Fiando Aprendizado

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A quem ler este pequeno texto, peço-lhe: não estranhe que eu diga que acho chinelas algo muito místico. Como acho mística a árvore seca: há nesta uma ciclicidade de vida grandemente gratificante. Sou assim desde molecote, árvores secas, e chinelas me falam de mística, e de vida: tempo de existência e missão a cumprir.

Dias atrás, depois de mais de doze anos de uso, enviei meu Hábito Religioso para o conserto, estava puído na barra, nas mangas, e na frente. Recebeu ele remendos. Fiquei contente ao recebê-lo assim, pois ao revesti-lo novamente, agora remendado, vi-me diante do ensinamento de nossa Regra e Forma de Vida, capítulo II, vv. 16-17, quando São Francisco fala para usarmos roupas simples podendo remendá-las. Meu burel me alegrou, pois acho que tenho aprendido muito usando-o.

É de costume não recebermos Hábito novo para vivenciarmos o Ano de Provação (noviciado). Este meu vem desde o meu noviciado. Hoje, contemplando-o, sou grato a ele pelo muito que o Tempo me ensinou:

De sua túnica, surrada e ferida pelo Tempo e pelo uso, aprendi que, meu corpo, por ele, é gentilmente revestido pela forma da cruz: cruz que inspira caminho de redenção, salvação, disciplina e esforço no aprender a ser melhor a cada dia, tendo consciência de minhas limitações humanas: raiva, medo, angústia, rancor, e assim, buscar a polidez.

De seu capuz, queimado pelo sol, gasto pelos dias, aprendo a missão de proteger, e cuidar. Daí a necessidade de, a cada dia, eu ter a consciência das maldades que há em mim, procurar eu iluminá-las com a oração, a meditação, e com a solidariedade.

Do cordão com os nós, aprendo a missão maior: dedicar-me ao cultivo das virtudes teologais, aquelas ditas pelo Apóstolo Paulo em 1Cor. 13, 1 – 13. E para além da fé, esperança e caridade, preciso: aprender a me comunicar melhor com o próximo, e com Deus; aprender a aprender mais; prender que meus relacionamentos sociais, familiares, e caritativos precisam ser gratuitos e capazes de promover transformações reais; aprender que se alcança perfeição por meio de dedicado esforço para superar as próprias limitações, esforço que me dará maturidade humana, espiritual e psicológica para conviver melhor comigo mesmo, com Deus, com o próprio, com o meio ambiente. Aprender que a velhice chega, e que a vida vai fechando seu ciclo, por isso precisamos de “paciência, alegria, perdão, coragem, amor, para me ajudar a superar as fases difíceis da vida” (1Cor. 13, 5-8).

Por isso sou encantado com chinelas, árvores secas, e meu Hábito Religioso: eles me ensinam que, em palmilhando o caminho, – as marcas que ficam, o desgaste do Tempo, as feridas que precisam de remendo, – a preciosidade da gratidão à vida. Que 2017 seja um ano de aprendizados para todos nós. Que a vida nos oportunize recomeços sadios. Que a gratidão habite nosso coração, e nos ensine a pacificar as angústias advindas do Tempo gasto em tecer harmoniosamente os fios de nossa aprendizagem, com suas reviravoltas ordinárias e que, geralmente, ou nos assustam, ou nos alegram.

Frei Ronildo Arruda, ofm.

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