O sonho de José e a chegada do Messias (Mt 1,18-25)

Marcelo Barros*

O evangelho a ser refletido o próximo final de semana fala de um sonho: o sonho no qual José é avisado que sua companheira seria a mãe do Messias esperado. Se antes, lá no Egito, José, o filho de Jacó, interpretava os sonhos do Faraó, agora um novo José é convidado a interpretar os novos desígnios divinos. O texto é extraído do livro Conversando com Mateus.

 

Enquanto Lucas conta que o anjo anunciou a Maria, a comunidade de Mateus conta que o anjo apareceu em sonhos a José. O fato de ser “em sonhos” se liga à tradição dos patriarcas: o próprio José, filho de Jacó. Quem aparece não é um anjo como em Lucas. É o próprio “Anjo do Senhor”, expressão para dizer “a Palavra do Senhor”, “a Glória do Senhor”, uma visibilidade do próprio Deus. José é apresentado como um justo que percebe na mulher a obra de Deus e quer se retirar para não atrapalhar uma obra de Deus que ele não pode compreender.

 

O sonho não é apenas o momento no qual as frustrações do inconsciente se soltam. Através do sono, a pessoa convive com uma dimensão interior mais profunda de si mesma e pode ouvir de modo mais puro a sua vocação.
Na sociedade do tempo de Jesus, havia uma prática cultural chamada do desposório. Através dela, se dava inicio ao contrato de casamento no qual as famílias ingressavam. O casal era considerado marido e mulher. Mas, durante um tempo, ela permanecia na casa de sua família e eles não tinham ainda relações sexuais. Quando o texto diz: “antes de coabitarem, ela engravidou”, está dizendo que eles ainda não moravam juntos e nem tinham tido relações sexuais. Seria, então, compreensível que José concluísse que ela teve relações com outro homem. Na época, isso seria um adultério, porque eles dois (Maria e José) já estavam comprometidos em casamento. Assim, segundo padrões culturais convencionais, Maria está exposta à marginalização social, econômica e religiosa (Existe na Bíblia maldições para mulheres em situações como esta e para seus filhos. Ver Eclo 23,22-26 e Sb 3,16-19 e 4,3-6).

“Ao dizer que ela concebeu “através do Espírito Santo” (ou do sopro divino”), o evangelho fala de uma forma estranha para a sua geração e para todos os tempos. Seja qual for a interpretação que se dê a esta tradição, o fato é que, ao falar assim, o evangelho mostra: Deus rompe com a genealogia patriarcal. (A geração se dá sem ser por um homem macho. Isso naquela cultura era considerado ainda pior do que seria hoje em dia. Jesus e a comunidade dele começam rompendo com o patriarcalismo.

 

José ouve do anjo em seu sonho que tem um papel próprio nesta obra da salvação. O Senhor lhe pede que assuma essa função. José deve dar a Jesus o seu nome para que Jesus possa ser reconhecido como “Filho de Davi”. É José que ligará Jesus à tradição messiânica davídica.

 

O filho que nascerá de Maria será a realização das mais profundas promessas de Deus ao seu povo. Será a visibilidade da presença do Senhor que virá morar com o seu povo (Emanuel). Que forma bonita de falar da ressurreição de Jesus, o que já lemos no capítulo final do Evangelho.
Seria bom nós cristãos ouvirmos a interpretação que as comunidades judaicas fazem dessa promessa de Deus em Isaías 7. Historicamente, referia-se a que o rei Acaz, sem descendente e ameaçado pela Síria e pela Samaria teria como sinal de Deus o fato de que uma moça engravidou e lhe daria um filho. Seria Ezequias: um rei justo e bom, sinal da presença de Deus junto ao seu povo. É claro que, mais tarde, as comunidades judaicas releram esse texto, dando-lhe sentido messiânico. Mas, o fato de interpretar que essa palavra se referia ao Messias que virá não nega que ela tenha tido um primeiro cumprimento no nascimento de Ezequias. Ele não foi o Messias, mas foi uma figura do Cristo.

Cristãos e Judeus esperamos juntos a plenitude dos tempos

Nós, cristãos, cremos que Jesus é o Messias que devia vir. Mas, como ele mesmo deixou claro: aquela não era ainda a sua vinda na glória. Nesse sentido, os cristãos também esperam com Israel a vinda do Messias.

 

No tempo de Jesus, havia muitas correntes messiânicas em Israel. Jesus sempre se ligou à tradição profética. Ele se revelou como “Servo do Senhor”. Ao menos, é assim que a comunidade de Mateus, o mostra no batismo, como no capítulo 12 e no relato da Paixão. Por que, então, nesse primeiro capítulo, frisar esse título de “Filho de Davi”?
De qualquer maneira, deixam uma luz sobre isso quando encerram o capítulo dizendo: “José, despertando do sono, fez como o anjo lhe ordenara e recebeu a sua mulher. E o evangelho salienta que José não a conheceu até que deu à luz a seu filho, o primogênito, ao qual lhe deu o nome de Jesus” (1,25).
Uma leitura deste texto a partir da tradição simbólica da Cabala veria José como aquele que trabalha a madeira ou a obra de suas mãos. Isto significa: trabalha para desenvolver o mais profundo do seu ser. E essa dimensão mais profunda de si é fazer aparecer ao Senhor como único esposo. Ele é o único verdadeiro esposo de Maria, símbolo da comunidade nova. É pela força do Espírito que ela concebe e dá a luz ao seu filho Jesus.
Como nos livros antigos, o prólogo resume todo o livro. Aqui, deixam claro: Jesus é o herdeiro verdadeiro das promessas de Deus a Davi, mas veio ao mundo por obra direta de Deus. Assim ele recebeu o nome que resume sua missão. É o mesmo nome de Josué, o patriarca que introduz o povo hebreu na terra prometida. Jesus (ou Ioshuá) é a expressão humana de que Deus é Salvador. O menino que nasce assim é o verdadeiro Messias de Israel. Os autores do texto não sublinham o que outros textos cristãos dizem:  Que Ele ainda virá como Messias. De fato, cremos que desde que ressuscitou, Ele está conosco todos os dias até a consumação dos séculos. Mas, tanto nós, cristãos, como também, de outra forma, nossos irmãos judeus, esperamos unidos essa “plenitude dos tempos prometida por Deus”.
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