Sobre a Identidade Franciscana e os Sacramentos

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“O sacramento possui, portanto, um profundo enraizamento antropológico. Cortá-lo seria cortar a própria raiz da vida e estragar o jogo do homem com o mundo”. Leonardo Boff

Sacramentos e identidade estão intimamente relacionados. Os sacramentos são a dinâmica e manifestação daquilo que somos. E, ao mesmo tempo em que são reflexo de nossa expressão, também nos constitui como identidades. Eles não são coisas, não podem ser manipuláveis pela nossa própria vontade. Quando tentamos fazer isso pode sair de nossa ação um teatro mal elaborado. É como se um amante, que não sente amor por sua companheira, dissesse “eu te amo”. Tal dizer soa vazio e sem vida. Não vibra, não toca o coração. Para que se torne verdadeiro deve ter intimidade, proximidade, uma dinâmica afetiva que fala daquilo que somos, tanto em nível pessoal como coletivo. Os elementos que são considerados sacramentos devem estar nessa dimensão profunda da expressão humana.

Percebemos então que a identidade de qualquer pessoa está relacionada aos sacramentos, pois ela trata de tudo aquilo que constitui o ser humano como tal. Leornado Boff, em seu livro Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos, faz considerações significativas ao ‘definir’ o que é um sacramento. Percebemos que se trata daquilo que é mais valoroso, que nos toca profundamente, que nos fala em sua mensagem. “[…] são sinais que contêm, exibem, rememoram, visualizam e comunicam uma outra realidade diferente deles, mas presentes neles”. (BOFF, 1982, p. 18).  São como janelas para outra ‘dimensão’ significativa.

Normalmente tratamos de sacramentos nos nossos trabalhos pastorais e o entendemos como os sete Sacramentos que vivemos na Igreja. Nossa reflexão presente neste texto os envolve, mas também compreende outros elementos presente na constituição do ser humano, na comunidade, na expressão religiosa, e na própria construção de identidade. Logo, nossa discussão envolve os Sacramentos enquanto possibilidade de ‘ação pastoral’, como também as possibilidades do mundo simbólico e significativo de nossas relações com nossos irmãos e com o mundo.

Não há dúvidas quando tratamos também dos sete Sacramentos ministrados na Igreja podem aparecer situações difíceis. Mesmo os sete Sacramentos não podem ser objetiváveis. Ou seja, o problema surge quando os ‘coisificamos’. Não se ‘aprende’ a ministrar sacramentos como se aplica uma injeção ou se monta uma maquete. Uma crítica construtiva cabe a todos nós religiosos: muitas vezes aprendemos nos cursos – seminários ou universidades – como sermos profissionais de uma instituição e não anunciadores do Reino. O profissional médico, engenheiro, etc., entende perfeitamente do objeto de seu estudo e pode repetir e ensinar a outros, demonstrar, realizar, etc. Entretanto, a evangelização não é assim. Não é teoria, conjunto de normas exatas, que basta repedir para funcionar. Os cursos que envolvem com a evangelização devem formar mistagógos (pedagogos do mistério). Aqueles que sinalizam, apontam o caminho, mas deixam que o fiel (do Reino) encontre sua própria direção, resgatando aqueles significados mais profundos que foram revelados na convivência comunitária.

Nesse aspecto, confundir a identidade ministerial dos irmãos clérigos com profissionalismo é extremamente danosa. Não se pode confundir o ministério concedido pela Igreja com o poder de ‘ministra-los’. O Reino não é do poder, mas do serviço. Os Sacramentos presente na igreja são fontes riquíssimas de transformação e sentido para os fieis. Os ministros ordenados devem tomar cuidados e evitar qualquer forma de manipulação da carência religiosa do povo. Não se pode tosquiar as ovelhas, ou formar rebanhos para si. Ou como diz o Evangelho: “Em verdade, em verdade, vos digo: quem não entra pela porta no redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar é ladrão e assaltante;”. (Jo 10, 1). Devemos levar em consideração aqui nossa tendência para ao poder.

Vemos também que o intenso trabalho nas paróquias pode impedir uma vida de reflexão-oração, gerando dissipação e afastamento da vida espiritual e fraterna, núcleo de nosso carisma franciscano. Um dos principais argumentos para o ativismo é de que o trabalho é oração. Entretanto, se pode perguntar se um filho cresce afetivamente sadio se seus pais dedicarem totalmente ao trabalho colocando comida em casa, esquecendo de seu compromisso familiar. Parece que neste caso, o argumento não é sólido e na verdade revela uma dificuldade de relações fraternas reais e mais íntimas.

Apesar da afirmação de que a vida evangélica, vivida em fraternidade, é nosso principal apostolado, na contemporaneidade as atividades apostólicas individuais têm condicionado a vida fraterna. Por causa dessas formas de individualismo os nossos laços de fraternidade talvez estejam mais fracos do que no passado. (CPO V, n. 18). Atividade individual, muitas das vezes, é um sintoma da ‘dissonância fraterna’ da comunidade franciscana capuchinha.

A busca de identidade do irmão leigo também cai muitas vezes no ativismo. “A dissipação interior, que busca uma compensação no ativismo, compromete seriamente por um lado a experiência de Deus na oração e na escuta da palavra, e por outro lado o diálogo espiritual com os confrades”. (CPO V, n. 4). Como muitas vezes os serviços realizados pelos irmãos leigos não são reconhecidos como atividade pastoral, muitos irmãos dentem a acumular funções na província, nas entidades religiosas, universidades, etc. Tal atitude parece ser uma ânsia de demonstrar serviço. Entretanto, essa ansiedade nunca passa, pois o reconhecimento é estrutural. É evidente que uma província estruturada a partir dos serviços paroquiais não vê com bons olhos outras expressões de apostolado ou de ministérios. A luta de serem reconhecido no conjunto é cansativa e até mesmo inútil, pois a questão é outra: histórico-estrutural.

A identidade do irmão leigo tem outras problemáticas. Podemos caracterizar uma delas pela pergunta: O que o frade vai fazer se ele não quer receber a ‘ordenação’? Por exemplo, um irmão, vendo a expansão dos meios de comunicação, escolheu trabalhar nessa área. Fez um curso com todo o empenho e se especializou; Conseguiu, em suas reflexões, construir uma ponte entre evangelização e os meios de comunicação; fez a proposta a seus superiores. Ótimo! Tudo ok. Será? Começam a surgir outras questões: ele ficará sempre nesse trabalho? Não vai ser transferido? Até quando ele mexerá com isso? Em cada mudança de governo pode surgir uma situação complicada. Diferentemente do irmão clérigo, o leigo parece viver em sua formação permanente uma constante instabilidade. Em alguns casos parece que ele não pode agregar a sua identidade um ministério próprio. O clérigo em qualquer lugar que for enviado terá quase tudo definido, ou seja, não se apresenta problemas nas transferências. E surpreendentemente surge um discurso religioso que argumenta que o frade não pode apegar a seu ministério. Mas tal argumento na maior parte não é direcionado para os clérigos. Assim, a exigência feita ao leigo é muitas vezes desmedida.

Identidade, fraternidade e sacramento

“O evangelizador vive a mensagem antes de proclamá-la aos outros” (cf. CPO V, n. 41). Essa afirmação é lógica na dinâmica da identidade e dos sacramentos. Ninguém é sacramento se não se encontra na mesma dimensão do receptor. Caso contrário, como dissemos no início, a mensagem soará falsa e no máximo conseguirá vender uma idéia ou coisa e não a mensagem do Reino. (como se faz com produtos e marcas hoje em dia). Lógico que aqui devemos considerar a caminhada de cada um.

Percebemos então, que todo o frade deve adentrar na dimensão do Reino. Somente assim conseguiremos revelar Cristo e fazer-se sacramento, acenar, ajudar a criar no mundo novos seguidores e implantadores do Evangelho. Mas para que isso aconteça é necessário levar em consideração dois níveis de nossa vocação: oração e atividade. Em outras palavras, compreender nossa dimensão de intimidade com Deus e a pastoral. Lembrando sempre que a última não tem sentido sem a primeira.

Podemos dizer que a verdadeira evangelização nasce da intimidade com Deus, passando pela realização na fraternidade e expressando na atividade pastoral. Ou seja, devemos ter em mete que “O trabalho de cada um dos frades deve ser expressão de toda a fraternidade”. (Const. 76.1). Assim, percebemos que não é as atividades que vem em primeiro lugar, mas nossa relação com o mistério de onde nasce nosso carisma. Por isso “Acautelem-se os frades para não colocarem no próprio trabalho seu fim supremo, nem lhe tenham excessivo apego, nem impeçam o espírito de oração e devoção a que as outras coisas temporais devem servir”. (Const. 76.3).

Como vimos os sacramentos não devem ser instrumentalizados, mas vividos. Vivendo-os nos tornamos sinais, “sal e luz do mundo”. Na profundidade desse Reino seremos transformados na imagem Daquele que seguimos. Dessa forma, tudo em nossa volta se tornará seta para a salvação e afluíram pessoas de todos os lados para ‘ver’ a implantação do reinado de Deus.

Pistas para nossa reflexão a partir dos CPO V

O Evangelho é para nós não só um conjunto de valores para viver e pregar, mas a forma autêntica e o conteúdo de nossa vida e de nosso apostolado. (Cf. V CPO, n. 47).

Conclusão

Logo, todos são convidados a adentrar naquela identidade mais profunda que está alicerçada na revelação de Cristo em nós. Se nossa vocação se encontra enraizada nessa fonte, não existe mais clérigo ou leigo, mas todos em fraternidade, em obediência, seguem a voz do Pastor. Nossa meta é essa: sejamos clérigos ou leigos, todos devem beber da fonte. Teremos diferenciações nos nossos ministérios, mas isso somente é superficial e aparente, pois o importante é: “Não perca de vista seu ponto de partida” (2CtIn 11): Cristo experimentado. Os trabalhos são importantes, entretanto, devem ser manifestação de um seguimento e alegria anterior que nos transfigura em sacramento para o mundo.

Referências

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulina, 1991.

BOFF, Leonardo. Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos. Petrópolis: Vozes, 1982.

CONSTITUIÇOES DA ORDEM DOS FRADES MENORES CAPUCHINHOS. Piracicaba: CCB, 2003.

FONTES FRANCISCANAS E CLARIANAS. Petrópolis: Vozes, 2004.

QUINTO CONSELHO PLENÁRIO. Nossa presença profética no mundo de hoje: vida e atividade apostólica. Garibaldi, 1986.

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