Segunda feira, 15 de maio de 2017

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Por Frei Raniero Cantalamessa

 
1. Presença – ausência de Cristo

Que papel tem Jesus em nossa sociedade e em nossa cultura. Penso que se pode falar, ao respeito, de uma presença/ausência de Cristo. Em certo nível –o dos mass-media em geral– Jesus Cristo está muito presente, nada menos que um «super star», segundo o título de um conhecido musical sobre ele. Em uma série interminável de relatos, filmes e livros, os escritores manipulam a figura de Cristo, às vezes sob pretexto de fantasiar novos documentos históricos sobre ele. O Código Da Vinci é o último e mais agressivo episódio desta longa série. Converteu-se já em uma moda, um gênero literário. Especula-se sobre a vasta ressonância que tem o nome de Jesus e sobre o que representa para ampla parte da humanidade para assegurar-se grande publicidade a baixo custo. E isto é parasitismo literário.
Desde certo ponto de vista podemos portanto dizer que Jesus Cristo está muito presente em nossa cultura. Mas se olharmos para o âmbito da fé, ao que ele pertence em primeiro lugar, notamos, ao contrário, uma inquietante ausência, se não até rejeição de sua pessoa.

Antes de tudo no plano teológico. Uma certa corrente teológica sustenta que Cristo não havia vindo para a salvação dos judeus (aos que lhes bastaria permanecer fiéis à Antiga Aliança), mas só para a dos gentios. Outra corrente sustenta que ele não seria necessário tampouco para a salvação dos gentios, tendo estes, graças a sua religião direta com o Logos eterno, sem necessidade de passar pelo Verbo encarnado e seu mistério pascal. Há que se perguntar para quem é ainda necessário Cristo!
Mais preocupante ainda é o que se observa na sociedade em geral, inclusive os que se definem «fiéis cristãos». Em que crêem, na realidade, aqueles que se definem «crentes» na Europa e outras partes? Crêem, a maioria das vezes, na existência de um Ser supremo, de um Criador, crêem que existe um «para além». Mas esta é uma fé deísta, não ainda uma fé cristã. Tendo em conta a famosa distinção de Karl Barth, esta é religião, não ainda fé. Diferentes pesquisas sociológicas advertem este dado de fato também nos países e regiões de antiga tradição cristã, como a região na qual eu mesmo nasci, nas Marcas. Jesus Cristo está na prática ausente neste tipo de religiosidade.

Inclusive o diálogo entre ciência e fé, que voltou a ser tão atual, leva, sem querer, a pôr entre parênteses Cristo. Aquele tem de fato por objeto Deus, o Criador. A pessoa histórica de Jesus de Nazaré não tem aí nenhum lugar. Sucede o mesmo também no diálogo com a filosofia, que ama ocupar-se de conceitos metafísicos mais que de realidades históricas.

Repete-se em resumo, em escala mundial, o que ocorreu no Areópago de Atenas, por ocasião da pregação de Paulo. Enquanto o Apóstolo falou do Deus «que fez o mundo e tudo o que há nele» e do qual «somos também estirpe», os doutos atenienses o escutaram com interesse, quando começou a falar de Jesus Cristo «ressuscitado dentre os mortos», responderam com um educado «sobre isto já te ouviremos outra vez» (Atos 17, 22-32).

Basta um simples olhar ao Novo Testamento para entender quão longe estamos, neste caso, do significado original da palavra «fé» no Novo Testamento. Para Paulo, a fé que justifica os pecadores e confere o Espírito Santo (Ga 3,2), em outras palavras, a fé que salva, é a fé em Jesus Cristo, em seu mistério pascal de morte e ressurreição. Também para João a fé que «vence o mundo» é a fé em Jesus Cristo. Escreve «Quem é o que vence o mundo senão quem crê que Jesus é Filho de Deus?» (1 Jo 5, 4-5).

Frente a esta nova situação, a primeira tarefa é a de fazer, nós os primeiros, um grande ato de fé. «Tende confiança, eu venci o mundo» (João 16, 33), disse-nos Jesus. Não venceu só o mundo de então, mas o mundo de sempre, naquilo que tem em si de resistência ao Evangelho. Portanto, nenhum medo ou resignação. Fazem-me rir as recorrentes profecias sobre o inevitável fim da Igreja e do cristianismo na sociedade tecnológica do futuro. Nós temos uma profecia muito mais autorizada a que ater-nos: «O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão» (Mt 24, 35).

Mas não podemos permanecer inertes; devemos colocar-nos mãos à obra para responder de maneira adequada aos desafios que a fé em Cristo enfrenta em nosso tempo. Para re-evangelizar o mundo pós-cristão é indispensável, creio, conhecer o caminho seguido pelos apóstolos para evangelizar o mundo pré-cristão! As duas situações têm muito em comum. E é isto o que queria agora tentar tirar à luz: como se apresenta a primeira evangelização? Que via seguiu a fé em Cristo para conquistar o mundo?

2. Kerigma e didaché

Todos os autores do Novo Testamento mostram pressupor a existência e o conhecimento, por parte dos leitores, de uma tradição comum (paradosis) que se remonta a Jesus terreno. Esta tradição apresenta dois aspectos, ou dois componentes: um componente chamado «pregação», ou anúncio (kerigma) que proclama o que Deus fez em Jesus de Nazaré, e um componente chamado «ensinamento» (didaché) que apresenta normas éticas para um reto atuar por parte dos crentes [2]. Várias cartas paulinas refletem esta separação, porque contêm uma primeira parte kerigmática, da que descende uma segunda parte de caráter prático.

A pregação, ou o kerigma, é chamada o «evangelho» [3]; o ensinamento, ou didaché, por outro lado, é chamado a «lei», ou o mandamento, de Cristo, que se resume na caridade [4]. Destas duas coisas, a primeira –o kerigma, o evangelho– é o que dá origem à Igreja; a segunda –a lei, ou a caridade– que brota da primeira, é o que traça à Igreja um ideal de vida moral, que «forma» a fé da Igreja. Neste sentido, o Apóstolo distingue sua obra de «pai» na fé, frente aos coríntios, da dos «pedagogos» vindos detrás dele. Diz: «Fui eu quem, mediante o Evangelho, gerei-os em Cristo Jesus» (1 Co 4, 15).

A fé, portanto, como tal, floresce somente na presença do kerigma, do anúncio. «Como poderão crer –escreve o Apóstolo falando da fé em Cristo– sem ter ouvido? Como poderão ouvir sem quem anuncie?» (RM 10, 14). Literalmente: «sem alguém que proclame o kerigma» (choris keryssontos). E conclui: Portanto a fé vem da [escuta da] pregação» (Rm 10, 17), onde por «pregação» se entende a mesma coisa, isto é, o «evangelho» ou o kerigma.

No livro Introdução ao cristianismo, o Santo Padre Bento XVI, então professor de Teologia, lançou a luz nas profundas implicações deste fato. Escreve: «Na fórmula “a fé provém da escuta”… enfoca-se claramente a distinção fundamental entre fé e filosofia… Na fé se tem uma precedência da palavra sobre o pensamento… Na filosofia o pensamento precede a palavra; esta é portanto um produto da reflexão, que depois se intenta expressar em palavras… A fé por outro lado se acerca sempre do homem desde o exterior… não é um elemento pensado pelo sujeito, mas a ele dito, que o chega não como pensado nem pensável, interpelando-o e comprometendo-o» [5].

A fé vem portanto da escuta da pregação. Mas qual é exatamente o objeto da «pregação»? Sabe-se que na boca de Jesus aquele é a grande notícia que faz fundo em suas parábolas e da que brotam todos seus ensinamentos: «Chegou a vós o Reino de Deus!». Mas qual é o conteúdo da pregação na boca dos apóstolos? Responde-se: a obra de Deus em Jesus de Nazaré! É verdade, mas existe algo ainda mais concreto, que é o núcleo germinativo de tudo e que é como lâmina de arado que rompe em primeiro lugar o terreno e permite ao arado traçar a fenda e remover a terra.

Este núcleo mais concreto é a exclamação: «Jesus é o Senhor!», pronunciada e acolhida no estupor de uma fé «statu nascenti», isto é, no ato mesmo de nascer. O mistério desta palavra é tal que ela não pode ser pronunciada «senão baixo a ação do Espírito Santo» (1 Co 12, 3). Sozinha ela faz entrar na salvação a quem crê em sua ressurreição: «Porque se confessas com tua boca que Jesus é o Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos serás salvo» (RM 10, 9).

«Como a estrela de um navio –diria Ch. Péguy– vai ampliando-se até desaparecer e perder-se, mas começa com uma ponte que é a ponta mesma do navio», assim –digo eu–a pregação da Igreja vai ampliando-se, até constituir um imenso edifício doutrinal, mas começa com uma ponta e esta ponta é o kerigma: «Jesus é o Senhor!».

Portanto aquilo que na pregação de Jesus era a exclamação: «Chegou o Reino de Deus!», na pregação dos apóstolos é a exclamação: «Jesus é o Senhor!». E sem embargo nenhuma oposição, senão continuidade perfeita entre o Jesus que prega e o Cristo pregado, porque dizer: «Jesus é o Senhor!» é como dizer que em Jesus, crucificado e ressuscitado, se realizou por fim o reino e a soberania de Deus sobre o mundo.

Devemos entender-nos bem para não cair em uma reconstrução irreal da pregação apostólica. Depois de Pentecostes, os apóstolos não percorrem o mundo repetindo sempre e somente: «Jesus é o Senhor!». O que faziam quando se encontravam anunciando pela primeira vez a fé em um determinado ambiente era, mais bem, ir direto ao coração do evangelho, proclamando dois fatos: Jesus morreu – Jesus ressuscitou, e o motivo destes dois fatos: morreu «por nossos pecados», ressuscitou «para nossa justificação» (Cf. 1 Cor 15, 4; Rm 4, 25). Dramatizando o assunto, Pedro, nos Atos dos Apóstolos, não faz senão repetir aos que o escutam: «Vós matastes Jesus de Nazaré, Deus o ressuscitou, constituindo-o Senhor e Cristo» [6].

O anúncio: «Jesus é o Senhor» não é portanto outra coisa senão a conclusão, hora implícita hora explícita, desta breve história, narrada em forma sempre viva e nova, se bem substancialmente idêntica, e é, por sua vez, aquilo no que tal história se resume e se faz operante para que a escuta. «Cristo Jesus… se despojou de si mesmo… obedecendo até a morte, e morte de cruz. Pelo que Deus o exaltou… para que toda língua confesse que Cristo Jesus é o Senhor» (Flp 2, 6-11).

A proclamação «Jesus é o Senhor!» não constitui portanto, ela só, a pregação inteira, mas é sua alma e, por assim dizer, o sol que ilumina. Ela estabelece uma espécie de comunhão com a história de Cristo através da «partícula» da palavra e faz pensar, por analogia, na comunhão que se opera com o corpo de Cristo através da partícula do pão na Eucaristia.

Chegar à fé é o repentino e estupefato abrir os olhos a esta luz. Evocando o momento de sua conversão, Tertuliano o descreveu como um sair do grande útero obscuro da ignorância, sobressaltando-se à luz da Verdade [7]. Era como a abertura de um mundo novo; a primeira Carta de Pedro o define como passar «das trevas à admirável luz» (1 p 2, 9; Col 1, 12 ss).

O kerigma, como explicou bem o exegeta Heinrich Schlier, tem um caráter assertivo e autorizado, não discursivo ou dialético. Não tem necessidade, portanto, de justificar-se com razões filosóficas ou apologéticas: aceita-se ou não se aceita, e basta. Não é algo do que se possa dispor, porque é isso o que dispõe de tudo; não pode estar fundado por algum, porque é Deus mesmo quem o funda e é isso o que faz depois fundamento à existência [8].

O pagão Celso, no século II, escreve de fato indignado: «Os cristãos se comportam como quem crê sem razão. Alguns deles não querem tampouco dar ou receber razão entorno do que crêem e empregam fórmulas como estas: “Não discutas, mas crê; a fé te salvará. A sabedoria deste século é um mal e a simplicidade é um bem”» [9].

Celso (que aqui aparece extraordinariamente próximo aos modernos partidários do pensamento fraco) queria, substancialmente, que os cristãos apresentassem sua fé de maneira dialética, submetendo-a, isto é, em tudo e para tudo, à pesquisa e à discussão, de forma que ela possa entrar no quadro geral, aceitável também filosoficamente, de um esforço de auto compreensão do homem e do mundo que permanecerá sempre provisional e aberto.

Naturalmente, a rejeição dos cristãos a dar provas e aceitar discussões não se referia a todo o itinerário da fé, mas somente a seu início. Eles não fugiam, tampouco nesta época apostólica, do confronto e a «dar razão de sua esperança» (Cf. 1 Pe 3, 15) também aos gregos (Cf. 1 Pe 3, 15). Os apologistas do século II-III são a confirmação disso. Somente pensavam que a própria fé não podia surgir daquele confronto, mas que devia precedê-lo como obra do Espírito e não da razão. Este podia, como muito, prepará-la, e uma vez acolhida, mostrar sua «razoabilidade».

No princípio, o kerigma se distinguia, como vimos, do ensinamento (didaché), como também da catequese. Estas últimas coisas tendem a formar a fé, ou a preservar sua pureza, enquanto que o kerigma tende a suscitá-la. Ele tem, por assim dizer, um caráter explosivo, ou germinativo; parece-se mais à semente que dá origem à árvore que ao fruto maduro que está na árvore e que, no cristianismo, é constituído mais pela caridade. O kerigma não se obtém absolutamente por concentração ou por resumo, como se fosse a medula da tradição; mas está à parte, ou melhor, no início de tudo. Dele se desenvolve todo o demais, incluídos os quatro evangelhos.

Sobre este ponto se teve uma evolução devido à situação geral da Igreja. Na medida em que se vá até um regime de cristianismo, no qual tudo em torno é cristão, ou se considera tal, adverte-se menos a importância da eleição inicial com a qual se passa a ser cristão, tanto mais que o batismo se administra normalmente às crianças, que não têm capacidade de realizar tal opção própria. O que mais se acentua, da fé, não é tanto o momento inicial, o milagre de chegar à fé, quanto melhor a plenitude e a ortodoxia dos conteúdos da própria fé.

3. Redescobrir o kerigma

Esta situação incide hoje fortemente na evangelização. As Igrejas com uma forte tradição dogmática e teológica (como é, por excelência, a Igreja Católica), correm o risco de encontrar-se em desvantagem se por debaixo do imenso patrimônio de doutrina, leis e instituições não encontram esse núcleo primordial capaz de suscitar por si mesmo a fé.

Apresentar-se ao homem de hoje, carente freqüentemente de todo conhecimento de Cristo, com todo o leque desta doutrina é como por uma dessas pesadas capas de brocado nas costas de uma criança. Estamos mais preparados por nosso passado a ser «pastores» que a ser «pescadores» de homens; isto é, melhor preparados a nutrir o povo que vem à Igreja que a levar pessoas novas à Igreja, ou ‘repescar’ os que se encontraram e vivem à margem dela.

Esta é uma das causas pelas quais em certas partes do mundo muitos católicos abandonam a Igreja católica por outras realidades cristãs; são atraídos por um anúncio simples e eficaz que os colocam em contato direto com Cristo e os fazem experimentar o poder de seu Espírito.

Se por um lado é de alegrar-se que estas pessoas tenham encontrado uma fé experimentada, por outro é triste que para fazê-lo tenham abandonado sua Igreja. Com todo o respeito e a estima que devemos ter por estas comunidades cristãs que não são todas seitas (com algumas delas a Igreja católica mantém desde há anos um diálogo ecumênico, coisa que não faria certamente com as seitas!), há que dizer que aquelas não têm os meios que a Igreja católica tem de levar as pessoas à perfeição da vida cristã.

Em muitos tudo segue girando, desde o princípio até o final, em torno à primeira conversão, ao chamado novo nascimento, enquanto que para nós, católicos, isto é só o início da vida cristã. Depois disso deve vir a catequese e o progresso espiritual, que passa através da negação de si, da noite da fé, da cruz, até a ressurreição. A Igreja católica tem uma riquíssima espiritualidade, inumeráveis santos, o magistério e sobretudo os sacramentos.

É necessário, portanto, que o anúncio fundamental, ao menos uma vez, seja proposto entre nós, nítido e enxuto, não só aos catecúmenos, mas a todos, dado que a maioria dos crentes de hoje não passou pelo catecumenato. A graça que alguns dos novos movimentos eclesiais constituem atualmente para a Igreja consiste precisamente nisto. Eles são o lugar onde pessoas adultas têm por fim a ocasião de escutar o kerigma, renovar o próprio batismo, eleger conscientemente a Cristo como próprio Senhor e salvador pessoal e comprometer-se ativamente na vida de sua Igreja.

A proclamação de Jesus como Senhor deveria encontrar seu lugar de honra em todos os momentos fortes da vida cristã. A ocasião mais propícia são talvez os funerais, porque ante a morte o homem se interroga, tem o coração aberto, está menos distraído que em outras ocasiões. Nada como o kerigma cristão tem o que dizer ao homem, sobre a morte, uma palavra à medida do problema.

O kerigma ressoa, é verdade, no momento mais solene de cada Missa: «Anunciamos tua morte, proclamamos tua ressurreição, vem Senhor Jesus!». Mas, por si só, esta é uma simples fórmula de aclamação. Disse-se que «os evangelhos são relatos da paixão precedidos por uma longa introdução» (M. Kahler). Mas, estranhamente, a parte originaria e mais importante do evangelho é a menos lida e escutada no curso do ano. Em nenhum dia festivo, com multidão de povo, lê-se na igreja a Paixão de Cristo, exceto no Domingo de Ramos, no qual, pela duração da leitura e a solenidade dos ritos, não há tempo para pronunciar ao respeito uma consistente homilia!

Agora que já não há missões populares como uma vez, é possível que um cristão não escute jamais, em sua vida, uma pregação sobre a Paixão. Contudo é precisamente ela a que normalmente abre os corações endurecidos. Disso se teve demonstração com ocasião da projeção do filme de Mel Gibson «A Paixão de Cristo». Houve casos de detidos, que sempre haviam negado ser culpados, que após ver o filme confessaram espontaneamente seu delito.

4. Eleger Jesus como Senhor

–Partimos da pergunta: «que lugar ocupa Cristo na sociedade atual?»; mas não podemos terminar sem propor-nos a questão mais importante em um contexto como este: «que lugar ocupa Cristo em minha vida?». Tragamos à mente o diálogo de Jesus com os apóstolos em Cesaréia de Filipo: «Quem diz o povo que é o Filho do homem?… e vós, quem dizeis que eu sou?» (Mt 16, 13-15). O mais importante para Jesus não parece ser o que pensa dele o povo, mas o que pensam dele seus discípulos mais próximos.

Aludi antes à razão objetiva que explica a importância da proclamação de Cristo como Senhor no Novo Testamento: ela faz presentes e operantes em quem a pronuncia os eventos salvíficos que recorda. Mas existe também uma razão subjetiva e existencial. Dizer «Jesus é o Senhor!» significa tomar uma decisão de fato. É como dizer: Jesus Cristo é «meu» Senhor, reconheço a ele todo direito sobre mim, cedo-lhe as rédeas de minha vida; não quero viver mais «para mim mesmo», mas «para aquele que morreu e ressuscitou por mim» (Cf. 1 Cor 5, 15).

Proclamar a Jesus como próprio Senhor significa submeter a ele toda região de nosso ser, fazer penetrar o Evangelho em tudo o que encontramos. Significa, por recordar uma frase do venerado João Paulo II, «abrir, mais ainda, abrir de par em par as portas a Cristo».

Ocorreu-me às vezes ser hóspede de alguma família e vi o que sucede quando soa o telefone e se anuncia uma visita inesperada. A dona da casa se apressa a fechar as portas dos quartos desordenados, com a cama sem fazer, a fim de conduzir o convidado ao lugar mais acolhedor. Com Jesus deve-se fazer exatamente o contrário: abrir justamente os «quartos desordenados» da vida, sobretudo o quarto das intenções… Para quem trabalhamos e por que o fazemos? Para nós mesmos ou para Cristo, por nossa glória ou pela de Cristo? É a melhor forma de preparar neste Advento um berço acolhedor a Cristo que vem no Natal.


[1] S. Agostinho, Sermão 295,1 (PL 38,1349).
[2] Cf. C. H. Dodd, Storia ed Evangelo (História e Evangelho) , Brescia, Paideia, 1976, pp. 42 ss.
[3] Cf., por exemplo, Mc 1,1; Rm 15,19; Gal 1,7.
[4] Cf. Gal 6,2; 1 Cor 7,25; Jn 15,12; 1 Jn 4,21.
[5] J. Ratzinger, Introduzione al cristianesimo (Introdução ao cristianismo), Brescia, Queriniana, 1969, pp. 56 s.
[6] Cf. Ato 2,22-36; 3,14-19; 10,39-42.
[7] Tertuliano, Apologeticum, 39, 9: “ad lucem expavescentes véritatis” .

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