Francisco de Assis e a Realização Humana

Terça feira, 14 de março de 2017

Francisco de Assis não foi um estudioso, pesquisador ou acadêmico; nem foi teólogo, filósofo, nem alguém que quis intencionalmente elaborar uma teoria de valores para a vida. Ele foi um sentimento encarnado e não um pensamento a ser estudado. Ele era concreto no que falava e fazia. Nunca foi contra os estudos, mas não precisava deles para explicar as razões de viver. Francisco de Assis mais mostrava que demonstrava; era um testemunho vivo e não um  explicador, muito espontâneo, direto, imediato. Não escrevia Legendas, mas tornou-se ele próprio uma Legenda. Abriu caminhos e não precisou descrevê-los. Viveu enamoradamente a vida e não construiu sistemas. Um gênio da ação e uma vontade que era só paixão. Podemos dizer, como afirmava o fundador da fenomenologia dos valores, Max Scheler: “Francisco de Assis era uma filosofia encarnada e vivida, enquanto soube fundir de modo harmonioso a dimensão pessoal, humana, fraterna e religiosa”. É da sua própria vida que podemos falar dos valores que o animavam.

Cada pessoa elabora, no percurso de sua vida uma escala de valores. Alguns com forte influência ideológica, outros valores que brotam de uma expressiva experiência existencial. Organiza a vida, lança-se em projetos, encontra as maiores motivações. Francisco de Assis inspirava a sua vida na compressão que tinha dele mesmo como pessoa humana. Não vamos encontrar nele uma definição científica do que é o ser humano, mas ele põe em ação a força humana que brota de seu ser. Como diz Antonio Merino: “Cada ação, quando é dinâmica, criadora e coerente, inclui implicitamente uma filosofia e pressupostos muito válidos que condicionam e orientam, de modo muito específico, o comportamento humano e a visão do humano e do mundo” (Merino, in “Humanismo Franciscano”, p.15). Em Francisco a pessoa humana merece total respeito e confiança. A Regra Bulada diz: “Eu os admoesto e exorto a que não desprezem nem julguem os homens que virem vestir roupas macias e coloridas e usar comidas e bebidas finas, mas cada qual julgue e despreze antes a si mesmo” (Rb 2,18). E diz ainda a mesma Regra Bulada: “E onde estão e onde quer que se encontrarem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque, se a mãe nutre e ama a seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual?” (Rb 6,8-9). E continuando a citar a Regra Bulada: “E devem acautelar-se para não se irar ou se perturbar por causa do pecado de alguém, porque a ira e a perturbação impedem a caridade em si e nos outros” (Rb 7,4). E quanto aos frades que têm dificuldade em observar a forma de vida, Francisco recorda: “ Os ministros, porém, recebem-nos caritativa e benignamente e tenham para com eles tanta familiaridade que eles possam falar-lhes e agir como senhores com seus servos; pois assim deve ser: que os ministros sejam servos de todos os irmãos” (Rb 10,6).

Gosto da firmeza que Francisco de Assis demonstra quando cuida da realização humana, do enriquecimento do humano ao convocar à coerência e à convicção, palavra e vida, testemunhadas pelas boas obras: “Tanto possui um homem de ciência, quando aquilo que realiza nas suas obras; e tanto possui um religioso de oração, quanto aquilo que na vida põe em prática”. Como se quisesse dizer:” Não se conhece a árvore boa, senão pelos frutos” (Legenda Perusina,74). Ou como diz a Legenda Maior: “E porque propunha primeiramente a si mesmo com obra o que aos outros aconselhava com palavras, não temendo repreensão pregava com muita intrepidez a verdade (…) Falava com a mesma firmeza de espírito aos grandes e aos pequenos e com a mesma alegria de espírito falava a muitos e a poucos” (LM 12,8). A Legenda dos Três Companheiros atesta: “A partir de então, o bem-aventurado Francisco, percorrendo as cidades e aldeias, começou a pregar por toda parte de maneira mais ampla e perfeita, não em palavras persuasivas da sabedoria humana, mas na doutrina e na virtude do Espírito Santo, anunciando com confiança o reino de Deus. Pois era um pregador veraz, fortalecido pela autoridade apostólica, não empregando qualquer adulação e evitando as lisonjas das palavras, porque o que propunha aos outros pela palavra, primeiramente já havia proposto a si mesmo em obra, de modo que falava a verdade intrepidamente. Muitos letrados e doutos também admiravam a força de sua palavra e a verdade que nenhum homem lhe ensinara, e apressavam-se em vê-lo e ouvi-lo como um  homem  de outro mundo. Começaram, por conseguinte, muitos do povo, nobres e não-nobres, clérigos e leigos, animados por divina inspiração, a seguir os passos do bem-aventurado Francisco e, abandonando as preocupações e as pompas do mundo, a viver sob a sua disciplina” (3Comp 13, 54).

Frei Vitório

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