A Mistagogia da Castidade em São Francisco

Por Frei Edson Matias

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postura e proposta apresentada no Testamento por São Francisco envolve diretamente uma relação casta de intenso afeto. E essa mesma castidade está intimamente contida na convivência fraterna com os irmãos. Aquele que consegue ser casto abri-se para o amor. Sabe que o amor é liberdade total, gratuidade, que não cobra nada.

A prática da castidade fraterna revela aquele amor maternal que jamais julga ou condena, mas sempre acolhe. O casto sabe pela experiência de que tipo de barro é feito. Pela transparência, que é a castidade, vê o fundo do próprio coração. Vê graças e misérias. Contemplando tal estado é capaz de olhar o outro com o mesmo modo que enxerga a si mesmo. Sentindo fraco – ferido no coração – é capaz de consolar os outros.

Infelizmente hoje a noção de castidade tomou uma interpretação extremamente vulgar. Mesmo no meio cristão tal idéia parece referir somente a sexualidade. Aqui encontramos dois erros: coisificar a sexualidade como algo ruim e entender castidade com tal visão superficial e mesmo sintomática.

O modo que Francisco de Assis viveu aponta para uma experiência profunda e não somente como negação do humano. Se a prática religiosa parte de uma negação da sexualidade ela não é casta. Castidade na mistagogia que Francisco viveu e apresentou a seus irmãos, foi e é por excelência uma transparência intensa e reveladora. Não há esconderijo na relação casta. Tudo é posto a luz. Tudo é aceito como gratuidade penetrante que nenhuma forma de egoísmo pode suportar.

Não há duvida que no primeiro momento a atitude casta deve ser desenvolvida conosco mesmo. Quando temos alguma dificuldade de aceitação, acolhimento de nossas fragilidades, ainda não adentramos na castidade. Quando alguém nega afetos agressivos, invejas, ciúmes, desejo de poder, etc. que vez ou outra emergem, nega uma parte considerável de si mesmo. Nesse sentido acaba turvando a ‘água do coração’: deixa de ser casto. O ambiente afetivo e emocional fica taciturno e superficial. Aqui devemos tomar muito cuidado com os discursos ditos ‘religiosos’ que leva à nossa negação. O ser humano gabaritado no seguimento de Jesus e ouvinte – obediente – do modo de operar do Espírito, entende que ‘os espinhos na carne’ existem e devem ser aceitos para assim compreende-los e em muitos casos resolve-los. A dinâmica no Evangelho de Jesus Cristo, que é compreendido na mistagogia de Francisco de Assim, é como a espada de dois cumes. Ele é eficaz e não está a serviço de nossas finitudes, mas pelo contrário, nos tira de nós mesmos e nos encaminha para os irmãos.

Vemos então que São Francisco fez a vivencia da castidade concretamente na fraternidade. Pois segundo a Carta de São João se digo que amo a Deus que não vejo e odeio meu irmão, sou um mentiroso (cf. I Jo 4). Todo aquele que vive a castidade na dinâmica do evangelho é transparente consigo e com o irmão. Podemos ver isto no Testamento do seráfico santo:

É depois que o Senhor me deu irmos, ninguém me mostrou o que deveria fazer, mas o próprio altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho.

Relações sadias consigo mesmo, em outra palavras, relações castas como nosso mundo mesmo, leva a encontros verdadeiros. Aqui não encontramos inseguranças, medos, posses, receios, etc., pois todos caminham na descoberta de Jesus que se revela em cada um. Francisco percebeu que os irmãos trazem o que ele tanto almejava: Jesus Cristo. A castidade é essencial nesse processo. Sendo a pessoa casta – como a água transparente – Deus emerge nele e a graça tem livre acesso ao seu coração.

Por tudo isso, não devemos confundir “castidade” por “abstinência sexual”. Devemos tirar de nossa espiritualidade toda concepção vulgar sobre castidade e adentrar em seu verdadeiro sentido. Qualquer espiritualidade que olhe a castidade como abstinência sexual não compreende a mensagem evangélica e acaba por perverter a mensagem em uma neurose que se funda no orgulho.

 

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