Exercício do Poder: um dos desafios na Vida Religiosa Consagrada

Por Frei Moacir Casagrande

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Amplidão do assunto. O poder faz parte da vida. Viver é poder, não poder é morrer. Onde há vida há expressão de poder. O poder se expressa de inúmeras maneiras, sempre legítimas, quando direcionadas à realização dos dons que Deus colocou em cada ser, em consonância com o bem dos demais seres. Mas a vida tem vários estágios e condições de transitoriedade que precisam ser entendidas, respeitadas e assimiladas para o bem do próprio vivente. A relação entre os viventes é também uma relação de poder. Isto pode ser verificado inclusive em relação aos seres ditos inanimados. O sal, por exemplo, tem um poder de ação sobre os seres animados, sobre os serem vivos. Um poder próprio de sua composição. Vê-se, portanto, a complexidade que existe na abordagem desta realidade.

Nosso foco, porém, é mais especifico. Vamos tratar aqui do exercício do poder na Vida Religiosa Consagrada (VRC), partindo da dimensão apontada por Jesus aos discípulos e peregrinando pelas ocorrências do termo em todo o Segundo Testamento. “Como sabeis, os que são considerados chefes das nações as mantêm sob seu poder, e os grandes, sob seu domínio. NÃO DEVE SER ASSIM ENTRE VÓS. Pelo contrário, se alguém quer ser grande dentre vós, seja vosso servo, e se alguém quer ser o primeiro entre vós, seja o servo de todos. Pois, o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate pela multidão” (Mc 10,42-45).

Olhando para Jesus. Evidentemente para a VRC a referência do poder e o modelo de uso do mesmo é Jesus e sua prática. O que não converge para isso não tem legitimação. O modelo sistêmico adotado pelo mundo, em que vivem Jesus e os discípulos, está completamente fora de propósito. Jesus é enfático ao falar disso com os discípulos. “Entre vós não deve ser assim”. Isto significa dizer: entre vós não pode haver dominação, imposição, controle, coação, prevalecimento de hierarquia, de privilégios, mandato que nunca termina, caprichos, etc… A prioridade de quem ocupa a posição de liderança, no modelo de Jesus, é SERVIR. Unicamente servir. Grande é quem serve na humildade, pois a grandeza para quem se engaja no Reino de Deus está em servir. Quem serve é capacitado, quem é servido é necessitado.

Já na narrativa do lava-pés ele nos mostra que: a) Servir é prioridade. É o serviço que sustenta a unidade, a comunhão. b) Para servir ao modo de Deus é preciso se despojar. Tirar o manto, distintivo de grandeza e vestir o avental sinal de simplicidade e entrega. c) O serviço precisa ser exercido em rodízio. A rotatividade é um antídoto contra os vícios do poder e ao mesmo tempo um desafio para a mútua capacitação e confiabilidade.  d) O serviço deve atingir a todos, de modo que todos sirvam e também sejam servidos. “Vós deveis também lavar-vos os pés, uns aos outros. Eu vos dei o exemplo” (Jo 13,14-15). Este é o caminho da felicidade, da realização e da humanização. “Sabendo isso, sereis felizes, se o praticardes” (Jo 13,17).

Mas a coisa não para por aí. Servir não é só fazer algo em favor do/a outro/a, é mais, é doar-se em favor do/a outro/a, mais ainda, dar a vida pelo bem do outro. Servir não é só um ato de amizade, de caridade ou de humanidade, é um estilo de vida, um modo ser: “ser para os outros porque escolheu ser para Deus”. Está claro que não se trata de cada um servir ao seu modo, mas ao modo de Jesus, segundo a narrativa do santo Evangelho. E não se trata de coisa circunstancial, para consagrados e consagradas, mas de realidade axial, fundamental, central. É nesse sentido que Paulo orienta a Igreja de Roma para um sério discernimento. “Rogo-vos irmãos que estejais alerta contra os provocadores de dissensões e escândalos contrários aos ensinamentos que recebeste. Evitai-os. Porque estes tais não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao próprio ventre, e com palavras melífluas e lisonjeiras seduzem os corações simples” (Rm 16,17-18). Paulo não está advertindo a comunidade em relação a pessoas de fora, mas em relação a pessoas do meio dela, que nela ingressaram mediante os ensinamentos cristãos e que agora se aproveitam da comunidade em favor de si. É prudente estar alerta para essa realidade entre nós.

Luzes para a nossa compreensão de poder. No mundo grego encontramos quatro termos para expressar o poder. Dois deles: “exousia” = autoridade, e “dinamis” = potência, muito usados nas narrativas evangélicas e em todo o Segundo Testamento. Dois deles: “cratos” = poder, e “iskus” = força, com apenas algumas ocorrências nos escritos neotestamentários. Por meio destes quatro termos queremos nos aprofundar na compreensão do poder, segundo a Palavra de Deus.

I EXOUSIA=AUTORIDADE

O Primeiro termo é “exousia”, traduzido por autoridade, aparece 102 vezes no Segundo Testamento[1] e indica o poder de ação recebido de alguém. Tal poder pode ser dado ou herdado por direito natural, direito legal ou ainda pela liberdade que alguém assume diante de uma situação. AUTORIDADE É UM PODER que pode ser delegado, doado, recebido, partilhado. A autoridade se confirma na eficácia. No caso de liberdade pessoal pode-se também falar de autonomia e/ou de orgulho. Neste último caso entra-se no campo das liberdades individuais que não podem ser dissociadas da corresponsabilidade social. Quando a liberdade individual se dissocia temos um rompimento do tecido social com prejuízo para todos.

No Segundo Testamento “exousia” é o poder concedido por Deus à natureza e ao cosmos. Poder, força e liberdade de agir, de possuir e de transmitir aos outros, conferido pelo Pai a Jesus e, por ele a seus discípulos. Exousia é um poder delegado[2]. Para os cristãos é sempre a expressão do poder de Deus, diante do qual só cabe discernir e acatar. Só Deus tem autoridade própria. “O homem nada pode se arrogar que não lhe tenha sido dado por Deus” (Jo 3,27). Aí se entende a expressão de Paulo: “Ai de mim se não evangelizar” (1 Cor 9,16), pois o Evangelho e a missão de evangelizar que ele possui é puro dom de Deus em Cristo Jesus.

1)A verdadeira autoridade. A autoridade de Jesus é o que encanta os frequentadores das sinagogas (Mc 1,22; Lc 4,32) e as multidões (Mt 7,28-29). Ambos confrontam com a autoridade dos escribas que eram os oficiais do ensino na sinagoga. Eles estudavam, preparavam-se muito para ensinar a Palavra de Deus e a vontade de Deus nela. Mas, segundo Marcos e Lucas seu ensino era sem autoridade.

Onde se encontra então a autoridade do ensino? Na relação direta com a prática, em sua simplificação e clareza de aplicação. Os frequentadores da sinagoga estão acostumados com o ensino dos escribas, por isso estão aptos para opinar no confronto com Jesus. Eles encontraram ainda outra diferença significativa de autoridade entre os escribas e Jesus. Os Escribas nem percebem a presença de espíritos impuros na sinagoga. Diante de Jesus, porém, os espíritos se acusam, são expulsos e saem imediatamente (Mc 1,27). A autoridade de Jesus se impõe pela sua presença, pela sua vivência, pela sintonia com o Pai. Os espíritos não resistem à presença de Jesus, nem subsistem à palavra dele. Diante de Jesus tudo fica transparente. Isto é absolutamente novo e comprova a verdadeira autoridade, pois, esta distingue o mal e liberta dele as pessoas.

2)Autoridade no Templo. A páscoa se aproxima, Jesus vai ao Templo em Jerusalém, expulsa vendedores e cambistas e diz: “Não está escrito: Minha casa será chamada casa de oração para todas as nações? Vós, porém, fizestes dela uma caverna de bandidos” (Mc 11,17). Afinal, quem e o que manda no Templo? Deus, as autoridades, o dinheiro, a oportunidade? No entendimento das autoridades: sacerdotes, escribas e anciãos, o templo está a eles subordinado. Jesus está abusando da autoridade fazendo o que não lhe é permitido e desprezando quem foi instituído como autoridade. Por isso vão tirar satisfação com Jesus (Mc 11,28; Mt 21,23), mas não querem dar satisfações a Jesus (Mc 11,33; Mt 21,24). Este é um absurdo que continua atrapalhando todas as relações também hoje. Vergonhoso é quando acontece dentro de nossas comunidades religiosas e igrejas. Receber e dar satisfação do que está acontecendo e do que se pretende fazer acontecer é absolutamente necessário, um dado básico, para que todos os membros da fraternidade, ou comunidade, exercitem o bem comum.

Abuso de autoridade é o que escribas, fariseus e sacerdotes estão praticando, pois o Templo não está aí para se fazer dele  o que se quer, mas o que se deve fazer. Quem não cumpre e não respeita o dever perde a autoridade. O Templo é casa de oração para todas as nações e não apenas para uma elite escolhida que estabelece quem pode e quem não pode participar, que estabelece os custos, taxas e leis a cumprir no exercício das obrigações religiosas. A autoridade tem a missão de zelar e não tem direito algum de abusar. A prática do abuso desautoriza a autoridade. Fazer o que se quer é mais sinal de arbitrariedade que de autoridade. O Templo não é instrumento de quem lidera, mas graça de Deus para todos. O mesmo se pode dizer da paróquia, da comunidade e da instituição que nos é confiada. À luz do acontecimento do Templo podemos analisar como exercitamos nossa autoridade em relação às pessoas e aos meios que nos são confiados. Somos missionários ou mercenários?

Outro desafio que o texto nos apresenta diz respeito à novidade suscitada por João Batista. Novidade esta que obteve grande adesão do povo, mas as autoridades se recusam reconhecer nela a mão de Deus (Mc 11,29-33). A autoridade recebida de Deus levou-os a um auto endeusamento. Eles acham que tem a bola de cristal para ver e saber de todos os desígnios de Deus. Se Deus não concordar com eles nada feito. Assim a espiritualidade cede lugar a um narcisismo e a uma verdadeira exploração comercial. Tentação que persiste ao longo dos séculos enquanto o ser humano existir. Isso, segundo os evangelistas caracteriza o antievangelho. É o que o diabo gosta de fazer. Tornar absoluta uma autoridade, um poder relativo: “O diabo disse a Jesus: eu te darei toda esta autoridade com a glória destes reinos, porque ela me foi entregue e eu dou a quem eu quiser” (Mt 4,9; Lc 4,6). O dom, o poder e a autoridade de Deus a nos concedidos não são para absolutizar, mas para solidarizar, a serviço da missão.

3)A autoridade de Deus é partilhada. É o que a prática de Jesus demonstra. Ele a partilha com os discípulos capacitando-os para a mesma missão: “Tendo chamado seus Doze discípulos, Jesus lhes deu autoridade sobre os espíritos impuros, para que os expulsassem e curassem toda doença e toda enfermidade” (Mt 10,1; Mc 3,15; Mc 6,7; Lc 9,1). A autoridade é dada com um objetivo bem determinado, trata-se do resgate dos necessitados: expulsar espíritos impuros, curar doenças e enfermidades. A mesma atitude é exercitada em relação ao envio dos setenta e dois: “Eis que vos dei autoridade de pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo, e nada poderá vos causar dano” (Lc 10,19). Exorta, além disso, a não se deixarem tomar pelo medo da morte físico-biológica.  Ela é normal e natural. Matar as condições de vida da pessoa e/ou de outro ser vivo, não demonstra autoridade alguma, mas desumanidade. “Temei aquele que depois de matar tem autoridade de lançar na Geena: sim, eu vos digo, a este temei” (Lc 12,5). A autoridade vinda de Deus é verdade, justiça e amor. Quanto mais doado alguém se faz, mais autoridade se torna.

Jesus garante aos discípulos, por ele enviados, assistência até o fim. “Quando vos conduzirem às sinagogas, perante os magistrados e perante as autoridades não vos preocupeis como ou com que defender, nem com o que dizer” (Lc 12,11). A autoridade partilhada, inicialmente para a missão em Israel, é conferida em favor de todas as nações e por todos os séculos. Israel não é o xodó de Deus, mas o ponto de partida de uma responsabilidade universal. O mesmo se diga dos consagrados e consagradas de hoje: “Jesus aproximou-se deles e disse: Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Ide, pois, e de todas as nações fazei discípulos…” (Mt 28,18). Nisto há coerência com o Primeiro Testamento onde podemos ver Deus, sempre chamando e enviando os chamados, não antes de conferir-lhes autoridade (empoderando) para que, em seu nome e na sua finalidade, exercitem a missão confiada (Ex 3,12; 4,17; 1 Rs 17,5-8; Is 6,5-7; Jr 1,4-10).

4)A razão da partilha da autoridade. A autoridade delegada por Deus é claramente para fazer o bem comum. É evidentemente uma autoridade para servir. Isto se pode apreender da explicação de Jesus, de como será o fim. O Senhor, antes de viajar repartiu e delegou a autoridade de sua casa a seus servos de acordo com cada função. Dentre todas nomeia apenas a do porteiro: “vigiar” (Mc 13,34). Aí está claro que o porteiro é a sentinela de toda a casa. A ele cabe a missão de zelar pela fidelidade à missão e discernir o tempo da chegada do Senhor, mas através dele toda a casa estará de sentinela. Não importa a hora que o senhor chega, mas importa muito a fidelidade do servo na missão que o senhor lhe confiou. Os servos receberam autoridade do senhor, mas para a finalidade, pelo senhor determinada e ponto final.

Enquanto Marcos não nos diz como foi o fim, Lucas narra a situação na volta do senhor. Os que se esmeraram receberam dupla responsabilidade: “Muito bem servo bom, disse ele, uma vez que te mostraste fiel no pouco, recebe autoridade sobre dez cidades” (Lc 19,17). Mas quem não se aplicou perdeu o pouco que recebeu: “Servo mau é segundo tuas palavras que te devo julgar. Tirai-lhe a sua moeda e dai-a a quem tem dez” ((cf. Lc 19,20-24). Há ainda quem abuse da autoridade ou se ache absoluto como é o caso de Pilatos. “Pilatos lhe disse: não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te libertar e te crucificar? Jesus disse: Não terias autoridade alguma sobre mim se não te fosse dada do alto” (Jo 19,10.11). Outros ainda, com Simão o mago, querem fazer negócios com os dons de Deus. “Simão ofereceu dinheiro a Pedro e disse: Dai também a mim esta autoridade para que receba o Espírito Santo todo aquele a que eu impuser as mãos” (cf. At 8,19). O Simão mago quer corromper o Simão Pedro. A proposta dele caracteriza o adultério do poder. O que fazemos nós com a graça da consagração pela qual Deus nos chamou a seu serviço? Exercitá-la em favor do bem comum é a meta apontada por Jesus: “O Filho do Homem não veio, para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate pela multidão”(Mc 10,45).

Paulo apóstolo, escrevendo aos romanos, chega a afirmar que: Toda a autoridade vem de Deus e a ela as pessoas devem se submeter. Quem se rebela contra a autoridade se rebela contra a ordem por Deus estabelecida. Isso porque, segundo Paulo, as autoridades são estabelecidas para o bem comum (Cf. Rm 13,1.2.3). Portanto, se uma autoridade estabelecida não tratar do bem comum, estará sendo infiel a Deus que lhe delegou tal poder. Ela não pode ordenar o mal, e se ordenar não é de Deus.

5)A autoridade que tem sua fonte em Deus. Conforme Atos dos Apóstolos, no comportamento de Paulo se pode fazer um bom discernimento. Há uma autoridade para perseguir, prender e matar, é a que Paulo recebe dos sumos sacerdotes de Jerusalém (cf. At 26,10-12). Tal autoridade se arroga poderes divinos, que, na realidade, não passam de interesses humanos. Obrigar as pessoas a seguirem Deus não é projeto de Deus. Deus não precisa disso. No encontro com o Ressuscitado, no caminho de Damasco, Paulo descobre a autoridade da vida que liberta das amarras da lei e oferece a graça da salvação a todas as nações. Jesus não impõe, ele oferece, não limita, mas amplia (cf. At 26,13-18).

6)A autoridade de Deus se fundamenta na graça e não no direito. Paulo é autoridade na Igreja de Cristo. É evangelizador das nações. É fundador da igreja de Corinto, acompanha-a com suas cartas pastorais. Dedica-se totalmente a serviço do Evangelho e da Igreja. Ele tem os mesmos direitos que todos os evangelizadores, mas, no encontro com o Ressuscitado, descobriu que a gratuidade está acima e além de todos os direitos. Outros evangelizadores ou pseudoevangelizadores exercem autoridade e cobram pelo seu exercício. Não é assim que procede a autoridade do Evangelho segundo a experiência de Paulo. “Se outros exercem essa autoridade sobre vós não devíamos nós com mais razão? Mas não usamos essa autoridade, ao contrário, suportamos tudo para não criar obstáculo ao Evangelho” (1 Cor 9,12). O que prevalece é a autoridade do Evangelho. Por isso Paulo e sua equipe adotam uma nova prática a qual espera-se prevalecer. Não é o Evangelho que está submisso ao evangelizador, mas este ao Evangelho. Tal atitude relativiza muitos atos ou práticas de pessoas, mais dadas ao ciúme do poder, que ao serviço de Deus e de seu povo. Não fui eu que adquiri o Evangelho, mas Jesus que me convidou a entregar-me a ele. Na verdadeira entrega fui tomado pelo Evangelho. Por isso Paulo diz: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Pois a minha vida presente na carne eu a vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Portanto, o meu poder agir é, antes de tudo, graça de Deus.

Assim conclui Paulo: “Qual é então o meu salário? É que pregando o Evangelho, o faço gratuitamente, sem usar da autoridade que a pregação do Evangelho me confere” (1 Cor 9,18). Tem mais. A autoridade precisa também zelar pelos súditos respeitando a condição em que se encontram. “Tomai cuidado para que vossa autoridade não se torne causa de queda para os fracos” (1 Cor 8,9). O conhecimento e a certeza dos entendidos, fortes, não deve se impor aos fracos, curtos de inteligência e simples. O que escandaliza, mesmo que tenha razão, sempre tem maior culpa que o escandalizado. A razão não pode violentar a consciência. Abrir mão do direito, tendo clara consciência dele, é expressão de autoridade, realizada na liberdade cristã.

7)A deturpação do poder. A obediência de Cristo desmascara e destrói toda a autoridade rebelde. Há uma crença em Poderes e Autoridades, Principados e Potestades difusos pelos ares, entre o céu e a terra, influenciando a criação e especialmente a humanidade. Tais autoridades e poderes ultrapassam os limites de suas alçadas e se arrogam mais, do que na verdade, tem condições. “Nele vivíeis outrora, conforme a índole deste mundo e o Príncipe da autoridade do ar, o espírito que agora opera nos filhos da desobediência” (Ef 2,2). Esta crença é boa para quem quer jogar a culpa nos outros e continuar na irresponsabilidade. Desde o pecado de Adão e Eva (Gn 3,9-13) ela tem discípulos e discípulas. Como entramos no domínio de tais poderes? Submetendo-nos aos desejos da nossa carne (Ef 2,3). Paulo, escrevendo aos Efésios e aos Colossenses enfrenta o assunto mostrando que tudo isso, querendo ou não, está submisso a Jesus Cristo. Ele nos arranca do poder das trevas. “Na cruz ele (Jesus) despojou os Principados e as Autoridades, expondo-os em espetáculo em face do mundo, levando-os em cortejo triunfal” (Cl 2,15). O cotejo triunfal deles era colocar Jesus na cruz e assassinar. O modo como Jesus assume a cruz torna ridículo o cortejo triunfal deles.

Enquanto a humanidade seguindo tais poderes, desejos, instintos cai na desobediência e caminha para a ruína, Jesus Cristo por sua humanidade manifesta a riqueza da misericórdia de Deus e nos coloca de novo em condições de superação. “Para dar a conhecer agora aos Principados e às Autoridades nas regiões celestes, por meio da Igreja, a multiforme sabedoria de Deus” (Ef 3,10). Conscientes de que a força de tais poderes é grande e nos pode arrebatar, lançamos mão da vigilância no Senhor. “Pois o nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne, mas contra os Principados, contra as Autoridades, contra os Dominadores deste mundo de trevas, contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiões celestiais” (Ef 6,12). Isso pode explicar, mas nunca justificar nossas quedas, pois “Ele arrancou-nos da autoridade das trevas e nos transportou para o reino do seu Filho amado” (Cl 1,13). “Porque nele foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis” (Cl 1,16). Tudo por Deus foi criado e à ele vai estar submisso por meio de Jesus Cristo. “Ele é a cabeça de todo o Principado e de toda Autoridade” (Cl 2,10).

Na prática acabaram as desculpas para impor, oprimir, abusar, satisfazer nossas vontades e caprichos não importando com o bem dos que fazem parte do nosso mundo. Se por um lado somos fracos e caímos pela influência de superpoderes, por outro, nossa adesão a Cristo nos habilitou e capacitou a superar todos os superpoderes. Abusos, manipulações explicitas ou veladas de poder e autoridade não acontecem sem a nossa permissão ou colaboração. A resposta mais radical a tais iniquidades é o martírio.

8)Autoridade da autoria, a falácia da imitação. Há uma dramática luta entre submissão e rebeldia desde o interior de cada pessoa passando por grupos e organizações em todos os níveis. Não restam dúvidas que a originalidade esteja com o autor, mas os leitores e comentadores podem dar interpretações e vislumbrar luzes, mais além da intenção do autor. Aí se encontra o permanente desafio entre a obediência e a rebeldia. Nesta verdade, vencedor é quem se encaixa na intenção do autor (Criador) e nela permanece até o fim. “Ao vencedor, ao que observar a minha conduta ate o fim, conceder-lhe-ei autoridade sobre as nações” (Ap 2,26). Assim a verdadeira autoridade não está em fazer a própria vontade. A verdadeira autoridade se constrói na entrega à missão de Cristo. Fica evidente a necessidade do cultivo da dimensão espiritual (orante), da relação vivencial com Cristo e com aqueles pelos quais ele deu a vida. O autor de Apocalipse deixa claro que é renhida a luta entre os obedientes e rebeldes, mas os obedientes vencerão pela obediência, isto é, pela fidelidade ao autor e à originalidade do projeto, enquanto os rebeldes sucumbirão pela rebeldia. Os filhos da rebeldia aí tem como símbolo de sua liderança o dragão. “O dragão entregou à besta seu poder, seu trono e grande autoridade” (Ap 13,2). Tal autoridade está totalmente em função de si mesma e tem como fim a autodestruição. Os filhos da obediência, por sua vez, são liderados por Jesus e seguem a sua dinâmica. “Felizes os que lavaram suas vestes para terem autoridade sobre a árvore da Vida e par entrarem na Cidade pelas portas” (Ap 22,14).

9)A força das tentações e o poder que a submete (Mt 4,1-11 e Lc 4,1-13). Orientando-nos pelo confronto de Jesus com as tentações, no deserto, abordamos o uso do poder na satisfação das necessidades básicas da vida. Pois, é disso que se trata quando se fala das tentações sofridas por Jesus. Em tudo, a todo o momento, exercitamos o poder. Há um modo simbólico, integrativo, potencializador e um modo diabólico, dispersivo e destruidor. O Espírito proporciona a Jesus realizar, de maneira definitiva, por meio de sua humanidade, para toda a humanidade, o discernimento do caminho que realmente conduz à vida.

a) O uso do poder para saciar a fome (Mt 4,1-4 e Lc 4,1-4). A idolatria e a ortodoxia na relação com os alimentos. A fome, no ser vivo, faz parte da natureza querida e criada por Deus. Todo vivente precisa se alimentar para se manter vivo e ativo. Mas esta necessidade não pode ser satisfeita a qualquer custo e de qualquer jeito. Há um modo de satisfazê-la sem Espírito, isto é, a qualquer preço como se tudo o mais estivesse a isso subjugado, simbolizado por “transformar pedras em pão”. Usar o poder de transformar em favor de si, não se importando com a natureza e a ordem das coisas, criadas segundo o desígnio de Deus, que é sempre para o bem comum. Jesus se recusa a usar, desse modo o poder, mesmo em favor de sua própria sobrevivência, pois há um modo orientado pelo Espírito para fazer isto.  É um modo moderado, equilibrado e organizado, de saciar a mesma fome na mesma pessoa, simbolizado em “nem só de pão vive o homem…”. Se o pão de trigo alimenta a vida, o pão da instrução pela Palavra garante o sentido dela (cf. Jo 4,32), um não se sustem sem o outro, pelo contrário, um garante o outro. Há um procedimento de saciar a fome, orientado pelo Espírito e um procedimento sem Espírito. Sentir fome e saciar-se é tão normal, tão natural, que muitos têm dificuldade de ver nisso uma prática verdadeiramente espiritual e divina. Quem de nós se dá conta disso? É nessas coisas feitas todos os dias, sem nem mesmo refletir, que disciplinamos e purificamos o uso do poder ou então anarquizamos de vez e destruímos as relações em todas as suas dimensões. Saciar a fome é uma justificativa nobre, mas isso não dá o direito de lançar mão de práticas miseráveis, predadoras, desumanizadoras. Como exercemos o poder na busca de saciar nossas fomes?

b) O uso do poder para expressar brilho próprio (Mt 4,5-7 e Lc 4,9-12). A idolatria e a ortodoxia no desenvolvimento dos próprios dons. O texto, com pequenas variações, entre Mateus e Lucas, diz que Jesus foi incitado a jogar-se do pináculo do templo a baixo para obrigar Deus a manifestar seu zelo. Isso pode ser lido como manifestação de poder e como busca de prazer, experimentar adrenalina, chamar a atenção sobre si, mas, na verdade, é a necessidade de aparecer, ser alguém na vida. Jogando-se abaixo Jesus obrigaria os anjos a acudi-lo, fazendo com que todos vissem o quanto ele era predileto de Deus. Noutra leitura, isso poderia ser visto como divertimento, lazer. Jesus faz seus caprichos, assistido pelos anjos. Não restam dúvidas que o texto queira acentuar o modo como Jesus demonstra quem ele é em sua relação com o criador e com as criaturas. Jesus não veio colocar os poderes celestes a serviço de si mesmo, mas para se colocar a serviço do Reino de Deus pelo Pai e pelo Espírito. “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate em favor de muitos” (Mc 10,45).  Que fazemos nós com a vida que Deus nos brindou? Colocamos a seu serviço ou exigimos que ele nos sirva?

Toda a pessoa precisa crescer e ser alguém na vida. Todos nascem dependentes e são conhecidos pelo referencial de origem, mas os que são sadios empreendem um processo de desenvolvimento que os leva a uma relação interdependente e solidária. No caminho que cada pessoa empreende, para ser ela mesma e construir sua história, sua identidade, pode usar as outras como instrumentos em favor de si e de seus projetos. É o caminho sem Espírito, simbolizado pelo jogar-se do pináculo do templo para ser acudido pelo Pai e aplaudido pelo povo. É o tipo de filho que apronta o que bem quer porque sabe que o pai pode e vai sempre protegê-lo. Nisso se revela a tirania. Mas a pessoa pode também crescer num processo de intercâmbio participativo, de troca solidária, de acolhida e construção mútua, de reconhecimento e acolhida da presença da outra, como dom, graça, carinho de Deus.  É o jeito que revela o Espírito de Deus no humano e o humano no Espírito. As duas atitudes podem acontecer, às vezes, até sem muita consciência de nossa parte.

Toda a relação que se estabelece, com quem quer que seja, pode ser um maravilhoso ato de espiritualidade ou miserável ato de destruição, depende do modo como a estabelecemos e do sentido que damos.

c) O uso do poder para ser especial na vida de alguém (Mt 4,8-10 e Lc 4,5-8). A idolatria e a ortodoxia na lida com os afetos. Aqui o texto deixa claro que a questão é: bens em troca de culto, submissão, adoração, exclusividade. Ficar rico possuindo as coisas do mundo, as criaturas, é colocá-las no centro do próprio interesse, ocupar o tempo nobre com elas. Fazer das coisas a razão e a satisfação de viver se constitui um verdadeiro culto. Em vez de nos cultivarmos com elas, nos destruímos por elas, pois elas nos ocupam, sugam, e estressam. Também pode acontecer que as destruamos em nosso favor sem a consciência da falta que nos fará no dia seguinte. Por outro lado valorizar as pessoas pelas coisas que dão ou têm, significa desfocar o verdadeiro valor que elas têm. O modo como uma pessoa se torna importante em sua vida ou você na dela pode passar pela relação com as cosias, mas não pode depender delas e nem ser alimentado por elas.

Todo o ser vivo, precisa de cuidado, de afeto, de carinho. Mas a pessoa humana precisa ser amada por outra pessoa.  Não é possível manter-se humano perdendo uma relação afetiva livre, espontânea e gratuita. Ninguém pode comprar ou vender a própria dignidade e o reconhecimento da sua pessoalidade. Ela só pode ser acolhida, reconhecida e cultivada. Dar todos os reinos do mundo para ser adorado é comprar o reconhecimento, é mendigar o afeto. Aí está uma relação sem Espírito, isto é, que desumaniza. “Adorar somente a Deus” é reconhecer a relatividade e a finitude do presente, mas experimentar nesse mesmo presente o sabor da plenitude e da eternidade. Adorar somente a Deus é discernir o passageiro no definitivo e o eterno no transitório.

As necessidades, aqui elencadas, são tão elementares que dificilmente alguém reflete o modo como procede para satisfazê-las, mas é nelas que se encontra a origem da construção ou destruição da humanidade. Dificilmente alguém percebe ação, presença do Espírito aí, mas o texto das tentações enfrentadas por Jesus revela isso. No humano de Jesus, por obra do Espírito Santo, é resgatada definitivamente, toda a humanidade. Eis o nosso desafio, discernir e acolher a manifestação cotidiana quase imperceptível do Espírito, isto é, do poder de Deus, que sempre, em todo o tempo e lugar, manifesta o rumo da felicidade nos desafiando na fidelidade.

II DINAMIS=POTÊNCIA

Dinamis” este é o segundo termo grego usado para falar de poder e autoridade, presente 118 vezes no Segundo Testamento[3]. “Dinamis” é raiz de muitas palavras usadas por nós e significa potência, capacidade, energia, aptidão para fazer ou criar algo. É daí que vêm as palavras, dínamo, dinâmico, dinamismo, etc… A “Dinamis” é uma potência que está presente em toda a criação, não somente nos humanos. Para os gregos era o princípio da vida cósmica, a energia divina. Já para o mundo da bíblia a “dinamis” tem origem na vontade divina e é por ela governada (Ex 15,6.13). A mesma potência de Javé que move e guia a história, que criou e conserva o mundo, rege também o destino de cada pessoa. Por isso Deus é visto com poder em sua relação com a natureza, com a história e com a pessoa humana (Jó 12,13-16). A potência de Deus não é puro arbítrio, mas exprime e atua a vontade Dele que é essencialmente justiça (Is 5,16). Direito e justiça representam, no campo ético, aquilo que no campo religioso é a santidade. Já para o Segundo Testamento Cristo é a dinamis (potencia, poder) de Deus. Por isso tudo está e estará a ele submisso[4]. Considerável número de autores traduzem dinamis por milagre, prodígio, força e sinal.

1)Milagre: expressão dúbia do poder de Deus. Segundo os evangelistas, o povo (tanto os esclarecidos quanto os não esclarecidos) tem sede de milagres e, vê neles, expressão máxima de poder de Deus. Certas ações de Jesus causavam grande admiração. “Toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus em voz forte por todos os milagres que tinham visto” (Lc 19,37). Mateus mostra como muitos veem aí um indicador da ação divina. Jesus, porém, prova que pregar, profetizar, expulsar demônios e fazer milagres em seu nome, não é certificado de salvação, nem garantia do Céu (cf. Mt 7,21-23). O que manifesta o poder de Deus na gente não é a invocação de seu nome, nem o conhecimento de seu poder, mas o engajamento em sua causa e a entrega (com a dele) ao Pai. “Não basta dizer: Senhor, Senhor! Para entrar no Reino dos céus; é preciso fazer a VONTADE do meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). “Muitos dirão: Senhor… não foi em teu nome que fizemos muitos milagres? Eu responderei: nunca vos conheci; afastai-vos de mim vós que cometeis a iniquidade” (Mt 7,22). O sucesso por si só não é prova do poder de Deus, mas será prova se vier acompanhado da justiça, da verdade da caridade-amor. A maior expressão da ação de Deus não é a do poder de quem faz, nem a admiração causada nos que assistem, mas o engajamento da pessoa no resgate da dignidade da criação, incluindo a transformação da própria pessoa. E “Dirigindo-se a sua pátria pôs-se a ensinar na sinagoga, de sorte que se maravilhavam e diziam: de onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres” (Mt 13,54; Mc 6,2)? Mas Jesus “não fez ali muitos milagres por causa da incredulidade deles” (Mt 13,58; Mc 6,5). Aí está, para quem quiser acertar, uma boa iluminação para o discernimento e uso do poder.

2)Força, energia e magnetismo divinos: A recepção da força acontece na aproximação, na confiança e na entrega a Jesus. Ele é dono de uma energia capaz de devolver o sentido original da realidade, desfazendo a adulteração. É disso que falam Marcos e Lucas ao nos apresentar a mulher tomada pela hemorragia abandonada a própria sorte. “Imediatamente Jesus tendo consciência da força que saiu dele, voltou-se para a multidão e disse: Quem me tocou?” (Mc 5,30; Lc 8,46). A experiência da mulher é comprovada pela multidão. “Toda a multidão procurava tocá-lo porque dele saia uma força que cura a todos” (Lc 6,19). Não se trata apenas de uma força de cura física, mas de transformação do ser. Paulo experimenta esta força-poder na missão recebida do Ressuscitado. Tal poder supera o medo levando o evangelizador a encarar todas as adversidades da missão. “Na verdade eu não me envergonho do Evangelho; ele é a força de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). “Desse evangelho me tornei ministro, pelo dom da graça de Deus que me foi concedida pela operação de seu poder. A mim, o menor dos santos” (Ef 3,7).

O evangelizador participa da autoridade do Evangelho, que atua nele, na medida em que ele se aplica a evangelização. Isso implica, da parte do consagrado (evangelizador, missionário), uma total entrega à causa de Deus. O empoderamento, o fortalecimento, acontece no exercício oblativo da vida. Daí a necessidade de um constante discernimento entre o poder natural da vida humana e o poder sobrenatural da graça do Senhor que atua, onde encontra docilidade, na vida da humanidade. É nesse sentido que Paulo exorta Timóteo, bispo de Éfeso: “Tens que reavivar o dom de Deus que está em ti desde que te impus as mãos. Pois, Deus nos outorgou não um espírito de medo, mas um espírito de força, amor e domínio de si” (2 Tm 1,6-7). Como se atua o reavivamento? Pela aplicação na fé. Pois “foi pela fé que também Sara, apesar de idade avançada foi capacitada a ter posteridade porque considerou fiel o autor da Promessa” (Hb 11,11).

3)O empoderamento em Jesus e no Espírito: Segundo Lucas, a concepção virginal de Maria é obra do Espírito Santo. “Como se fará isso se eu não conheço homem algum”? Ao que ele responde: “o Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com sua sombra…”(Lc 1,35). Acolhendo a proposta de Deus pelo anjo, Maria é empoderada, para que o desígnio dele se realize, mas isso não acontecerá passivamente. A adesão se mostra no engajamento e no continuo discernimento da vontade daquele pelo qual ela se consagrou. O Espírito não atua na passividade, mas na ativa entrega de Maria ao serviço do Senhor (Lc 1,38). Na mesma linha vemos a atuação de Jesus para com os discípulos: “Convocando os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, bem como para curar doenças” (Lc 9,1).

O empoderamento está em função da salvação o que por isso mesmo implica no aniquilamento, das forças do mal e os agentes de destruição. “Eis que vos dei poder de pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do Inimigo, e nada vos poderá causar dano” (Lc 10,19). Pelo poder e autoridade concedidos por Jesus, os discípulos tem condições de testemunhá-lo onde quer que estejam e no que quer que façam. “Permanecei na cidade até serdes revestidos da força do Alto” (Lc 24,49). “Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas… até os confins da terra”(At 1,8).

Daí o cuidado para não se desligar da fonte e nem descaracterizar suas virtudes na pessoa do/a consagrado/e e do/a evangelizador/a. Cuidado este que Paulo demonstra e expressa em sua missão na fundação da igreja de Corinto. “Minha palavra e minha pregação nada tinham dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração feita pelo poder do Espírito a fim de que a vossa fé não se fundasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus”(1 Cor 2,4.5);  e no zelo pela igreja de Roma. “Que o Deus da esperança vos cumule de alegria e de paz na fé a fim de que transbordeis na esperança pelo poder do Espírito Santo”(Rm 15,13); “ “Para pedir-lhe (ao Pai) que conceda, segundo a riqueza de sua glória, que vós sejais fortalecidos em poder pelo seu Espírito no homem interior, que Cristo habite pela fé em vossos corações”(Ef 3,16).

III CRATOS=PODER para o BEM COMUM e ISKUS=VIGOR FÍSICO

O terceiro termo é “cratos” que significa poder, e compõe a nossa conhecida palavra composta “demo+cracia”, isto é, “cracia=poder” que emana do “povo=demos” e por ele exercido. O jeito mais puro da democracia no mundo grego é a assembleia popular e não a representativa. Esta palavra ocorre apenas dez vezes no Segundo Testamento[5] tratando sempre do poder vindo ou exercido por Deus. “Ele (Deus) agiu com o poder de seu braço e dispersou os homens de coração orgulhoso” (Lc 1,51). Mesmo quando em Hb 2,14 fala dos que o diabo detinha em seu poder, que foram, por Jesus, libertados, trata-se do poder de Deus que em Jesus supera outros poderes.

O quarto termo é “Iskus”. Aparece apenas sete vezes[6] no Segundo Testamento e significa a força e o vigor físico direcionado a Deus como podemos ver em Marcos 12,30 e Lc 10,27 “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e com toda a tua FORÇA”.

Concluindo. Para finalizar vejamos o dom de nascença, poder único, virtude constituinte de cada ser, dado por Deus para realização e a salvação de cada pessoa. Neste sentido é de expressiva importância para nós a parábola dos talentos (Mt 25,14-30). Ali se ensina que o engajamento no dom que Deus nós brinda, partilhado em favor do Reino, é a porta da felicidade eterna. Como administrar em favor da Causa de Deus? Na parábola Jesus nos ensina três elementos fundamentais:

Primeiro: Deus confia nas pessoas. A prova está na entrega de talentos. Talentos são traduzidos por: “dom, virtude, dote, pendor, bem criador”. “A cada um deu (talentos) de acordo com sua capacidade” (Mt 25,15). Isto está mais precisamente explícito no ensino do apóstolo Paulo. “Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos… A um o Espírito dá a mensagem de sabedoria… a outro, o poder de fazer milagres” (1 Cor 12,10). É preciso lembrar que “talento” não é um “donzinho” qualquer. Talento é uma medida que corresponde exatamente a 34.270 gramas (34 quilos e 270 gramas), geralmente de ouro, ou às vezes de prata. Um talento é um grande potencial, isso é o mínimo que o servo recebe de Deus.  Na aplicação ao talento recebido está a felicidade e a realização de cada um.

Segundo: O dom (talento) não é dado para que a pessoa (servo/a) faça o que bem quiser. É dado explicitamente para administrar em favor da causa do dono, isto é de Deus. Mas sua eficácia depende do engajamento da pessoa que recebe. Pode-se perguntar se a pessoa que recebe está preparada para se engajar e atuar o dom? Pela parábola, esta não e a questão de Deus, pois ele oferece, de cara, a cada um de acordo com suas capacidades (Mt 25,15). Assim, a pergunta que cabe é: a pessoa está disposta a colocar, como dom e, pelo dom recebido, a serviço de Deus? O medo que o terceiro servo teve do patrão que ofereceu um talento, a sensação de incapacidade, a falta de confiança, explicam, mas não justificam a falta de engajamento, de resposta e de ação. A cada um é pedido o engajamento na causa de Deus, atuando no que lhe foi oferecido. O apóstolo Paulo manifesta isso de modo bem didático: “Os que Deus dispôs na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos, em segundo profetas, em terceiro mestres, depois o poder de milagres…. Acaso são todos apóstolos?…Todos tem o poder de milagres?”(1 Cor 12,28.29). Mas cada um contribui com a aplicação do poder, pessoalmente recebido, em favor do bem de todos.

Terceiro: O dom precisa frutificar. Da acolhida deste dom, do engajamento na causa de Deus e da produção de frutos com ele, dependem a salvação ou a perdição de cada pessoa (Mt 25,24-30). Olhando para a missão de Paulo podemos acrescentar um quartoponto. O dom de Deus não despreza as fragilidades humanas, nem as faz desaparecer, mas opera não obstante elas ou a partir delas (cf. 2 Cor 12,9). Isso está expresso na experiência pessoal de Paulo, que ele entende ser de todos. “Trazemos, porém, este tesouro em vasos de argila, para que esse incomparável poder seja de Deus e não nosso” (2 Cor 4,7).

Questões para aprofundamento e aplicação:

1 – Que influência tem a prática de Jesus no exercício do poder da Vida Religiosa Consagrada hoje?

2 – Quando há conflito entre a vontade de Deus e a minha; o que faço para prevalecer a de Deus?

3 – A autoridade de Deus se fundamenta na graça e não no direito. Como posso aplicar isso em meu dia-a-dia?

 


[1] Mt 7,29; Mc 1,22; Lc 4,32; Mt 8,9; Lc 7,8; Mt 9,6; Mc 2,10; Lc 5,24; MT 9,8; Mt 10,1; Mc 3,15; Mc 6,7; Lc 9,1: Mt 21,23.24; Mc 11,28.29; Lc 20,2; Mt 21,27; Mc 11.33; Lc 20,8; Mt 28,18; Mc 1.27; Mc 13,34; Lc 4,6.36; Lc 10,19; Lc 12,5.11; Lc 19,17; Lc 20,20; Lc 22,53; Lc 23,7; Jo 1,12; Jo 5,27; Jo 10,18.18; Jo 17,1-2; Jo 19,10.11; At 1,7; 8,19; 9,14; 26,10.12.18; Rm 9,21; 13,1-3; 1 Cor 7,37; 8,9; 9,4-6.12.18; 11,10; 15,24; 2 Cor 10,8; 13,10; Ef 1,21; 2,2; 3,10; 6,12; Cl 1,13.16; 2,10.15; 2 Ts 3,9; Tt 3,1; Hb 13,10; 1 Pd 3,22; Jd 25; Ap 2,26; 6,8; 9,3.10.19; 11,6.6; 12,10; 13,2.4.5.7.12; 14,18; 16,9; 17,12.13; 18,1; 20,6; 22,14.

[2] Cf. Grande Lessico del Nuovo Testamento, Vol III, Paideia, Brescia, coluna 639.

[3] Mt 7,22; 11,20.21; Lc 10,13; Mt 11,23; 13,54.58; Mc 6,2.5; Mt 14,2; Mc 6,14; Mt 22,29; Mc 12,24; Mt 24,29-30; Mc 13,25.26; Lc 21,26.27; Mt 25,15; 26,64; Mc 14,62; Lc 22,69; Mc 5,30; Lc 8,46; Mc 9,1.39; Lc 1,17.35; 4,14.36; 5,17; 6,19; 9,1; 10,19; 19,37; 24,49; At 1,8; 2,22; 3,12; 4,7.33; 6,8; 8,10.13; 10,38; 19,11;Rm 1,4.16.20; 8,38; 15,13.19.19; 1 Cor 1,18.24; 2,4.5; 4,19.20; 5,4; 6,14; 12,10.28.29; 14,11; 15,24.43.56; 2 Cor 1,8; 4,7; 6,7; 8,3.3; 12,9.9.12; 13,4.4; Gl 3,5; Ef 1,19.21; 3,7.16.20; Fl 3,10; Cl 1,11.29; 1 Ts 1,5; 2 Ts 1,7.11; 2,9; 2 Tm 1,7; 2 Tm 3,5; Hb 1,3; 2,4; 6,5; 7,16; 11,11.34; 1 Pd 1,5; 3,22; 2 Pd 1,3.16; 2,11; Ap 1,16; 3,8; 4,11; 5,12; 7,12; 11,17; 12,10; 13.2; 17,13; 18,3; 19,1.

[4] Cf. Grande Léssico del Nuovo Testamento, vol II, Paidéia, Brescia, Colunas 1473-1555.

[5] Lc 1,51; Ef 1,18-19; Ef 6,10; Cl 1,10-12; 1 Tm 6,16; Hb 2,14; 1 Pd 4,11; 1 Pd 5,11; Ap 1,6 e Ap 5,13.

[6] Ef 1,19; 6,10; 2 Ts 1,9; 1 Pd 4,11; 2 Pd 2,11; Ap 5,12; 7,12.

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