem e semelhança de Deus – que não é homem nem mulher – e por ele são amados como filhos e filhas diletos.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso Perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.

Uma Igreja Pobre, para os Pobres

26 de junho de 2017

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“Como eu gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres”, afirmou o Papa Francisco poucos dias depois de sua eleição a centenas de jornalistas de todo o mundo recebidos em audiência no Vaticano. As palavras do Papa Francisco revivem a mensagem radiofônica de João XXIII na qual, cerca de um mês antes da abertura do Concílio Vaticano II, afirmou: “a Igreja se apresenta e quer realmente ser a Igreja de todos, em particular, a Igreja dos pobres”.

 

Durante o Concílio, em resposta à proclamação de João XXIII, um significativo grupo de bispos, entre os quais se encontravam dom Helder Camara, constituiu o movimento “Igreja dos Pobres”. Ao final do Concílio, em 16 de novembro de 1965, este grupo celebrou uma missa na Catacumba de Santa Domitila, em Roma, e firmou o documento que se tornou conhecido como “Pacto das Catacumbas por uma Igreja Serva e Pobre”. Entre outros compromissos, os signatários afirmavam: “Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Nem ouro nem prata.”

Os Bispos Latino-Americanos reunidos em Medellín em 1968 proclamaram um documento de vital importância para a Igreja Católica na América Latina, onde assumiram a chamada “opção pelos pobres”, que depois será reafirmada nas Conferências de Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007). O número XIV do Documento de Medellín intitula-se “Pobreza da Igreja” e nele se faz a recepção dos principais pontos do “Pacto das Catacumbas”.

É em profunda sintonia com as posições de Mendellín que Bergoglio exerce o seu ministério episcopal em Buenos Aires. Vive de forma austera, usa os meios de transporte comuns, vai ao encontro dos pobres, estimula seus padres para que se dirijam à periferia. Eleito Papa, mantém os mesmos compromissos. Exorta a Igreja a ir à periferia do mundo e aos pastores a terem um estilo de vida austero como sinal do compromisso evangélico. Os pobres ocupam uma posição central em seu ministério.

Sua primeira viagem para fora de Roma foi a Lampedusa, o ponto mais meridional da Europa, lugar onde chegam por barco os refugiados que, fugindo da opressão e da pobreza, buscam abrigo e uma vida mais digna. Existem hoje na Europa fortes sentimentos contra os migrantes e refugiados. Em meio à fuga para a Europa, muitos morrem no mar sem chegar a Lampedusa. Em sua profética homilia, o Papa Francisco afirmou: “Quem de nós chorou por este fato e por fatos como este? Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs? Quem chorou por estas pessoas que vinham no barco?… Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de ‘padecer com’: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar! … peçamos ao Senhor a graça de chorar pela nossa indiferença, de chorar pela crueldade que há no mundo, em nós, incluindo aqueles que, no anonimato, tomam decisões socioeconômicas que abrem a estrada aos dramas como este. ‘Quem chorou?’ Quem chorou hoje no mundo?”

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Uma Igreja pobre, para os pobres. Papa Francisco nos convoca a viver o Evangelho na solidariedade concreta com o pobre, indo ao seu encontro, sabendo que neles se encontra o próprio Cristo. Como o Samaritano da parábola de Jesus, que nós sejamos capazes de sentir compaixão pelos excluídos, empobrecidos e explorados, vencendo a globalização da indiferença, construindo novas estruturas econômico sociais que não tenham apenas o lucro como objetivo, mas sim o bem viver e o bem-estar de todos, hoje e no futuro.

PAULO FERNANDO CARNEIRO DE ANDRADE

Bíblia: Palavra de Deus, encarnada na Vida do Povo!

25 de junho de 2017

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Quem lê e estuda a Palavra de Deus, e não olha realidade do povo oprimido de ontem e de hoje,

e nem luta pela justiça e fraternidade, é infiel à Palavra Deus.

 É semelhante aos Fariseus guardiões da Lei de Moisés,

que conhecia a Palavra de Javé e as não colocavam em pratica

Frei Carlos Mesters. Bíblia, Livro Feito em Mutirão, p.29. 

 

Por Valdeci de Oliveira Biro

Sabemos que a Bíblia “Palavra de Deus”, não foi uma única pessoa que a escreveu. Teve a participação de muitas pessoas que deram a sua contribuição: homens e mulheres; jovens e velhos; pais e mães de família; agricultores (as), pescadores (as) e operários (as) de várias profissões; gente instruída que sabia ler e escrever e gente simples que só sabia contar histórias: gente vivida pelas estradas no mundo e gente que nunca saiu de casa; sacerdotes/sacerdotisas e profetas/profetisas, reis/rainhas e pastores (as), apóstolos (as) e evangelistas…

Eram pessoas de diversas camadas da sociedade, mas todos de corações convertidos e unidos na mesma preocupação de construir um povo irmão, onde reinassem a fé e a justiça, o amor e a fraternidade, a verdade e a fidelidade, e onde não houvesse opressor nem oprimido.

Todos souberam dar a sua colaboração com sabedoria, cada um do seu jeito. Todos foram sábios (as) e discípulos (as) uns dos outros. Mas, perceberam, que nem sempre foi fácil. Algumas às vezes, popularmente falando, uns puxavam a sardinha um pouquinho para o seu lado.

A Bíblia não foi escrita de uma só vez. Levou tempo, mais de mil anos. Segundo os estudiosos do assunto, começou em torno do ano 1250 antes de Cristo, e o ponto final só foi colocado cem anos depois do nascimento de Jesus.  É muito difícil saber quando foi que começaram a escrever a Bíblia. Antes de ser escrita, a Bíblia foi narrada e contada nas rodas de conversa e nas celebrações do povo. E antes de ser narrada e contada, ela foi vivida por muitas gerações num esforço teimoso de colocar Deus na vida e de organizar a vida de acordo com a justiça.

O povo de Deus não fazia muita distinção entre contar e escrever. O importante era expressar e transmitir aos outros a nova consciência do povo de ser um “Povo de Deus” nascida neles (as) a partir do contato com Deus libertador. Faziam o que chamamos de memória da tradição oral, lembrando aos filhos (as) a história do passado e contando-lhes os fatos mais importantes da sua caminhada de Deus na vida do seu “Povo de Fé”, ou seja, a Bíblia nasceu da memória do povo. Nasceu da preocupação de não esquecer o passado.

Qual é a mensagem central da Bíblia? Esta no nome de Deus. No Primeiro Testamento, temos um nome, Javé, o Emanuel, o Deus conosco: presente no meio do seu povo para liberta-los (Ex 3,14). A maior prova concreta da vontade de Deus em libertar seu povo, foi a ressurreição de Jesus, o Emanuel (Mt 1,23), pela ressurreição de Jesus, que Deus venceu a morte e abriu as porta para a vida eterna. O nome de Javé é o centro de toda existência cristã. Pertencer a Javé significa: onde o amor ao próximo é igual ao amor de Deus; onde o povo vive e celebra sua fé; e louva seu Deus por suas maravilhas. Esta é a mensagem da Bíblia, é o apelo que Nome de Deus faz a todos aqueles que querem pertencer a seu povo.

A Bíblia é Palavra de Deus para nós. Sua interpretação e leitura devem ser feita com convicção de fé em Deus que nos fala por meio de sua Palavra (dabar em hebraico e lógos em grego). E pela leitura e estudo da Bíblia, possamos descobrir esta palavra como fonte de água viva inesgotável, que sacia sede humana na busca da sua existência em Deus. O estudo da Bíblia também depende coração (cordis: sabedoria que vem de Deus, mas plantada no coração dos pobres) e da ação do Espírito. A Pessoa de Jesus deve ter oportunidade falar, quando lemos Sagrada Escritura. A leitura da Bíblia deve ter seus momentos de silêncio e oração, de canto e celebração, de troca de vivência e experiência de fé.

Colaborou: Diocese de Barra do Piraí e Volta Redonda

O compromisso com o pobre não pode evitar a denúncia das causas da pobreza

24 de junho de 2017

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Por José Manuel Vidal

Pela manhã, interveio o teólogo peruano, e havia enorme expectativa em relação à sua fala. Por seu passado e por seu presente. Porque segue tendo ideias geniais, expostas de uma maneira direta e simples. E com muito senso de humor, que o leva a rir inclusive de si mesmo. “Gostaria de falar de pé, mas já sei que não há muita diferença entre que fique de pé ou sentado”, começou dizendo, em alusão à sua baixa estatura física.

Sua fala, intitulada “A interpretação do pobre em um mundo globalizado a 50 anos do Concílio”, começou abordando o tema da pobreza, que surge nos anos 60, com a irrupção do pobre na Teologia e o interesse da reflexão teológica por abordar não apenas a pobreza, mas também as suas causas.

Na sua opinião, com Pio X e Pio XII, “os pobres tinham que ser humildes para receber ajuda; e os ricos, generosos para ajudar os pobres”. Somente com João XXIII começou-se a falar “das causas da pobreza”.

Gutiérrez sentou, assim, as bases do seu pensamento: “A pobreza nunca é boa, nunca, porque sempre é morte precoce e injusta” e “o compromisso com o pobre não pode evitar a denúncia das causas da pobreza”. Porque o “pobre é uma ‘não pessoa’, um não considerado pessoa, um insignificante”. Ou, como disse Hannah Arendt, “o pobre é aquele que não tem direito a ter direitos”. Por isso, a pobreza é um “assunto teológico, que expressa a fratura da criação”.

O processo teológico da Teologia da Libertação baseou-se, de acordo com Gutiérrez, em dois grandes temas: a salvação universal e a relação natureza-sobrenatureza. Porque, “para fazer teologia é preciso estar em contato com a realidade”.

E para explicar isso, Gutiérrez recorreu à seguinte metáfora: “A mensagem cristã é como carne congelada. Ela está aí, mas não é possível comê-la. É preciso descongelá-la, isto é, situá-la na realidade atual”. Como o Papa, “que se situa neste nível básico, no viço do Evangelho”.

Uma teologia assentada na práxis. E citou, para corroborar o que está dizendo, Simone Weil: “se quer saber se uma pessoa acredita em Deus, não se fixe no que ela diz sobre Ele, mas no que ela diz sobre o mundo”.

E uma teologia profundamente espiritual. “A espiritualidade é fundamental no processo teológico, porque é um estilo de vida e uma maneira de ser”, explicou. Por isso, a Teologia da Libertação nunca vai morrer, embora os meios de comunicação “a mataram no ano em que ela nasceu e a continuam matando a cada pouco”. Daí que, quando perguntam a Gutiérrez pela morte da Teologia da Libertação, sempre diz: “Não me convidaram para o funeral e creio que eu teria o direito de estar”.

Neste processo, foi o Vaticano II que “abriu portas, para continuar descongelando”, assim como fez a Conferência de Medellín.

A Teologia da Libertação traz consigo, segundo Gutiérrez, o martírio. Algumas vezes, físico, como o de Enrique Pereira Neto; outras vezes, também físico, mas estendido no tempo, “tornando a vida dos teólogos da libertação impossível”. Por isso, “houve mártires por Deus, pela Igreja e por seu povo”.

Uma teologia – a da libertação – que leva à práxis e a se propor, a partir da realidade, “como dizer ao pobre que Deus o ama, quando sua própria vida é a negação do amor”. Talvez, o único caminho seja “ser solidário com os pobres” e, sobretudo, “ajudá-los a ser sujeitos do seu destino”.

Por isso, Gutiérrez não gosta daqueles que se proclamam ‘a voz dos sem voz’, porque “a nossa meta é fazer com que aqueles que não têm voz a tenham”. Daí o componente da “pastoral da amizade” que deve haver na reflexão teológica. “Não há autêntico compromisso com os pobres, se não somos seus amigos”. Como disse na última rodada de perguntas, “não basta estudar teologia, é preciso, sobretudo, vivê-la”.

Na sequência, interveio o economista peruano Umberto Ortiz, que demonstrou com dados, números e estatísticas que “29,2% da população da América Latina (175 milhões) está abaixo da linha da pobreza, aos quais é preciso somar os 70 milhões que vivem na indigência”.

Além disso, “a América Latina continuar a ser a região mais desigual do mundo” e “os pobres são os mais afetados pela mudança climática”, explicou o professor.

A teóloga colombiana Olga Consuelo Vélez sacudiu o auditório com sua colocação, intitulada “As periferias geográficas e existenciais, desafios para a Teologia”. Após denunciar “a perseguição aberta à Teologia da Libertação por alguns setores da instituição eclesial”, reconheceu que, a isso se uniu, nos últimos anos, “o desânimo e o cansaço de alguns teólogos e teólogas”.

Até que “veio um Papa do ‘fim do mundo’, cujos gestos e palavras nos fizeram voltar o nosso olhar novamente para os pobres”, porque Francisco “coloca a opção preferencial pelos pobres como categoria teológica, e não meramente cultural”.

Trata-se, segundo a teóloga da Universidade Javeriana de Bogotá, de “se desinstalar, para sair às periferias geográficas e existenciais”, o que exige uma “conversão pastoral”. E, para isso, os teólogos têm que rever o “‘a partir de onde’ respondemos às necessidades concretas que nos interpelam” e perguntar-se: “Estão os pobres do mundo no centro da nossa reflexão teológica?”

Para isso, Olga Consuelo Vélez aposta em “uma teologia perpassada pela misericórdia” e “uma teologia com sabor de atualidade”. Para concluir com a seguinte afirmação: “Talvez o mais importante desta reflexão seja perguntar-nos se neste movimento eclesial que estamos vivendo hoje com Francisco nos sentimos comprometidos e dispostos a mudar”.

Nesse sentido, destacou que, por exemplo, “a teologia de gênero ainda é um apêndice em muitos centros universitários, que seguem marcados por uma cultura patriarcal e clerical”.

O teólogo jesuíta também colombiano, Guillermo Sarasa, por sua vez, abordou o tema “Falar de Deus em tempos de globalização”, assegurando que a globalização oferece oportunidades, mas também riscos, ao mesmo tempo que defendia um anúncio explícito de Cristo nos centros universitários católicos.

O primeiro expositor a intervir na parte da tarde foi o jesuíta Juan Carlos Scannone, um dos ‘gurus’ da Teologia do Povo, que definiu “como uma corrente da Teologia da Libertação”, e que centrou sua intervenção em “A colaboração teológica com a pastoral do Papa Francisco”.

Na sua opinião, é evidente que o Papa não quer uma “teologia de gabinete”, mas uma teologia baseada na misericórdia, na opção pelos pobres e no discernimento. A partir da misericórdia, “Francisco dá importantes passos adiante com respeito aos seus dois predecessores, continuando a linha da Igreja e da teologia latino-americanas de Medellín a Aparecida”.

Segundo Scannone, que foi professor de Bergoglio na Argentina, Francisco quer “uma Igreja pobre, dos pobres e para os pobres”. Ou seja, como disse Pedro Trigo, que “os pobres não se sintam apenas na Igreja ‘como em sua casa’, mas que estejam no ‘coração da Igreja’”.

Por isso, Francisco quer que os pobres sejam “não apenas protagonistas, mas também ‘poetas sociais’, artesãos e construtores da história”. Especialmente através dos movimentos populares, aos quais o Papa “reconhece uma imprescindível função social”.

Quanto ao discernimento, segundo o Papa, deve passar pelo “discernimento dos sinais dos tempos”. Com quatro princípios básicos: a realidade sempre prevalece sobre a ideia; trata-se mais de gerar processos que de ocupar espaços de poder; a unidade é superior ao conflito, e o todo é superior às partes e à sua mera soma.

É “o modelo do poliedro ou da orquestra”. E Scannone conclui: “Hoje, a teologia é chamada a acompanhar – com o Papa Francisco – os povos, os pobres dos povos e seus movimentos populares, no discernimento eficaz de sua paixão e ação históricas. Assim, estaria praticando a opção evangélica por uma Igreja pobre, com, de e para os pobres, com atitude de misericórdia, enquanto a teologia é e deve ser ‘intellectus amoris et misericordiae’”.

Nas comunicações da tarde, intervieram a teóloga argentina Emilce Cuda, o chileno Carlos Schikendantz e o venezuelano Rafael Luciani. A professora Cuda abordou o tema da “teologia política na América Latina hoje” e assinalou que “há modalidades políticas que são sacralizadas, em relação às quais a função do teólogo consiste em destronar os falsos deuses”.

O Pe. Schikendantz falou sobre “A reforma da Igreja no atual pontificado à luz do Vaticano II”, que, na sua opinião, passa pela “recuperação do Concílio” e pela colocação em prática de “uma agenda complexa e articulada”.

Neste sentido, o teólogo chileno assegurou que “a reforma chave da reforma da Igreja é a reforma do papado, tendo em conta que só o papa pode reformar-se a si mesmo”. Devemos ter em conta que “a reforma da Igreja passa pela diminuição do papado para que cresçam as outras instituições eclesiais”. Uma reforma que, na sua opinião, encontra-se com uma oportunidade de ouro e um momento favorável, porque “coincidem as reformas de baixo para cima e de cima para baixo”.

Por último, interveio Rafael Luciani, para falar sobre a “Geopolítica pastoral”, que consiste na “parresía apostólica a serviço dos povos pobres e suas culturas”, porque a Igreja “quer ser mediadora e facilitadora de processos de paz no meio dos dramas que outros descartam”.

Ele repassa as “fraturas locais com repercussões globais” que mostram que “o que não funciona não é um simples modelo de gestão, mas o sistema ou o ordenamento mundial atual”. Entre outras coisas, “porque é um modelo que, mesmo quando conseguiu produzir maior riqueza em nível global, gerou os níveis mais altos de desigualdade econômica e exclusão social na história da Humanidade. O pobre não é apenas aquele que não tem, mas aquele que não tem como ter”.

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Precisamente por isso, o modelo geopolítico de Francisco busca apoiar-se na “interculturalidade, como caminho para a habilitação humana como sujeitos”. Ou, dito de outra maneira, “a visão de Francisco entranha uma mudança na maneira como interagimos e nos posicionamos socioculturalmente. É um modelo alternativo que se baseia na práxis do encontro, da cooperação e da interdependência”. Porque “a fraternidade global é o caminho para se chegar a ser sujeito nesta época globalizada, para que todos possam gozar da possibilidade de ter possibilidades”.

Fonte:

Religión Digital

 

O Povo de Deus espera uma posição sobre as questões recentes dos Arautos do Evangelho

23 de junho de 2017

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Mais uma semana se passou. Muito ainda se comenta. É inegável que os Arautos do Evangelho chocaram a Comunidade Católica  – e não Católica – do Brasil e, até mesmo, do mundo.

Os debates na sociedade civil e, sobretudo nas redes sociais, estão acirrados. Os partidários defendem os Arautos acirradamente. Os não partidários acusam, questionam, pedem resposta. Uma coisa nos impressiona: o silêncio das instâncias oficiais da Igreja.

Que a Santa Sé tenha a prudência em elucidar os fatos de forma discreta, entendemos. Que a CNBB esteja refletindo em suas comissões de forma prudente, também. Devemos sempre apurar fatos e não boatos. Ir aos pontos críticos sem afãs ou aforismos. Não que as notícias sobre os Arautos sejam boatos. O que pensamos é, dada a complexidade do problema, deve-se toda cautela. Outrossim, fica a dúvida: e a Academia? E as Universidades Católicas? Percebemos que o debate é evitado.

Já na Idade média, no nascimento da escolástica, as Universidades eram o locus sapientiae. Local onde se cultivava a sabedoria. É de entendimento que o saber nasce da reflexão. Do debate. O que se vê sobre o caso dos Arautos? Silêncio.

Em consequência, as pessoas que estão na base da Igreja se deixam levar por mitos, lendas urbanas. Recentemente, o ministro geral dos Arautos renunciou. Monsenhor Clá não é mais ministro geral dos Arautos do Evangelho. Alguns dos fiéis, sabendo do acontecido, alegaram que Monsenhor Clá estava prestes a se tornar bispo. Que sua nomeação é eminente. Ora, iria a Santa Sé nomear bispo um clérigo envolvido em escândalos? Além de se esquecer que Monsenhor Clá não é candidato ao episcopado por razões de idade e saúde. Boato. Defesa infantil e irracional da pessoa do fundador dos Arautos. Sua renúncia não pode ser por outro motivo, senão, os escândalos em que a instituição está envolvida.

E, enquanto nada de oficial se ouve da Santa Sé, pérolas do pensamento comum são difundidas como o absurdo acima.

Esperamos uma palavra de sabedoria da Santa Sé. Uma posição da CNBB. Uma reflexão dos departamentos de Teologia​ e Ciências da Religião de nossas universidades.

Enquanto​ isso, mais e mais fatos estranhos e destoantes com o caminhar da Igreja são difundidos. Os Arautos do Evangelho se tornaram tema de notícias de muitos e sérios veículos de comunicação. Não se pode mais defender esta instituição por estar sofrendo calúnia. São fatos. Baseados em vídeos, relatos. Não é calúnia. É o povo de Deus que espera uma Palavra de luz para almas atribuladas por questões tão obscuras. Os católicos querem uma palavra do magistério da Igreja. A sociedade civil quer uma satisfação. O que escandaliza não vem de Deus.

O que pensar sobre os Arautos do Evangelho? Queremos saber.

Hermes Fernandes

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