caes-e-moradores-de-rua-8

 

Hoje é um dia feliz. Sim, para grande parte de nós. Os que estão com suas famílias. Os religiosos que estão em suas fraternidades… Todos acolhidos pelo calor humano de seus consanguíneos, seus confrades. Alimentados pela geladeira e dispensa cheias. Até mesmo um espumante para eclodir e celebrar Boas entradas. Felizes. Esperançosos. Por um novo ano. Por melhoras.

Há, porém, um grande número de irmãos e irmãs que não podem contar com essa esperança de Boas Entradas de um Novo Ano. Não estão entre seus familiares. Não estão entre confrades. Nem têm uma geladeira cheia, nem dispensa abastecida. Nem mesmo tem uma moradia. Estão pelas ruas. Moram nelas. Estão em situação de rua. Chamamo-nos moradores e rua, mendigos, trecheiros, andarilhos… Enfim: rotulados, marginalizados. Estes estão esquecidos de nossa misericórdia. Quando sentimos algo, é uma caridade que julga, estigmatiza. Assim como os leprosos dos tempos de São Francisco, podemos até darmos um pão mas a acolhida no coração é difícil. Quem convidaria um mendigo para sentar à sua mesa e partilhar de sua ceia de Natal ou Ano Novo? Penso que ninguém de nós. Sempre pairaria sobre nós o asco. A desconfiança. “Estão sujos. Drogados. Podem me roubar. Dou algo a comer mas que o faça lá fora”.

Nesta virada de Ano, muitos destes nossos irmãos e irmãs desvalidos, estarão nas ruas. Até porque mais da metade dos abrigos e albergues estão fechados nos dias de Natal e Ano Novo. Enquanto festejamos pelo novo ano que se inicia, muitos nem mesmo tem uma cama para dormir esta noite.

Sei que não podemos mudar essa realidade nesta noite de 31 de dezembro. Não, não podemos. Outrossim, entre tantos propósitos de Ano Novo, destes que fazemos de parar de fumar, parar de beber, de emagrecer no próximo ano; entre estes, que possamos nos propôr descruzar os braços e nos colocarmos à serviço destes menos favorecidos. Que possamos ser revestidos da iracúndia divina e protestar contra as injustiças sociais. Que nos coloquemos na condição de corações que acolhem. Que amam. Que se colocam na condição de quem serve. Cada morador de rua é uma face do Cristo que sofre. Sabemos de seus vícios. Sabemos que muitas vezes o morador de rua se colocou nesta condição. Porém, assim como Jesus acolheu o pecador sem lhe lançar o pecado à face, devemos nós ser instrumento da Misericórdia, sem nos outorgarmos o direito de julgar. Acolher sem julgar. Amar sem medida. Ser instrumento de Deus.

Neste ano de 2017, não peço nada a Deus por mim. Peço pelos meus irmãos e irmãs que vivem nas ruas. Peço que possam ter uma cama acolhedora, alimento nas horas certas… Enfim, uma vida digna. Hoje, tomei café da manhã, almocei, terei uma cama para descansar no fim da noite. Neste Ano Novo, peço a Deus que possibilite que meus irmãos e irmãs que estão em situação de rua possam ter o mesmo pois não sou melhor, nem mais merecedor da Graça de Deus que eles.

Frei Abreu

Anúncios