cropped-f.jpg

Em seu documento sobre a vida religiosa, Vita Consecrata, o Papa João Paulo II coloca os meios de comunicação entre os quatro areópagos modernos da evangelização. No número 99 do citado documento, o Papa assim se expressa: “Assim como no passado as pessoas consagradas souberam, com os meios mais diversos, pôr-se ao serviço da evangelização, enfrentando dificuldades, também hoje são interpeladas novamente pela exigência de testemunhar o Evangelho através dos meios de comunicação social. Estes meios alcançaram uma capacidade de irradiação mundial, graças a tecnologias potentíssimas capazes de atingir qualquer ângulo da terra. As pessoas consagradas… devem adquirir um conhecimento sério da linguagem própria destes meios, para falar eficazmente de Cristo ao homem de hoje, interpretando as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dele, e contribuir assim para a edificação de uma sociedade onde todos se sintam irmãos e irmãs a caminho de Deus”.

A palavra “areópago” usada no documento remete-nos ao texto de Atos 17, 16-34, que nos mostra a pregação de Paulo aos atenienses. Em Atenas, o areópago era o tribunal onde se reuniam não só os magistrados, mas também os sábios e os literatos. Estando a pregar nas praças, Paulo foi conduzido ao areópago para, diante da assembléia, explicar a doutrina que pregava. Sabe-se que o resultado de sua explicação não foi tão satisfatório como se esperava. Com exceção de Dionísio, o areopagita, de uma senhora chamada Dâmaris e de poucos outros que se converteram, a maioria começou a zombar das palavras de Paulo.
Portanto, uma pregação fracassada. Mais tarde, dirigindo-se aos Coríntios, Paulo vai reconhecer a causa de seu fracasso: ter recorrido à sabedoria do discurso e deixado de anunciar o Cristo crucificado.

Independentemente do resultado da pregação, o areópago foi para Paulo chance de evangelização. E quando o Papa João Paulo II usa esta palavra em seu documento, a usa como chance, oportunidade privilegiada de levar o Evangelho de Cristo aos homens de hoje.

Em nossos dias, dois temas importantes envolvem a evangelização. O primeiro é a inculturação. Para se evangelizar eficazmente, é necessário evangelizar as culturas, dizia o Papa Paulo VI em sua encíclica Evangelii Nuntiandi. Não basta aplicar um verniz de Evangelho, mas levar o Evangelho até a alma dos povos, até a medula, isto é, até a sua cultura.

O segundo tema é exatamente a comunicação. Não é possível uma evangelização sem a comunicação dos valores do Evangelho. Como poderão os homens crer no Evangelho, se o Evangelho não lhes é transmitido? Como poderá alguém assimilar os valores do Evangelho, se estes não são vistos, ouvidos, palpados e sentidos?

Francisco e Clara estavam muito atentos a essa necessidade da comunicação do Evangelho. Francisco usava os meios de comunicação de sua época: o púlpito e a praça para a pregação. Quando não havia púlpito, improvisava, subia num muro, como aconteceu numa festa da cavalaria em Montefeltro (cf. I Consideração dos Estigmas), mas não deixava escapar a oportunidade de dirigir a palavra à multidão reunida.

Outro meio de comunicar o Evangelho às pessoas era o próprio modo de vida. O modo como Francisco e seus frades viviam era exemplo visível e tocável dos valores evangélicos.

Quanto a Clara, apesar de permanecer fechada no claustro, tinha uma enorme influência e comunicação fora do mosteiro. Vinha muita gente de longe buscar junto a Clara um conselho, um consolo, uma cura, algo que somente Deus pode conceder. O Papa Alexandre IV, na redação da Bula de Canonização, captou de maneira extraordinária a força da comunicação de Santa Clara: “Esta luz permanecia fechada no segredo do claustro, mas emitia para fora seus raios resplandecentes; recolhia-se no estreito mosteiro, mas difundia-se sobre o vasto mundo; mantinha-se dentro, mas emanava para fora. Clara ocultava-se, mas sua vida era conhecida; calava-se, mas sua fama clamava; encerrava-se numa cela, mas era conhecida nas cidades”.

Hoje, temos Rádio, TV, Internet, Vídeo, livros, jornais, etc., etc., etc. São nossos areópagos hodiernos. É necessário fazer desses meios o nosso púlpito, a nossa praça, o nosso muro. Mas antes de tudo é necessário ter o que comunicar, ter a força da comunicação, ter na alma o Evangelho, ter Deus no coração. Como Francisco e Clara.

Frei Celso Márcio Teixeira, OFM

Anúncios