Domingo, 02 de abril de 2017

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Frei Basílio Röwer, ofm (*)

Quis a Providência Divina que os religiosos franciscanos, chamados pelo Seráfico Fundador com o humilde nome de Fratres Minores – Irmãos Menores – fossem os operários da primeira hora na vinha inculta do Senhor no vasto Brasil; que eles também oferecessem as primícias do sangue a fertilizar a terra para germinar cristãos e que, outrossim, fossem, durante decênios, os únicos religiosos a espalhar a semente do Evangelho.

A terra de Vera Cruz, de Santa Cruz, do Brasil foi descoberta, em 1500, para o Rei por D. Pedro Álvares Cabral, para a santa religião pelos franciscanos. Achavam-se estes em companhia de Cabral, que navegava para as Índias.

Frei Henrique, superior da caravana de missionários, celebrou no dia 26 de abril, domingo da Pascoela, a primeira missa no ilhéu da Coroa Vermelha, na qual fez “solene e proveitoso sermão”.

Outra missa celebrou no mesmo no dia 1° de maio; mas já foi na terra firme e com assistência de muitos índios, que todos, em atitude semelhante à dos descobridores, acompanharam o ato solene.

Nesta ocasião, Cabral e Frei Henrique ergueram uma grande Cruz, sinal da tomada de posse em nome de Cristo e do Rei. Em seguida, Cabral continuou a viagem às Índias e com ele os franciscanos.

Não tardou, porém, a chegada de outros missionários da Ordem Seráfica. De 1503 a 1505, estiveram em Porto Seguro dois, que, tendo zelosamente exercido o seu ministério, foram ambos trucidados pelos selvagens e assim se tornaram os protomártires do Evangelho no Brasil.

Decorridos trinta anos, em 1532, aportaram com Martim Afonso a São Vicente dois franciscanos, onde celebraram, junto com o padre secular Gonçalo Monteiro, que ficou de vigário, o primeiro culto divino e levantaram uma capela em honra de Santo Antônio.

Um deles teve de oferecer a Deus o sacrifício de sua vida, pois foi flechado por um índio ao atravessar um rio. Em 1534, achamos alguns franciscanos na Bahia, onde batizaram duas filhas naturais de Diogo Álvares Correia, o lendário Caramuru.

Retiraram-se com Martim Afonso de Souza para as Índias. Não consta se um deles tivesse ficado, mas certo é que uns quinze anos depois um franciscano percorria a zona da Bahia doutrinando os tupinambás. Construiu uma capela em honra de São Francisco.

Poucos anos depois, temos notícia de cinco franciscanos espanhóis que, em viagem ao Rio da Prata, foram acossados pela tempestade até ao porto de Dom Rodrigo, hoje São Francisco do Sul, e em seguida missionaram entre os carijós. O seu superior Frei Bernardo escreveu em 1° de maio de 1538 que mal bastavam as horas do dia para batizar a todos que pediam o sacramento.

A estes missionários refere-se Nóbrega ao chegar a São Vicente (1549) com estas palavras: “Os gentios são de diversas castas, uns se chamam guaianases, outros, carijós. Este é um gentio melhor do que nenhum desta casta. Os quais foram, não há muitos anos, dois frades castelhanos [na verdade foram cinco] ensinar e tomaram tão bem a sua doutrina, que têm já casas de recolhimento para mulheres como de freiras e outras de homens como de frades”.

Já se vê, pelos frutos, que o trabalho dos cinco franciscanos foi metódico e incansável. Depois da chegada dos inacianos, em 1549, as crônicas dão notícia de dois frades menores que durante alguns anos puderam exercer benéfico apostolado.

São Frei Pedro Palácios e Frei Álvaro da Purificação. O primeiro, apesar de irmão leigo, missionou na Capitania do Espírito Santo de 1558 a 70. Frei Álvaro, que em 1577 foi levado por ventos contrários da ilha da Madeira para as costas do Brasil, trabalhou em Olinda tão zelosamente que era geral o pedido de ele ficar, e o donatário D. Jorge de Albuquerque Coelho instou que obtivesse de Portugal maior número de franciscanos. Não só não o conseguiu, mas teve o desprazer de receber ordens para voltar.

Por este tempo consta de mais alguns mártires. No dia 4 de outubro de 1580 foram mortos pelos selvagens diversos frades em Olinda ou nos arredores e, em 1583, foi assassinado por um soldado espanhol, em São Paulo, o irmão leigo Frei Diogo, que repreendeu o soldado por causa das suas constantes blasfêmias.

Tinha vindo com outros três franciscanos na armada de Diogo Flores Valdez. Foi dito que o donatário não conseguiu mais franciscanos por intermédio de Frei Álvaro. Por isto, passados alguns anos, ele mesmo fez igual pedido ao Rei Felipe, que por sua vez, o transmitiu ao ministro geral da Ordem, Frei Francisco Gonzaga.

Achava-se este em visita canônica aos conventos de Portugal e quando celebrou Capítulo em Lisboa, aos 13 de março de 1584, decretou a fundação de uma Custódia no Brasil – a Custódia de Santo Antônio – e destinou para isso seis religiosos de virtude e zelo, sendo superior Frei Melquior de Santa Catarina, com, patente de custódio. Todos eles pertenciam à Província reformada de Santo Antônio chamada dos Currais, cujos religiosos o povo alcunhava de “capuchos” por causa do capuz piramidal que traziam.

A palavra “capucho”, que não se deve confundir com “capuchinho”, encontra-se frequentemente nos documentos e não significa outra coisa que franciscano, pobre, observante. A dita expedição chegou a Pernambuco aos 12 de abril de 1585 e foi recebida com grandes demonstrações de júbilo e veneração. O primeiro Convento que se fundou foi o de N. Sra. Das Neves de Olinda.

Uma generosa benfeitora, D. Maria da Rosa, havia antecedentemente construído para os frades uma casa com capela ao lado e de tudo fez doação à Ordem por escritura de 27 de setembro do mesmo ano de 1585. Oito dias depois, na festa do Seráfico Patriarca, os fundadores passaram para essa residência em solene procissão, assistida pelo donatário com seu senado, clero e muito povo.

Desde logo iniciaram os frades o seu trabalho na vila e arredores e de tal modo granjearam a estima de todos que, decorrido apenas um ano, isto é, em 1586, abriram noviciado para os candidatos à Ordem e juntamente um seminário, isto é, educandário para os filhos dos índios.

Na catequese dos indígenas, destacou-se nesses anos até 1590 Frei Francisco de São Boaventura. As suas excelentes qualidades de índole unia um conhecimento perfeito da língua brasiliense, que em pouco tempo falava tão bem que os próprios Índios se admiravam, tendo-o por grande feiticeiro. Enquanto os poucos missionários franciscanos labutavam arduamente na vinha do Senhor nas partes de Pernambuco, a fama de seu zelo e religiosa observância espalhava-se pelas outras capitanias. De diversas localidades vinham pedidos de fundação de conventos e missões.

Em 1587, o Custódio acedeu à solicitação do bispo e do governador geral, aceitando por escritura de 8 de abril o sítio para um Convento na Baía, iniciando ele mesmo a construção. Quando, em abril de 1588, o Custódio voltou a Olinda, encontrou a recém-chegada segunda turma de seis missionários. Com isto se animou a aceitar novas fundações.

A primeira foi a de Iguaraçú, em junho do mesmo ano. A Câmara e o povo haviam oferecido um sítio com casa, que foi transformada em Convento. Os seus melhores esforços dedicaram os franciscanos ali à catequese dos índios, doutrinando-os e arrebanhando-os em aldeias. As três missões de Itapessima, Ponta das Pedras e Itamaracá passaram para a história como obra de Frei Antônio de Campomaior, que as fundou na sua segunda estada em Iguaraçú, de 1592 a 94.

Em 1589 principiou-se a fundação de um Convento na vila de Paraíba, a instâncias do Cardeal Alberto, Governador do Reino de Portugal. Na mesma ocasião, o Custódio providenciou acerca das missões entre os índios daquela zona. Tal era o estado, próspero na verdade, da missão franciscana no Brasil, quatro anos depois da chegada dos fundadores da Custódia.

Foi justamente em 1589 que dois religiosos vieram para a capitania do Espírito Santo encaminhar a fundação do Convento de Vitória, o primeiro convento franciscano nas partes do Sul, como também o primeiro da que mais tarde foi a Província da Imaculada Conceição.

(*) Frei Basílio Röwer, no livro “Páginas de História Franciscana no Brasil”, da Editora Vozes, 1941.

 

 

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