Como São Francisco Lia e Compreendia a Bíblia

Terça feira, 18 de abril de 2017.

FB_IMG_1490795057456Por Frei Leandro Defendi

São Francisco lia e compreendia os textos Sagrados como se fossem escritos para ele. Sua forma de compreensão era prática e aplicada em sua vida. Não fazia uma leitura atemporal ou que não estivesse implicado diretamente com o texto. Ele se colocava de maneira simples diante do texto e queria que os seus irmãos também tivessem essa mesma atitude de respeito para que o texto fosse aplicado à vida e não ficasse alheio a ela.

O que chama atenção antes de mais nada é o tipo de compreensão que São Francisco teve da Palavra de Deus. Embora ele mesmo se considerasse “simples e idiota” (Test 19; CtOr 39), isto é, “iletrado” teve profundíssima compreensão da Palavra do Senhor. Malraux observa que Francisco é um santo sem teologia, mas talvez melhor seria dizer com Louis Antoine que a teologia de Francisco não consiste em conceitos sublimes. Sua teologia é essencialmente diálogo terno, ardente, chama que brota de seu coração. Deus é para ele realidade. É precisamente a partir deste ângulo que deve ser entendido o modo como Francisco se posicionou diante da Sagrada Escritura (DICIONÁRIO FRANCISCANO, 1993, p. 527).

 

Em relação à compreensão que São Francisco tinha da Palavra de Deus, Celano assim escreve a seu respeito:

Embora não tenha tido nenhum estudo, o santo aprendeu a sabedoria do alto, que vem de Deus, e iluminado pelos fulgores da luz eterna, não era pouco o que entendia das Sagradas Escrituras. Sua inteligência purificada penetrava os segredos dos mistérios, e, onde ficava fora a ciência dos mestres, entrava seu afeto cheio de amor. Lia, às vezes, os livros sagrados, e o que punha uma vez na cabeça ficava indelevelmente gravado em seu coração. Usava a memória no lugar dos livros, porque não perdia o que ouvia uma vez só, pois ficava refletindo com amor em contínua devoção. Dizia que esse modo de aprender e de ler era muito vantajoso, sem ter que folhear milhares de tratados. Era um verdadeiro filósofo porque não preferia coisa nenhuma mais que a vida eterna. Afirmava que passaria facilmente do conhecimento de si mesmo para o conhecimento de Deus aquele que estudasse as Escrituras com humildade e sem presunção. Era frequente resolver oralmente as dúvidas de algumas questões, porque, embora não fosse culto nas palavras, destacava-se vantajosamente na inteligência e na virtude (SÃO FRANCISCO DE ASSIS,1988, p. 360).

 

O conhecimento de Francisco sobre as Escrituras acontece na prática da vida. Das contínuas reflexões que vai realizando e daquilo que ouve nas liturgias. Era a forma mais comum para uma pessoa poder compreender e ter acesso à Palavra de Deus. Esse foi o caminho usado por São Francisco que possuía um ouvido atento para compreender a palavra que lhe era dirigida. Francisco tinha desenvolvido em sua vida o senso prático das coisas, mas esta sua praticidade estava ancorada numa vida de oração e meditação.

Assim, Francisco aprendeu de Deus a sabedoria celeste. Ele teve um conhecimento sapiencial da Sagrada Escritura, fruto de intensa vida de oração e de união com Deus (cf. Lm 4,3). Por isso ele tinha condições de explicá-la e, como observa Celano, com uma só frase, resolvia questões discutidas e, sem abundância de palavras, demonstrava grande inteligência e profunda penetração (cf. 2Cel 102) (DICIONÁRIO FRANCISCANO, 1993, p. 527).

 

Por ser São Francisco um homem todo voltado para a oração até mesmo os frades buscavam na Palavra de Deus o consolo para sua vida nos momentos de dificuldade. A Palavra de Deus era fonte de alegria e exultação nos momentos de dor.

É Celano ainda que relata o episódio que aconteceu quando Francisco estava doente. Um irmão, vendo-o neste estado, disse-lhe: “Pai, sempre te refugiaste nas Escrituras, elas sempre foram um remédio para tuas dores. Peço que mandes ler alguma coisa dos profetas, pode ser que teu espírito exulte no Senhor”. O santo respondeu: “É bom ler os testemunhos das Escrituras, é bom procurar nelas Deus nosso Senhor, mas eu já aprendi tantas coisas na Bíblia que para mim é mais do que suficiente meditar e recordar. Não preciso mais nada, filho. Conheço Cristo pobre e crucificado” (2Cel 105; cf. também LP 38) (DICIONÁRIO FRANCISCANO, 1993, p. 527).

 

A contemplação do Cristo pobre, humilde e crucificado, ou seja, contemplando a vida de Jesus, era para Francisco a Palavra de Deus viva e verdadeira e trazia para ele como que a totalidade das Escrituras na contemplação da vida do próprio Cristo.

Na contemplação do Cristo pobre e crucificado, Francisco via a soma e a totalidade do que se pode compreender das Sagradas Escrituras. Certamente foi a partir desta experiência que escreveria, a este respeito, palavras fortes e significativas. Na Adm 7, na realidade, escreveu: “A letra mata, mas o espírito vivifica… São mortos pela letra aqueles religiosos que não querem seguir o espírito das Sagradas Escrituras, mas só se esforçam por saber as palavras e interpretá-las aos outros. São, porém, vivificados pelo espírito das Sagradas Escrituras aqueles que tratam de penetrar mais a fundo em cada letra que conhecem, não atribuindo o seu saber ao corpo, mas pela palavra e pelo exemplo o restituem a Deus, seu supremo Senhor, ao qual todo bem pertence” (Adm 7) (DICIONÁRIO FRANCISCANO, 1993, p. 527).

 

Para Francisco o conhecimento das escrituras deve vir da ação do Espírito do Senhor e não somente dos estudos. A meditação, o aprofundamento das letras faz com que o Espírito de Deus possa agir na mente e no coração de quem se aproxima da Palavra de Deus.

Francisco refere-se aqui às palavras de 2Cor 3,6 e aponta para um princípio fundamental de hermenêutica bíblica, já formulado por São Jerônimo e repetido pelo Concílio Vaticano II: “As divinas escrituras devem ser lidas e interpretadas com o auxílio do mesmo Espírito Santo pelo qual foram escritas. O que mais conta para Francisco é “ter o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar” (RB 10,9; cf. também EP 69) (DICIONÁRIO FRANCISCANO, 1993, p. 528).

 

Para a compreensão das Sagradas Escrituras é preciso deixar-se imbuir pelo Espírito Santo de Deus. Esse mesmo Espírito que fez com que as comunidades percebessem que Deus caminha com seu povo na história. Conforme nos relata Strabeli em seu livro: “Por isso São Francisco não cita os textos da Sagrada Escritura usando os verbos no passado: ‘Disse o Senhor’, ‘Disse Jesus’, ‘Disse o Evangelho’, mas sim no presente: ‘O senhor diz no Evangelho’, ‘diz Jesus aos discípulos’…” (STRABELI, 1993, p. 34). Na compreensão de São Francisco Deus fala diretamente, ou seja, no presente e no cotidiano de sua vida.

Como foi dito acima, São Francisco é filho da sua época e conheceu, pelo menos elementarmente, as regras de interpretação da Bíblia usadas no seu tempo. A regra fundamental de interpretação da Bíblia naquele tempo era a da alegoria. Todavia foi observado que São Francisco distanciou-se desse tipo de leitura bíblica. Ou, pelo menos, não ficou só nele (STRABELI, 1993, p. 28).

 

Francisco procurou ser fiel ao seguimento da Palavra que Deus lhe anunciava. Com a mesma clareza que percebia de Deus essa Palavra procurava vivê-la e queria que seus irmãos assim também compreendessem e vivessem.

Para alguns autores, a exegese de Francisco foi literalista e mimetista, isto é, ele entendia o texto, de um lado, ao pé da letra (literalismo), e de outro, ele usava os textos de maneira parcial, selecionando-os segundo sua intenção ou interesse (mimetismo). Ele diz que escreveu a Regra e o Testamento de maneira simples e também de maneira simples e sem glosa deveriam ser entendidos. E sabemos que a regra, principalmente, é redigida sobre textos evangélicos. Mas pela maneira como São Francisco trabalha os textos na Regra e em outros escritos, podemos perceber que sua exegese é ampla: é fiel à letra do texto e não mutila o texto por meio de uma seleção arbitrária. As citações são feitas coerente, correta e abundantemente. Os seus três principais escritos (Regra não bulada, Regra bulada e Testamento) são prova disso (STRABELI, 1993, p. 28).

 

Quando falamos de sentido literal devemos entender que Francisco buscava o sentido exato do texto expresso pelo autor. Não interpretava o texto, mas procurava seguir ao pé da letra, e de maneira simples assim como compreendia vivia.

Pelas suas citações bíblicas claras, textuais, literais, São Francisco se afasta da tradição medieval, opondo a leitura literal à espiritual. “A leitura literal é a porta necessária que conduz à leitura espiritual” e abre campo para a compreensão das Escrituras”. O “literalismo” dele é o apego ao sentido exato do termo usado pelo autor sagrado, sem fazer nenhum tipo de alegoria, como era comum no seu tempo (STRABELI, 1993, p. 30).

Francisco apresenta em sua maneira de ler a bíblia uma leitura com exatidão, buscando seu verdadeiro sentido. Não se deixa influenciar pelas formas de leituras feitas em seu tempo, mas vai ao essencial.

A exegese da Bíblia é feita por São Francisco com exatidão, podemos dizer; o texto é compreendido e aplicado em seu verdadeiro sentido, tal como o faz a exegese hoje. Sua hermenêutica não é alegórica, como era comum fazê-lo em seu tempo. Na sua leitura da Bíblia transparece a percepção que ele tem do essencial da mensagem bíblica. Percebemos que na interpretação que ele faz da Escritura transparece a posição de um cristão simples de coração, livre, com experiência na vida litúrgica da Igreja e que vai ao essencial da Palavra que lê ou que lhe é anunciada. Sua leitura da Bíblia não é seletiva, nem reducionista e nem literal. Ele foi de fato um servidor fiel da Palavra (STRABELI, 1993, p. 51).

 

Francisco em sua relação íntima e afetuosa com a Palavra de Deus, fruto de um processo longo e contínuo de meditação, compreendia com exatidão a Palavra lida, ouvida e meditada. Essa compreensão essencial é fruto de uma familiaridade com a Palavra de Deus e um colocar-se de modo simples diante da Palavra.

Embora o santo não tivesse falado ao menos nos escritos, de uma observância literal da Regra(ou do Evangelho), bem cedo as exortações contidas no Testamento em torno da observância simples e pura, sem glosa, foram interpretadas como observância literal (DICIONÁRIO FRANCISCANO, 1993, p. 213).

 

É importante ter presente essa maneira simples da leitura de Francisco que por vezes chega confundir o leitor fazendo-o interpretar de forma errônea sua intenção primeira. “E, no entanto, é o contrário o que resulta de nossa análise; a observância simples e pura, sem glosa ou comentários ‘carnais’, é a observância espiritual, ou seja, segundo o Espírito do Senhor, inspirador da Regra” (DICIONÁRIO FRANCISCANO, 1993, p. 213).

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