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Dom Mauro Morelli é um sujeito que luta, que briga, que tem na sua trajetória um histórico de enfrentamento aos grandes e de ajuda aos pequenos. Com 78 anos completados no último dia 17 de setembro, Dom Mauro traz no seu jeito de agir a mesma ternura determinada com que enfrentou os desafios que a vida lhe impôs. Apesar de ser um lutador, Dom Mauro não é do tipo que usa a violência para encarar os percalços, nem com as pressões do Regime Militar durante as décadas de 1960 e 1970, nem mesmo com a do próprio Vaticano — ambos decorrentes de seu trabalho com as comunidades carentes no Rio de Janeiro. Dom Mauro também é um homem do mundo. Conheceu e estudou em universidades dos Estados Unidos — local onde estava quando recebeu a notificação de que seria bispo — e da Europa, em países como Irlanda, Holanda e Itália. Conta que a roupa litúrgica de bispo só usou uma vez, justamente por ocasião da missa da sua ordenação episcopal. No mais, veste-se de maneira simples, com as calças e a camisa negras, óculos de finas hastes de metal cromado, anel de prata na mão direita e sobre a cabeça um chapéu; no inverno para espantar o frio, no verão para proteger do sol.

 

Infância

O pai de Dom Mauro nasceu em Franca, e a mãe, em São Joaquim, ambas cidades em São Paulo. Nascido em uma família com três filhos, Mauro, por ser o filho mais novo, era para ter sido o último a ir à escola. Porém, seu irmão Manoel Morelli teve um problema de saúde. Mauro foi ao colégio escondido e se passou por ele. “Saí correndo de casa e fui para a escola. A professora chamou ‘Manoel Morelli’ e eu disse ‘presente’. No fim, fiquei quatro anos como Manoel. Depois, a minha mãe disse ao meu pai que já estava feito. No final do quarto ano falei para a professora que eu não era o Manoel e ele não era o Mauro e aí chegaram a um entendimento. Até hoje, quando vou à minha cidade natal, algumas pessoas dizem que foram minhas colegas e eu digo que, com certeza, algumas não foram”, conta.

 

Começo

No princípio de suas atividades eclesiais como padre, Dom Mauro trabalhava na Diocese de Rio Claro, em São Paulo. Ele conta que todas as sextas-feiras reunia um grupo de aproximadamente 40 pessoas no Círculo Operário. “A gente tinha oração, estudo bíblico e depois discutíamos os trabalhos da paróquia. Eu fiquei lá de 1º de janeiro de 1966 até, oficialmente, 12 de dezembro de 1974, quando fui nomeado bispo”, relembra. Durante esse período, Mauro viajava no começo da semana à capital paulista para trabalhar na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.

 

Descanso

Dom Mauro é, desde 2005, bispo emérito de Duque de Caxias. Mora perto de Itaici, na cidade de Indaiatuba, e diz estar voltando para a terra onde cresceu, Penápolis, ambas cidades em São Paulo. “Estou voltando para minha terra, que é Penápolis, minha paróquia de batismo. Eu nasci na zona rural de Avanhandava e que hoje é município de Barbosa, a seis quilômetros do rio Tietê. Se você atravessar a ponte rio Tietê, ligando a estrada que vai para Rio Preto, fica a 2,5 mil metros da ponte. No nosso município, você pesca e nada no rio”, planeja.

 

Nomeações

Dom Mauro foi ordenado padre com 29 anos e bispo antes de chegar aos 40. Além disso, em 2015 completa quatro décadas de ordenação episcopal. “Eu sou bispo há mais tempo que o Bento XVI. Sou dos bispos mais antigos da Igreja, mas não o mais velho. Então vou fazer 40 anos de Bispo no dia 25 de janeiro de 2015 e 50 anos de Padre no dia 28 de abril. Em setembro, farei 80 anos de idade. Então a cada cinco anos eu faço uma festinha, porque todo ano é rápido demais, não é? (risos)”, brinca Dom Mauro.

Segundo ele, para a Igreja, é bom bispo novo, mas para a pessoa é uma marca muito pesada. Isso porque a atividade exige maturidade. “Eu sempre digo, se um padre na diocese dá de ombros o mundo não cai, mas se um bispo fizer o mesmo, cai. Então você tem uma responsabilidade muito grande, não pode desiludir a Igreja. O Papa Francisco está muito certo: a atividade episcopal não é a carreira, é um serviço”, avalia.

 

A igreja e os desafios

Para Dom Mauro, é importante que a Igreja seja formada de comunidades paroquiais autônomas, mas que estejam abertas ao diálogo e à comunhão umas com as outras. “A paróquia deve ter tudo o que precisa como comunidade, seu quadro ministerial é um desafio que elas devem enfrentar. As comunidades não têm autonomia, são muito dependentes e muito clericalizadas. Isso eu acho um grande problema da Igreja”, considera. “Eu defino o que é o clericalismo: é o povo que sabe que depende muito mais dos nossos humores do que dos nossos amores. O que o bispo quer tem lugar, o que o padre quer tem lugar e o que não quer não tem. A Igreja, no seu princípio, era autônoma, e sempre em comunhão, com uma interação muito grande. As coletas eram feitas de um lugar para ajudar o outro”, completa.

 

Trabalho

Dom Mauro conta que, quando era padre, costumava dedicar suas manhãs aos estudos e às orações. À tarde, começava suas atividades na paróquia e seguia até o final da noite. Era comum, inclusive, encerrar as atividades visitando algum velório, para levar solidariedade às famílias da região em que morava. “Nós tínhamos serviços de visita aos doentes. Normalmente eu sabia quem estava mais debilitado, então conhecíamos as famílias, fazíamos uma oração tranquila e às vezes cantávamos os refrãos. Era comum fazermos as visitas em momentos difíceis”, comenta.

 

A viagem e a carta

A viagem de Dom Mauro aos Estados Unidos corria tranquila no mês de outubro de 1974. “Eu estava passeando numa igreja portuguesa em Bridgeport, Connecticut, onde tinha trabalhado como diácono e celebrei a primeira missa, em 1965. Eu estava com o padre lá, e passou o correio. Ele falou ‘Monsenhor Morelli, Monsenhor Morelli’, eu respondi ‘Yes’. ‘Tem um telegrama para o senhor’. Eu não vou dizer para você na entrevista o que eu falei em inglês, mas começa com ‘s’ e estragou as minhas férias (risos)”, descreve Dom Mauro. “Eu já sabia o que era. Era uma carta da nunciatura. Eu tinha uma carona de um colega de turma. São seis horas de carro de Bridgeport à Baltimore para o Saint Mary Seminary University. É um seminário pontifício, o mais antigo. O padre que estava lá abriu a carta, leu e me disse que eu tinha sido nomeado bispo. No documento dizia: ‘Responder a essa nunciatura dizendo ok’, então só pude responder isso”, pontua.

 

A cerimônia e a pizza

Dom Mauro conta que foi a primeira vez que o Brasil teve mais de um bispo, em janeiro de 1975. “Foi muito bonito aquilo, e até houve uma cena muito divertida. Todo mundo foi embora e eu havia vestido aquela batina vermelha, roxa, que usei uma vez só na vida. É a veste litúrgica. A batina branca e preta é roupa de trabalho. Estava hospedado com os capuchinhos, em São Paulo, e alguém me despejou na porta da Catedral. Quando acaba tudo, e as pessoas vão embora, eu fiquei igual ao menino Jesus abandonado no templo”, diverte-se. “Eu, com aquela roupa, pensei: como vou sair na rua? Então vi uma pessoa e perguntei: ‘Meu irmão, o senhor tem um carrinho? Pode me fazer uma caridade?’ (risos) Aí ele me levou até os capuchinhos”, relembra Morelli. “Quando eu chego lá, como de costume, fui ao refeitório e não tinha mais comida”. Por sorte, Dom Mauro encontrou um frade no corredor. “Frei, você já jantou? Não. Então dançou! Eu coloquei uma camisa e fomos. Nosso banquete foi pizza, com muita alegria, inclusive.”

 

Bispado

Dom Mauro explica que, inicialmente, em janeiro de 1975, ficou responsável pela região que hoje inclui Ipiranga e as duas dioceses de Santo Amaro e Campo Limpo, na capital paulista; a chamada Região Sul. “Havia nove anos que um bispo não pisava lá. Eu fui em fevereiro de 1975 e, na primeira vez, a professora explicou para as crianças como era um bispo. Cheguei vestido assim [de calças e camisa negras], e ai, que desencanto! Todo mundo com bandeirinha esperando! Só depois eles descobriram que o bispo não é só roupa”, destaca.

Da periferia de São Paulo, Dom Mauro foi para a periferia carioca, onde permaneceu como bispo de 1981 a 2005. “Saí da Diocese de Duque de Caxias por uma opção de vida e fiquei lá 24 anos. A diocese, quando foi implantada, não tinha um tostão em caixa, tinha só um padre e ninguém sabia onde eu ia morar”. O Bispo relembra que foi feito um acordo em Roma, em que o convento de Santo Antônio dos Franciscanos seria a catedral. “Esse acordo, na minha visão, não devia ter sido feito. Não tinha condição de ter uma equipe de padres para ir a um santuário, um lugar de muito movimento, e o acordo em Roma foi que os frades sairiam de lá depois de cinco anos”, conta. “Eu confesso que o povo me olhava assim quando eu cheguei, ‘Tirou tudo dos frades!’. O povo da diocese era muito bom, mas durante uns dez anos na catedral eu me sentia constrangido até de celebrar lá”, complementa.

 

Teologia da libertação

Dom Mauro nunca teve medo de enfrentar os grandes e conta que nem chegou a ter dúvidas ao se dirigir a Dom Agnelo Rossi  para responder a um documento que o Cardeal havia escrito sobre os perigos, zelos e verdades da teologia da libertação. “Quando vi aquilo, pensei: vou responder — ‘Teologia do genocídio versus teologia da libertação’. Cardeal, eu não vou defender teólogos, nem padres, nem pastores, eu vou defender o povo que o senhor esqueceu”, disparou, na época. “O senhor disse que o povo só quer samba, só quer beber cachaça e não sei o que mais. O senhor vive em uma torre de marfim em Roma e não sabe do que está falando”, complementa.

 

Mobilizações políticas

A lembrança de Dom Mauro rememora os primeiros anos vividos no Rio de Janeiro. Ele conta que, no Rio, o movimento comunitário era muito mais forte que o movimento sindical, sendo que um dos maiores era da Federação da Associação de Moradores. “Tinha uma peculiaridade nesses eventos, na sessão de abertura, todos que iam marcar presença abriam com um discurso e eu fazia o fechamento. Todos eram vaiados, menos eu. Eu fechava aquela sessão dando o tom para o congresso”, conta, sobre as discussões que seriam levadas à Constituinte. “Procurei fortalecer o movimento popular. A diocese não promovia as coisas, mas servíamos de alavancadores, apoiadores. Eu participei de tudo que havia na Igreja no momento”, completa.

O VII Encontro das Comunidades Eclesiais de Base, que ocorreu em 1989, em Duque de Caxias, foi memorável para Dom Mauro. Ele lembra que participaram do evento mais de 60 bispos, dos quais 42 ficaram em casas da comunidade caxiense do Rio. “Foi uma experiência muito rica. Na celebração de quarta-feira, tivemos 10 mil pessoas na praça. Era para ser o tema da América Latina, e acabou sendo Ecumênico. Nós tivemos cem evangélicos participando, até mesmo na coordenação”, conta.

Em 1992, durante a Eco92, Dom Mauro diz que realizaram uma vigília das 22 horas de um dia até às 6 horas da manhã do dia seguinte. “O último ato do Leonardo Boff vinculado à Igreja, como padre, foi a homilia nessa vigília. Naquela noite, era a vigília de pentecostes, nós tivemos 54 nações e 72 Igrejas cristãs, foi impressionante”, recorda.

 

Constituinte

“Em 1985, fui autor do Manifesto do Movimento Constituinte, o único ato exclusivo pela constituinte foi em Duque de Caxias. Nós tivemos gente do Maranhão ao Rio Grande do Sul. Pelas contas, foram sete mil pessoas na praça. O Niemeyer esteve lá, o Lula esteve lá. Havia uma apreensão de que choveria, conforme a previsão do tempo, mas eu dizia — ‘De acordo com a fé, não vai chover’”, relembra e ressalta, a “Diocese de Duque de Caxias foi uma benção para mim”.

 

Dom Mauro levanta-se da cadeira, despede-se dos entrevistadores e segue para a reunião que tinha marcado no Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Enquanto não se aposenta (se é que um dia se aposentará), o Bispo continua a incomodar.

 

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