Quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado (Lc 14,1.7-14)

[Tomaz Hughes]

 

O relato de hoje se situa no contexto de uma refeição na casa de um chefe dos fariseus, que permanece no anonimato. Lucas tem o cuidado de sublinhar que o evento aconteceu em dia de sábado e que os fariseus estavam observando Jesus para tentar pegá-lo em algum erro. Então, embora se trate de uma refeição, não era uma confraternização, mas muito antes um confronto, mesmo que camuflado.
Jesus aproveitou a oportunidade para nos deixar o seu ensinamento sobre dois assuntos importantes para a vida dos discípulos: a opção entre a humildade e o orgulho, e a gratuidade.
Como bom pedagogo, Jesus observa a vida ao seu redor e a usa para ensinar algo sobre Deus. Os fariseus eram muito bem vistos no meio do povo simples. É um erro nosso pensar que a palavra “fariseu” seja sinônima de “hipócrita”. Talvez essa ideia venha do capítulo 23 de Mateus, que reflete a situação de antagonismo entre eles e os discípulos de Jesus no tempo do escrito – pelo ano 85 d.C., quando os fariseus estavam expulsando os cristãos “mateanos” das sinagogas – mais do que a realidade do tempo de Jesus. Os fariseus eram exímios observadores da Lei, mas muitas vezes caíam no perigo de sentir-se superiores às massas que não podiam ou não conseguiam viver a Lei em seus pormenores. Confiando na sua observância como garantia de salvação, na prática dispensaram a gratuidade de Deus.
Vendo como os convidados buscaram os primeiros lugares na refeição, Jesus nos dá a lição sobre buscar os últimos lugares na festa de casamento.  À primeira vista, parece que Jesus está nos ensinando a ser falsos ou hipócritas; mas a verdade é outra. O banquete desta história simboliza a nossa vida. Diante da vida, podemos optar – buscar uma vida de prestígio aos olhos do mundo, com todos os privilégios que isso acarreta, ou buscar o serviço aos irmãos – nos “humilhando”, pois quem servia era considerado menor do que quem era servido (como geralmente ainda hoje é). De novo, Jesus nos coloca diante do seu próprio exemplo, pois ele veio “não para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em favor de muitos” (Mc 10,46).
Como é atual este ensinamento! O nosso mundo é um mundo classista, onde “quem pode mais, chora menos”, até nas Igrejas. Como gostamos de títulos, de honras, de prestígio! Em vão, buscaremos nos Evangelhos títulos de honra como “Eminência”, “Santidade”, “Reverendo, “Reverendíssimo”. Ali, Jesus nos chama a sermos simplesmente irmãos e irmãs (Mateus 23,8). Sem que notássemos, as relações injustas e hierárquicas do mundo se infiltraram  nas nossas comunidades com as suas falsas categorias. Como é empolgante ouvir o Papa Francisco advertir contra esta busca de prestígio falso nas Igrejas, especialmente quando acontece entre ministros ordenados, religiosos/as e seminaristas. Durante uma homília, ele disse: “a vida religiosa e/ou sacerdotal não é para carreiristas ou alpinistas sociais”.
O mesmo vale para os ministérios leigos. Nada mais fez do que fazer eco ao ensinamento de Jesus.
O centro da questão está no versículo 11: “de fato, quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. Não é uma recomendação sádica para que procuremos ser humilhados, como antigamente se pregava na formação da Vida Religiosa e na espiritualidade. Pelo contrário, é uma orientação para que não ponhamos o nosso valor nos títulos e nas honrarias vãs que a sociedade tanto aprecia, mas no serviço humilde aos irmãos e irmãs, unindo-nos à luta dos oprimidos por dignidade e que são humilhados pela sociedade consumista e opulenta.
Ato contínuo, Jesus nos orienta sobre a gratuidade. Recomendando ao fariseu que ele não convide os que possam retribuir com outros convites, ele nos põe diante do exemplo do próprio Deus que é gratuidade absoluta. Novamente, os marginalizados servem como exemplo para o exercício de gratuidade. Temos muitas indicações na literatura daquele tempo, mostrando que a sociedade judaica como a greco-romana rejeitavam o povo sofrido. Um documento dos Essênios de Qumrã elenca as categorias que serão proibidas de entrar no banquete escatológico: “os que têm problema na pele, com as mãos ou os pés esmagados, os aleijados, os cegos, os surdos, os mudos; os que têm defeito na vista ou que sofrem de senilidade”. A lista lucana adiciona a categoria dos “pobres”. Sabemos que, na literatura judaica, “os pobres” era muitas vezes a designação usada para Israel e especialmente para os eleitos dentro de Israel. Então, Lucas está usando de ironia – mostrando que os verdadeiros eleitos não são os que a sociedade assim considera, mas os realmente pobres, marginalizados e sofredores!
O discípulo, “convidando-os”, ou seja, relacionando-se com eles como igual para igual, não receberá deles a retribuição. Eles não terão com o que retribuir, e assim será como Deus, que ama sem esperar algo em retorno. Assim estará colocando a sua confiança na gratuidade de Deus e não agindo de um modo calculista, como tanto se prega hoje: “é dando que se recebe”. Assim dizem os politiqueiros cínicos, como também alguns pregadores que se dizem cristãos, interessados no acúmulo de dinheiro.
A imagem do banquete é simplesmente um símbolo. A história nos desafia para que examinemos as nossas motivações mais profundas, para que busquemos o serviço às irmãs e aos irmãos, e para que aprendamos de Deus, que é Amor Gratuito por excelência.
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