Uma conversa com Clodovis Boff

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O jornal Folha de São Paulo publicou uma entrevista com Clodovis Boff (foto) criticando a Teologia da Libertação (TL) no contexto da eleição do novo papa. Sabemos que entrevistas publicadas em jornais nem sempre expressam corretamente o pensamento do entrevistado por conta da edição, tamanho reduzido da matéria etc. Porém, penso que algumas das afirmações atribuídas a ele parecem ser verdadeiras porque ele as tem manifestado também em seus escritos. Por conta dos limites do tamanho de um texto escrito para internet, vou propor algumas breves reflexões sobre 3 pontos da entrevista.

Uma das críticas que ele faz à TL é que suas correntes hegemônicas não teriam entendido “a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica”, e por preferir não entender essa distinção se degeneraram em ideologia. Como essa distinção está explicitada no livro Teologia da Libertação de Gutiérrez, é difícil imaginar quais seriam essas correntes hegemônicas. Em todo caso, uma das novidades da TL não foi negar ou afirmar a primazia da libertação espiritual sobre a histórica, mas propor uma nova forma de compreender a relação entre as duas. O que os principais teólogos/as da libertação sempre afirmaram é que, em situações de tanta injustiça e morte, a fé em Jesus se torna concreta, se encarna, na experiência espiritual de encontrar na face do pobre a face de Jesus, conforme nos ensina o evangelho de Mateus, cap. 25.

Isso nos leva a outra crítica de C. Boff: “Jon Sobrino diz: ‘A teologia nasce do pobre’. Roma simplesmente responde: ‘Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito’. Assino embaixo”. Da forma como está escrito, é facilmente perceptível que há dois temas em discussão: de onde nascem a teologia e a fé. É claro que a fé cristã nasce em Cristo, mas a teologia não é fé, é uma reflexão sistêmica sobre a nossa experiência de fé e, portanto, não necessariamente precisa começar com Cristo. Eu não sou especialista no pensamento de Sobrino, mas pelo que estudei dele posso afirmar que, para ele, o ponto de partida da reflexão teológica — que é diferente da fé — é o pobre enquanto nele encontramos a face de Cristo entre nós. Em outras palavras, o ponto de partida de teologia é a relação entre Cristo e o pobre. Sobrino diz isso explicitamente: “Existe na cristologia algo de metaparadigmático? A resposta é um ‘sim’ convicto, e o seu conteúdo central é a relação entre ‘Jesus e os pobres’, entre ‘Jesus e as vítimas’” (A fé em Jesus Cristo, 2000).

Como a história da teologia nos mostra que há muitas cristologias que começam discutindo Cristo e não chegam na vida concreta das vítimas e dos pobres, não basta começar só com Cristo. Assim como há muitas reflexões sociológicas que começam com os pobres e não chegam a Cristo ou à discussão sobre Deus porque não são teologias. A TL parte da relação entre Deus/Cristo e os pobres/vítimas. Fora disso não é TL.

Pode ser que o jornalista tenha entendido mal a colocação de C. Boff, mas essa crítica tem sido algo constante nos últimos textos dele sobre a TL.

Por fim, C. Boff diz: “O ‘cristianismo anônimo’ constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais” e endossa a afirmação de dom Romer de que “Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial”. Eu realmente tenho dificuldade de achar que alguém tenha usado a tese rahneriana do “cristianismo anônimo” como desculpa, mas concordo que não basta fazer o bem para ser cristão. Pois isso negaria que um budista ou um ateu pudesse fazer o bem sendo budista ou ateu, sem querer ser cristão, muito menos cristão anônimo. Aliás, na parábola do “juízo final” (Mt 25) a identidade religiosa ou ideológica das pessoas nem entra em discussão. Concordo que ser cristão é assumir uma identidade religiosa ou espiritual e isso requer menção explícita a Jesus Cristo que é nos transmitido pelos evangelhos.

A confissão de fé em Jesus Cristo que se revela hoje no rosto e clamor do pobre faz diferença? Sim! É essa fé que nos permite “ver” a Deus, não através de afirmações filosófico-teológicas de onipotência ou outras categorias “divinas”, mas através da vida e obra de Jesus. É a fé em Jesus que nos faz afirmar juntamente com o autor da 1ª carta de João: “ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos (ágape, amor-solidário) uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é realizado” (1Jo 4.12).

E esse amor solidário aos pobres só sobrevive às frustrações, conflitos internos, vaidades e invejas que experimentamos na luta se for acompanhada de vida comunitária, oração, liturgias e sacramentos. Só assim conseguimos perseverar na nossa missão de anunciar o Reino de Deus aos pobres e vítimas das opressões e não nos perdemos ao confundir Reino de Deus com alguma instituição religiosa ou política.

Há textos considerados da TL que confundem o Reino de Deus com algum Estado ou partido? Ou que falam de pobres sem relacionar com a experiência de fé em Cristo? Ou que não conseguem articular lutas pelas libertações na história com a esperança da ressurreição? Certamente há textos que não explicitam essas relações, mas isso não quer dizer que as negam. E se negar, não é boa TL.

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