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Nos Caminhos de Francisco

Seguir Jesus a exemplo de Francisco de Assis

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dezembro 2016

Poderia, também, ser um Feliz Ano Novo para os Pobres

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Hoje é um dia feliz. Sim, para grande parte de nós. Os que estão com suas famílias. Os religiosos que estão em suas fraternidades… Todos acolhidos pelo calor humano de seus consanguíneos, seus confrades. Alimentados pela geladeira e dispensa cheias. Até mesmo um espumante para eclodir e celebrar Boas entradas. Felizes. Esperançosos. Por um novo ano. Por melhoras.

Há, porém, um grande número de irmãos e irmãs que não podem contar com essa esperança de Boas Entradas de um Novo Ano. Não estão entre seus familiares. Não estão entre confrades. Nem têm uma geladeira cheia, nem dispensa abastecida. Nem mesmo tem uma moradia. Estão pelas ruas. Moram nelas. Estão em situação de rua. Chamamo-nos moradores e rua, mendigos, trecheiros, andarilhos… Enfim: rotulados, marginalizados. Estes estão esquecidos de nossa misericórdia. Quando sentimos algo, é uma caridade que julga, estigmatiza. Assim como os leprosos dos tempos de São Francisco, podemos até darmos um pão mas a acolhida no coração é difícil. Quem convidaria um mendigo para sentar à sua mesa e partilhar de sua ceia de Natal ou Ano Novo? Penso que ninguém de nós. Sempre pairaria sobre nós o asco. A desconfiança. “Estão sujos. Drogados. Podem me roubar. Dou algo a comer mas que o faça lá fora”.

Nesta virada de Ano, muitos destes nossos irmãos e irmãs desvalidos, estarão nas ruas. Até porque mais da metade dos abrigos e albergues estão fechados nos dias de Natal e Ano Novo. Enquanto festejamos pelo novo ano que se inicia, muitos nem mesmo tem uma cama para dormir esta noite.

Sei que não podemos mudar essa realidade nesta noite de 31 de dezembro. Não, não podemos. Outrossim, entre tantos propósitos de Ano Novo, destes que fazemos de parar de fumar, parar de beber, de emagrecer no próximo ano; entre estes, que possamos nos propôr descruzar os braços e nos colocarmos à serviço destes menos favorecidos. Que possamos ser revestidos da iracúndia divina e protestar contra as injustiças sociais. Que nos coloquemos na condição de corações que acolhem. Que amam. Que se colocam na condição de quem serve. Cada morador de rua é uma face do Cristo que sofre. Sabemos de seus vícios. Sabemos que muitas vezes o morador de rua se colocou nesta condição. Porém, assim como Jesus acolheu o pecador sem lhe lançar o pecado à face, devemos nós ser instrumento da Misericórdia, sem nos outorgarmos o direito de julgar. Acolher sem julgar. Amar sem medida. Ser instrumento de Deus.

Neste ano de 2017, não peço nada a Deus por mim. Peço pelos meus irmãos e irmãs que vivem nas ruas. Peço que possam ter uma cama acolhedora, alimento nas horas certas… Enfim, uma vida digna. Hoje, tomei café da manhã, almocei, terei uma cama para descansar no fim da noite. Neste Ano Novo, peço a Deus que possibilite que meus irmãos e irmãs que estão em situação de rua possam ter o mesmo pois não sou melhor, nem mais merecedor da Graça de Deus que eles.

Frei Abreu

A sensibilidade poética e musical de São Francisco de Assis

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São Francisco pretendia que os irmãos fossem pelo mundo, pregando o Evangelho e cantando os Louvores do Senhor – as Laude Domini, depois do sermão, em todos os lugares, como Jograis de Deus – Joculatores Dei, porque: “Que são, na verdade, os servos de Deus, senão jograis que procuram comover o coração dos homens, até os levar às alegrias do espírito?”

Francisco, que igualmente se intitulava o “Arauto de Deus” – Giullare di Dio, ao falar assim de “servos de Deus”. Queria e dizia que fizessem assim: primeiro, falaria ao povo o mais competente para pregação; depois cantariam todos os Louvores do Senhor, como jograis de Deus. Acabado o cântico, o pregador diria ao povo: “Nós somos os jograis de Deus, e a única recompensa que nós queremos é que leveis uma vida verdadeiramente penitente”.

O Espelho de Perfeição, um dos textos que integram as Fontes Franciscanas, narra-nos um episódio que ilustra bem esta simbiose “cavaleiro-jogral” em São Francisco. Inebriado de amor e compaixão por Cristo, o santo procedia por vezes assim:

“A suavíssima melodia espiritual que botava dentro dele jorrava frequentemente para o exterior e encontrava expressão na língua francesa, e a poesia dos murmúrios divinos ouvidos por ele em segredo irrompia em cânticos de júbilo nesta mesma língua. Outras vezes colhia do chão um pedaço de madeira e colocava-o sobre o braço esquerdo; com a mão direita pegava outro pedaço à maneira de arco e passava-o e repassava-o sobre o primeiro, como se estivesse a tocar viola ou outro instrumento. Fazendo os gestos apropriados, cantava em francês ao Senhor Jesus Cristo. Toda esta jovialidade terminava em lágrimas, e a alegria convertia-se em compaixão pelos sofrimentos de Cristo. Nessas ocasiões, arrancava do coração contínuos suspiros e, redobrando os seus gemidos, esquecia-se do instrumento que tinha nas mãos e ficava longo tempo arroubado em êxtase celestial.”

Fonte do texto: Joculatores Dei por Musica OFM-Portugal.

A Pedagogia Divina e a lógica humana

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A lógica de Deus não é a nossa, isto porque a nossa lógica se baseia apenas nas leis naturais, enquanto a lógica divina tem como fundamento a lei perfeita do amor. Em nossa lógica medimos tudo, pontuamos, criamos regras, fórmulas, para obtermos os resultados desejados; em Deus não há medida, não há fórmulas contingentes, mas há dois dons fundamentais que nos ajuda a entender o agir divino em nosso favor. São eles, fé e obediência; pela fé acreditamos nos santos mandamentos, que é a lei perfeita do amor, e que nos leva a percorrer o caminho da perfeição; e a nossa obediência como correspondência amorosa para que Sua teofania (ação direta de Deus) plenifique nossa vida.

Eis o que a Sagrada Escritura nos ensina sobre a pedagogia divina e a lógica humana:

Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar; invocai-o, já que está perto. Renuncie o malvado a seu comportamento, e o pecador a seus projetos; volte ao Senhor, que dele terá piedade, e a nosso Deus que perdoa generosamente. Pois meus pensamentos não são os vossos, e vosso modo de agir não é o meu, diz o Senhor; mas tanto quanto o céu domina a terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos. Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão”. (Is 55,6-11).

Desse modo compreendemos que a fé não é uma teoria, mas uma prática que fundamenta o dom amor de Deus em nossa vida; e a obediência é o dom que em nós acolhe a vontade do Senhor… Ou seja, a Palavra de Deus dita se realiza, enquanto a vontade humana a segue por meio da fé e da obediência; pois de Sua Palavra dependemos cem por cento, não somente nós, mas também toda a criação… Então, sejamos testemunhas da Palavra Divina, pois só há autenticidade no agir humano, quando ele tem como fundamento o que Deus fala e faz…

Vejamos como se dá isso:

Irmãos, também eu, quando fui ter convosco, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Eu me apresentei em vosso meio num estado de fraqueza, de desassossego e de temor. A minha palavra e a minha pregação longe estavam da eloquência persuasiva da sabedoria; eram, antes, uma demonstração do Espírito e do poder divino, para que vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.

Entretanto, o que pregamos entre os perfeitos é uma sabedoria, porém não a sabedoria deste mundo nem a dos grandes deste mundo, que são, aos olhos daquela, desqualificados. Pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. Sabedoria que nenhuma autoridade deste mundo conheceu (pois se a houvessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória).

É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus.

Pois quem conhece as coisas que há no homem, senão o espírito do homem que nele reside? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais.

Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém. Por que quem conheceu o pensamento do Senhor, se abalançará a instruí-lo (Is 40,13)? Nós, porém, temos o pensamento de Cristo. (1Cor 2).

Destarte, “Ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos! Quem pode compreender o pensamento do Senhor? Quem jamais foi o seu conselheiro? Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém”. (Rom 11,33-36).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

Não temas, Jesus é o Senhor!

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Ribamar Portela*
É comum se ouvir nas igrejas, nas praças, nas ruas e em encontros religiosos o discurso feito por pessoas zelosas que estão preocupadíssimas com o “pecado” e com o “demônio ”(aqui se verá a diferencia entre demônio e Diabo) .
No primeiro caso (pecado) bradam fortemente quase como que querendo forçar os ouvintes a uma conversão. Claro que se deve no dia a dia romper com o pecado. Entretanto, a forma como essas pessoas falam dar a impressão que são santas e as demais pessoas a quem estão falando vivem mergulhadas no pecado. Segundo o pensamento desses pregadores e pregadoras esses ouvintes estão com um pé no inferno e, por conseguinte Deus está longe deles.
Olhando para a Bíblia se ver que também existiam pessoas que se achavam puras enquanto condenavam como impuras as demais. Estas estavam separadas de Deus conforme o pensamento dos puros. Para se ter uma idéia clara do que se está falando basta ler, por exemplo, Levítico e Esdras que fazem parte do Primeiro Testamento e os Evangelhos que são do Segundo Testamento onde mostram a preocupação exagerada de alguns com a questão da pureza.
A questão do puro e impuro era forte criando um abismo entre Deus e os impuros. Quem eram os impuros daquele tempo?
• a mulher: quando dava à luz um menino, ela ficava impura por quarenta dias. Se fosse menina sua impureza durava oitenta dias (cf. Lv 12, 1-5). No seu período de menstruação estava impura (cf. Lv 15, 19);
• homem ou mulher que apresentasse um mancha, uma inflamação ou furúnculo na pele e depois ter Sido constatado pelo sacerdote como sendo lepra (cf. 13, 1-3).
• Estrangeiros/estrangeiras: “O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas cometeram as mesmas abominações que a população local, formados de cananeus, heteus, (…); eles e seus filhos se casaram com mulheres estrangeiras, e a raça santa misturou-se com a população local.” (Eds 9, 1-2)
Hoje que são considerados como impuros/impuras em outras palavras, pecadores/pecadoras? São:
• Homosexual (no inicio do HIV os puritanos viam como castigo divino)
• A mulher divorciada que refaz sua vida com outro homem, ou vice-versa;
• O homem e a mulher que vivem juntos sem serem casados na Igreja (embora muitos vivam mais unidos que muitos que passaram pelo sacramento do matrimônio);

Para os vigilantes da vida alheia os pecados dos outros são de uma proporção sem medida. Contudo, esquecem que podem não ter um determinado pecado, mas tem um outro, pois quem é sem pecado neste mundo para poder jogar a primeira pedra? (cf. Jo 8, 7). Tem gente que é casado na Igreja, porém bate na sua companheira, comete adultério; outros nunca se prostituíram, contudo não conseguem deixar de falar da vida do próximo, de levantar falso testemunho; outros e outras guardam uma profunda mágoa de alguém. Portanto não convém a ninguém julgar e condenar a quem quer que seja por levar a vida como leva. Convém sim olhar para a própria vida como bem diz Jesus:
“Não julguem, e vocês não serão julgados. De fato, vocês serão julgados com o mesmo julgamento com que vocês julgarem, e serão medidos com a mesma medida com que vocês medirem. Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão, e não presta atenção à trave que está no seu próprio olho? Ou, como você se atreve a dizer ao irmão:

‘deixe-me tirar o cisco do seu olho, quando você mesmo tem uma trave no seu? Hipócrita, tire primeiro a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem para tirar o cisco do olho do seu irmão.” (Mt 7,1-5)
Ao falar tudo isso não quero ser entendido como aquele que está dizendo às pessoas “podem pecar “como tem acontecido quando falo que Igreja/Religião não salva tem-se pensado que estou falando para as pessoas irem para outras Igrejas/Religiões. Na verdade estou querendo que respeitem as Igrejas/Religiões dos outros. Que se deixe a intolerância religiosa. Que entenda que Deus “aceita quem o teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertença.” (Atos 10, 35). Que “ Ἡ σωτηρία τῷ Θεῷ ἡμῶν τῷ καθημένῳ ἐπὶ τῷ θρόνῳ καὶ τῷ Ἀρνίῳ” (“A salvação pertence ao nosso Deus que está sentado no trono, e ao Cordeiro”) (Apo 7,10). Aliás, se entendesse profundamente esse versículo citado do Apocalipse se olharia para cada irmão e irmã com um olhar menos condenatório, se pregaria menos moralismo. Se deixar penetrar pelo texto de Mateus citado acima “Por que você fica olhando o “κάρφος” (cisco) no olho do teu irmão, e não presta atenção à “δοκὸν” (trave) que está no seu próprio olho?” (7,3) olhar-se-ía primeiramente para si mesmo (a), para o seu próprio pecado que talvez seja bem maior que o do irmão ou da irmã que tanto tem julgado/a. Cabe aqui falar na mitologia grega: Tétis segurou seu filho “Aquiles” pelo calcanhar quando este era criança e o mergulhou no rio Estirge. Este rio tornava invulnerável tudo que fosse banhado pela suas águas. Assim, Aquiles tornou-se invulnerável com exceção do seu calcanhar que não fora mergulhado no rio Estirge. Na guerra de Tróia, ele é morto por Páris que acerta em seu calcanhar direito com uma flecha (BRANDÃO, 1986).
Todo ser humano tem seu “calcanhar de Aquiles” (seu ponto fraco) não devendo, portanto condenar ninguém, mas procurar ser solidário com os que são tidos como impuros (pecadores). Todavia é mais fácil olhar o ponto fraco do outro condenando de imediato como fez aquele fariseu: “Vendo isso, o fariseu que havia convidado Jesus ficou pensando: “Se esse homem fosse mesmo um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, porque ela é pecadora” (Lc 7, 39) do que ver o que há de bom como fez Jesus (apesar de não ter pecado algum) (cf. Lc7, 40-47). No versículo 47 se pode notar claramente que Jesus “ver no comportamento daquela mulher impura e pecadora o sinal palpável do perdão de Deus : “Muito deve ter-lhe sido perdoado, porque é muito o amor e a gratidão que está mostrando” (PAGOLA, 2012) e aquela mulher pecadora (prostituta) ouviu de Jesus “ Ἡ πίστις σου σέσωκέν σε• πορεύου εἰς εἰρήνην” (“Sua fé salvou você. Vá em paz!”) (Lc 7,50).
Será então, que não se deve mais falar contra o pecado? Claro que sim! O que não se deve é fazer o que se tem feito. Tem-se condenado de imediato pessoas principalmente se tratando de sexo (este é visto como um pecado terrível se for fora do sacramento) mas porque não se ver essas mesmas pessoas que condenam os outros por questão de sexo denunciar um dos grandes pecados que é a “corrupção” que quando praticado acarreta conseqüências terríveis. Os resultados que vêm pela prática deste mal massacra a grande maioria da população: faltam verbas para:
• manter hospitais públicos funcionando de fato,
• educação de qualidade
• saneamento básico
Esse pecado não é denunciado por essas pessoas moralistas. Contudo digo que se deve sim denunciar, contudo sem condenar. Jesus não condenou ninguém, aliás dele é dito: “Eis o cordeiro de Deus , aquele que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). No evangelho de João “mundo” tem significados diferentes. No versículo citado representa a humanidade. Jesus é o cordeiro de Deus que tira o pecado da humanidade e não que condena.
Como é difícil para muitos aceitar esse Deus apresentado por Jesus de Nazaré: “Deus misericordioso”. Pensam que a justiça de Deus é como a justiça humana e desse jeito estão presas ao sistema de méritos. A justiça de Deus é totalmente diferente da humana. A justiça divina está unida à sua misericórdia isso pode ser visto em Apocalipse 4,1-3:
Depois de escrever as cartas às igrejas, eu, João, tive uma visão. Havia uma porta aberta no céu, e a primeira voz, que tinha ouvido falar-me como trombeta, disse: “Suba até aqui, para que eu lhe mostre as coisas, que devem acontecer depois dessas.” Imediatamente o Espírito tomou conta de mim. Havia no céu um trono e, no trono, alguém sentado. Aquele que estava sentado parecia uma pedra de jaspe e cornalina; um arco-íris envolvia o trono com reflexos de esmeraldas.
“Aquele que assentado no trono é Deus” que é Juiz. Contudo é dito que “um arco-íris envolvia o trono com reflexos de esmerada”. Esse arco – íris simboliza a misericórdia que envolve todo o trono. A justiça e misericórdia estão juntas em Deus e isso é muito bom! Sim, isso é muito bom porque todo mundo peca, porém não deve baixar a cabeça pelo contrário deve saber que o amor de Deus manifestado em Jesus supera todo e qualquer pecado e assim ter ânimo:
“Meus filinhos, eu lhes escrevo tais coisas para que vocês não pequem. Entretanto, se alguém pecou, temos um advogado junto do Pai: Jesus Cristo, o justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados; e não só os nossos, mas também os pecados do mundo inteiro” (1Jo 2, 12).
É preciso ter em mente que ninguém é salvo pelos próprios méritos. Quem quer ser salvo por seu próprio esforço se separa de Jesus Cristo: “ κατηργήθητε ἀπὸ Χριστοῦ οἵτινες ἐν νόμῳ δικαιοῦσθε, τῆς χάριτος ἐξεπέσατε” (Vocês que buscam a justiça na Lei se desligaram de Cristo e se separaram da graça) (Gl 5,4). Digo tudo isso para que todo (a) pecador (a) não tenha receio de invocar o perdão divino que já foi conquistado por Jesus. Sim, a separação que fora colocada entre os impuros e Deus já não existem mais. E neste momento ergue-se a pergunta “quando foi que deixou de existir?” A resposta está nos evangelhos sinóticos Mc 15, 37-38; Mt 27, 51; Lc 23,45. Veja o que diz, por exemplo, Mc 15, 37-38: “Então Jesus lançou um forte grito e expirou. Nesse momento, a cortina do santuário se rasgou de alto a baixo, em duas partes.”
Se de fato a cortina rasgou-se não é tão importante. Importante é o que os autores dos evangelhos sinóticos querem dizer, ou seja, que toda pessoa tem acesso a Deus, tenha ela pouco ou muitos pecados e isso graças a Jesus. Antes disso, só o sumo sacerdote podia entrar uma vez por ano no Santo dos Santos que estava longe do acesso de qualquer pessoa devido o véu que marcava tal divisão e fazer a expiação pelos pecados do povo. O sumo sacerdote era um intermediário entre o povo e Deus.
Segundo os evangelhos sinóticos os seres humanos têm acesso a Deus. Nenhum pecado por maior que seja é capaz de por entre o ser humano e Deus o véu que já foi rasgado e como bem diz São Paulo “nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 8,39). Portanto, as pessoas que vêem e condenam as outras como impuras/pecadoras procurem entender quão misericordioso é o Pai de Jesus, o Nazareno e que ele é livre para agir com compaixão com quem quiser
’Amigo, eu não fui injusto com você. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é seu e volte para casa. Eu quero dar também a esse, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você. Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso?’ (Mt 20,13-15)
A outra preocupação dita acima é com o demônio. Nas pregações se ouvem muitos pregadores e pregadoras falando do demônio a ponto de este parecer superior a Deus. Contudo é preciso esclarecer que:
Quando os evangelhos mostram Jesus expulsando demônio tem que se entender que não estão descrevendo no sentido que se entende hoje: uma entidade que entra em uma pessoa e a controla totalmente, mas trata-se de doenças que a ciência daquele tempo não tinha como explicar:
Quando a causa de uma doença era perceptível pelos sentidos e se sabia a causa do sofrimento, não era então atribuída aos demônios ou aos maus espíritos. Não era preciso. Estava claro que a causa da enfermidade era uma ferida externa ou a deterioração de algum membro do corpo. […] Mas, de repente, apresentava-se um homem mudo. Podia comprovar-se que sua boca e sua língua estavam em perfeitas condições, mas surpreendentemente, ele não podia falar. Como era possível tal anomalia? Só podia haver uma explicação: tinha um demônio (Mt 9, 32), Ou aparecia alguém que era surdo. O aspecto externo de suas orelhas era normal, como o de todos. Mas não podia ouvir absolutamente nada. A explicação da época: tem um demônio (Mc 9,25). O mesmo acontecia com quem sofria de epilepsia. […] nenhuma causa externa podia apontar-se para explicar tal fenômeno. Somente podia dizer-se que possuía um demônio (Mt 17, 14-20). Em caso de loucura ou demência, acontecia algo semelhante. […] Era, portanto, necessário evocar forças desconhecidas para justificá-la: os demônios. (VALDÉS, 1999, p. 8-10)
Também tem que se saber que a palavra δαιμόνιον (demônio) não tem o mesmo significado da palavra διάβολος ((Diabo). A palavra Diabo traduz na Bíblia o termo hebraico “Satanás”. Isso significa dizer que ao se falar do Diabo está se falando de Satanás e nunca de demônio além do mais não existe nenhuma passagem bíblica que diz que alguém está com o Diabo ou Satanás dentro de si. As Escrituras mostram que o Diabo / Satanás tenta o ser humano para pecar (VALDÉS, 1999), contudo ele não pode forçar a ninguém a fazer o que não quer: “resistam ao diabo, e este fugirá de vocês” (Tg 4, 7).
Eis aqui uma Boa Notícia: não se deve temer o Diabo/Satanás. Ele pode apenas tentar, mas jamais pode obrigar alguém a fazer o que não quer e Jesus diz “Eu vi Satanás cair do céu como um relâmpago” (Lc 10, 18) ora se Satanás caiu do céu perdeu poder. Quem crer em Jesus não deve temer o Diabo afinal quem é que está à direita de Deus: aquele que caiu do céu ou Aquele que “foi levado para o céu” ( Mc 16, 19; Lc 24, 51) e que foi constituído por Deus como Senhor e Cristo (Atos 2, 36)? Deve-se temer o demônio? Também não, pois como foi dito se tratava de doenças desconhecidas pela ciência da época e como a Igreja não fica parada no tempo ela já não se opõe à Ciência como no passado com exceção em um ponto como bem diz o professor de Teologia Bíblica Frei Isidoro Mazarollo:
Atualmente, a relação da Igreja com a Ciência tem sido harmônica. A princípio, sua preocupação não é com uma descoberta em si, e sim com os meios utilizados para isso. Quando de fato o processo para alguma descoberta fere ou ameaça a ética relativa à vida humana, dentro dos preceitos da Igreja, ela se posiciona, pois há uma preocupação com a vida. A priori, a Igreja é favorável ao desenvolvimento científico, tanto na área humana quanto no desenvolvimento tecnológico.
(http://redeglobo.globo.com/…/igreja-x-ciencia-atual-comunha…)
E o Catecismo da Igreja Católica afirma:
Fé e ciência. «Muito embora a fé esteja acima da razão, nunca pode haver verdadeiro desacordo entre ambas: o mesmo Deus, que revela os mistérios e comunica a fé, também acendeu no espírito humano a luz da razão. E Deus não pode negar-Se a Si próprio, nem a verdade pode jamais contradizer a verdade» (30). «É por isso que a busca metódica, em todos os domínios do saber, se for conduzida de modo verdadeiramente científico e segundo as normas da moral, jamais estará em oposição à fé: as realidades profanas e as da fé encontram a sua origem num só e mesmo Deus. Mais ainda: aquele que se esforça, com perseverança e humildade, por penetrar no segredo das coisas, é como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta todos os seres e faz que eles sejam o que são, mesmo que não tenha consciência disso» (31).
(http://www.vatican.va/…/ca…/index_new/p1s1c3_142-184_po.html)
Hoje diante dos avanços da Ciência
a Igreja continua falando do Diabo, mas já não tanto do demônio. Segue preocupada com as tentações, mas lentamente foi abandonando sua crença nas possessões. O Concílio Vaticano II, em todos os seus documentos, menciona-o apenas três vezes e sempre em passagens bíblicas. […] E, enquanto os antigos catecismos falavam com mais detalhes da vida e da ação dos demônios, o Novo Catecismo o Novo Catecismo dedica-lhe apenas dois números. Assim também a oração oficial da Igreja menciona-o muito pouco. Em 1969 modificou o ritual do batismo, no qual se recitavam sete exorcismos, porque era considerado como uma grande batalha contra o demônio que habitava o recém-nascido e elaborou um novo ritual, sem essas orações.Três anos mais tarde o papa Paulo VI suprimiu a ordem dos exorcistas. Com isso nenhum sacerdote recebe mais este ministério. E em 1984, João Paulo II publicou um novo Ritual Romano em que se elimina definitivamente da Igreja Católica a cerimônia do exorcismo. (VALDÉS, 1999, p. 16-17)
Tudo isso que foi falado não deve abalar a fé de ninguém afinal o ponto central do Cristianismo é a fé na Santíssima Trindade e não no demônio. A fé deve continuar mais viva do que nunca. Não se deve ter pavor do demônio, mas expulsá-lo: “Os sinais que acompanharão aqueles que crerem são estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas. […]quando colocarem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados” (Mc 16, 17s). Mas hoje quais as pessoas que se pode ver que seus olhos não apresentam nenhum problema, seus ouvidos estão em perfeito estados e sua boca não têm nenhum anomalia, contudo não vêem não escutam nem falam (não tem voz nem vez) e isso “causado pelo sistema social, político e mesmo religioso” que as impedem de verem, ouvirem e falarem? Muitos são os demônios que precisam ser expulsos para que as pessoas tenham mais vida experimentem o “Reino de Deus”. Tais demônios são:
A fome, o desemprego, a falta de moradia própria, a corrupção,… Tudo isso deve ser expulso para que se viva como realmente Deus quer e deixar de colocar culpa de algum mal praticado ou sofrido no demônio e assumir os próprios erros para haver realmente uma conversão e se lutar continuamente contra o pecado, o Diabo e o demônio sem temer, pois Jesus é o Senhor!
*Teólogo e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos)
Referências bibliográficas:
VALDÉS, Ariel Álvarez. Que sabemos sobre a Bíblia? 4. ed. Aparecida, São Paulo: Santuário, 2003; Volume 4
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. 2. ed. Petrópolis: 1986; Volume 1

Disponível em: <http://redeglobo.globo.com/…/igreja-x-ciencia-atual-comunha… e-e-novas-descobertas.html>. Acesso em: 30 nov. 2015
Disponível em: <http://www.vatican.va/…/ca…/index_new/p1s1c3_142-184_po.html&gt;. Acesso em : 30 nov. 2015
1. As passagens bíblicas são tiradas da Bíblia edição Pastoral e do Novo Testamento Interlinear Grego Português. Sociedade Bíblica do Brasil.

A Mistagogia de São Francisco de Assis

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Em seus escritos, Francisco deixou um Testamento. Nele não fez outra coisa a não ser relembrar sua experiência inicial com o Senhor Jesus e como foi aos poucos deixando o mundo. Francisco, em seu Testamento, volta todo o tempo àqueles momentos iniciais de sua caminhada. Ele diz: “O senhor deu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência assim: como tivesse em pecado, parecia-me demasiadamente amargo ver leprosos. E o próprio Senhor conduziu entre eles e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo, converteu-se em doçura da alma e do corpo; e, em seguida, detive-me mais um pouco e saí do mundo”. (Testamentos, p. 83).

Francisco em seu testemunho e nas primeiras biografias fala de sua experiência com Jesus e sua conversão e como também os homens e mulheres podem fazer este caminho no mistério da fé. Ele tem um propósito mistagógico. Deseja orientar seus seguidores a entrar no mistério do Encontro com o Evangelho. Ele demonstra o caminho. Seu desejo é apresentar o mistério e sua práxis. Para isso usa de palavras simples, relatando sua caminhada rumo ao Senhor do Evangelho.

  1. A Experiência com o Mistério

A memória que Francisco resgatada constantemente em seu caminho remete a experiência com o mistério. A ideia de ‘memória’ aqui é reviver; saber que existe algo que fundamenta toda a caminhada. Algo que não está simplesmente esquecido no passado e sim, presente e atuante. Francisco rememora na tentativa de possibilitar o entendimento. Podemos dizer que rememorando, o santo se faz mistagogo. Sua mistagogia é trabalhada e se transforma em instrumento pedagógico para se fazer a experiência de Deus. Esta pedagogia “subliminar” irá influenciar toda a cristandade e ainda é provocadora em muitos movimentos cristãos, inclusive protestantes.

Celano inicia sua Segunda Vida (IICel) informando que o propósito em escrever a vida e Francisco é  “para consolação dos presentes e memória dos futuros” (IICel 1.1). Afirma que teve “conhecimento direto, por convivência assídua e mútua familiaridade com ele” (II Cel 1.1). Ou seja, foi influenciado diretamente da sua mística. Esta transmissão da mística fez de Francisco o grande mistagogo. Aquele que ensinou com a vida a mística de ser de Deus e viver o Evangelho no cotidiano e na pessoa do próximo.

  1. O Homem Novo

Francisco, para Celano, é o símbolo do novo homem que vive o Evangelho e precisa ser seguido e imitado. É o início de uma nova geração na vida da igreja. “Fruto da ação de deus para os últimos dias”. Cria que, em Francisco, estava começando uma nova história de restauração e avivamento da igreja.

O “Pobre de Assis” se transformou num arquétipo de homem evangélico que alcança todas as gerações. Um arquétipo que está livre das instituições religiosas e do engessamento da fé oficial. É um místico que extrapola suas barreiras religiosas e se coloca como exemplo de homem que seguiu Jesus com sacrifício e alegria. Sobretudo alegria.

Na verdade, o arquétipo São Francisco não age apenas entre seus filhos; exerce uma fascinante atração difusa, como santo e como Francisco de Assis. Aqui não é preciso deter-se em razões e mecanismos institucionais e culturais (antropologicamente culturais), através dos quais o arquétipo se transforma em veículos de ideologia ou de ideologias e, portanto, em agente de responsabilização individual e coletiva. Nós que vivemos no relativo e contingente não podemos mandar para fora de nós – para a presumida autoridade do arquétipo de santidade, como quer que ele se chama – a legitimação e a coerência das decisões e opções que competem somente a nós: nenhuma autoridade pode dispensar-nos de nossas responsabilidade de indivíduo entre indivíduos. Como se chega a assumir a plena responsabilidade pessoal, é outro discurso: talvez através de uma caminha que é moral e cultural ao mesmo tempo e está cheia de dificuldade e não privada de sofrimentos (MERLO, 2005, p. 17).

Francisco não desejou transformar ninguém. Seu primeiro caminho como místico e mistagogo foi viver a gratuidade do mistério. Viver como um mendigo, não ajudar o mendigo. Não teve pena dos fracos, mas se fez fracos para poder experimentar a dimensão da graça mesmo na fraqueza da vida. Seu caminho de Homem novo não foi um percurso religioso, mas um experiência de total dependência da graça de Deus se fazendo graça para o próximo.

Mas não era suficiente dar esmola aos necessidades, nem ser carinhoso com os mendigos, nem se quer projetar a imagem de Jesus naqueles esfarrapados humanos. A prova mais decisiva do amor, já se disse, é dar a vida pelo amigo. Mas é possível que ainda se possa ir mais alto: Passar pela própria experiência existencial do amigo. Foi o que Jesus Cristo fez com a encarnação. E era o que queria fazer Francisco: Mergulhar nos abismos da mendicidade, experimentar durante um dia o papel de mendigo e o mistério da gratuidade (LARRANHAGA, 2007, p. 48).

Ele não correu atrás de discípulos. Apenas viveu e experimentou o Evangelho. Sua regra era o Evangelho de Cristo. Antes de sair pregando a Palavra de Deus, viveu a mística da Palavra. Seus amigos se aproximaram e descobriram a beleza de ver a criação como sinal da mão de Deus.

Francisco de Assis e seus filhos espirituais foram realmente admiráveis. Eles falavam a todos do amor de Deus e o apontavam em tudo, nas maravilhas do universo, no Sol, nas Estrelas e em todos os astros do firmamento infinito. Viam Deus na terra dos homens, nos vales e nos altos picos dos homens, nos rios e nos mares (LEITE, 2004, p. 35).

Francisco é mistagogo porque sua mistagogia prevalece em seu exemplo de homem novo. Ele conseguiu viver os valores e Jesus numa radicalidade que impressiona. A história tem demonstrado como o caminho que Francisco percorreu se transformou numa tristeza para as pessoas que não conseguem largar suas prisões materiais e uma alegria para os que necessitam de estímulo para viver uma vida nova baseada no caminho novo. LEITE (2004) afirma:

Quem escreve ou medita sobre São Francisco de Assis não pode deixar de sentir o próprio coração levitado em êxtase, comungar, espiritualmente, a alma encantadora do poverelo, poema de céu numa ação de graça florida e dilatada, e juntamente experimentar a mesma alegria casta e simples do “jogral de Deus”, sonhador e poeta, guerreiro ardoroso, aprisionado e desiludido, que se sentiu enfim senhor de si mesmo no dia em que encontrou o leproso e o beijou (LEITE, 2004, p. 7).

Francisco nunca desejou ser o que a igreja o transformou. Nos escritos de Celano é percebido sua intenção de viver  Evangelho como Regra de vida. Se desejasse ser um monge, entraria em um mosteiro. Se desejasse ser padre teria o apoio do bispo de Assis. Poderia percorrer a vida dos beneditinos ou a Regra dos agostinianos. Mas sua caminha foi diferente. Desejou viver livre na vida como o “jogral de Deus” . Não via no clero ou na instituição exemplos de vida livre. Preferiu fazer o seu próprio caminho. Como disse MACEDO, (1996, p. 59, 60): “O poverelo (pobrezinho) de Assis pretendia regenerar a igreja, mas temia a criação de uma ordem religiosa. Queria uma religião pura, sem instituições ou hierarquias, para não cair nos mesmos erros do clero”.

Ele não desejou ser uma santo. Na Primeira Vida, Celano demonstra que Francisco vivia uma vida “mundana e secular”. Foi educado para viver para o “mundo”. Sua mudança não foi uma ação de sua própria vontade, foi uma ato da graça de Deus. A teologia da graça é o único caminho para entender a mistagogia franciscana. Francisco, o homem novo,  encontrou a mão da graça de Deus, esta é a única explicação teológica:

A graça é o dom de Deus que contem todos os outros, o de seu Filho, mas não é simplesmente objeto desse dom, É o dom radiante da generosidade do doador e que envolve com essa generosidade a criatura que o recebe. É por graça que Deus dá, e aquele que recebe seu dom encontra graça e complacência diante dele. (LEON-DUFOUR, 1999, c. 386).

  1. O modelo da mistagogia Franciscana

O segredo de Francisco foi seu encontro com o Evangelho de Cristo e sua experiência mística com o próprio Cristo. Mesmo tempo o exemplo das legendas e dos testemunhos de muitos santos e santas, nunca teve nenhum homem como modelo. Como diz ERICKSO, (1991, P. 71): “Francisco de Assis enfatizava a imitação de Cristo através da pobreza absoluta, humildade e simplicidade”.

Como mistagogo que seguia o modelo de Cristo, conseguiu imprimir um dinamismo evangélico e espiritual em seus seguidores. Isso não foi fruto de uma elaboração intelectual e intencional, como afirma MERINO (2006, p.17):

Francisco de Assis foi um homem  profundamente evangélico e não um intelectual, nem propôs o saber como missão essencial de evangelização para seus membros. mas soube imprimir tal dinamismo espiritual e evangélico em seus seguidores que foi capaz de criar um estilo peculiar de viver, de habitar no mundo e de interpretar a própria vida e o que acontece nela e , a partir daí, a elaboração de um sistema filosófico-teológico característico da família franciscana.

Nenhum outro homem teve uma vida tão livre e tão desejada no decurso da história da Igreja. Sua mistagogia pedagógica é admirada por protestantes, católicos e líderes de diversas religiões. Muitos homens ficaram famosos por conquistarem terras, reinos e poder. O que Francisco conquistou enquanto estava vivo? O que o distingue dos demais heróis? O homem que, “mais do que qualquer outro, viveu como Jesus e amou todas as criaturas pequenas e grandes, vivas e inanimadas. E, sobretudo, o homem que amou ternamente a Deus, Pai e Criador do irmão sol, da irmã lua, das estrelas, da mãe terra e de todas as outras coisas”. (ROMA, 1996, p. 30).

Francisco distingui-se pela perenidade de sua vida pobre, humilde, fraterna, evangélica e transformadora. Francisco, “o homem feito oração”, se impõe 800 anos depois, porque viveu em profundidade a mensagem de Jesus Cristo. Francisco escolhe como regra de vida o Evangelho: “A regra e a vida dos frades menores é esta: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem propriedade e castidade”. Nada mais! (ABATI, 2003, p. 93, 94).

  1. A Teologia mistagógica de Francisco

A Teologia Francisca é um novo caminho das ciências teológicas. Ela está baseada mais na vida de Francisco do que no seu pensamento. Não segue o caminho do conhecimento e da razão, mas o caminho da fé que permite a razão trabalhar conteúdos novos e provocativos. Sua mistagogia teológica tem como único elemento: a fé. O livro Teologia Franciscana, organizada por MERINO (2005, p.14) explica este novo caminho teológico:

O suporte vital do pensamento franciscano não são tanto ideias da filosofia grega, mas as verdades reveladas pelo cristianismo. É uma filosofia na fé. Pois bem, a fé não se opõe à razão humana, mas a transcende e se oferece como um suplemento de luz. A fé não é algo irracional ou contra-racional, mas metarracional. E seu ensinamento não se refere a um saber das coisas, mas a um orientar a vida humana segundo um projeto revelado, quer dizer, a um saber sapiencial (MERINO, 2005, p. 14).

O Franciscanismo nunca foi uma teologia para fazer novos “Franciscos”, mas uma novidade para transformar homens e mulheres a semelhança de Cristo. Assim como não seguiu a nenhum homem ou fundador de movimentos institucionais ou heréticos, Francisco também nunca desejou ser o modelo, mas apresentou Jesus como modelo. Foi o iniciador de uma nova teologia de santidade onde o despojamento total serviu para modelar em si mesmo, (inclusive no simbolismo dos estigmas) um novo Cristo.  Este desejo de tornar “Cristiformes” as pessoas foi herdada por seus seguidores e intelectuais. Transformar pessoas em “novos Cristos” foi a principal proposta pedagógica do movimento franciscano:

O franciscanismo contem uma imposição pedagógica na sua própria espiritualidade. Segundo o pensamento de São Boaventura, o superior deve esforçar-se por tornar “cristiformes” as pessoas a ele confiadas: isto é, imprimir nelas a forma da vida e da doutrina de Cristo, de maneira que não só se dirijam a ele com a alma, mas o imitem nos costumes. O Franciscanismo não consiste numa desencarnada tensão ao sobrenatural, mas sensibiliza o homem também para os valores terrenos. O escopo de forjar homens “cristiformes” não é distinto  do de torná-los capazes de comover-se e exaltar-se pela etérea beleza das flores, pelo límpido gorjeio dos pássaros, pela multiforme vida do universo. (ZAVALLONI, 1999, p. 29).

Discute-se hoje a atualização da proposta teológica de Francisco. Para PIERAZZI (1994, p.7), “O que ocorreu com Clara e Francisco é uma aventura cujos valores ressurgem hoje mais atuais do que nunca”.  Viver a radicalidade do Evangelho e o desprezo pelo mundo de egoísmo e desumanidade é uma urgência.

Desde o inicio o carisma franciscano não foi direcionado aos religiosos. Não desejava ser uma Ordem para não fechar as portas aos homens e mulheres que ansiavam viver o Evangelho e respirá-lo livremente sem o peso da hierarquia religiosa. Tanto é verdade que não era exigido nenhum tempo de noviciado para ser um irmão Menor como os conventos e mosteiros. Era necessário apenas confessar estar arrependido dos pecados e desejoso de viver o Evangelho segundo a pobreza cristã. Quem desejava esta aventura,  simplesmente recebia o hábito e caminhava de dois em dois pregando o arrependimento e a conversão.  Este caminho estava aberto inclusive para pessoas que necessitavam continuar vivendo os deveres comuns da sociedade.

O carisma proposto e vivido pelo pobrezinho de Assis não se esgotou na vida religiosa. Havia aqueles que, além dos compromissos familiares, se propunham também a uma prática evangélica conforme a Ordem e adequada às condições civis em que viviam. Assim nascia a Terceira Ordem Secular, a primeira instituição leiga a serviço da Igreja. (GAMISSAS, 2002, p. 18).

Francisco é um místico, mas sabe valorizar concretamente a realidade terrestre e humana. Nada impede a quem trabalha honestamente na vida, em qualquer forma, de trabalho, de observar o santo Evangelho (CIANCHETA, 1970, p. 48).

A mistagogia que nasce com Francisco de Assis é proposta por Tomás de Celano como um novo tempo. O Francisco sem os desenhos institucionais e a moldura da igreja fixado por Celano é um homem livre que deseja construir uma fraternidade de pessoas “apaixonadas pelo Evangelho” com alcance mundial.  Um exemplo disso são os novos trabalhos que releitura de Francisco e sua aplicação para os diversos setores da sociedade. Como fez SANTARÉN, no seu livro A Perfeita Alegria, aplicado para Líderes e Gestores. SANTARÉN diz que Francisco “Compreendeu que o sentido da vida humana não está em criar e acumular riquezas, mas construir fraternidade; assenta-se não no ter, mas no ser solidário e compassivo para com todos os seres criados (SANTARÉN, 2010, p. 58).

Surpreso pela novidade de Francisco SANTARÉN dialoga com o pobrezinho: “Que ser humano és tu, Francisco? como desenvolveste essa liderança que te fez “o homem do milênio”? e que sou eu diante de ti Francisco? que líder sou eu perto de ti? (SANTARÉN, 2010, p. 13).

Francisco é hoje uma das maiores riquezas da igreja, porque “se fez pobre para seguir como pobre o Cristo pobre”; como disse BECKHAUSER (2000, p. 184): “São Francisco de Assis, conhecido e reconhecido pela Igreja e por todo o mundo como o Pobrezinho de Assis, continua para o mundo um testemunho de pobreza livremente abraçada, símbolo da maior riqueza do Reino dos Céus.

Celano inicia uma caminha que plantou nas gerações futuras uma mistagogia de atração para as pessoas que desejam ser melhores e livres das incertezas do mundo tão injusto e egoísta. A aventura do homem de Assis poderia ter morrido com ele mesmo. Seria mais um santo lembrado pela igreja. Mas devido suas muitas biografias (hagiografias) se tornou um modelo de caminho em direção ao Modelo que é o Evangelho de Jesus.

Celano estava apenas obedecendo uma ordem do Papa, mas se transformou num mensageiro da novidade. Suas biografias e as outras que vieram, divulgaram o que o Evangelho pode realmente realizar na vida das pessoas. Esta história demonstra que é possível viver com qualidade, mesmo no despojamento. É desta forma que lemos o texto poético de BOFF (, 2009, p.11).

Na sua biografia se tornaram visíveis e possíveis sonhos carregados ao longo de toda a vida e acalentados no fundo de nosso coração: uma rerelação amorosa e terna com Deus, Pai e Mãe de infinita bondade, um amor simples a todas as coisas, vivenciadas como irmãos e irmãs; uma discreta reconciliação entre os impulsos do coração e as exigências do pensamento; uma calorosa recepção dos distantes e distintos, feitos próximos, e dos próximos feitos irmãos; uma aceitação jovial daquilo que não podemos mudar; uma inocente liberdade em face das ordens e regras estabelecidas; uma alegre acolhida da morte como amiga da vida.

O caminho de Francisco não foi cercado de eventos milagrosos e sobrenaturais. O grande milagre foi sua mudança de vida e a mudança que provocou na vida de milhares de homens e mulheres, jovens e velhos, leigos e clérigos. Sua transformação destruiu a estabilidade de seus amidos. Seus roteiros de vida foram mudados por seu testemunho. Como informa PADOAN, 2008, p. 29):

Justamente ele, que até pouco tempo atrás era amado, invejado, seguido, cortejado pelas mais belas moças, não só por causa da sua gentileza e de seus talentos, mas também pela riqueza de seu pai. Parecia mesmo inacreditável que estivesse agora vestido com farrapos e falasse de Deus e do amor ao próximo. Propôs-se a trabalhar como pedreiro e restaurador ao lado de seus novos amigos, convencidos pela pregação de Francisco e unidos pelo seu mesmo entusiasmo.

Sua mística foi construída na indiferença diante das opiniões dos outros. Respeitou a ordem de ir ao Papa. Respeitou a ordem de escrever uma Regra. Submeteu sua ordem a Igreja e acatou seu direcionamento. Não pensando em sua segurança ou promoção eclesiástica, mas pensando na segurança de seus filhos. É descrito como mãe por Celano. Mãe que cuida de seus filhos e busca sua proteção. Esta é a parábola que apresenta ao papa na Segunda Vida. Uma mãe que trás seus filhos ao rei. Contudo, apesar desta submissão, era completamente livre da opinião dos outros. Críticas e elogios não afetavam mais sua vida. Tinha um propósito e seguiu unicamente sua meta. Não se distraia pelas opiniões das multidões. ALVES (2008, p.106) diz que :

Louvores das multidões não o impressionava, do mesmo jeito que os insultos a ele outrora lançados nunca tinham perturbado. Bendito é o Servo, certa vez ele explicou aos irmãos, que, quando louvado e exaltado pelas pessoas, não se considera melhor que quando o julgam indigente e imprestável. O que quer que um homem seja diante de Deus, ele é isso e nada mais (ALVES, 2008, p. 106).

São Francisco de Assis sempre foi água em movimento. Nunca ficou inerte, vacilante, parado, encostado. Por isso, venceu todos os obstáculos e sempre conservou a água pura, límpida, transparente, potável, recompensa de seu esforço e vontade decidia e firme. Ele sempre alcançou o que queria, porque enfrentava os obstáculos com arrojo e tenacidade. É modelo de conscientização e responsabilidade, sempre ponto para mexer-se , para agir, movimentar-se, para impedir que a água apodrecesse, cheirasse mal, e criasse bichos nocivos (enquanto se fica no primeiro degrau da escada, não se chega no segundo da escada da santidade) (ROMBO, 2010, p. 14).

Os últimos anos da vida de Francisco foram de grande insatisfação com as divisões internas da Ordem. O crescimento dos clérigos na nova Ordem trouxe uma redirecionamento nunca desejado por Francisco. Teve um tempo de grande lutas ao ponto de ir com Frei Elias ao monte buscar direção de Deus para sua caminhada. No monte conseguiu uma única resposta: os estigmas. Desce do monte feliz e realizado. Entendeu que sua vida não foi para gerenciar uma Ordem eclesiástica, mas para apontar Cristo com seu próprio testemunho. Estava agora preparado para a morte. A morte nada mais seria do que a inauguração de uma mistagogia livre do poder eclesiástico.

É neste sentido que BOBIN (1999, p. 92) apresenta a morte de Francisco com a ferramenta da poesia abstrata:

Louvado seja o Senhor pela nossa irmã, a morte. Eis ai; está dito, está feito: ele nada mais tem entre a vida e sua vida, ele nada mais tem entre ele e ele, ele não tem mais nem passado nem presente nem futuro, mais nada além do Deus Baixíssimo, frequentemente Altíssimo, muitas vezes espalhados em todo lugar como água ( BOBIN, 1999, p. 92).

As hagiografias, ou Bio-Hagiografias como as denomina MERLLO (2005) tentou apresentar um homem que viveu como simples humano a radicalidade do Evangelho. Seu milagre se estendeu nos seguidores. O carisma passou a ser desejado pelos crentes. Sua história se transformou em mistagogia. Sua pedagogia de viver a vida é um “grito” desejado por muitos homens e mulheres. Antes de morrer viu sua vida com um presente de Deus.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      “Fez uma recapitulação mental dos vinte fecundos anos, e sentiu uma imensa satisfação e gratidão pela missão cumprida. Abriu os olhos, voltou-os para os irmãos e disse, com voz vigorosa: “Com a graça de Deus, cumpri meu dever; que Cristo vos ajude a cumprir o vosso” (LARRANHAGA, 2007, p. 391).

  1. Francisco hoje: Viver a altura do Evangelho

Tomás de Celano, como primeiro biógrafo de Francisco, inicia seus livros e termina afirmando que a novidade de Francisco, sua mistagogia, é a redescoberta do Evangelho do Senhor Jesus. O esforço de Francisco foi, após a conversão, viver à altura do Evangelho. Sua vida foi moldada pela vida de Cristo. Seu enfoque foi reproduzir, na Idade Média, o Evangelho de Cristo vivido e proclamado no primeiro século. Desejou ser mais um cristão no grupo dos discípulos que caminhou no Evangelho.

Hoje o grande desafio é viver à altura do Evangelho. Para este percurso Francisco de Assis se coloca como mistagogo, aquele que ensina o mistério da vida cristã segundo o Evangelho.

O Assistente Espiritual Nacional da Ordem Franciscana Secular do Brasil (OFS), Frei Almir Ribeiro Guimarães, escrevendo para a Revista especializada em Franciscanismo Secular, discorre sobre a relação dos franciscanos com o Evangelho com o tema “Importa Viver à Altura do Evangelho (GUIMARÃES, 2011, p.14,15). Ele inicia seu texto onde Francisco inicia sua nova vida: No Evangelho. Ele diz:

Esta é uma certeza. O Evangelho continua sendo uma Boa Notícia, bela como a graça e ardente como o amor, que transforma quem recebe com o coração de criança: “Eu te louvo, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelastes aos pequeninos”. O Evangelho continua sendo um caminho de liberdade para quem o acolhe em seu imediatismo, seu frescor, sua radicalidade (Ibid., p.14).

Quando Francisco descobriu o Evangelho, ele descobriu uma pessoa. Foi sua relação com o Jesus Cristo dos Evangelhos que transformou sua vida. Hoje este encontro com o Jesus de Francisco nos impulsiona a buscarmos a construção de uma fraternidade. Imitar o Senhor Jesus foi a direção apresentada pro Francisco. Este caminho de “imitação” precisa ser reanimado hoje nos movimentos que desejam viver a radicalidade do Evangelho. Será um exercício de transformação a partir da compreensão cósmica e holística da Pessoa divina que é o Evangelho. Como diz GUIMARÃES:

O Evangelho não é um livro, um texto escrito, morto. É alguém, uma Pessoa. É Cristo Senhor, vivo e ressuscitado. Paulo não conheceu o Cristo histórico e se apaixonou pelo ressuscitado que lhe apareceu na estrada de Damasco. Uma força, um poder que vem da vitória de Cristo sobre a morte, o caos, a desarmonia. Força de vida que procede do amor desmesurado do Pai que manda o Filho, Filho que anuncia carinho e misericórdia, que morre e ressuscita para dar aos nossos dias um sentido diferente: ser para, buscar a construção de uma fraternidade, de um reino que começa nas coisas pequenas, agir como um fermento no coração da realidade. O Evangelho não é algo adocicado e sem força. Cristo mesmo afirmou que viera lançar fogo à terra (Ibid., p.14).

A mensagem de Francisco para hoje é que a Igreja viva a altura do Evangelho numa fé vigilante. É uma espiritualidade nos que conduz ao novo, acordando homens e mulheres para a vida  que está muito além da cobiça por bens materiais. Ele tem o poder de ampliar os horizontes e demonstrar que a realização do homem e da mulher está na comunhão com Deus que leva ao próximo.

No coração da espiritualidade de Francisco está uma fé vigilante. Os cristãos franciscanos deixam-se conduzir de novo, no meio da noite pela esperança que ganhou rosto em Jesus. Eles despertam de uma sonolência em que vivem os homens, na abundância, opulência e busca de suas coisas. O projeto evangélico de Francisco se funda na fé.  A fé que acredita ser Deus o amor, que seu projeto sobre o homem arrebenta a estreiteza de nossos horizontes. O ser humano precisa ser de Deus (Ibid., p.14).

O esforço de Celano foi apresentar um Francisco que viveu á altura do Evangelho. Por seu exemplo passou a ser uma mistagogo na construção de novos homens. Ele organizou sua biografia no encontro de Francisco com o Evangelho e na resposta de vida que deu a este encontro. Francisco passa ser o modelo de Celano para quem deseja viver a altura do Evangelho.  Viver à altura do Evangelho significa fazer dele fonte da vida.

A ele nos referimos constantemente: vida, casamento, trabalho, contradições, presente e futuro.  Esse Cristo, Boa Nova, vivo e ressuscitado, nos toma na totalidade de nosso ser e marca encontro conosco nas esquinas de nossa peregrinação no rosto dos mais desvalidos, na sua Palavra que nos revigora, nas inspirações a sairmos na mediocridade e atingirmos os pícaros de uma vida de santidade (Ibid., p.14).

Um dos documentos antigo das Fraternidades Seculares da França assim descreve esse viver a altura do Evangelho:

“Para viver a altura do Evangelho não nos contentamos de transportar para nossa vida uma atitude ou um gesto de Jesus ou de repetir uma ou outra de suas palavras. Mas fundamentalmente, abrimo-nos à ação de Espírito nos esforçaremos de inventar no decorrer de nossa existência a maneira como Cristo quer viver em nós, no meio dos homens”. Nós, os seus discípulos somos sua presença vigorosa, forte, no meio da contradição do mundo (PAZ e BEM, 2011. p. 15).

A contribuição de Francisco para hoje é a transformação que a sociedade pode sofrer se redescobrir o Evangelho que Francisco descobriu. Esta experiência tem o poder de mudar as experiências do mundo de um mundo esgotado pela falta de valores baseados no amor.

A força do Evangelho precisará tornar-se presente em várias situações do mundo de hoje. Há um diferentismo entre as pessoas. O Evangelho nos leva a fazer pontes e a evitar todo distanciamento. Vale sempre o ditado: cada um por si e Deus por todos. Nossos tempos são marcados por uma busca de bem estar, de consumo. Parece que os homens querem armar a tenda da existência para sempre nas coisas que passam. Há ainda essa perda de lembrança do que passou e um desinteresse pelo que vem. Vivemos o momento presente, seco, esgotado, sem esperança de plenitude alguma. O mundo rola e rola (Ibid., p.14).

Cristo é o centro da vida franciscana. As constituições Gerais da OFS lembram que há um compromisso dos franciscanos de observar o Evangelho. Há um apelo para que os novos franciscanos lembrem do propósito feito, da promessa de construir, à sua volta, um mundo nova partir do Evangelho. As Constituições Gerais, citada por Guimarães, orientam que os que desejam um caminho novo a luz do Evangelho vivido por Francisco,

“Procurem aprofundar à luz da fé, os valores e as opções da vida evangélica, segundo a Regra da Ordem Franciscana Secular: num itinerário continuamente renovado de conversão e de formação; abertos às exigências que vêm da sociedade e das realidades eclesiais, passando do Evangelho à  vida e da vida ao Evangelho; na dimensão pessoal e comunitária deste itinerário” (art 8). Fica claro que nossa profissão nos leva a procurar viver à altura do Evangelho. Tal será mais fácil se ingressarmos vigilantemente num processo de conversão (disciplina de vida, cura do egoísmo, prontidão para o serviço, abraço com a cruz). Há este vai e vem entre Evangelho e vida e vida e Evangelho. (GUIMARÃES, 2011, p. 15).

Na vivência do Evangelho não basta um verniz de piedade e de religiosidade. O Evangelho questiona o comportamento do religioso diante do trabalho, do dinheiro, do lucro, das ofensas, da pastoral, da evangelização, da partilha, da sexualidade, da prática nem sempre límpida da fé.

Com Francisco de Assis é descoberto uma dinâmica nova na evangelização: Os que evangelizam os que são evangelizados ou estão num processo de transformação.

Paulo VI em 1975 disse:

“Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude. Não haverá humanidade nova, se não houver, em primeiro lugar homens novos, pela novidade do batismo e da vida segundo o Evangelho. A finalidade da evangelização é precisamente esta mudança interior; esse fosse necessário traduzir isso em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando, unicamente firmada na força divina da mensagem que proclama, ela procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que se aplicam e a vida e ao meio concreto que lhes são próprios” (PAULO VI, Evangelii Nuntidandi, 1975. item 18).

 

A vida de Francisco desloca a imagem tradicional de Deus para um novo enfoque: do Deus criador providente, ocioso, intocado na sua imobilidade para o Deus pessoal envolvido na história; do Deus Pai poderoso, legitimador da ordem vigente para o Deus Pai misericordioso e libertador do povo; do Deus Altíssimo, distante da vida para o Deus próximo da vida humana concreta; do Deus legislador ao Deus comprometido com a liberdade e libertação humana; do Deus crido nas formulações dogmáticas para o Deus acolhido no testemunho da entrega do Filho; do Deus insensível ao sofrimento injusto dos pobres para o Deus envolvido com o sofrimento deles.

A Virtude da Humildade

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A palavra humildade vem do termo latino húmus que é a terra processada e tornada fecunda, capaz de fazer germinar as sementes nela depositadas tornando-as profundamente férteis e bastante produtivas. De fato, fazendo uma analogia entre o húmus e a virtude da humildade, vemos que o húmus dessa virtude consiste em transformar os resíduos dos pecados alheios e pessoais em fecundidade da alma imersa na misericórdia de Deus. Ou seja, transformar os dejetos deste mundo em graças especiais para a nossa salvação eterna.

Ora, ninguém é autossuficiente o bastante para dizer “não preciso”, pelo contrário, dependemos de tudo naturalmente e também uns dos outros nas mais diversas necessidades pessoais. Por isso mesmo, precisamos entender que, quem depende sempre, não manda em nada fora de sua necessidade, mas precisa obedecer sempre, para que haja solidariedade entre todos e assim cheguemos à saciedade desejada, para que haja comunhão, ou seja, para que nos tornemos um, como é vontade de nosso Pai do céu (cf. Jo 17,11.21).

Temos ainda um belo exemplo do fruto da humildade na Sagrada Escritura, por meio da partilha dos bens temporais: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade”. (At 4,32-35).

Também São Paulo se refere a essa virtude a partir da unidade com outras virtudes: “Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai a minha alegria, permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros”. (Fil 2,1-5).

Por fim, meditemos nessa frase de São Paulo: “Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros”. Essa frase nos ensina a perfeição da humildade revestida da caridade, que consiste em servir “ao próximo como a si mesmo”. De fato, só serve quem não tem nada de próprio, quem rompeu com os apegos deste mundo, quem vê tudo como dádiva de Deus para todos, e que pense consigo, a ninguém falte coisa alguma enquanto aqui estivermos, mesmo que os homens tentem nos tirar tudo.

Aprendemos esta verdade de nosso Senhor e Salvador que disse: “Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos”. (Mc 10,45). De fato, somos servos, e o servo só faz o que o seu Senhor ordena (cf. Mq 6,8), sem a ordem do Senhor, o que faremos? Agimos por conta própria e quando essa ação não é conforme a vontade de Deus, tudo dá errado em nossa vida. Porque o Senhor também nos ensinou: “De mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. (Jo 5,30).

Ou seja, na vida de quem serve a Deus humildemente, mesmo que aparentemente tudo dê errado aos olhos dos homens; no entanto, aos olhos de Deus, “tudo concorre para o bem daqueles que o amam”, pela santa obediência. E por esse serviço humilde e despojado, eis a recompensa do Senhor: “Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier! Em verdade vos digo: cingir-se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á”. (Lc 12,37).

Sentar à mesa do Senhor com o Senhor a nos servir, isso se dará à medida do nosso serviço, “pois tudo o que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes”; por isso, não queira nada fora da vontade do Senhor, pois Ele nos dá conhecer sua vontade pelas virtudes que nos concedeu, dentre elas a virtude da humildade vigilante, porque é assim que o servimos e o amamos de todo coração.

Conta-se um fato acontecido na vida de Santa Tereza D’avila. Ao meditar sobre virtude da humildade, ela fez ao Senhor o seguinte propósito: “Senhor meu, hei de escolher sempre o último lugar, pois tu mesmo disseste, ‘quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado’”. Por isso, nas refeições diárias sempre procurava se alimentar por último. Certo dia, depois de vê que todas as irmãs já estavam na fila, ela se pôs no último lugar; quando, mais que de repente, sentiu uma leve brisa soprando por entre sua cabeça e as costas, ao que indagou: mas não sou eu a última das irmãs? Voltando-se viu Jesus que lhe respondeu: “Tereza, não sabes que o último lugar é o meu?”. Assim, ela entendeu que, quem procura o último lugar, encontra nele o Senhor.

Portanto, ser humilde é ser o que Deus quer, é ser como Deus é, “manso e humilde de coração”, como ele mesmo nos ensinou: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve”. (Mt 11,29).

Paz e Bem!

Frei Fernando Maria,OFMConv.

Que Igreja Católica temos no Brasil Brasil hoje?

Por Oscar Beozzo

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Declarações de Padre Beozzo acerca do pontificado do Papa Francisco e da realidade da Igreja  Católica no Brasil hoje.

“O Papa Francisco acrescentou à anterior programação de Bento XVI para a JMJ, uma peregrinação pessoal ao santuário de Aparecida. Ali, em maio de 2007, participou da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e coordenou a redação do Documento de Aparecida.

Irá como peregrino ao encontro de expressão antiga, mas muito viva do catolicismo brasileiro, pois Aparecida atrai mais de 10 milhões de romeiros por ano. É um catolicismo que deita raízes no passado, com seus santuários plantados à beira dos rios – os antigos caminhos coloniais – ou ao longo do mar, por onde se escoava o açúcar dos engenhos.

Há um fio invisível que une Bom Jesus de Pirapora no rio Tietê, ao Bom Jesus da Lapa, à beira do Rio São Francisco e que alcança o santuário de São Francisco das Chagas de Canindé no Ceará ou ainda o Bom Jesus de Matosinhos em Minas Gerais e a catedral do Bom Jesus de Cuiabá, no longínquo Mato Grosso. Trata-se do mesmo catolicismo que Fafá de Belém irá evocar, ao trazer para o Papa, os ecos da grande procissão do Círio de Nazaré. Será a Virgem do mundo indígena da bacia amazônica contracenando com a Virgem negra das fazendas de café tocadas pelo braço escravo no Vale do Paraíba paulista e fluminense, ou com N.S. da Penha em Vitória e N.S. da Conceição da Praia, em Salvador. A cada 8 de dezembro, parte dali o cortejo das filhas de santo, com seus cântaros de água de cheiro, para lavar as escadarias da Igreja do Bonfim.

Esse catolicismo tradicional ganha rosto militante e libertador com as muitas Romarias da Terra e das Águas promovidas pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) ou com o XIII Intereclesial das CEBs que acontecerá em janeiro próximo no Juazeiro do Pe. Cícero, com o tema “Justiça e Profecia a serviço da Vida” e o lema “CEBs, romeiras do Reino no campo e na cidade”.

No Rio, o Papa tocará o contraste de um catolicismo, que respaldado, na década de 30, por mais de 98% dos brasileiros que se declaravam católicos, sonhou com uma nova cristandade e erigiu no alto do Corcovado a estátua do Cristo Redentor, que devia reinar sobre a cidade e o país. Hoje o Rio é a capital estadual com o menor percentual de católicos e a maior porcentagem dos que declaram “sem religião”. Na sua periferia, os católicos viraram minoria frente aos fieis das Igrejas batistas e das muitas igrejas pentecostais. Passeando o olhar pelas favelas dos morros do Rio e na sua visita à Comunidade de Varginha, no complexo de Manguinhos, o Papa entrará em contato com uma franja do Brasil de mais de 100 milhões de afrodescendentes, mas terá  ao seu lado nas missas, uma maioria de bispos e padres de origem branca e europeia, com escassa presença negra!

Durante a JMJ, os 2 milhões de jovens que estarão com o Papa serão acompanhados ao vivo por vasta audiência no Brasil e mundo afora. Aqui reside outro rosto da Igreja, o de um catolicismo mediático, cuja face mais visível são os padres cantores e as redes católicas de TV: Rede Vida, Canção Nova, TV Aparecida, TV Século XXI, com fortes laços com a renovação carismática católica. Essas redes são, entretanto, pálida presença frente ao poder mediático de uma IURD, com a Rede Record de Televisão ou as intermináveis horas alocadas nos outros canais de TV a diferentes igrejas pentecostais.

Para a Igreja católica, são muitos os desafios de hoje: Como passar de um catolicismo tradicional e apenas nominal a um catolicismo de opção e a uma fé atuante? Como transitar de um catolicismo rural para sua vivência no contexto da cultura urbana, técnica, científica e mediática? Como implantar uma Igreja-comunidade, numa sociedade de extremado individualismo e competição? Como viver modesta e frugalmente, atentos à crise ambiental, na contramão de um consumismo sem freio nem medida? Como atuar em solidariedade com os pobres, empenho nas lutas por justiça e superação das desigualdades, discriminação racial e violência, de forma corajosa e cidadã no campo social e político, no momento em que cresce a tendências de espiritualismos desencarnados?

Como falar à juventude, depois que se rompeu o vínculo da transmissão da fé no seio das famílias, mas surgiu também renovado anseio por justiça, paz e cuidado com a criação? Como aprofundar a reflexão sobre sentido da sexualidade humana, do amor, do prazer, exercitando escuta e misericórdia frente a sofrimentos e perplexidades neste campo? Como responder ao grito das mulheres, cuja emancipação e aspiração a igual dignidade em todas as esferas da vida, não é suficientemente acolhido nas estruturas da Igreja? Como mover-se, enfim, nos espaços do crescente pluralismo religioso da sociedade brasileira, aprendendo a dialogar e a cooperar ecumenicamente para o bem comum, com todas as pessoas, nas diferentes igrejas, religiões e filosofias de vida?”

* Historiador, coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular/ CESEEP.
jbeozzo@terra.com.br

 

Viver o Natal é amar e partilhar

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Ribamar Portela (teólogo e assessor do CEBI)

Aproximam-se o Natal e o ano novo. Algumas pessoas estão preocupadas em comprar presentes, outros com a ceia. Pouquíssimos lembram o porquê do natal.

Comemora-se no dia 25 de dezembro o nascimento de Jesus (é claro que ele não nasceu neste dia), mas o importante é que se festeje o nascimento daquele que “veio para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (cf. Jo 10,10), daquele que rompeu com todo o sistema de exploração que existia em sua época, bem como a religião do puro e do impuro que marginalizava o doente, a mulher, o estrangeiro. Por isso foi perseguido e crucificado, mas Deus o ressuscitou segundo as Escrituras.
Seu modo de viver, suas palavras incomodou os grandes. Na verdade desde os primeiros segundos de existência já causa medo naqueles que massacram o próximo conforme o evangelho de Mateus que afirma que Herodes e toda a cidade de Jerusalém ficaram alarmados ao saber do seu nascimento (cf. Mt 2,1-3).
Natal é tempo de reflexão. É tempo em que se deve olhar para esse menino que crescerá e ensinará às pessoas a importância do amor ao próximo. Ensinará a partilha.
O mundo está precisando de mais pessoas que amem não que julguem e condenem o próximo. O amor mais do que palavras revela a presença do Transcendente no meio do seu povo. Presença salvadora como o próprio nome de Jesus que significa “Deus salva”.
O mundo precisa de mais pessoas que saibam partilhar. Grande parte da humanidade passa fome e sofre na pele outras necessidades por causa da ganância de poucos que tem acumulado um enorme patrimônio. Esse menino Jesus ao crescer ensinou que a solução desse problema é a partilha (Mc 6, 34-44; Mc 8, 1-9) onde no primeiro caso ele alimenta cerca de cinco mil homens tendo apenas cinco pães e dois peixes. No segundo mais ou menos quatro mil com sete pães e alguns peixinhos.
Muitas pessoas proclamam que Jesus realizou o milagre da multiplicação dos pães. Todavia ambos os textos bíblicos não afirmam isso. Mc 8, 14-21 (precisamente os versículos 17-21) deixam evidente que o milagre feito foi justamente a divisão dos alimentos:
(…) “Por que vocês discutem sobre a falta de pães? Vocês ainda não entendem e nem compreendem? Estão com o coração endurecido: Vocês têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem? Não se lembram de quando reparti cinco pães para cinco mil pessoas? Quantos cestos vocês recolheram cheios de pedaços?” Eles responderam: “Doze”. Jesus perguntou: “E quando reparti sete pães quatro mil pessoas, quantos cestos vocês recolheram cheios de pedaços?” Eles responderam: “Sete”. Jesus disse: “E vocês ainda não compreendem?”
Jesus fala “Não se lembram de quando reparti cinco pães…? “E quando reparti sete pães…? E não “Não se lembra de quando multipliquei cinco pães…? “E quando multipliquei sete pães…? Quando uma pessoa partilha acontece um milagre que é romper com o egoísmo, com a ambição e o desejo de possuir. Se alguém reparte esse alguém deixou de pensar só em si para pensar no próximo. Deixou de se colocar no centro para colocar o irmão, a irmã.
Natal é amar como Jesus amor e isso acontece em gesto concreto que é dividir o que se tem com o próximo que nada tem. Que cada pessoa possa acolher Jesus em seu coração e junto com ele fazer com que o ano de 2017 seja o ano do amor e da partilha.
Feliz Natal e Feliz Ano Novo!

Natal dos covardes

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Escrito por Marcelo Freixo.

O que diriam os pregadores da intolerância, os obreiros do justiçamento, os apóstolos do olho por olho dente por dente sobre um homem que manifestou seu amor por um ladrão condenado e lhe prometeu o paraíso? Brandiriam o velho sermonário: bandido bom é bandido morto?

Hoje, quase todos os brasileiros, inclusive os cônscios moralistas da violência que amarram adolescentes em postes para linchá-los, se reunirão com suas famílias para celebrar mais uma vez o nascimento desse homem.

Sujeito, aliás, que respondeu à provocação: está com pena? Então, leva para casa! Pois, é. Jesus Cristo prometeu levar o ladrão para casa. “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”, diz o evangelho de Lucas.

Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos, prostitutas, bandidos. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu, contestou a ordem que os excluiu.

O Cristo bíblico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso. Foi perseguido, supliciado e executado pelo Império Romano para servir de exemplo.

Assim como servem de exemplo os jovens que são espancados e crucificados em postes, na ilusão de que a violência se resolve com violência. Conhecemos a mensagem cristã, mas preferimos a prática romana. Somos os algozes.

Questiono-me sobre o que seria dele em nossa Jerusalém de justiceiros. Não sei se sobreviveria. É perigoso defender a tolerância, o amor ao próximo e o perdão quando o ódio é tão banal. Como escreveu Guimarães Rosa: “quando vier, que venha armado”.

Não é difícil imaginar por onde ele andaria. Sem dúvida, não estaria com os fariseus que conclamam a violência e fazem negócios, inclusive políticos, em seu nome.

Caminharia pelos presídios, centros de amnésia da nossa desumanidade, onde entulhamos aqueles que descartamos e queremos esquecer, os leprosos do século 21. Impediria que homossexuais fossem apedrejados, mulheres violentadas e jovens negros linchados em praça pública. Estaria com os favelados, sertanejos, sem tetos e sem terras.

Por ironia, no próximo Natal, aqueles que defendem a redução da maioridade penal, pregam o endurecimento do sistema prisional, sonham com a pena de morte e fingem não ver os crimes praticados pelo Estado contra os pobres receberão um condenado em suas casas.

Diante da mesa farta, espero que as ideias e a história desse homem sirvam, pelo menos, como uma provocação à reflexão. Paulo Freire dizia que amar é um ato de coragem. Deixemos então o ódio para os covardes.

Feliz Natal.

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