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Por Lucas Gomes Nóbrega

         Durante o século XI ao XIII, a cristandade e a Igreja Católica passaram a sofrer profundas alterações, em decorrência de um movimento reformista, denominado pelo historiador Jérome Baschet como uma “reforma e crescente sacralização da Igreja”. Chamo à atenção do leitor para este conceito acima, que é um ponto-chave deste texto e pode nos trazer importantes constatações: a palavra reforma nos sugere a ideia de mudança, de dar uma nova forma para algo; já a palavra sacralização, não apenas a ideia de tornar santa a Igreja, mas principalmente, a semântica de separar. Tendo isto como base, perceberemos que as “profundas alterações” cujas quais acontecerão buscando “sacralizar” a Igreja, se esforçará em separar o poder laico, do poder espiritual, ou seja, trata-se de impedir quaisquer intervenções na administração eclesiástica.

Os reis e imperadores medievais estavam envolvidos na escolha dos papas, escolhendo em certos casos por questões de interesses, gerando corrupção na Igreja.

         Bom, mas de que forma acontece esta reforma? Podemos destacar, por exemplo, as tensões que passam a acontecer entre papas e imperadores, onde o Vigário de Cristo buscava tornar-se independente da influência do poder do Imperador. É a questão das Investiduras, onde imperadores elegiam quem seria o papa e os demais membros do clero. Os escolhidos eram investidos pelo imperador do cajado e pelo anel, símbolos do papado. Desta forma, os laicos interviam nas questões eclesiásticas, realizando os seus interesses, em detrimento ao pensamento da Igreja.

         Além disso, há o processo de passagem da arte românica, para a arte gótica. Afinal de contas, a igreja de pedra também sofria alterações: os novos conhecimentos arquitetônicos durante a Idade Média permitiram também trazer uma nova entonação para o cristianismo, com uma nova espiritualidade que as igrejas góticas exalavam. Era um novo projeto ideológico. Estas igrejas tinham aspectos inovadores com a adoção dos arcos ogivais, a abóbada sobre cruzeiro de ogivas e o arcobante; através desta combinação, conseguia-se uma profunda luminosidade dentro do edifício, trazendo aos fiéis um sentimento de segurança e de paz, além de vitrais grandiosos que retratavam as cenas bíblicas e permitiam que os pobres iletrados pudessem melhor compreender os sermões dos padres.

         Doravante, um dos aspectos mais marcantes destas alterações, é o surgimento das ordens mendicantes. Através destas, a Igreja conseguirá realizar duas importantes tarefas: a evangelização e a catequização.

         Inicialmente podemos falar sobre a figura de São Francisco. Um homem nascido entre 1181 e 1182 na cidade de Assis, na Itália, filho de um comerciante de tecidos, chamado Pedro Bernadonne.

         A leitura do gênero hagiográfico (hagiografia são as biografias dos santos) acerca de São Francisco de Assis situa-o como um homem que em meio aos desejos de sua família, entrega-se à vida religiosa decidindo viver o evangelho de Cristo segundo tal qual como ele o é, a partir da penitência e da oração. A partir disto, um dos primeiros episódios interessantes sobre a vida de São Francisco é quando ele vai até a igreja de São Damião e supostamente diante de um crucifixo, a imagem de Jesus havia se projetado até ele e feito um pedido: Vá e reconstrói minha igreja. São Francisco atende ao seu pedido e passa a reconstruir a Igreja de pedra, ajudando a revitalizar igrejas da cidade, inclusive a de São Damião que estava em ruínas.

São Francisco de Assis passa a reunir discípulos e viver o evangelho tal qual como está na palavra de Deus.

         Mas a missão de São Francisco era além de ser apenas um pedreiro. Em uma espécie de gesto concreto de sua conversão, vai até praça pública e se desnuda, um ato simbólico, renunciando as suas posses paternas. Abraça o ideal de evangelização através da simplicidade, vivendo a riqueza da pobreza, uma ideia forte, causando impacto até mesmo para a própria Igreja Católica, diante de um homem  decidia não fugir do mundo, mas ir até ele para viver a “santidade”.

São Francisco vai até praça pública e renuncia as suas posses, (afrescos de Giotto na basílica de Assis).

         O papa Inocêncio III em um primeiro momento não viu com bons olhos as ações do poverello (pobrezinho) de Assis, até que em um suposto sonho, Inocêncio III tem uma visão de Francisco sustentando a sua Igreja, decidindo aprovar o modo de vida proposto por Francisco. Por fim, para haver uma regra formal, é redigida uma em 1221 que é recusada (regula non bullata), até que após novas mudanças, atenuando a rigidez da vida franciscana, a regra é aprovada em 1223 (regula bullata) por Honório III.

         Ao mesmo tempo em que São Francisco de Assis ajudava a Igreja Católica com as novas práticas de evangelização, uma ordem também surgia contemporaneamente, a ordem dos dominicanos.

         Em contraste a uma vida voltada a ideia de transmitir o evangelho com facilidade e com ações, os dominicanos têm como base a catequização, através da pregação, apoiada pelos estudos, oração e penitência, guiada por Domingo de Guzmán.

         A ordem foi aprovada em 1217, através da regra de São Bento. Eles passam a desempenhar funções de combate as heresias, de investigação através da inquisição, ligados de forma muito forte ao apego da doutrina da católica, tendo exatamente o nome da ordem como dominicanos, tendo como possibilidade de significado em latim “cães do Senhor” (domini canes).

         Além das ordens franciscana e dominicana, outras ordens mendicantes também surgem nesse contexto: a ordem dos carmelitas e dos eremitas de Santo Agostinho. Todas estas fundem as suas especialidades e passam a suprir as tarefas de evangelização e catequização, principalmente os franciscanos e os dominicanos. Em contrapartida, o clero secular que habitualmente são os encarregados de realizar estas práticas, olham com desconfiança para estes pregadores das ordens mendicantes, cujos quais, passam a ter sermões com mais sucesso que os do clero secular. Lentamente, estes frades vão pertencendo ao coração das cidades, ganhando sucesso e à viver no cotidiano da cristandade, a partir da construção de conventos pertencentes a administração destas ordens.

         Porém, por fim, este movimento reformista acontecido há mais de 800 anos atrás, durante a Idade Média, foi o único envolvendo a Igreja Católica? Bom, respondemos a isto com um singelo não. Mas isto serve de trampolim, para percebermos que há muitos outros movimentos que implodem dentro dessas estruturas, como a “Santa Inquisição”, a reforma protestante ou as cruzadas por exemplo; é importante lembrar que todos estes movimentos estão dentro de um arcabouço ainda muito maior, a história religiosa. E foi sobre um pequeno fragmento dela, que este texto se construiu. Uma história que não apenas olha para o passado, mas que também permite um olhar para o presente: São Francisco morreu, mas os seus ideais parecem estar vivos, não apenas pela Ordem dos Frades Menores ou dos devotos de sua imagem, mas principalmente, a partir do novo papa da Igreja Católica, o argentino Jorge Bergoglio. A própria escolha do seu nome pontifício de Francisco, denuncia a sua tentativa: tentar reconstruir a base da Igreja Católica em função de uma série de escândalos, como os de pedofilia, que estouraram diante do pontificado de seu antecessor, Bento XVI. Através da simplicidade, humildade e um discurso que soa bem nos ouvidos de muitas pessoas, ele tenta repetir o exemplo de São Francisco de Assis.

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