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Nos Caminhos de Francisco

Seguir Jesus a exemplo de Francisco de Assis

mês

agosto 2016

Conheça um pouco sobre a Pastoral Carcerária

 

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A Pastoral Carcerária é a presença de Cristo e de sua Igreja no mundo dos cárceres onde procura desenvolver todos os trabalhos que essa presença vem a exigir.

A Pastoral mantém contatos e relações de trabalho e parceria com organismos dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo, como também ONG’s locais, nacionais e internacionais.

Características da Pastoral Carcerária
1) Está junto das pessoas privadas de liberdade. Só a proximidade que nos faz amigos nos permite apreciar profundamente os valores das pessoas privadas de liberdade, seus legítimos desejos e seu modo próprio de viver a fé. À luz do Evangelho reconhecemos sua imensa dignidade e seu valor sagrado aos olhos de Cristo, pobre como eles e excluído como eles. Desta experiência cristã compartilharemos com eles a defesa de seus direitos”. (DA.398)

2) Busca a Libertação integral. Consciente de que precisa enfrentar as urgências que decorrem da violência e da miséria do sistema prisional, o agente de Pastoral Carcerária sabe que não pode restringir sua solidariedade ao gesto imediato da doação caritativa. Embora importante e mesmo indispensável, a doação imediata do necessário à sobrevivência não abrange a totalidade da opção às pessoas privadas de liberdade. Antes de tudo, esta implica convívio, relacionamento fraterno, atenção, escuta, acompanhamento nas dificuldades, buscando, a partir das pessoas privadas de liberdade, a mudança de sua situação. Aspessoas presas são sujeitos da evangelização e da promoção humana integral. (CNBB – Nº 94, parg. 71)

3) Luta para cancelar toda legislação e normas contrárias à dignidade e aos direitos fundamentais às pessoas privadas de liberdade, assim como as leis que dificultam o exercício da liberdade religiosa em benefício dos reclusos e busca, a quem transgride o caminho, o resgate e uma nova e positiva inserção na sociedade.

4) Respeita a dignidade da pessoa humana. Isso significa tratar o ser humano como fim e não como meio, não o manipular como se fosse um objeto; respeitá-lo em tudo que lhe é próprio: corpo, espírito e liberdade; tratar as pessoas presas como ser humano sem preconceito nem discriminação, acolhendo, perdoando, recuperando a vida e a liberdade de cada um, denunciando os desrespeitos à dignidade humana e considerando as condições materiais, históricas, sociais e culturais em que cada pessoa vive.

Francisco de Assis e a pureza de coração

Diz o relato de 1Cel 47,6: “Enfim compreenderam e souberam que a alma do santo pai brilhava com tão grande fulgor que, pela graça de sua especial pureza e do piedoso cuidado para com os filhos, mereceu obter do Senhor a bênção de tão grande dom”, ou em 1Cel 54,3: “A consciência, testemunha de toda inocência, não permitia que ele descansasse, guardando-se com todo cuidado, enquanto não curasse com ternura a ferida espiritual causada por ele”. Temos muitos relatos mostrando o jeito inocente de Francisco, a pureza de seu coração, o secreto tesouro de todos os caminhos. Por ser puro, atraía em seu segredo.

Como dizer que Francisco de Assis era puro de coração? Pelo seu amor apaixonado por Deus, pelas pessoas e às coisas da terra. Isto o guiou à máxima doação de si mesmo. É o seu olhar sensível e penetrante que vê o fundo profundo de todos os desejos como pura graça e esplendor natural; este seu ver amoroso da maravilhosa manifestação de Deus na existência.

A pureza de coração de Francisco está no seu retorno à simplicidade originária; ao estar no êxtase de louvor à vida. O puro de coração satisfaz seus desejos na fluência da força da vida, na escuta do Mistério, no espalhar Amor em tudo o que faz. Não vive no medroso cativeiro da sua vontade, mas vê a vontade do Senhor em tudo. Ele imitou o Senhor o Casto por excelência; louvava Maria em sua fontal virgindade; admirava José, o simples, puro e silencioso. Com eles entrou no caminho da perfeita correspondência de doação à vida: a Encarnação.

Francisco parecia louco e ingênuo, mas seu coração cheio de algo profundo não se esvaziou nas normas que queriam impor a ele. Não reprimiu o Amor, mas o transformou num projeto de vida. Mostrou que amar não é privar-se, mas sim doar-se na força do Deus que é Amor. Ele foi um equilibrado por saber usar a medida exata de suas forças! Que o Pobre de Assis nos liberte do nosso medo de amar, e cantemos a provocante canção de Beto Guedes: “O medo de amar é o medo de ser livre!”, escolhendo sempre a liberdade de Amar! Isto é castidade!

Imagem: de Piero Casentini

FREI VITÓRIO MAZZUCO

Monge alemão Anselm Grün prega retiro em São Paulo

 

Érika Augusto

São Paulo (SP) – Desde a última quarta-feira (24), o monge beneditino Anselm Grün está percorrendo diversas capitais do Brasil, lançando seu livro “Onde eu me sinto em casa e encontro o equilíbrio e o bem-estar espiritual”. A maratona, promovida pela Editora Vozes, responsável pelos livros do autor no país, passou pelas cidades de Recife (PE) no dia 24, Salvador (BA) no dia 25, Brasília (DF) no dia 26 e Limeira (SP) no dia 27. Nesta última, no interior de São Paulo, mais de mil pessoas participaram do encontro e da sessão de autógrafos.

Apesar da rotina intensa e dos longos trajetos percorridos, Anselm Grün, de 71 anos, estava bem disposto para a programação deste domingo (28). Logo cedo, às 8 da manhã, mais de 150 pessoas se reuniram no Centro de Eventos Anhangüera, no bairro de Perus, zona oeste de São Paulo, para um dia de retiro.

Frei Gustavo Medella, coordenador da Frente de Evangelização da Comunicação, conduziu a oração inicial. O monge Zacharias Heyes também ajudou na condução do retiro. Ele é autor do livro “Em casa comigo mesmo – guia para reequilibrar o corpo e a alma”. Frei Volney Berkenbrock, diretor da Editora Vozes, acompanhou os monges e ajudou na tradução do alemão.

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Zacharias Heyes iniciou sua fala partilhando a experiência de escrever seu segundo livro. Ele afirmou que não tinha ideia de como o tema seria tão importante e atual, referindo-se à crise migratória que atingiu a Europa nos últimos meses. “Cada pessoa tem em si o desejo profundo de ser acolhido, de ser aceito pelos outros. Isso que eu entendo como estar em casa”, afirmou. O autor comparou o drama dos milhares de refugiados com a história de Jesus, que também nasceu numa situação de insegurança e sua família teve que enfrentar os desafios de estar sem pátria por um período. “Nós, cristãos, acreditamos que neste Jesus, Deus se tornou humano”, acrescentou.

O autor afirma em seu livro que o ser humano precisa entrar em contato consigo mesmo, para assim encontrar em si sua pátria e encontrar-se verdadeiramente com a vontade de Deus para sua vida. Zacharias pediu então aos presentes para recordarem quais os sonhos traziam consigo quando eram crianças, porque as crianças são originais, não sofrem tanta influência exterior e ainda não vivem segundo as expectativas dos outros. “Eu devo ser o original, como Deus me criou. E isso eu devo afirmar sempre: eu sou um original de Deus”, afirmou o monge. E disse que para redescobrir o desejo original de Deus para a vida de cada pessoa, é necessário estar em casa com Deus, através da oração e do encontro consigo mesmo.

Anselm Grün fala sobre a redescoberta da pátria

“Onde eu me sinto em casa e encontro o equilíbrio e o bem-estar espiritual”, este é o título do livro mais recente do monge da Abadia de Münsterschwarzach, na Alemanha, lançado pela Editora Vozes. A fala do autor foi baseada nos 12 capítulos, onde ele aborda os diferentes aspectos do que significa sentir-se em casa.

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Para o autor, são muitos aspectos que ligam uma pessoa a um local. Ele citou que em hebraico existe uma palavra bonita para dizer pátria, mechora, que significa o lugar onde eu você cava o seu poço. E neste poço se reúne com seus irmãos para compartilhar uma mesma experiência, seja o idioma, as crenças, as memórias.

Anselm Grün também falou a respeito da crise migratória na Europa e de outras situações, onde as pessoas, por motivos pessoais ou profissionais, precisam sair do lugar onde nasceram e recomeçar uma nova vida. “Muitas pessoas têm que sair de seu lugar, é muito importante encontrar um espaço que seja uma pátria, onde elas se sentem seguras”, afirmou o monge. E citou que as redes sociais, sobretudo para os jovens, é um espaço importante, onde eles se sentem parte de uma mesma comunidade.

O autor citou a questão da pátria na Bíblia, tanto de Abraão – que é chamado a deixar o seu lugar para uma nova terra – como para São Paulo, que acolheu Jesus Cristo como sua pátria, peregrinando para levar a Boa Nova.

Habitar em si mesmo – missão importante

Para Anselm Grün é fundamental que o ser humano se encontre em si mesmo. E é Jesus Cristo quem faz este caminho com cada um. “Quando Deus reina em mim, não sou conduzido para fora. Onde Deus reina, eu estou totalmente em casa”, afirmou.

O monge disse ainda que através do autoconhecimento e do contato consigo mesmo, é possível encontrar a solução para os problemas. Outro motivo apontado pelo autor para a falta de paz consigo mesmo é quando as pessoas se avaliam demais, olhando sempre para os pecados e as faltas. “Quem se vê sempre em pecado não consegue ficar em paz”, afirmou. E disse que a imaginação é uma forte aliada no processo de buscar a paz dentro de si, quando, por exemplo, a pessoa está numa situação de caos, imaginar que dentro dela existe um espaço que o caos não habita, um espaço interior onde os problemas externos não têm acesso.

Em seguida, Anselm Grün convidou os participantes a fazerem com ele alguns ritos simples, e que recuperam a importância da bênção e do perdão.

Após a fala, os participantes puderam fazer algumas perguntas para os autores. Em seguida, todos foram convidados a celebrar a Eucaristia. Após o almoço, houve um momento para que Anselm Grün e Zacharias Heyes autografassem os livros dos participantes do retiro.

Anselm Grün respondeu algumas perguntas para o site Franciscanos, que você acompanha abaixo:

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Como a meditação pode ajudar as pessoas a se conhecerem melhor?

Quando eu medito, eu entro em contato com a minha própria verdade e só o fato de entrar em contato com esta verdade, aparecem meus pensamentos e sentimentos. A meditação tem 3 passos: olhar meus sentimentos, deixá-los existir e, através deles, ir para um espaço mais profundo.

Desta maneira eu consigo conhecer a mim mesmo e encontrar paz interior. Muitas pessoas têm receio da meditação porque imaginam que meditar é ter um monte de pensamentos e imaginam que será caótico ter que lidar com eles. Somente quando eu consigo estar em frente aos meus pensamentos é que eu tenho serenidade para passar por eles.

Como os cristãos hoje podem agir para sair da lógica individualista em que vivemos?

Na Bíblia, um lugar muito importante para se sentir pessoa é a comunidade. Na Igreja Primitiva o sentimento de estar em comunidade era muito forte. Mas eu só consigo perceber e desfrutar do estar em comunidade se eu me sinto em casa comigo mesmo. Se eu penso que eu estou em comunidade apenas quando eu estou com os outros, eu não sinto a mim mesmo, fico sempre dependente dos outros e de suas expectativas. É importante que a Igreja seja, neste mundo tão anônimo, espaço deste sentimento de comunidade, mas ao mesmo tempo deve oferecer a possibilidade para que cada um consiga acessar sua própria morada interior.

Na sua visão, qual deve ser o papel da Igreja nas situações de conflito, como vivemos no mundo de hoje?

Na Alemanha a Igreja, tanto a Católica como a Evangélica, tiveram um papel muito importante na questão dos refugiados e o próprio Estado reconheceu esta ação. Para nós é muito importante que tenhamos hospitalidade. Na Igreja antiga, a hospitalidade era muito valorizada. Devemos ser hospitaleiros diante dos cristãos que estão fugindo da guerra, e igualmente diante dos muçulmanos e mostrar que conseguimos acolhê-los da mesma forma. Ali está uma chance de acabarmos com muitos preconceitos que os próprios muçulmanos têm dos cristãos.

No final da tarde, os dois seguiram para o Pavilhão de Exposições do Parque Anhembi, onde acontece a 24ª Bienal Internacional do Livro, onde os autores puderam conhecer o estante da Editora Vozes e continuar em contato com o público, num momento de autógrafos e fotos. Os dois estarão nesta segunda-feira (29), em Porto Alegre (RS), onde encerram a passagem pelo país.

Igreja recorda os 10 anos da morte do “santo” das favelas

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Cidade do Vaticano (RV)– Um homem contemplativo nas ações, doce e simples. A vida pastoral de Dom Luciano foi sempre dedicada aos excluídos, os últimos da sociedade.

Com um particular carinho pelos meninos de rua o jesuíta sempre dizia, “tornei-me bispo para seguir os pobres”.

No dia da sua morte, 27 de agosto de 2006, o Cardeal Carlo Maria Martini o definira com essas palavras:

“Era verdadeiramente um santo, um homem que viveu a caridade heroica, sem nunca pensar em si mesmo, sempre pensando nos outros”.

O “santo” das favelas

Dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006) foi Arcebispo de Mariana, no Estado de Minas Gerais e líder carismático durante alguns mandatos na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como Primeiro-secretário (1979-1987) e, depois, como Presidente (1987-1995).

Dom Luciano ainda é lembrado por seu papel crucial de mediação e na elaboração do documento final da IV Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), em Santo Domingo em 1992.

A partir de 2011, impulsionanda pelo episcopado brasileiro, foi aberta a causa de beatificação de Dom Luciano, líder da Igreja latino-americana, em muitos aspectos semelhante a Dom Hélder Câmara, de quem ele era um amigo próximo.

“Ele veio como um jovem rico e saiu como um jovem pobre”

Luciano Mendes de Almeida nasceu em 5 de outubro de 1930 no Rio de Janeiro em uma família nobre e rica.

Aos 17 anos, entrou na Companhia de Jesus e foi durante a sua primeira experiência com os Exercícios Espirituais que se manifestaram as características mais salientes da sua futura vocação.

“Ele veio como um jovem rico – conta  José Carlos Brandi Aleixo, colega de estudos de Dom Luciano – e saiu como um jovem pobre”.

Um sacerdote entre Martini e Bergoglio

Em 1958 foi ordenado sacerdote. Na Universidade Gregoriana em Roma, obteve o Doutorado em Filosofia com a tese: “A imperfeição intelectual do espírito humano. Introdução à uma teoria sobre o conhecimento do outro”.

Porém, os pobres sempre interpelaram a consciência de futuro professor, apaixonado pela mística de São João da Cruz.

Em 1973, foi nomeado Delegado Interprovincial dos Jesuítas no Brasil e, no ano seguinte, participou da  XXXII Congregação Geral da Companhia de Jesus em Roma, junto com Bergoglio e Martini.

O desafio de uma grande metrópole

Em 1976, por sugestão do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, o Papa Paolo VI o nomeou bispo auxiliar de São Paulo.

Do Luciano dedicou o seu tempo para ajudar as crianças de rua e pessoas pobres das favelas. Foi responsável pelas mais importantes intuições na arquidiocese de São Paulo para uma “pastoral do menor” autêntica.

“A criança não é um problema – esse foi seu lema – o mais jovem é a solução.”

Uma campanha e ação em favor das crianças impulsiona pelo UNICEF em 1986, rendeu a Dom Luciano o prêmio “Criança e Paz”.

Com ele também nasceu a primeira rede de televisão católica no Brasil, a Rede Vida.

Como Bispo auxiliar da cidade de São Paulo, em nome do Episcopado brasileiro participou em março de 1980 do funeral do Arcebispo Oscar Arnulfo Romero, em El Salvador.

Um Arsenal de Esperança

Em 1988, de uma amizade nasce uma parceria com Ernesto Olivero, fundador do Sermig, uma associação nascida em Turim para promover a justiça e o desenvolvimento do mundo com a participação e protagonismo dos jovens.

E graças a essa amizade, se fez possível o nascimento do Arsenal da Esperança em São Paulo, uma casa na qual os moradores de rua, pessoas com necessidades, dificuldades financeiras encontram abrigo e assistência. E muito além disso, encontram dignidade, afeto e acolhida.

A caminho dos altares

Desde então, começou o seu longo calvário, vivido no silêncio e na simpatia pelos mais pobres. Poucos meses antes da sua partida, o homem da caridade, como o definiu o seu sucessor em Mariana (MG), Dom Geraldo Lyrio da Rocha, foi premiado com um doutorado Honoris Causa pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte(FAJE):

“Para ele, teria sido o título mais apropriado – foi o comentário do grande teólogo João Batista Libânio -, causa magister amoris, isto é, mestre intelectual e espiritual, do amor e serviço. Ele era realmente para nós um professor da Igreja e da vida, especialmente dos pobres”.

Em 2014, a Arquidiocese de Mariana-MG abriu oficialmente o processo de beatificação e canonização de seu ex-arcebispo. Em carta, a Congregação para a Causa dos Santos informou que “por parte da Santa Sé, não há nada que impeça para que se inicie a Causa de Beatificação e Canonização de Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida”.

(Avvenire-VM)

A Família Franciscana e seu modo profético de Viver e Atuar no Mundo

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É profético relacionar o tipo de existência em relação aos modos de vida ou estados de vida. Viver biologicamente com força adaptativa que insere no meio físico, social, técnico, e nas diversas formas de organização. Viver de um modo psicossocial, relacionando-se com o meio social, através da comunicação da linguagem própria, dos ícones próprios, através de processos associativos. Compreender-se como realidade, filosofia de vida, sensibilidade e conhecimento.

Situar-se na mesa da humanidade, que dá à sua existência uma razão e compreensão da vida a partir do sagrado. Olhar os fatos, acontecimentos, fenômenos, procurando neles um sentido divino. Sem desfazer-se da compreensão científica perguntar pelo sentido das manifestações humanas à luz da fé. É um modo transcendente, um entendimento da vida dando sentido ao provisório e ao definitivo, ao útil e ao inútil, ao temporal e ao eterno. Viver a vida buscando as potencialidades da alma e do espírito, a solidariedade criatural, a sacramentalidade da vida e suas hierofanias.

Viver de modo livre! Não é fácil pensar a liberdade em tempos que o mercado nos escraviza, em que o dinheiro tem uma força real e simbólica e que nós pensamos o que pensam as mídias; e o capitalismo como sistema, organiza ainda, tendenciosamente, a totalidade de nossas relações. Produção em massa para um consumo de massa. Dizemos que somos livres, mas aceitamos a “macdonaldização” da existência. Entramos numa baia para comer uma comida que já foi escolhida por um cardápio que não é nosso. Não podemos viver a uniformização da vontade que nos reduz a iguais em tudo. É a disciplinização dos corpos: parar para comer rápido e abastecer-se para trabalhar mais rápido. Ser livre não é ser massa. Ser livre é não se deixar envolver pelas muitas contradições que movem o nosso mundo. Ser livre é começar a pensar e escolher com a própria cabeça e coração. Ser livre é escolher uma Força Espiritual e viver uma pertença que mostre o diferencial na cultura atual. Estamos em épocas de grandes mudanças, um feixe de processos. É muita coisa para uma cabeça só! Ser livre é não se perder neste emaranhado, e mobilizar em nós e em nossas escolhas as melhores energias que temos.

Frei Vitório Mazzuco

 

A propósito da condenação de uma governanta inocente: corrupção e corrupções

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Leonardo Boff, Jornal do Brasil
28/08 às 00h45

 

A presidenta Dilma está sendo condenada mediante um tribunal de exceção por um Congresso Nacional no qual 60% dos membros enfrentam acusações criminais. O Senado que a julga não possui nenhuma moral pois mais da metade dele, 49 senadores, estão sob acusação de distintos crimes. Contra Dilma não se conseguiu provar nenhum crime. Por isso inventam-se outras razões como pelo “conjunto da obra”, coisa que contradiz a matéria do processo vindo da Câmara: alguns atos governamentais somente do ano 2015.

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo bem resumiu a tônica geral deste processo perverso:”Trata-se de uma reação conservadora, retrógrada que se exprime em tentativas autoritárias de impedir o avanço da sociedade. Somos uma sociedade profundamente antidemocrática, preconceituosa e mais que isso, culturalmente deformada. Estamos assistindo hoje uma degeneração do que já é degenerado. Aqui não prosperaram os ideais de democracia e o Estado de Direito. Tudo é feito com truculência, com arbitrariedade, mesmo aquilo que pretensamente é feito em nome da lei”(em Carta Maior 27/06/2016).

Uma outra crítica contundente nos vem do sociólogo, ex-presidente do IPEA, que escreveu um instigante livro: A tolice da inteligência brasileira (Leya 2015): “O golpe foi contra a democracia como princípio de organização da vida social. Esse foi um golpe comandado pela ínfima elite do dinheiro que nos domina sem ruptura importante desde nosso passado escravocrata. Desde então o Brasil é palco de uma disputa entre esses dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia”(Quem deu o golpe e contra quem, em FSP,04/2016).

O que estamos assistindo é a retomada deste segundo projeto, socialmente perverso e negador de nossa soberania. Basta observar a truculência do ministro das relações exteriores que de diplomata não possui nada. É um agente das privatizações e do alinhamento do Brasil à lógica do neoliberalismo dos países centrais, rompendo com nossos aliados vizinhos, do Mercosul e traindo os ideais de uma diplomacia “ativa e altiva”em diálogo com todos os povos e tendências ideológicas.

Há muitas formas de corrupção. Comecemos pela palavra corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia:corrupção é ter um coração (cor)rompido (ruptus) e pervertido. O filósofo Kant fazia a mesma constatação:“somos um lenho tão torto que dele não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há a força do Negativo em nós que nos incita ao desvio. A corrupção é uma das mais fortes.

Antes de tudo, o capitalismo aqui e no mundo é corrupto em sua lógica, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos  de classe. Por isso, o capitalismo é por natureza antidemocrático, pois  a democracia supõe uma igualdade básica dos cidadãos e direitos garantidos, aqui violados pela cultura capitalista.

Pensando no Brasil podemos dizer que a maior corrupção de nossa história é o fato de as oligarquias haverem mantido grande parte da população, durante quase 500 anos, na marginalidade e terem empreendido um processo de acumulação de riqueza dos mais altos do mundo, a ponto de 0,05% da população(71 mil pessoas) controlarem grande parte da renda nacional.

Temos exemplos escandalosos de corrupção, denunciados ultimamente pelo “Petrolão”, pelo Zelotes e pelo Panamá Papers. Mas não nos enganemos. Há coisa pior. O Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, em seu “Sonegrômetro” denunciaram que em 2015 somente em cinco meses houve uma sonegação de 200 bilhões de reais (AntônioLassance, em Carta Maior 02/05/2015). Isso é muito mais do que o “Petrolão” e em apenas 5 meses. Aqui se escondem os grandes corruptores e corruptos que procuram sempre se esconder.

Bem dizia Roberto Pompeu de Toledo em 1994 na Revista Veja: “Hoje sabemos que a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições”.

A condenação da Presidenta Dilma se inscreve nesta lógica da corrupção que tomou conta de grande parte da casta politica. O que faz contra ela é uma injustiça sem tamahno: condenar uma inocente e uma governante honesta.

A história não os perdoará. Carregam em suas biografias o estigma de golpistas merecedores de uma soberana repulsa dos que buscam caminhos transparentes e éticos para o nosso país.

Leonardo Boff é professor emérito de Ética da UERJ e escritor

Quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado (Lc 14,1.7-14)

[Tomaz Hughes]

 

O relato de hoje se situa no contexto de uma refeição na casa de um chefe dos fariseus, que permanece no anonimato. Lucas tem o cuidado de sublinhar que o evento aconteceu em dia de sábado e que os fariseus estavam observando Jesus para tentar pegá-lo em algum erro. Então, embora se trate de uma refeição, não era uma confraternização, mas muito antes um confronto, mesmo que camuflado.
Jesus aproveitou a oportunidade para nos deixar o seu ensinamento sobre dois assuntos importantes para a vida dos discípulos: a opção entre a humildade e o orgulho, e a gratuidade.
Como bom pedagogo, Jesus observa a vida ao seu redor e a usa para ensinar algo sobre Deus. Os fariseus eram muito bem vistos no meio do povo simples. É um erro nosso pensar que a palavra “fariseu” seja sinônima de “hipócrita”. Talvez essa ideia venha do capítulo 23 de Mateus, que reflete a situação de antagonismo entre eles e os discípulos de Jesus no tempo do escrito – pelo ano 85 d.C., quando os fariseus estavam expulsando os cristãos “mateanos” das sinagogas – mais do que a realidade do tempo de Jesus. Os fariseus eram exímios observadores da Lei, mas muitas vezes caíam no perigo de sentir-se superiores às massas que não podiam ou não conseguiam viver a Lei em seus pormenores. Confiando na sua observância como garantia de salvação, na prática dispensaram a gratuidade de Deus.
Vendo como os convidados buscaram os primeiros lugares na refeição, Jesus nos dá a lição sobre buscar os últimos lugares na festa de casamento.  À primeira vista, parece que Jesus está nos ensinando a ser falsos ou hipócritas; mas a verdade é outra. O banquete desta história simboliza a nossa vida. Diante da vida, podemos optar – buscar uma vida de prestígio aos olhos do mundo, com todos os privilégios que isso acarreta, ou buscar o serviço aos irmãos – nos “humilhando”, pois quem servia era considerado menor do que quem era servido (como geralmente ainda hoje é). De novo, Jesus nos coloca diante do seu próprio exemplo, pois ele veio “não para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em favor de muitos” (Mc 10,46).
Como é atual este ensinamento! O nosso mundo é um mundo classista, onde “quem pode mais, chora menos”, até nas Igrejas. Como gostamos de títulos, de honras, de prestígio! Em vão, buscaremos nos Evangelhos títulos de honra como “Eminência”, “Santidade”, “Reverendo, “Reverendíssimo”. Ali, Jesus nos chama a sermos simplesmente irmãos e irmãs (Mateus 23,8). Sem que notássemos, as relações injustas e hierárquicas do mundo se infiltraram  nas nossas comunidades com as suas falsas categorias. Como é empolgante ouvir o Papa Francisco advertir contra esta busca de prestígio falso nas Igrejas, especialmente quando acontece entre ministros ordenados, religiosos/as e seminaristas. Durante uma homília, ele disse: “a vida religiosa e/ou sacerdotal não é para carreiristas ou alpinistas sociais”.
O mesmo vale para os ministérios leigos. Nada mais fez do que fazer eco ao ensinamento de Jesus.
O centro da questão está no versículo 11: “de fato, quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. Não é uma recomendação sádica para que procuremos ser humilhados, como antigamente se pregava na formação da Vida Religiosa e na espiritualidade. Pelo contrário, é uma orientação para que não ponhamos o nosso valor nos títulos e nas honrarias vãs que a sociedade tanto aprecia, mas no serviço humilde aos irmãos e irmãs, unindo-nos à luta dos oprimidos por dignidade e que são humilhados pela sociedade consumista e opulenta.
Ato contínuo, Jesus nos orienta sobre a gratuidade. Recomendando ao fariseu que ele não convide os que possam retribuir com outros convites, ele nos põe diante do exemplo do próprio Deus que é gratuidade absoluta. Novamente, os marginalizados servem como exemplo para o exercício de gratuidade. Temos muitas indicações na literatura daquele tempo, mostrando que a sociedade judaica como a greco-romana rejeitavam o povo sofrido. Um documento dos Essênios de Qumrã elenca as categorias que serão proibidas de entrar no banquete escatológico: “os que têm problema na pele, com as mãos ou os pés esmagados, os aleijados, os cegos, os surdos, os mudos; os que têm defeito na vista ou que sofrem de senilidade”. A lista lucana adiciona a categoria dos “pobres”. Sabemos que, na literatura judaica, “os pobres” era muitas vezes a designação usada para Israel e especialmente para os eleitos dentro de Israel. Então, Lucas está usando de ironia – mostrando que os verdadeiros eleitos não são os que a sociedade assim considera, mas os realmente pobres, marginalizados e sofredores!
O discípulo, “convidando-os”, ou seja, relacionando-se com eles como igual para igual, não receberá deles a retribuição. Eles não terão com o que retribuir, e assim será como Deus, que ama sem esperar algo em retorno. Assim estará colocando a sua confiança na gratuidade de Deus e não agindo de um modo calculista, como tanto se prega hoje: “é dando que se recebe”. Assim dizem os politiqueiros cínicos, como também alguns pregadores que se dizem cristãos, interessados no acúmulo de dinheiro.
A imagem do banquete é simplesmente um símbolo. A história nos desafia para que examinemos as nossas motivações mais profundas, para que busquemos o serviço às irmãs e aos irmãos, e para que aprendamos de Deus, que é Amor Gratuito por excelência.

Uma leitura Alternativa de São Francisco de Assis

 

Frei Celso Márcio Teixeira, OFM*
Petrópolis – RJ

Uma leitura que se tornou comum desde o início do século XX é a chamada sabateriana. O adjetivo “sabateriana”, termo familiar aos estudiosos de franciscanismo, provém do sobrenome de Paul Sabatier. Este pesquisador, a partir do final do século XIX, se destacou como um dos grandes estudiosos de Francisco de Assis, contribuindo decisivamente para os estudos em torno deste santo, a ponto de podermos dizer com propriedade que suas conquistas constituem um marco divisório nas pesquisas sobre o tema. Foi com Sabatier que as investigações de caráter histórico sobre Francisco de Assis ganharam notável impulso. Além de editar criticamente textos antigos sobre São Francisco, escreveuVie de Saint François d’Assise, sua obra mais famosa e não menos polêmica. Fundou coleções de publicações sobre o santo de Assis, dentre as quais as conceituadas Collection d’Études e des documents sur l’histoire religieuse et littéraire du moyen Âge e Opuscules de critique historique. Fundou também aSociedade Internacional de Estudos Franciscanos, com sede em Assis, aberta aos estudiosos de franciscanismo de todo o mundo, com congressos anuais. Seus méritos são incontestáveis, tendo sido ele um dos primeiros a fazer a leitura do Francisco-homem, de preferência à leitura do Francisco-santo.
Mas o que caracteriza a leitura sabateriana não é a abordagem de Francisco-homem, mas seus pressupostos. Nossa tentativa será a de fazer uma leitura alternativa à de Sabatier.

1. Leitura sabateriana
O notável pesquisador fez uma leitura muito própria de Francisco de Assis. Pelo fato de ter sido ele o inaugurador dessa leitura ou, pelo menos, o que a aplicou a Francisco, é que preferimos denominá-la de leitura sabateriana. Ela, porém, não terminou com a morte do grande estudioso, mas foi retomada por estudiosos imediatamente posteriores a ele e ainda é praticada por estudiosos e escritores de hoje, caracterizando uma maneira muito comum de abordagem da figura do santo de Assis.
Daí as perguntas: Basicamente, em que consistiria esta leitura? Quais os seus pressupostos fundamentais? Que implicações poderia ela trazer? Comportaria uma modificação da imagem de Francisco? Que imagem de Francisco ela nos apresenta?
Sem dúvida, uma leitura ou interpretação comporta uma imagem que é transmitida. Inevitável e inconscientemente, quando fazemos uma leitura de um personagem como Francisco de Assis, acabamos por projetar nele nossas próprias atitudes, anseios, lutas, problemáticas. Colocamo-nos de tal modo na “pele” dele que o fazemos pensar como nós pensamos, desejar o que nós desejamos, julgar como e o que nós julgamos. Isto, porque nunca conseguiremos desvencilhar-nos de nosso subjetivismo. Jamais alcançaremos a pura objetividade. Importante, no entanto, é ter sempre presente que nossa leitura não coincide absolutamente com a realidade lida, mas representa apenas uma busca da objetividade, um esforço de aproximação da realidade a ser lida ou interpretada. Portanto, qualquer leitura deve ser relativizada, inclusive a que nós nos propomos neste pequeno estudo.
No entanto, embora a objetividade absoluta seja inalcançável (não é o que se pretende aqui), existem abordagens que mais se aproximam e outras que mais se distanciam da realidade lida. O que nos pode garantir uma maior aproximação da objetividade é o uso criterioso e crítico das fontes e o recurso à história, embora saibamos que estas, por sua vez, foram escritas sempre a partir de subjetividades, dentro de contextos sócio-culturais determinados e determinantes.

a) O pressuposto de Paul Sabatier

O pressuposto de Sabatier é que Francisco e a Igreja são polos diametralmente opostos e em permanente tensão. De um lado, Francisco vive de uma maneira que se contrapõe à maneira da Igreja; e, de outro lado, a Igreja procura sufocar a novidade franciscana e, não o conseguindo, faz todo o possível para dominá-la através de uma aprovação jurídica, tendo como finalidade controlá-la e manipulá-la para alcançar seus próprios interesses e colocar a nova Ordem a serviço de sua política. Nessa leitura, não é Francisco que tem a iniciativa de dirigir-se à Igreja para buscar nela proteção e orientação, mas é a Igreja que pretende absorver e neutralizar os questionamentos, contestações e impactos que esse homem pobre estava apresentando por seu modo evangélico de vida. Na busca de seus objetivos, a Igreja, na pessoa do cardeal protetor e utilizando alguns frades letrados, exerce sobre Francisco constante pressão para que o movimento franciscano se curve às pretensões dela.
A leitura de antonímia, isto é, por meio de opostos, oferece o risco de santificação de um polo e de demonização do outro. Fundamentalmente, trata-se de uma leitura maniqueísta. Estabelece-se como método básico de leitura a oposição bem-mal, luzes-trevas, graça-pecado, trigo-joio, como se a realidade humana se dividisse nitidamente em dois campos antagônicos e irreconciliáveis e como se esses campos nunca se mesclassem e se interpenetrassem. Esquece-se que a experiência nos mostra que a realidade humana comporta contradições, que o ser humano é um ser de contradições, pois é, ao mesmo tempo, trigo e joio, luz e trevas, santo e pecador.

b) A utilização das fontes

A partir desse pressuposto fundamental, Sabatier vê nas primeiras fontes hagiográficas surgidas no âmbito da Ordem franciscana o dedo da Igreja. Por ter sido a primeira hagiografia escrita a pedido do papa, ele de antemão a rejeita sistematicamente, bem como outras que dela dependem, sem sequer entrar no mérito delas. Pelo fato de essas hagiografias tecerem elogios ao papa e ao cardeal Hugolino e mostrarem uma imagem positiva de certos personagens da Ordem, como Frei Elias, ele conclui que elas não são fidedignas. Dá, então, preferência a fontes tardias do final do século XIII e início do século XIV que espelham não tanto o contexto de Francisco, mas o de grupos extremistas que começaram a surgir dentro da própria Ordem franciscana a partir da metade do século XIII.
É verdade que ele insiste em que a prioridade cabe aos escritos de São Francisco. Mas a leitura dos escritos de Francisco é feita por ele dentro e a partir do mesmo pressuposto. Apenas para citar um exemplo: Sabatier vê no Testamento de Francisco um inconsciente insurgir contra a Regra definitiva. Segundo seu modo de ler, a Igreja, ao confirmar a regra franciscana por meio de uma bula papal, “teria aprisionado” a iniciativa evangélica da Ordem franciscana. O Testamento de Francisco, protestando contra a confirmação-estratificação da regra, retomaria os ideais de Francisco anulados pela bula papal. Esta leitura contradiz o próprio texto do Testamento, em que o santo explicitamente afirma que este não se opõe nem se coloca acima da regra, mas é apenas uma exortação para que a regra seja mais catolicamente observada.

c) A imagem de Francisco

Uma primeira imagem que se infere da leitura sabateriana – e aqui não se compreende apenas a leitura feita por Sabatier unicamente, mas por muitos que percorrem a sua trilha – é a de um Francisco ingênuo que, em sua simplicidade e humildade, se deixa manipular pelas autoridades eclesiásticas e se lhes submete como um cordeiro indefeso diante de um lobo voraz; a de um Francisco sem fibradiante de frades que se impõem e fazem da Ordem o que bem entendem; a de um Francisco incapaz de conduzir os destinos da Ordem, o qual deve ceder às pressões dos frades, especialmente dos letrados, e modificar a regra de acordo não com sua vontade, mas para atender aos interesses deles.
Outra imagem resultante desta leitura é a de um Francisco reformador da Igreja e da sociedade, segundo o modelo de Lutero ou de Calvino, o qual, porém, não conseguiu seu intento, pois a Igreja teria sido bastante hábil, absorvendo-o dentro da “oficialidade” para anular-lhe o impulso renovador e quaisquer pretensões de reforma. Uma justificativa talvez para o fato de Francisco não ter passado à história como um crítico reformador da Igreja e da sociedade, ou como um irreverente contestador, ou talvez até mesmo como um renitente herege.
Ainda outra imagem é a de um Francisco vítima não apenas das manipulações de poder por parte da Igreja, mas também das incompreensões e rebeldia dos frades, como se estes se conspirassem contra ele, no intuito de colocar a Ordem em caminhos contrários às opções das origens. E a redação da regra bulada seria o resultado das manobras dos frades, contra a vontade de Francisco.

2. Considerações críticas
Antes de apresentarmos uma leitura alternativa, faz-se necessário tecer, ainda que brevemente, algum comentário ou consideração às posições de Sabatier com relação aos três itens abordados: pressuposto, utilização das fontes e imagem de Francisco.

a) Quanto ao pressuposto – Pressupostos podem ser evidentes, porque devidamente provados, menos evidentes e não evidentes. Nos dois últimos casos, eles têm que ser fundamentados, as afirmativas justificadas, e as conclusões comprovadas. Deve-se levar em conta aquele princípio básico da lógica que diz:quod gratis affirmatur gratis negatur. Este princípio adverte que tudo aquilo que é afirmado gratuitamente, sem comprovação, é passível de negação gratuita. Portanto, sem uma comprovação suficiente dos pressupostos, corre-se o risco de uma leitura puramente hipotética, perpassada de suspeições, na qual prevalece não tanto a realidade lida, quanto o subjetivismo de quem a lê e interpreta. E a hipótese, em qualquer campo da ciência, é “verdade” a ser comprovada.

b) No que concerne à utilização das fontes – A rejeição apriorística das primeiras hagiografias, igualmente sem uma comprovação que a justifique, negando-lhes sem mais a fidedignidade, não deixa de caracterizar-se como posição de puro subjetivismo. E, curiosamente, as fontes tardias que a leitura sabateriana utiliza também não lhe dão respaldo em seu pressuposto fundamental.
É claro que as primeiras hagiografias, como quaisquer outras, espelham a ótica de seus escritores com todos os seus condicionamentos sócio-culturais. A rejeição de um grupo de fontes por causa de subjetivismos levaria coerentemente à rejeição de toda e qualquer fonte.
Além do mais, não se pode esquecer que os primeiros hagiógrafos estavam sob o controle da comunidade, isto é, eles não podiam inventar ou falsificar os dados, pois aqueles que viveram com Francisco ainda estavam vivos. Interessante é que Frei Leão, companheiro de Francisco e apontado por Sabatier como o legítimo hagiógrafo dele em oposição aos primeiros, em uma carta escrita em Gréccio em 1246, atesta, juntamente com Ângelo e Rufino, a fidedignidade das primeiras hagiografias. Literalmente se diz na carta: “há algum tempo foram redigidas legendas de sua vida… em linguagem tão verídica quão elegante”.

c) Com relação à imagem de Francisco – Uma primeira consideração a ser feita é a de que Francisco era filho de Pedro Bernardone e herdara do pai a tenacidade. Se ele enfrentou o pai de igual para igual, é porque tinha a mesma têmpera, sem temer as consequências (ser deserdado pelo pai, sem sequer levar consigo a roupa do corpo). Na leitura sabateriana, não sobressai aquele Francisco vigoroso que, em 1209, ainda desconhecido, se dirigiu a Roma para pedir aprovação de sua “forma de vida” e, questionado sobre a dificuldade de seu propósito, o defendeu sem concessões, recusando com consciência e firmeza a proposta do cardeal encarregado de encaminhar ao papa os pedidos de aprovação de regras religiosas. E manteve, na mesma ocasião, esta firmeza diante do papa Inocêncio III, firmeza mostrada também ao bispo de Assis que lhe propusera adquirir propriedades como as Ordens monacais. A imagem de um Francisco manipulável não condiz com o que algumas fontes tardias narram sobre ele em episódio, a ser datado dez anos depois ou pouco mais, em que, diante de um pedido de alguns frades letrados com relação à regra, apresentado pelo cardeal Hugolino, o santo mostrou a mesma inflexibilidade de 1209. Noutra ocasião, ao mesmo cardeal Hugolino, que queria nomear alguns frades como prelados da Igreja, Francisco respondeu com humildade, mas também com firmeza: “Quero que meus frades deem frutos na Igreja em sua condição de menores, não como prelados”.
Com esta resposta, cai por terra também a imagem de Francisco-reformador. Se ele quisesse ser um reformador da Igreja, ele próprio promoveria estrategicamente seus frades a cargos de influência. A minoridade franciscana, de fato, não condiz com a pretensão de tornar-se reformador da Igreja ou da sociedade.
Quanto a Francisco-vítima, trata-se de uma imagem transmitida muito sutilmente pelas fontes tardias, especialmente quando estas mostram Francisco como que doentiamente ocupado em lamentar e em recriminar os maus comportamentos dos frades. Sem dúvida, havia maus frades naquela época, como sempre os houve e há. Certamente Francisco sofria ao ver abusos, ao constatar a defasagem entre ideal proposto e realidade vivida. Mas deduzir disto uma conspiração dos frades contra Francisco é tirar conclusões que as premissas não permitem. Concluir que a regra bulada foi redigida à revelia de Francisco ou por pressão dos frades é advogar um complexo de perseguição ao santo.

3. Uma leitura alternativa
Ao iniciar seu processo de conversão, Francisco não pensava em fazer oposição a ninguém nem a nada. Motivo para recriminar a Igreja e a sociedade da época ele tinha em profusão. Ele próprio reconhecia que a Igreja tinha seus pecados e que a hierarquia estava caminhando à distância do Evangelho e, algumas vezes, na contramão do Evangelho. Ele tinha inteligência suficiente para perceber a realidade eclesial que o cercava. Prova disto é que em seus escritos ele faz alusão ao pecado do clero. Mas em lugar nenhum de todos os seus escritos se percebe qualquer indício de que ele se propunha, a si e aos frades, a tarefa de reformar a Igreja e a sociedade. Em lugar algum dos seus escritos se percebe o mínimo sinal que pudesse sugerir que ele fizesse oposição à Igreja como um todo ou à hierarquia. Pelo contrário. Chegou a afirmar que, mesmo sendo pecadores, os membros da hierarquia eram seus senhores. Aliás, se Francisco quisesse fazer oposição à Igreja, ter-se-ia tornado de início um herege, caminho mais fácil e coerente para a oposição naquela época.
Quando ele se dirige à Igreja para pedir aprovação de sua “forma de vida”, tem plena consciência de que seu propósito constitui uma alternativa, não uma oposição. Se fosse oposição, como entender que pedisse aprovação exatamente ao suposto adversário?
De sua parte, a Igreja o questiona, propondo-lhe os caminhos já existentes, a saber, que ele vivesse com seu grupo uma das regras antigas. Não se trata de querer manipular desde o início o propósito de Francisco e de seu grupo, mas de um procedimento normal, em que se questiona o que se propõe como específico e se discutem os detalhes da vida, tais como sobrevivência, trabalho, organização do grupo, possibilidades e maneiras de aceitação de novos membros, presença e atuação dentro da Igreja, etc. Trata-se de uma negociação. E é possível que em matéria de somenos importância Francisco tenha cedido às sugestões de quem o questionava. Pequenos acertos necessários para dar consistência e coesão organizativa ao grupo, uma ajuda antes que uma manipulação. Alegar que a Igreja os manipulou por se tratar de pessoas ignorantes, é desconhecer a realidade do grupo. Três dos doze frades que compunham e que estavam à frente do grupo podiam não ter grandes estudos, mas eram pessoas experientes. Francisco tinha experiência do comércio, sabia negociar; Bernardo de Quintavalle era um homem rico, certamente não devia ter sido tão ignorante; Pedro Cattani era formado em Direito.
Interessante é observar que o cardeal encarregado desses questionamentos foi considerado pelos frades da primeira hora não como adversário que os queria sufocar, mas como “cardeal protetor” da Ordem, consistindo sua ajuda não somente nesses questionamentos iniciais, mas principalmente na defesa da novidade que ele assumiu diante do colégio dos cardeais reunidos em consistório.
E a Igreja compreende e aprova o diferente de Francisco como caminho alternativo, não como oposição. Com toda a certeza, não o teria aprovado, se tivesse visto nele uma oposição. Mais ainda, teria proscrito o grupo como um bando de hereges, como soía acontecer. Pelo contrário, deixou liberdade ao grupo para que explicitasse melhor os caminhos a percorrer, pois a Igreja também era consciente de que se tratava de algo realmente novo.
A aprovação, porém, não significava ausência de conflitos. Certos setores da Igreja, como bispados e paróquias, viam o caminho alternativo de Francisco com desconfiança e suspeita. Em algumas dioceses e paróquias, os frades eram proibidos de pregar. Em outras, eram considerados hereges ou confundidos com eles. Mas isto não significa que devamos considerar a Ordem como vítima de uma oposição sistemática da Igreja. Trata-se de um processo normal. Em qualquer sociedade, o aparecimento de um grupo diferente ou de uma proposta alternativa causa estranheza a certos setores. E a inserção de um grupo novo na sociedade não se dá sem arranhões. E o grupo novo tinha a tarefa de encontrar na Igreja e na sociedade o seu espaço e desempenhar seu papel específico, caso contrário, ou se colocaria à margem da sociedade ou teria que abandonar o caminho alternativo. Trata-se, portanto, de processos históricos absolutamente normais. Com a Ordem franciscana não se deu de modo diferente.

Conclusão
A leitura alternativa apresenta um Francisco também alternativo, no sentido de que ele propôs um caminho alternativo de vida evangélica. Ele não pretendeu substituir nada do que já existia nem opor-se a instituição alguma; nem fazer um caminho paralelo, como foi, por exemplo, a reforma luterana, mas inserir-se na instituição existente; nem impor-se como o único caminho válido, mas respeitando a pluralidade. Ele deu sua contribuição própria, sem tornar-se reformador.
Esta leitura evita dramatizações que se criaram em torno de Francisco e liberta-o da síndrome de vítima que comumente se lhe atribui ou sob a qual ele é interpretado (vítima de conspiração dos frades e das manipulações da Igreja). Reconhece que houve conflitos nas relações com setores da Igreja, que ele sofria quando seus frades não viviam de acordo com as opções de origem, mas considera isto como processo histórico normal.
Apresenta um Francisco não ingênuo, mas inflexível no essencial; iletrado, mas suficientemente experiente e capaz de propor e de defender seu propósito diante da autoridade máxima da Igreja.
Enfim, esta leitura prefere valorizar Francisco pela sua vida a engrandecê-lo por supostas perseguições sofridas.

Resultado de imagem para frei celso márcio teixeiraTexto publicado na Grande Sinal de setembro/outubro 63/2009/5

 

Frei Celso Márcio Teixeira é da Ordem dos Frades Menores, doutor em Espiritualidade atualmente leciona Teologia Espiritual e Espiritualidade Franciscana na Faculdade de Teologia – ITF.

Anselm Grün em São Paulo nestes dias 27 e 28 de agosto

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Com mais de cem títulos traduzidos no Brasil e mais de 2 milhões de exemplares vendidos, o monge beneditino alemão volta ao Brasil, onde fará uma ‘turnê’ pelo país proferindo palestras e fazendo o lançamento do seu mais novo trabalho: “Onde eu me sinto em casa….e encontro o equilíbrio e o bem-estar espiritual”. Anselm faz a primeira palestra em Recife, no dia 24, e termina o “giro” pelo Brasil no dia 29 de agosto, em Porto Alegre.

Um dos autores de espiritualidade mais conhecido no mundo, Anselm Grün já vendeu mais de 2 milhões de exemplares no Brasil e é um dos principais autores da Editora Vozes, onde tem mais de 100 livros publicados. O seu ‘best-seller’ publicado em 1998 – “O Céu começa em você” – tem mais de 14 milhões de livros traduzidos em 30 idiomas no mundo.

ROTEIRO DE GRÜN

24 de agosto (quarta-feira) – Palestra em Recife/PE
25 de agosto (quinta-feira) – Palestra em Salvador/BA
26 de agosto (sexta-feira) – Palestra em Brasília/DF
27 de agosto (sábado) – Palestra em Limeira/SP
28 de agosto (domingo) – Retiro em São Paulo
29 de agosto (segunda-feira) – Palestra em Porto Alegre/RS

Anselm é doutor em Teologia e vive na Abadia de Münsterschwarzach (Alemanha) onde, por muitos anos, exerceu a função de ecônomo e administrador. Inspira-se na tradição monástica e cristã, e recorre também à psicologia e às demais ciências para ajudar as pessoas a compreender melhor as questões da fé e da espiritualidade, e sua relação com a vida diária, social e familiar. Tem a habilidade de falar de coisas profundas com simplicidade e expressar com palavras aquilo que as pessoas experimentam em seu coração.

No novo livro, “sentir-se em casa” é uma experiência gratificante e também um anseio para todos aqueles que são levados a “sair de casa”, como os que sofrem devido à migração. Anselm Grün propõe que o leitor reflita sobre essa temática ampliando a experiência para além das suas fronteiras pessoais, entendendo que nossa verdadeira casa, nossa morada, nossa pátria, é tudo aquilo que trás conforto, segurança e sentido para nossa vida! São nossas raízes. Também nos convida a distinguir em nossa vida aquilo que é efêmero, que passa, o que é secundário, daquilo que, ao contrário, constitui nossa identidade, que é essencial, permanente e que nos acompanha onde quer que nos encontremos. Este livro, na Vozes, tem 112 páginas e custa R$ 19,00.

Junto com Grün o também monge Zacharias Heyes, da abadia de Münsterschwarzach, irá lançar a obra “Em casa comigo mesmo – Guia para reequilibrar o corpo e a alma”.

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Palestra em Limeira
Data: 27/08/2016
Horário: 16h00
Local: Paróquia São Benedito
Rua São Benedito – Vila Fascina – Limeira – São Paulo
Evento gratuito

Retiro em São Paulo
Data: 28/08/2016
Horário: 08h00 às 15h00
Local: Espaço Anhanguera
Vila Anhanguera, Km 25,5 – Jardim Britânia – São Paulo
Ingressos:
R$ 130,00 (Inclui café da manhã, coffee break e almoço)
Hospedagem: entrar em contato pelo telefone (11) 3916-6200 – contato@espacoanhanguera.com

Palestra em Porto Alegre
Data: 29/08/2016
Horário: 19h30
Local: Avenida Ipiranga, 6.681 – Bairro Partenon – Porto Alegre
Evento gratuito

Mais informações sobre as palestras e retiro, escreva para: marketing@vozes.com.br

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