Busca

Nos Caminhos de Francisco

Seguir Jesus a exemplo de Francisco de Assis

mês

novembro 2016

O Senhor Vem! (Mateus 24,37-44)

Os Estigmas de Francisco de Assis e o Segredo da Suprema Felicidade

sao-francisco-de-assis-historia

Sessenta e cinco meditantes de vários continentes se reuniram recentemente em um Retiro silencioso de uma semana, no Monte Alverne, o lugar de peregrinação na Toscana,  onde São Francisco de Assis (1182-1226) recebeu os estigmas em 1224, dois anos antes de sua morte. Passamos a noite do primeiro dia de viagem ao pé do monte e logo cedo, no ar fresco e ensolarado da manhã seguinte, fizemos vagarosamente e em silêncio o caminho da forte subida que leva ao santuário.

Paramos na Capela dos Pássaros para escutar o sublime canto que recebeu Francisco e seus três companheiros quando ali chegaram e ele se viu cercado alegremente pelos pássaros, confirmando que tinha vindo ao lugar certo. Francisco fora ao monte para um jejum de quarenta dias em preparação à chegada da Irmã Morte cuja rápida aproximação pressentia.

Depois de nos alojarmos na simples Casa Franciscana de Retiros, e começarmos a sentir o ambiente desse lugar intenso e sagrado, concordamos em nos fazer uma pergunta preliminar simples. Por que tínhamos ido para lá? Como a maioria das perguntas simples, ela foi uma chave que abriu muitas portas. Afinal, no silêncio em que estávamos então entrando, a pergunta levou a outras perguntas igualmente básicas, relacionadas à consciência e à vida espiritual, que nos levaram ao limite do pensamento e, assim, à luz de Deus dentro de nós: Quem sou eu? Quem é Deus?

A história da experiência de oração de Francisco no lugar sagrado do Monte Alverne nos enriqueceu, desafiou e guiou dia após dia. Ficamos sabendo como ele se aprofundou cada vez mais na solidão, durante sua estadia ali, alternadamente fustigado por seus demônios interiores e consolado por visitas angélicas. Nisto, ele perseverou até que chegou à experiência que culminou na união com a humanidade de Cristo, o que tornou esse lugar tão sagrado, não somente para seus seguidores franciscanos, mas também de grande significado para toda a tradição cristã de oração.

Na noite de 14 de setembro, Festa da Santa Cruz, seu fiel amigo e companheiro, Frei Leão, desobedeceu às instruções de Francisco e penetrou na solidão de sua reclusão para ver como ele estava. À luz do luar, Frei Leão viu Francisco de joelhos em oração, repetindo com todo o fervor as perguntas que se encontram no centro de toda oração cristã: “Quem és tu, meu doce Deus… Quem sou eu, teu servo inútil?”“E somente estas palavras repetiu e nada mais disse” – conta-nos São Boaventura, seu biógrafo. Frei Leão viu o fogo que descia sobre a cabeça de Francisco, envolvendo-o por muito tempo.

Quando Francisco afinal o notou, Frei Leão perguntou o que significava tudo aquilo. Francisco respondeu que ele tinha recebido duas luzes para a sua alma; o conhecimento e a compreensão de si mesmo, e o conhecimento e a compreensão de Deus. Nesta oração no fogo, Deus lhe pediu três dádivas e ele buscou em sua pobreza até encontrar uma bola de ouro que ofereceu três vezes: a doação dos seus votos.

Após dizer a Frei Leão que não o espionasse mais, Francisco dirigiu-se à Bíblia para saber a que estaria sendo preparado – e em cada consulta ele foi encaminhado para a Paixão de Jesus Cristo. Retornou então à oração solitária, “tendo muita consolação na contemplação”. Sentiu-se depois impelido a pedir não somente a graça de sentir a dor de Cristo, mas também o amor que possibilitou a Cristo suportá-la por nós. Começou a contemplar a Paixão com profunda devoção até que “se transformou completamente em Jesus por meio do amor e da compaixão”.

Na manhã seguinte, ele viu um serafim aproximar-se na forma de Jesus Crucificado. Ele se sentiu repleto, simultaneamente, de medo e alegria, deslumbramento e tristeza. E foi-lhe dada a percepção de que sua transformação em Cristo não aconteceria por sofrimento físico, mas “por uma elevação da mente” – a transformação da consciência em amor. Entretanto, o sinal desta transformação seria a marca permanente das cinco chagas divinas de Cristo no corpo de Francisco. Pouco depois, Francisco deixou o Monte Alverne e retornou à cidade de Assis, para morrer “com a chama do amor divino em seu coração e as marcas da Paixão em sua carne”. Com humildade, perguntou a seus irmãos se deveria tornar pública a informação sobre seus estigmas, e convenceu-se de que deveria quando lhe disseram que a experiência deveria ter um significado não somente para ele, mas também para os outros.

MISTÉRIO E SIGNIFICADO

Houve diversas reações entre nós ao ouvir esta história. O elemento de ligação de todas foi um reverente senso de mistério – a experiência que não pode ser aplicada adequadamente pela razão – e a necessidade de expressar reverência pela busca de um significado para a experiência. As experiências mais profundas das histórias de nossas vidas também merecem a mesma reverência e impelem à busca de significados. E o significado não aparece com rapidez ou facilmente.

Não dar o tempo ou a quietude de atenção necessários, para tornar plenamente consciente o que nos acontece, é uma característica de nossa época, veloz e impaciente. Tempo e atenção são necessários se não quisermos tratar a vida superficialmente.

A superficialidade desperdiça o precioso sentido do sagrado que dá profundidade e propósito a nossos encontros com a alegria e o sofrimento intensos, freqüentemente cheios de perplexidade. Mistérios como esses são dons valiosos, realidades que exigem tempo.

Quanto à experiência de Francisco, precisávamos, em primeiro lugar, perguntar: o que significava e para quem? Para o próprio Francisco, para a Igreja, para nós, hoje? Talvez o significado para Francisco fosse de foro íntimo e inacessível, só dele mesmo – este é o significado solitário e único de toda experiência única. Podemos supor, pelo que sabemos de Francisco, que os seus estigmas simbolizam um alto grau de realização da sua união com a pessoa do Cristo Crucificado e Ressuscitado, a quem amou com tanta persistência e paixão.

O desejo que consome os místicos – e amantes – é sempre o de despojar-se de sua identidade egocêntrica e unir-se de forma permanente com o Bem- Amado, em uma maneira de ser em que o “eu” e o ‘tu”, apesar de não obliterados, deixam de ser entidades fixas. “Não sou mais eu quem vive; mas é o Cristo quem vive em mim”. O abismo da separação (das individualidades) se fecha quando transcendemos o ego. “Uma consumação a ser desejada devotamente”, mas algo que, ao mesmo tempo, causa horror ao ego e doloroso pressentimento. À diferença de Francisco, a maioria de nós recua, sistematicamente, no exato momento em que a satisfação do nosso desejo de plena união nos é oferecido.

A vida de Francisco foi uma ascensão, freqüentemente uma peregrinação vertiginosa em direção a esta união de sua humanidade com a humanidade de Cristo. Ao contrário dos seus seguidores, que o veneravam como santo, Francisco via a história de sua própria vida repleta de inúmeros fracassos e retrocessos, provocados por sua natureza pecaminosa. Como acontece com a maioria dos fundadores, ele morreu com um sentimento de fracasso.

Ao mesmo tempo, ele também sentia e manifestava uma alegria cada vez mais intensa, o que seria uma prova, em nível mais profundo de percepção, de que sua evolução era constante. A coexistência, a mistura de alegria e sofrimento, dor e paz, amor e solidão, tornaram-se, com crescente clareza, o tema unificador – se não, mesmo, a experiência – do nosso Retiro. Até o clima variável durante a semana foi expressão disso, ao passarmos de dias fechados com  nevoeiro úmido e frio para outros dias de céu claro, com sol quente e panoramas abertos.

Independentemente do que possa ter significado a mais para Francisco, por causa da extinção, pelo amor, da sua identidade separada, os estigmas selaram também sua vocação e sua missão na Igreja. A experiência de Francisco influenciou decisivamente o curso da Espiritualidade cristã. Sua união com Cristo, ocorrida no Monte Alverne, iniciou uma nova era e uma mudança na consciência cristã. Ficou a cargo de São Boaventura – pois Francisco não era teólogo – formular a devoção ao Jesus histórico, especialmente a que focalizou a Cruz – que abriu uma nova dimensão no pensamento e no sentimento cristãos.

E o que podem os estigmas significar para nós? É o que nos perguntávamos, enquanto, dia após dia, a intensidade peculiar do Monte Alverne nos convidava a questionar mais seriamente quem era Deus e quem éramos nós. Lembrávamos o que Francisco viu na grande claridade de sua experiência incandescente: que o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo são inseparáveis e que, uma vez que se fundem, somos transformados para sempre. Indagávamos o que seria “a bola dourada” em nosso estilo de vida, com a qual faríamos a dádiva de nós mesmos a Deus.

Vimos que se Francisco podia sentir simultaneamente as emoções conflitantes de medo, alegria, admiração e sofrimento, nós também deveríamos estar dispostos a parar de nos agarrar a um único estado mental dominante, com o qual ficamos habitualmente obcecados – não deveríamos nos identificar com nossa ira, medo ou desejo, por exemplo. E que precisamos aprender a nos desapegar de todos os nossos sentimentos para estarmos abertos ao mistério de Deus em toda a extensão da nossa humanidade.

Vimos como, em sua simplicidade, Francisco ilustrou a dimensão trágica da vida em que alegria e sofrimento são parceiros inseparáveis. Questionamos a fixação da nossa cultura na busca da felicidade, que nega a nossa inescapável condição de mortalidade e nossas imperfeições essenciais. No sinal misterioso da união de Francisco com Cristo, pudemos sentir como o desejo de união, que é a mais profunda de todas as nossas aspirações, só pode acontecer com pureza de coração e intensa entrega. A união acontece quando ela é o nosso único desejo: quando o drama habitual de desejos conflitantes, que nos fazem repetir padrões antigos de fracassos, tiver sido radicalmente simplificado.

Quando lemos que Francisco, ao deixar o Monte Alverne montado em uma mula, por causa da dor que sentia em seus ferimentos, começou – na última fase de sua vida – a curar os sofrimentos dos outros, compreendemos que nenhuma experiência identificável como tal pode ser considerada definitiva. Estamos sempre seguindo adiante. “Os anjos ficam parados – diz um ditado judeu – o Santo está sempre em movimento”.

Finalmente, indagando quem seria realmente Francisco, vimos como ele se tornou um amigo da humanidade, um dos grandes boddhisatvas cristãos. A escolha de Assis pelo Papa João Paulo II como local para o encontro histórico da oração ecumênica em 1988, reunindo dirigentes religiosos de todas as crenças, foi inspirada pela amizade universal a que se dedicou Francisco. Os santos, assim nos parece, não são somente para ser venerados como paradigmas de excelência, mas devemos nos aproximar deles como amigos para a jornada espiritual, com a humildade de Cristo, superando o paradoxo de uma intimidade universal que parece impossível sem eles.

FERIDOS QUE CURAM

Depois de receber os estigmas de Cristo, Francisco ficou marcado como a expressão viva do arquétipo de santo, sábio ou xamã. Mas no sentido cristão, e de forma ainda mais expressiva, ele personifica o ferido que cura. Numa ocasião em que Frei Rufino tocou Francisco e colocou com curiosidade sua mão na chaga aberta do lado, Francisco se encolheu de dor.

Como ele, nós também às vezes invadimos as feridas íntimas de outros – a mídia atual ganha muito com isto. Nós sabemos como os nossos ferimentos mais profundos podem gritar de dor quando um pensamento, uma palavra ou ação desatenciosa toca neles.

O toque é um tema dominante na vida espiritual de Francisco. Ele tem um contato alegre com o mundo material e suas múltiplas e esplendorosas belezas. Ele é constantemente mostrado tocando ou sendo tocado por criaturas, humanas e outras. Muitos dos que o tocaram no fim da vida sentiram-se curados simplesmente por fazê-lo. Sua grande singularidade demonstra a espécie superior de sanidade que nos advém quando somos (mesmo que só um pouco)  tocados por Deus. As chagas de Francisco foram toques de Deus que o mudaram de forma irreversível.

Somos feridos mais profunda e dolorosamente, não por acidentes que acontecem – não importa quão trágicos sejam – mas pelo amor. Como todos aqueles que sofreram sabem, todo sofrimento é suportável – ou não suportável – proporcionalmente ao grau de amor que conseguimos manter vivo. Entretanto, o próprio amor é o maior ferimento que a humanidade é capaz de infligir. Existe o doce ferimento do amor, que pode transformar a personalidade e nossos poderes de percepção. Pode elevar-nos de um mundo preto-e-branco, unidimensionado, para um universo multicolorido não sonhado e de perspectivas cambiantes.

E existe o ferimento amargo, quando o amor é retirado, quando sua expressão emocional murcha, quando é inexistente ou traído. Ou quando morre a pessoa que amamos. Como nos estava ensinando o tema emergente do Retiro, abrir-se ao doce ferimento (do amor) como Francisco se abriu às “alegrias da contemplação”, também nos expõe ao lado cortante da espada, à realidade do amor, ao ferimento amargo e à dor da perda irremediável.

O ferimento é uma experiência rara de permanência. A maioria das coisas que acontece não dura. Necessitamos, portanto, distinguir entre ferimentos e golpes, as frustrações e os desapontamentos que acontecem na vida e que podem ser amargamente dolorosas, mas que, com o tempo, podem até desaparecer da memória: o fracasso de um exame, perdas financeiras, desencontros. De tudo isso nós nos recuperamos. Entretanto, os ferimentos nos marcam para sempre e alteram a química mais profunda de nossa percepção e o próprio funcionamento de nossa identidade. Um ferimento significa que nada será mais como antes. O tempo conserta os golpes, mas não cura ferimentos profundos. Somente a eternidade, a imersão do momento presente nas águas da presença de Deus, pode curar um ferimento. Assim como o ferimento da morte de Cristo só pode ser curado pela Ressurreição, quando Ele mergulhou nas escuras profundezas de sua divindade.

OS FERIMENTOS AO PASSAR DO TEMPO

Claro que os sentimentos e os significados associados aos ferimentos vão mudando com o tempo. Todo significado surge, dentro do seu contexto, na leitura do que estamos analisando. Não podemos ver o significado da experiência de Francisco no Monte Alverne fora do contexto da sua própria vida e da sua cultura histórica. O significado dos nossos próprios ferimentos – que, com freqüência, no princípio nos parecem horrorosamente sem significado – começa a surgir à medida que os vamos vivendo em relação com outros eventos e esquemas de nossa vida.

Isto quando o sofrimento nos permite continuar conscientes o suficiente para proceder assim. Mas ferimentos nunca podem ser eliminados, assim como um fim ou um princípio jamais podem ser repetidos. São parte da nossa história e, nesta história, não obstante pareça um átomo insignificante no universo, é uma partícula única e indispensável na constituição do cosmos. Nossos ferimentos estão, portanto, entre as forças mais sagradas que dão forma à nossa existência e fazem o próprio mundo ser como é.

É importante evitar o sentimentalismo ou o excesso de otimismo com referência ao nosso sofrimento, porque ambos podem inibir a esperança. Ser ferido é perigoso. Pode aleijar ou até destruir a personalidade. Pode nos empurrar da borda para dentro do desespero ou nos entrincheirar em um isolamento medroso e cínico, além de amargurar involuntariamente o nosso espírito. Até pior – e as histórias de famílias e nações estão repletas de exemplos: os ferimentos podem nos transformar em inimigos da humanidade, demônios cheios de ódio contra Deus, cruéis e selvagens para com os outros.

“O ferimento aceito dentro da maneira de ser do mundo” – como nos diz São Paulo – leva-nos à morte. Nesse estado de morte somos esvaziados de toda a compaixão, coma os campos nazistas de extermínio – dirigidos por pessoas comuns não tão diferentes de nós mesmos – não nos deixam esquecer. E podemos nos tornar especialmente vingativos com os que são mais fracos do que nós e estão mais feridos. Podemos nos transformar em feridos que ferem. Ou feridos que curam. Como Francisco e seu modelo, Cristo.

Como aconteceu com Queirão no mito grego. Filho do deus Cronos e da ninfa terrestre Fílira, Queirão teve a infelicidade de nascer como um centauro, meio humano – a parte superior do seu corpo – e meio cavalo. Quando sua mãe o viu, ao nascer, ficou tão revoltada que conseguiu ser transformada em um limoeiro para que não pudesse amamentá-lo. Assim, seu primeiro ferimento foi a rejeição. Mas Apolo o adotou – pelo menos em sua parte superior – e lhe deu treinamento para aperfeiçoar-se em todas as artes e no conhecimento. Queirão transformou-se em um grande mestre e mentor para muitos dos maiores heróis gregos, incluindo o próprio Héracles. Um dia, em uma festa com centauros que se desgovernaram, Héracles teve que lançar uma flecha envenenada para acabar com a desordem. Acidentalmente, a flecha atingiu Queirão. Sendo filho de um deus – logo, imortal – a flecha não poderia matá-lo, mas deixou-o em agonia permanente e amargurada.

Sua vida mudou. Viu-se forçado a retirar-se para uma montanha para cuidar de sua chaga incurável. Desta maneira, Queirão transformou-se em perito nas artes da cura e dos poderes medicinais da natureza. Com a aproximação dos que sofriam e vinham procurá-lo, nele também cresceu a compaixão por eles. Não eram mais os famosos e poderosos que vinham até ele, mas os pobres e esquecidos. A todos, Queirão curava com o poder do seu recém-desenvolvido conhecimento, e eles partiam agradecidos, mas se perguntavam por que ele, que curava os outros, não podia curar a si próprio.

Héracles (o que feriu curando), durante outra de suas aventuras, encontrou uma saída para Queirão. Conseguiu que Zeus concordasse em libertar Prometeu do seu tormento se fosse encontrado um imortal que se dispusesse a dispensar sua imortalidade e a morrer. Queirão aceitou a proposta e, ao aceitar a mortalidade e morrer, disse sim para o que realmente era. Ele assim iniciou um novo tipo de heroísmo, deixando de lado suas tentativas inúteis de curar seus próprios ferimentos, de ser o seu próprio redentor. A morte não tinha grande atração ou glória, mas continha uma verdade sombria e profunda que não poderia ser expressa nem por todos os poderes de Apolo.

Ele morreu e, como todos os mortais, desceu ao mundo interior. Atravessou o Estige, fronteira entre a consciência dos vivos e dos mortos; pagou a sua moeda ao barqueiro sem rosto, atravessou os campos cinzentos de Asfodel – onde os mortos à espera do julgamento piavam como morcegos – e, diante dos que reinavam no Hades, aguardou o seu julgamento. O mito nos conta que ele permaneceu ali por nove dias obscuros. Zeus então o salvou do Hades e o alçou acima da terra para fazê-lo para sempre uma constelação no céu: um ensinamento escrito no céu para todos lerem.

E onde fordes, proclamai que o Reino dos Céus
está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os
mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios.
De graça recebestes, de graça dai (Mt 10, 7-8)

Jesus, sempre consciente da sua morte iminente, e ferido pela rejeição e pelos mal-entendidos, ficou conhecido entre os seus contemporâneos, sobretudo, como aquele que curava. O convite que faz aos seus seguidores, para imitarem o que fazia quando curava o sofrimento humano, confere dignidade aos que estão feridos. Enquanto pensarmos que são os sadios que curam, estaremos subscrevendo o culto do poder. Nossa percepção da realidade ficará distorcida pela busca obsessiva da felicidade e pela fuga do sofrimento, empreendidas pelo ego.

O segredo do Monte Alverne não é, afinal, tão esotérico. Ele abre uma visão de suprema felicidade humana – a ventura de conhecermos a nós mesmos e a Deus, no amor de Cristo. Nele podemos também acreditar, porque não foge da realidade do sofrimento – do qual não há como escapar. A sabedoria de Francisco, assim como a sabedoria de Jesus, nos ensinam que a nossa vulnerabilidade ao sofrimento não é um impedimento para a prestação de serviços amorosos aos outros. E mesmo condição para que possamos aliviar o sofrimento do próximo.

Enquanto perseguirmos a nossa própria felicidade como a primeira das prioridades, nós faremos isso, de forma consciente ou não, à custa do bem-estar de outrem. Mas, se aliviarmos a dor do outro, encontraremos a plenitude do ser para a qual fomos criados. Curar – enquanto nós mesmos estamos feridos – não está, no entanto, no campo da experiência do ego.

Aquele que não toma a sua cruz e me segue
não é digno de mim. Aquele que procura a si mesmo
acabará por se perder e quem se esquecer de si mesmo,
por amor de mim, acabará por encontrar-se
(Mt 10,38-39).

Pode-se compreender melhor o significado da experiência de Francisco, no Monte Alverne, no contexto da sua oração, assim como nossa vivência consciente, a partir desses paradoxos do espírito, dependerá da profundidade da nossa oração. Na oração de Francisco, a ênfase não está essencialmente nas visões, revelações e milagres que enchem sua biografia. A meditação logo nos ensina que não precisamos dessas coisas e não devemos procurar tais experiências.

Até para Francisco elas não foram a substância do seu relacionamento com Deus, como o mostra a sua vida em comunidade e a sua insistência no valor supremo da pobreza e da humildade. Mais significativa é a sua contínua perseverança no aprofundamento da oração. Ele retornava freqüentemente a períodos de solidão e aprofundava a sua aceitação de todo o espectro da realidade, o que o tornou tão profundamente sensível à presença e à atividade de Deus em tudo, em toda manifestação da natureza, como o mostra o seu Cântico das Criaturas. “Despertado por todas as coisas para o amor de Deus… nas coisas belas ele encontrava a própria beleza”.

Vistos através deste prisma, o amor de Francisco pela criação e a ênfase de São João da Cruz sobre o desapego a todas as criaturas parecem complementares, em vez de opostos inconciliáveis, como poderia parecer. Vemos desapego também em Francisco, e celebração e louvor em João da Cruz. Onde se vive a plena verdade, os opostos coexistem. Não apenas alegria e sofrimento. Mas também a vida e a morte. Quando o percebemos, sabemos o que a vulnerabilidade de Cristo ao sofrimento proclama: a vida não é negada pela morte, mas consiste no ciclo de morte e renascimento. Este ciclo vai levar, na plenitude dos tempos, ao estado sem morte que Francisco suplicou lhe fosse dado experimentar antes da sua união com Cristo no Monte Alverne:

E como continuasse neste propósito, um anjo
lhe apareceu em grande glória, trazendo
um cálice na mão esquerda e uma flecha
na mão direita. Enquanto Francisco se admirava
com esta visão, o anjo atravessou o cálice
uma vez com sua flecha, e imediatamente Francisco
ouviu uma melodia tão doce que sua alma se encheu
de encantamento – o que fez que ele ficasse
insensível a toda sensação do corpo. Como
posteriormente contou a seus companheiros,
caso o anjo passasse novamente a flecha pelo cálice, tinha dúvidas
se a sua alma não teria deixado seu corpo por causa da doçura intolerável
(Segunda Consideração dos Sagrados Estigmas).

A meditação não procura – nem rejeita – tal experiência. Ela nos leva a profundezas para além do ego em que a experiência de Deus é possível e transcende todo desejo do ser consciente. Não estamos buscando a plenitude mística, mas a união no mistério do amor. O/a meditante precisa tornar-se um ferido que cura ao penetrar fielmente neste mistério de alegria e sofrimento, rejeitando todo escapismo e falsa consolação.

Esta fidelidade remove gradualmente a montanha do egotismo. É um partilhar a vida do Cristo, que é seu contínuo morrer e ressuscitar em nós.

Incessantemente e em toda a parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo (2Cor 4,10).

Quando deixamos também o Monte Alverne – para o próximo passo da nossa peregrinação individual – nós o fizemos alimentados pela comunidade que havíamos partilhado e as verdades que experimentamos na companhia uns dos outros. Este me pareceu ser o poder da comunidade que vem à tona com a meditação, e que tantos, hoje, estão ansiosos por sentir, muitas vezes sem o saber. Que a nossa prática diária contínua permita a cada um de nós participar na cura do nosso mundo.

COM MUITO AMOR, DOM LAURENCE

(*) Exte texto foi publicado na revista “Grande Sinal”, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição e editada pelo Instituto Teológico Franciscano (ITF).  O texto desta meditação, tirado de Meditação Cristã – Boletim Internacional (23 Kensington Square – London W8 5HN – UK, fascículo de junho de 1998), foi gentilmente cedido a “Grande Sinal” pelo Núcleo de Meditação Cristã do Rio de Janeiro. Tradução a cargo de Maria Antonieta Garcia de Souza; revisão, Sérgio de Azevedo Morais.

Nota da Redação da Grande Sinal

Dom Laurence Freeman, OSB, mostra uma faceta fundamental da mística do Seráfico Pai, Francisco de Assis, portador dos estigmas de Jesus cristo, Trata-se de um tema que interessa, não só aos membros da Familia Franciscana, mas a todos/as aqueles/as que desejam atingir a plena identificação com Jesus cristo, nosso Redentor, em sua dura paixão, morte infamante e ressurreição gloriosa. Até que um dia todos possam dizer, como Paulo: ‘Já não sou eu que vivo, mas é o cristo quem vive em mim”

Como se aproximar do Senhor no Natal: Papa Francisco explica

Durante o Natal, Deus se revela aos humildes, aos pequenos, destacou o Papa Francisco na Missa celebrada na Casa Santa Marta, e por isso sublinhou a importância de se fazer pequenos neste tempo para poder se aproximar do Senhor que vem.

Ao comentar o Evangelho do dia, o Santo Padre recordou que, “no Natal, veremos esta pequenez, esta pequena coisa: uma criança, uma estrebaria, uma mãe, um pai… As pequenas coisas. Corações grandes, mas atitude de pequeninos”.

Francisco utilizou a imagem de um pequeno broto, algo pequeno que será uma árvore grande, para se referir ao Natal do Senhor. “E sobre este broto repousará o Espírito do Senhor, o Espírito Santo, e este pequeno broto terá aquela virtude dos pequeninos e o temor do Senhor”.

O Papa incentivou a caminhar “no temor de Deus. Temor do Senhor que não é o medo: não. É dar vida ao mandamento que Deus deu ao nosso pai Abraão: ‘Caminha na minha presença e seja irrepreensível’. Humilde. Esta é humildade”.

Portanto, “somente os pequeninos são capazes de entender o sentido da humildade, o sentido do temor do Senhor, porque caminham diante do Senhor. Sentem que o Senhor lhes dá força para ir avante”.

Francisco afirmou que “viver a humildade, a humildade cristã, é ter este temor do Senhor que, repito, não é medo, mas é: ‘Tu és Deus, eu sou uma pessoa, eu vou avante assim, com as pequenas coisas da vida, mas caminhando na Tua presença e buscando ser irrepreensível’”.

O Bispo de Roma advertiu contra a falsa humildade: “A humildade é a virtude dos pequeninos, a verdadeira humildade, não a humildade um pouco teatral: não, aquela não. A humildade de quem dizia: ‘Eu sou humilde, mas orgulhoso de sê-lo’. Não, aquela não é a verdadeira humildade”.

“A humildade do pequenino é aquela que caminha na presença do Senhor, não fala mal dos outros, olha somente para o serviço, se sente o menor”, ressaltou o Santo Padre.

“Olhando Jesus que exulta na alegria porque Deus revela o seu mistério aos humildes, possamos pedir para todos nós a graça da humildade, a graça do temor de Deus, de caminhar na sua presença buscando ser irrepreensíveis”, concluiu.

Evangelho comentado pelo Papa:

Lc 10,21-24

21Naquele momento Jesus exultou no Espírito Santo e disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 22Tudo me foi entregue pelo meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai; ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. 23Jesus voltou-se para os discípulos e disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que veem o que vós vedes! 24Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir”.

Por ACI Digital

Marcelo Barros avalia a obra de Frei Carlos Mesters

images-3

Nos oitenta anos do irmão e mestre Carlos Mesters, doutor da fé bíblica para o mundo inteiro, certamente cabe a ele o título que ele deu às comunidades eclesiais de base no primeiro Encontro Intereclesial das CEBs em Vitória, ES em 1975. Se já, naquela época, elas eram mesmo como uma flor frágil que resiste às intempéries da vida, este aniversário de oitenta anos do frei Carlos é ocasião propícia para celebrarmos como o Espírito presenteou as Igrejas e o mundo dos pobres com a vida e a missão dele, flor frágil, mas muito resistente e que nunca deixou de transpirar e contaminar o universo com o perfume divino.

Atualmente, diversos fóruns mundiais de Teologia e Libertação, além de associações regionais de Teologia e Ciências da Religião espalham pelo continente e pelo mundo novas reflexões teológicas sobre a realidade e expressam novos desafios para uma reflexão de fé inserida nas melhores causas da humanidade e a partir da caminhada dos empobrecidos e excluídos do mundo. Apesar disso, em meios hierárquicos oficiais, há quem diga que a Teologia da Libertação morreu. De fato, alguns hierarcas baniram tanto os teólogos, como seus livros dos seminários e casas de formação oficiais. Ao fazer isso, pensaram decretar a morte da Teologia da Libertação. Entretanto, não podem dizer que a leitura bíblica que tem sustentado e dado força espiritual a este caminho teológico e pastoral esteja morta ou em decadência. Graças a Deus, ao menos na América Latina, vicejam muitas experiências de leitura bíblica a partir da caminhada do povo. Tanto as comunidades católicas, como evangélicas que se abriram a estas experiências novas sabem que entre os pioneiros deste tipo de leitura, o irmão que começou os círculos bíblicos e espalhou por todo o continente e por outros países do mundo esta nova forma de ler a Palavra de Deus foi o frei Carlos Mesters.

 images-2

Conheci Carlos em 1977, quando comecei a fazer parte do secretariado nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e fui encarregado de escrever um livro sobre “A Bíblia e a Luta pela Terra”. Procurei o frei Carlos Mesters para me situar no que estava sendo pensado, na linha de uma leitura bíblica a partir do povo. Ele me recebeu e me deu uma ajuda inestimável. Desde então, nos tornamos amigos e companheiros de caminho. Quando, em 1979, ele e outros companheiros e companheiras fundaram o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), embora não pude assinar a ata de fundação, fui dos primeiros que participei do Conselho do CEBI e da sua equipe de assessores.

Naqueles anos, vivi uma cena esclarecedora. Em uma livraria católica, um padre tomou nas mãos um dos muitos livros de Carlos Mesters e perguntou: – Este livro é de Exegese, de Teologia Bíblica ou só tem sermões de espiritualidade?

Na época, esta divisão rígida e acadêmica separava a reflexão racional e a prática litúrgica e devocional das Igrejas. Carlos Mesters e, a partir dele, os irmãos e irmãs que fazem o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) derrubaram os muros que dividiam estes diversos campos do conhecimento bíblico. Fizeram uma boa síntese entre um estudo crítico e mesmo científico da Bíblia e uma leitura pastoral e militante, construída a partir da causa dos pobres. Desde então, se espalham por todo o país propostas diversas de leitura bíblica e muitas procuram unir os dados da ciência com a preocupação pastoral de partir da realidade do povo.  Carlos Mesters é o pioneiro deste novo caminho teológico e espiritual.

Sem pretender sintetizar toda a riqueza do ensinamento de Carlos Mesters para a leitura bíblica latino-americana, aqui tentarei recordar apenas três elementos entre os muitos outros que podemos descobrir na sua forma de viver a espiritualidade bíblica e de como ele nos comunica a fé e a atualidade da palavra profética.

1 – O primeiro livro da revelação divina: a Vida

Foi uma das primeiras intuições de Carlos Mesters. Em seu Tratado sobre a Trindade, Santo Agostinho escreveu que, antes de inspirar a Bíblia, Deus tinha escrito um primeiro livro para se revelar a nós: a própria vida e a história da humanidade. Desde cedo, Carlos percebeu que a Bíblia é mais corretamente compreendida quando quem deseja aprendê-la procura antes compreender o próprio mistério da vida. Quem tem o privilégio de conviver com Carlos Mesters sabe como ele é aberto e sensível às relações de amizade, à sensibilidade com a justiça e à beleza da arte. Tudo ele capta e transforma em parábolas e histórias que nos ajudam a compreender a vida. Desde jovem, inseriu-se na convivência com as pessoas pobres. Isso lhe dá a capacidade de explicar os mistérios mais sublimes da revelação, com imagens simples do dia a dia. A beleza da chuva encharcando um terreno lhe possibilita explicar como a palavra bíblica vem do céu e, ao mesmo tempo, surge do chão da vida. A arte da fotografia e a ciência da radiografia o ajudaram a distinguir e comparar os evangelhos sinóticos com o texto joanino. Se Carlos Mesters resolvesse escrever todas as parábolas da vida que ele criou e contou, no decorrer destes anos, desde que começou em Belo Horizonte (no começo dos anos 70) os Círculos Bíblicos, como diz o evangelho: “nem todos os livros do mundo poderiam conter”.

Ler os livros do frei Carlos é sempre uma experiência espiritual porque, ao mesmo tempo que elabora seus livros com o conhecimento crítico mais atualizado, ele mantém sempre o estilo simples e comunicativo que aprendeu do povo. Ao mesmo tempo que revela, deixa algo para que a pessoa que lê possa aprofundar e concluir.

Sua relação com Deus que, muito discretamente, ele partilha conosco, me recorda sempre uma música que Maria Bethânia cantava em seu primeiro show (Rosa dos Ventos, 1970). A música inglesa do século XIX tem uma letra inspirada no poeta Fernando Pessoa que Carlos conhece e do qual gosta muito. A canção “Doce Mistério da Vida” fala do amor romântico, mas nos parece muito com o Cântico dos Cânticos. Assim como o poema bíblico, estes versos podem ter muitos sentidos, inclusive o de fazer da paixão humana sacramento da relação íntima com o Espírito. Por vários motivos, esta música na linha da balada romântica me lembra o amigo Carlos e seu jeito de viver a fé. A letra diz assim:  “Minha vida que parece muito calma

Tem segredos que eu não posso revelar,

Escondidas bem no fundo de minh´alma,

Não transparecem, nem sequer em um olhar.

                 Vive sempre conversando a sós comigo,

                 Uma voz que eu escuto com fervor,

                 Escolheu meu coração pra seu abrigo

                 E dele fez um roseiral em flor.

A ninguém revelarei o meu segredo,

E nem direi quem é o meu amor”.

2 – A dimensão subversiva da fé bíblica

Poucos anos depois que o CEBI começou sua missão de animar grupos de estudo e prestar assessoria bíblica aos diversos movimentos de pastoral popular, setores conservadores acusaram Carlos Mesters de fazer leitura bíblica redutiva e tendenciosamente política. Apesar de que os textos do frei Carlos nunca incitaram à luta de classes ou à violência, pelo fato dele interpretar a Bíblia, ligada à vida e à causa dos mais empobrecidos, está tomando posição política e contribui para a transformação do mundo. O CEBI começou a fazer isso em um tempo no qual as comunidades cristãs aprendiam a fazer análise social e a aprofundar o método pedagógico de Paulo Freire. Era comum se falar e buscar o que seria a “conscientização”. Sempre insistindo em fazer uma leitura de fé e contextual, o CEBI proporcionou um método de ler a Bíblia que se uniu neste caminho. Outros companheiros e companheiras desenvolveram mais a atenção para as dimensões sociais e políticas da leitura bíblica. Alguns procuravam sempre interpretar os textos bíblicos a partir das quatro “pernas” da mesa: a dimensão econômica, a social, a cultural e a religiosa. Carlos se inseriu neste diálogo com sua sensibilidade própria. Sempre mostrou que as coisas não podem ser isoladas uma da outra. A vida é sempre mais rica e diversificada do que nossos modelos intelectuais. Alguns exegetas europeus divulgavam o que chamaram de “Leitura Materialista da Bíblia”. Frei Carlos procurou ir além destes esquemas que algumas vezes podem ser muito estreitos. Sem relativizar ou diminuir a importância destas dimensões (social, política e econômica), Carlos nos ensinou a compreender a Bíblia a partir de um triângulo que se tornou famoso em seus cursos: texto, contexto e pré-texto. A leitura do texto pede o cuidado de uma boa compreensão dos termos e uma tradução que seja fiel e clara. O contexto é histórico, social e também literário. O pré-texto é a realidade da comunidade que está lendo o texto e as perguntas que a comunidade ou pessoa faz à Escritura. A preocupação com a realidade aparece no começo da maioria dos roteiros que ele fez para os círculos bíblicos e é elemento fundamental de sua espiritualidade social e política.

   Com a sua sensibilidade, unindo profundo e raro conhecimento da ciência exegética com a cultura do povo simples, frei Carlos contribuiu muito com os encontros intereclesiais de CEBs, elaborou bons materiais didáticos para a pastoral indígena, pastoral da terra, ação católica operária, comunidades afro-descendentes e no diálogo com as teólogas que nos ensinaram a ler a Bíblia a partir de olhos femininos. Seus livros, aparentemente escritos como introdução aos textos e dirigidos às pessoas simples, são sempre úteis mesmo para quem estuda e aprofunda o assunto.

   3 – A leitura pluralista e ecumênica da Bíblia

O amor à Bíblia sempre foi um elemento que uniu os cristãos das diversas Igrejas e possibilitou um contato e colaboração entre eles. Até os anos 70, era comum se dizer que “a Bíblia fechada une católicos e evangélicos. A Bíblia aberta (isto é interpretada) os separa”. Com sua experiência nos Círculos Bíblicos e no CEBI, experiência de quase meio século, Carlos Mesters mostra que isso pode não ser assim. De fato, seu jeito de ser aberto a todos, afável e acolhedor, sempre o aproximou de irmãos e irmãs de outras Igrejas, sedentos de uma leitura bíblica, densa de conteúdo, séria e mais próxima da realidade, ou seja, comprometida com as mudanças sociais.

O CEBI foi fundado com uma profunda vocação ecumênica. Na época se discutiu até se deveria ser chamado “Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos”. Concordamos que ele poderia ser até mais aberto à participação de cristãos de várias Igrejas, sem o título de ecumênico, que ainda assustava alguns setores eclesiais. Na ata da fundação do CEBI, constam nomes de alguns irmãos evangélicos, amigos do frei Carlos. Desde então, em todos os encontros, assembléias e atividades, sempre houve a preocupação de contribuir com o diálogo ecumênico e aprender com a colaboração de crentes de várias confissões.

Em um documento de preparação para o Diretório Ecumênico Mundial, em 1969, a CNBB fazia uma distinção importante entre Pastoral Ecumênica (trabalho que une cristãos de Igrejas diferentes) e o que então se chamou Ecumenismo da Pastoral.Chamava-se assim o esforço de dar a todo o conjunto da pastoral uma dimensão de fé e abertura ecumênica. Isso quer dizer que, mesmo em atividades cotidianas e quando não há a presença de ninguém de outra Igreja, somos chamados a viver a ecumenicidade da fé e do modo de ser cristãos. Sem este cuidado permanente e profundo de ser ecumênicos, seja quando celebramos a eucaristia, seja quando explicamos a fé para uma criança, a própria pastoral ecumênica seria superficial e sem bases. A leitura da Bíblia é um dos mais importantes pólos ou raízes deste Ecumenismo da Pastoral.  A leitura bíblica deve ser sempre ecumênica, não tanto por ser inter-confessional (o que nem sempre é ou consegue ser), mas por ser amorosa e acolhedora ao outro e ao diferente.

Sem dúvida, desde o início do CEBI, o estilo humano e a espiritualidade sempre aberta do frei Carlos nortearam o modo de se ler a Bíblia nesta dimensão. Além disso, o amor e a abertura para as culturas oprimidas, como as negras e indígenas, levou este trabalho de investigação e interpretação bíblica a uma dimensão não só interconfessional cristã, mas também macro-ecumênica, intercultural e interreligiosa.

Nos anos 90, Frei Carlos participou do livro que preparava o tema para um dos grandes encontros intereclesiais de CEBs. Como o encontro era em uma cidade na qual a população negra e a presença dos cultos afro-descendentes são fortes, o frei Carlos contava uma parábola. Dizia que Jesus visitou o templo de um culto afro, achou tudo muito bonito e saiu dizendo que Deus está presente e atuante ali. Um grupo de movimento leigo católico conservador protestou junto aos bispos contra o texto escrito por Carlos. Este assunto rendeu certa polêmica, mas, ao mesmo tempo, ajudou muitos irmãos e irmãs a descobrirem que “Deus não assinou contrato de exclusividade com ninguém. Nenhum grupo ou Igreja é dono de Deus, ou seu representante único e exclusivo”.

Atualmente, um dos maiores desafios para a nossa fé e para a teologia cristã é repensar a espiritualidade e a forma de expressar a fé não mais a partir de modelos exclusivistas ou ainda hegemônicamente cristãos e sim no mundo pluralista e no qual as diversas culturas e diferentes religiões devem colaborar para a paz e a justiça, assim como aprenderem umas com as outras a viverem a intimidade com o Mistério e servirem à humanidade e à defesa da natureza ameaçada.

Neste caminho, comumente, precisamos de estudar e aprofundar para sermos capazes de fazer frente a este desafio tão grande. Na relação com frei Carlos Mesters, tenho sempre a impressão de que isso que para nós é fruto de um esforço e resultado de muito aprofundamento, nele é quase natural. Vem do seu jeito simples e aberto de homem de Deus, parecido com Jesus Cristo, irmão de coração e espírito universal.

4 – Oitenta anos de um menino embriagado de Deus

Sem dúvida, a qualquer pessoa que tem contato com Carlos Mesters, um elemento de sua pessoa e do seu jeito de ser que nos impressiona sempre é a jovialidade. Isso é tanto assim que chega a nos espantar quando alguém diz que, de fato, ele está completando 80 anos. Como espantou muita gente quando soube que ele esteve doente. Ele é destas pessoas que parece sempre jovem e brincando com sua saúde. Há anos e anos, vive uma vida peregrina de missionário por todos os recantos do mundo, encantando as pessoas com sua sabedoria e sua arte poética de falar de Deus e da Bíblia como quem apresenta as pessoas a quem mais se ama. Aliás, entre o Deus bíblico e Carlos Mesters se estabeleceu uma intimidade que já tem tantos anos que parece estes casamentos entre homem e mulher de idade avançada. De tanto conviver, marido e esposa começam a se parecer cada vez mais um com o outro. Isso é bom para nós. É como se nos 80 anos do frei Carlos, fôssemos nós, seus irmãos, irmãs e amigos/as que ganhássemos o maior presente: poder contemplar na pessoa e na vida dele o rosto humano do divino. Ad multos annos, meu irmão e amigo.

Fonte: Marcelo Barros

CEBI – Centro de Estudos Bíblicos

Outra vez Crucificada

images-1

 

Como a Igreja Católica é feita de pessoas imperfeitas e até pecadoras, -e assim são todas as igrejas-, aconteceu, acontece e pode acontecer de novo que seus membros errem. Erram também os membros de outras comunidades. Mas um é o tratamento dado aos do nosso lado e outro aos do lado de lá, que porventura tenham errado. Fazem isso os partidos, os jornais, as editoras, as emissoras de televisão e rádio os clubes de futebol e as igrejas. Divulgam em manchetes espetaculares os pecados ou possíveis desvios dos outros e dão um jeito de abafar os de quem estava ou está com eles. A parcialidade é o preço de sermos humanos. Nascemos e morremos seletivos e excludentes. Só Jesus pode nos tornar justos para com todos.

Os noticiários estão falando. Pela enésima vez mais um católico virou manchete. Dizem que ele prevaricou. Pela enésima vez alguém do outro lado aproveitou para mostrar os possíveis erros dele e suas contradições. E o fez por quinze dias, coisa que certamente não fará quando alguém do lado dele errar. Mas é o que fazem os partidos, as publicações e outras igrejas. Onde há pecado e pecador haverá sempre alguém errando, alguém acusando e um pecador tentando ressaltar o pecado do outro que milita no lado oposto. E dará um jeito de ocultar os pecados de alguém do seu rebanho.

Era disso que Jesus falava quando em Mt 7,1-2 proíbe os seus seguidores de julgar os outros porque serão medidos com a mesma medida que usaram para julgar. Jesus vai ainda mais longe em Mt 7,3-5, chamando de hipócrita quem aponta para o cisco no olho do outro enquanto, no próprio olho há um enorme graveto… O mestre Jesus é extremamente severo contra políticos ou religiosos que se metem a revelar os pecados dos outros, dão o nome da pessoa, abrem manchetes e agem como se do lado deles não houvesse pecado. O fariseus e saduceus eram políticos e religiosos e foi sobre eles que Jesus disse o que disse na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,10 ) e na do bom samaritano. Lc 10,30-37).

Convém lembrar estas coisas aos da nossa e aos de outras igrejas e partidos quando um dos nossos ou um deles erra, ou é acusado de erro. E se for calúnia? Brincar de juiz ou de Deus nunca deu certo. A Igreja Católica sempre viveu e sempre viverá em meio a contradições. Está escrito em nossos documentos que a cruz e a contradição fazem parte da vida dos discípulos de Jesus: quando erramos e quando somos vítimas de calúnia. Mas a Igreja sempre sobreviveu aos próprios erros e às calúnias que sofreu. Nossos mártires entenderam isso. Eram inocentes. Nossos penitentes também. Com os penitentes, os mártires e os confessores a Igreja atravessou os séculos. Seus acusadores não estão mais por aqui. Passaram. Ela sobreviveu.

Para os católicos a lição é clara. A nenhum de nós é permitido tripudiar sobre o pecador da outra Igreja. Isto seria crucificar. Melhor que nos crucifiquem! Ser crucificado por quem nos odeia faz parte do discipulado. Vingar-nos e crucificar quem nos odeia, é trair Jesus! O bispo provavelmente fecharia o primeiro jornal católico que desse uma manchete contra algum pastor ou político acusado de pecado! Verifique e veja se é ou não é verdade… Já leu algum periódico católico ou viu algum noticiário onde a Igreja deu nome ou ressaltou o erro de algum pregador de outra igreja? Cristão não crucifica, ainda mais se for católico.

Pe. Zezinho scj

O Crucifixo de São Damião

fb23f-damiao_g

O Crucifixo de São Damião foi pintado no século XII por um desconhecido artista da Úmbria, região da Itália. A pintura é de estilo romântico, sob clara influência oriental: o pedestal sobre o qual estão os pés de Cristo pregados separadamente; e de influência siríaca: a barba de Cristo; a face circundada pelo emoldurado dos cabelos; a presença dos anjos e cruz com a longa haste segurada na mão, por Cristo (só visível na pintura original), no alto, encimando a cruz.

O Crucifixo original de São Damião está guardado com grande zelo pelas irmãs Clarissas, na Basílica de Santa Clara de Assis, e é visitado por estudiosos, devotos e turistas do mundo todo. É um monumento histórico franciscano e universal.

Outros dados

• Sem o pedestal, o Crucifixo original mede dois metros e dez centímetros de altura e um metro e trinta centímetros de largura.

• A pintura foi feita em tela tosca, colada sobre madeira de nogueira.

• Naquele tempo, nas pequenas igrejas, o Santíssimo não era conservado, isto é, a Eucaristia não era guardada mas, consumida no dia. Por isso, supõe-se que Crucifixo foi pendurado no ábside sobre o altar da capela, no centro da Igreja.

• Provavelmente o Crucifixo permaneceu na Igreja de São Damião até que as Irmãs Pobres, em 1257, o levaram consigo à nova Basílica de Santa Clara. Guardaram-no no interior do coro monástico por diversos séculos. No ano de 1938, a artista Rosária Alliano restaurou o Crucifixo com grande perícia, protegendo-o inclusive contra qualquer deterioração.

• Desde 1958 ele está sobre o altar, ao lado da capela do Santíssimo, na Basílica de Santa Clara, protegido por vidro.

Descrição detalhada da pintura

Descobre-se, à primeira vista, a figura central do Cristo, que domina o quadro pela sua imponente dimensão e pela luz que sua esplêndida e branca figura difunde sobre todas as pessoas que o circundam e que estão todas vivamente voltadas para Ele. Esta luz vivificante que brota do interior de sua Pessoa (Jo, 8,12) fica ainda mais destacada pelas fortes cores, especialmente o vermelho e o preto.

Também impressiona este Cristo ereto sobre a cruz e não pendurado nela, com os olhos abertos, olhando o mundo.

Apresenta ainda uma auréola de glória com a cruz triunfante oriental em vez de uma coroa de espinhos, porque tornou-se vitorioso na paixão e na morte.

Aparecem os sinais de crucificação e as feridas sangrentas mas o sangue redentor se derrama sobre os anjos e santos (sangue das mãos e dos pés) e sobre São João (sangue do lado direito).

Cristo se apresenta vivo, ressuscitado (Jo 12,32), de pé sobre o sepulcro vazio e aberto (indicado pela cor preta), visível por trás. Com as mãos estendidas, Cristo está para subir ao céu (Jo 12,32).

A inscrição acima da cabeça de Cristo, “Jesus Nazarenus Rex Judaeorum” Jesus Nazareno Rei dos Judeus é também própria do Evangelho de João.

Sobre a inscrição, está a ascensão em forma dinâmica, na figura do Cristo ascendente, com o troféu da cruz gloriosa na mão esquerda (só visível na pintura original) e com a mão direita para a mão do Pai, no céu.

Do alto, a mão direita do Pai acolhe o seu Filho, circundado dos anjos (e santos) na glória celeste.

As cores vermelha e púrpura são símbolos do divino; o verde e o azul, do terrestre. Para “ver” bem o conjunto da pintura, deve-se realmente parar diante do Crucifixo pois, ordinariamente, olha-se a imagem somente, de longe, como “turistas”.

À direita do corpo de Cristo, aparecem as figuras de Maria e João, intimamente unidas, enquanto Maria indica o discípulo predileto com a mão direita (Jo 19,26). À esquerda, estão as duas mulheres, Maria Madalena e Maria de Cléofas, primeiras testemunhas da ressurreição (Jo 19,25).

E, embora Maria, à direita e Maria Madalena, à esquerda, ergam a mão direita no rosto em sinal de dor, nenhuma das outras pessoas próximas, manifesta expressão de sofrimento profundo mas uma adesão cheia de fé ao Cristo vitorioso, Salvador.

À direita das duas mulheres vê-se o centurião com a mão erguida, olhando para o Crucifixo. Com esse gesto está a dizer: “Verdadeiramente este é o Filho de Deus”.

Sobre os ombros do centurião aparece a cabeça de uma pessoa em miniatura, cuja identidade se discute: poderia ser o filho do centurião, curado por Jesus (Jo 4,50) ou um representante da multidão ou ainda, o autor desconhecido da pintura.

Aos pés de Maria e do centurião, vê-se o soldado chamado Longino que, pela tradição, com a lança traspassa o lado de Jesus e, o portador da esponja, chamado de Estepatão, segundo a tradição (Jo 19,29). Ambos estão voltados para o Crucifixo.

Debaixo das mãos de Jesus, à direita e à esquerda, encontram-se dois anjos com as mãos erguidas, em intenso colóquio. Parecem anunciar a ressurreição e ascensão do Senhor.

As duas pessoas, à extrema direita e esquerda, parecem anjos ou talvez mulheres que acorrem ao sepulcro vazio.

Aos pés de Jesus a pintura original encontra-se muito deteriorada. É provável que seja: São Damião, São Rufino, São João Batista, São Pedro e São Paulo. Acima da cabeça de São Pedro, está a figura do galo (só visível na pintura original), a lembrar a negação de Pedro a Cristo (Jo 13,38; 18, 15-27).

As pessoas aos pés de Jesus têm a cabeça erguida para o alto, expressando a espera do retorno glorioso do Senhor, no juízo.

Deste Crucifixo descrito em detalhes, Francisco teve uma inspiração “decisiva” para a sua vida, diz Caetano Esser. Passamos a descrevê-la porque é deste fato que se originou a admiração que hoje temos ao Crucifixo de São Damião.

O Crucifixo fala a Francisco

O jovem Francisco encontrava-se numa crise espiritual, cheio de dúvidas e trevas. “Conduzido pelo Espírito”, entra na igrejinha de São Damião, onde se prostra, súplice, diante do Crucifixo. Tocado de modo extraordinário pela graça divina, encontra-se totalmente transformado. É então que a imagem de Cristo Crucificado lhe fala: “Francisco, vai e repara minha casa que está em ruína”.

Francisco fica cheio de admiração e “quase perde os sentidos diante destas palavras”. Mas logo se dispõe a cumprir esse “mandato” e se entrega todo à obra, reconstruindo a igrejinha. Depois pede a um sacerdote, dando-lhe dinheiro, que providencie óleo e lamparina para que a imagem do Crucifixo não fique privada de luz, mas em destaque naquele santuário.

A partir de então, nunca se esqueceu de cuidar daquela igrejinha e daquela imagem.

Francisco parecia intimamente ferido de amor para o Cristo Crucificado, participando da paixão do Senhor, de quem já trazia os estigmas no coração e mais tarde, em 1224, receberia as chagas do Cristo em seu próprio corpo.

Segundo Santa Clara, está visão do Crucifixo foi um êxtase de amor radiante e impulso decisivo para a conversão de Francisco.

Entre os estudiosos ainda existe uma dúvida a ser esclarecida: ao ouvir o Cristo do Crucifixo, Francisco pensa na igrejinha material de São Damião. Mas nada impede de se pensar que se trata do “templo de Cristo no coração de Francisco e nos corações dos homens”.

Enfim, a própria oração de Francisco diante do Crucifixo de São Damião sugere antes a reparação “espiritual” da casa do Senhor, crucificado no coração.

Tanto que ele pede especialmente pelas três virtudes teologais (fé, esperança e amor) para poder cumprir esse “mandato” de Cristo.

Por Frei Vitório Mazzuco

Ser frade Franciscano é uma grande alegria

frei-600

Por Moacir Beggo

Diz um ditado popular que “mineiro não fala, proseia”. Frei Carlos Ajluni Oliveira deu-nos a honra de uma “prosa”, onde falou um pouco de sua vida, de sua caminhada vocacional e de suas expectativas como sacerdote de Cristo. Isso porque Frei Jean será ordenado presbítero pela imposição das mãos do bispo diocesano de Bauru, Dom Caetano Ferrari, no dia 21 de novembro, às 17 horas, no Ginásio Poliesportivo de São José da Barra (MG).

Nesta cidade, mora a família de Frei Jean, mas ele nasceu em Passos (MG), no dia 8 de julho de 1979. Vestiu o hábito de São Francisco de Assis no dia 15 de novembro de 2009 e professou solenemente Ordem dos Frades Menores no dia 6 de dezembro de 2014.
Frei Jean vai celebrar a sua Primeira Missa no dia 22 de novembro, às 9 horas, na Igreja Matriz de São José.

Site Franciscanos – Como se deu seu discernimento vocacional?
Frei Jean – Desde muito cedo me interessei pela vida na Igreja, participando de diversas atividades em minha Paróquia no interior de Minas Gerais. Aos poucos fui me sentindo chamado à vida religiosa e, conhecendo a história de São Francisco de Assis, pensava em ser Franciscano, apesar de não conhecer nenhum franciscano pessoalmente. No entanto, o processo de discernimento foi mais longo e complexo do que parecia no início. Comecei a caminhada na Província, a qual foi interrompida por alguns anos, até que num certo momento o chamado à vida religiosa franciscana falou mais forte, quando retomei a caminhada e estou muito feliz.

Site Franciscanos- Quando resolveu ingressar no seminário?
Frei Jean – Eu tenho alguns amigos em Santos (SP) que sabiam do meu desejo de ser franciscano. Num primeiro momento me levaram à Igreja dos Capuchinhos do Embaré, mas lá não me senti acolhido, então me levaram ao Convento Santo Antônio do Valongo. Quem estava lá naquele ano era Frei Rozântimo, que nos acolheu muito bem, eu, minha mãe e meus amigos, nos convidou para tomar café, nos deu atenção. Foi então que percebi que era “daqueles franciscanos” que eu queria ser. Por indicação dos frades, escrevi a Frei Severino Clasen, então procurador vocacional, que me mandou um cartão postal, que guardo até hoje, com a data do estágio em Agudos. Lembro que fui ver no mapa da escola onde ficava Agudos… Meu padrinho pagou a passagem e fiz minha primeira viagem sozinho. No ano seguinte entrei no Seminário Santo Antônio e iniciei a caminhada na Província.

Site Franciscanos – Como foi sua caminhada formativa?
Frei Jean – Como já acenei antes, não foi muito linear. Entrei em Agudos em 1995 e fui até o último ano de Filosofia em 2002, quando em conversa com o Mestre achou-se por bem que eu interrompesse o processo formativo para melhor discernimento vocacional. Fui pra Minas Gerais, e ainda no final daquele ano consegui emprego em São Paulo, primeiro numa loja de um sírio no Brás, e em dezembro de 2002 entrei na Volkswagen do Brasil. Trabalhei lá por alguns anos, como também na Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Neste tempo “fora” pude amadurecer como pessoa e também como cristão. Me lembro que frequentava sempre as Missas, principalmente aos domingos, nas igrejas próximas de onde morava. Durante este tempo, o desejo de ser frade continuou até que, após algumas viagens ao Exterior, quis fazer uma experiência vocacional na Custódia da Terra Santa, experiência esta que foi decisiva para que eu retomasse o contato com a Província da Imaculada, com a qual me identificava mais e onde já havia passado alguns anos na formação. Desde o primeiro momento, a Província foi muito acolhedora na pessoa de seus frades e eu retomei o processo formativo em 2009, fazendo a profissão solene 2014.

Site Franciscanos – Como você se define como pessoa?
Frei Jean – Uma pergunta difícil de responder, não é fácil se definir. Digamos que sou bem mineiro, num primeiro momento tímido e mais reservado, mas após um tempo de convivência, ou como dizemos em Minas, ‘depois de pegar confiança’ a timidez dá lugar à conversa e ao riso, gosto muito de contar histórias, uma herança de família! É comum as pessoas me acharem um tanto quanto sisudo, mas também atribuo isso à timidez e à herança da família materna, mas a convivência faz mudar esta primeira impressão. De modo geral tento ser muito prático no trato diário, uma das marcas que os anos de trabalho me deixaram. Discursos prolixos me incomodam, apesar de, por vezes, serem necessários. No dia a dia procuro ser discreto e comedido e acredito possuir uma autocrítica bastante acentuada.

Site Franciscanos – Fale um pouco de sua vida e sua família.
Frei Jean – Sou filho do Sr. João e de D. Catarina. Meu pai faleceu no final de 2008 após lutar alguns anos contra o câncer. Tenho um irmão mais velho que se chama Jairo e uma irmã gêmea chamada Jeane. Tenho dois lindos sobrinhos, João e Davi, um de cada irmão. Fui criado numa família muito unida, não somente pais e irmãos, mas também tios, tias e primos. A família de um modo geral sempre foi e ainda é uma forte referência para todos nós. O que atinge positivamente ou negativamente um primo, por exemplo, repercute fortemente em toda família. A família de minha mãe tem um jeito mais quieto e muito amoroso, já a do meu pai é igualmente amorosa, mas ao mesmo tempo festeira e falante. Sou muito grato a Deus pela minha família.

Site Franciscanos – Como você define o ministério sacerdotal?
Frei Jean – Não pretendo desenvolver aqui uma teologia do sacramento da Ordem. De forma breve, acredito que a própria expressão “ministério sacerdotal” já define a sua natureza. O presbítero, o qual recebeu pela prece da Igreja e a imposição das mãos do seu pastor o segundo grau do sacramento da Ordem, é aquele que a comunidade de fé elegeu e ordenou para servir, em todas as dimensões que são exigidas por este serviço. Será um bom sacerdote quem for um servo bom e fiel, a exemplo de Cristo.

Site Franciscanos – Quais as suas expectativas como presbítero na Igreja do Papa Francisco?
Frei Jean – Particularmente não gosto da expressão “Igreja do Papa”, a Igreja é de Cristo e dos fiéis cristãos, sejam eles leigos ou clérigos. Tive a graça de nascer no início do Pontificado de João Paulo II, passar por Bento XVI e agora o Papa Francisco. Tenho uma admiração especial por cada um deles por diversos motivos. O Papa é chamado a presidir a Igreja Universal na caridade, a ser o mais Servo entre os servos, a construir pontes (pontífice), a ser vigário de Cristo, ou seja, ser sinal de Cristo no mundo, vocação de todo batizado. Será um bom Papa quem conseguir em sua vida testemunhar tudo isso. Nesta ótica, acredito que o Papa Francisco certamente será marcante na história da Igreja e contribuirá ainda mais para com a Igreja de Cristo do que já contribuiu nestes poucos anos. O importante é não definir a Igreja ou o ser cristão a partir do Papa, mas juntamente com ele, que está num serviço de grande responsabilidade, procurarmos todos nós viver em plenitude o nosso batismo, sempre a partir do Evangelho. Como presbítero, minha expectativa é essa: ser acima de tudo um cristão autêntico e evangélico.

Site Franciscanos – O que diria para um jovem que procura a vida religiosa franciscana?
Frei Jean – Se um jovem procura a vida franciscana é porque recebeu de Deus um dom muito precioso. Eu diria a este jovem que, em espírito de gratidão a Deus por um dom tão bonito, o faça multiplicar e restitua estes dons para tudo e todos. No esforço, constância, determinação, perseverança, fidelidade ao chamado e na disposição ao serviço. Ser frade franciscano é uma grande alegria!

Religião de Verdade

images-8

 

Um dos maiores especialistas em linguagem portuguesa, na região onde eu morava, tinha um enorme problema: prolação. Sabia tudo sobre gramática e como escrever o português, mas não sabia falar de maneira inteligível, comia todos os finais das palavras porque baixava demais a voz no encerramento da pronúncia. Assim, o homem que sabia português a ponto de ensiná-lo, até mesmo a outros professores, não sabia falar, pois um vício de linguagem deixava as palavras pela metade.
O que aconteceu com este professor de português acontece com muitos de nós que sabemos tudo sobre o catecismo, sobre teologia ou sobre liturgia, mas, na hora de viver o que sabemos ou expressar aquilo que conhecemos, temos dificuldade. Um cardiologista amigo meu não conseguia se livrar do cigarro e sofria do coração e do pulmão. Um médico que conheci desaconselhava bebida a todos, mas ele mesmo exagerava na dose. E pode acontecer e acontece que o pregador ensina para os outros, mas ele mesmo não vive.
A expressão é de Jesus: “médico, cura a ti mesmo.”, Ele a usou repetindo um adágio do seu tempo. Temos, todos, a tendência de ensinar os outros a viver, mas, quanto toca a nossa vez, vivemos apenas um pouco daquilo que cremos ou ensinamos, faz parte da condição humana. Ensinar a perfeição é uma coisa, coerência é outra.

Pe. Zezinho scj

A religiosidade dos pobres e a esquerda

images-1

A recente eleição de Crivella no Rio de Janeiro, especialmente sua popularidade nos bairros pobres da cidade, tem trazido à tona um debate sobre o modo como a esquerda, em geral, enxerga os evangélicos.

Quase todos na esquerda, diz Renato Dutra à IHU On-Line, “rejeitam a adesão dos evangélicos à ‘teologia da prosperidade’ e aos ideais de autonomia e valorização do indivíduo como se isso fosse uma distorção da autêntica forma de ser e agir das classes populares”. Mas o que a esquerda não “entende”, pontua, é que “há uma combinação específica entre individualismo moral e solidariedade, caudatária da tradição pequeno-burguesa que é a principal fonte de expectativas de vida das classes mais baixas”. Ao não perceber essa relação entre individualismo e solidariedade, e “operar com a dicotomia rígida individualismo versus solidariedade, a esquerda não observa o fenômeno popular-religioso que combina as duas coisas”, afirma.

http://www.cebi.org.br/noticias.php?secaoId=1&noticiaId=7607

 

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑