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Nos Caminhos de Francisco

Seguir Jesus a exemplo de Francisco de Assis

mês

julho 2016

Beato Óscar Romero: o perfil de um mártir da paz

Foi beatificado em 23 de maio de 2015, em El Salvador, D. Oscar Romero que foi assassinado a 24 de março de 1980. A propósito deste importante e significativo acontecimento a redação brasileira da RV preparou um perfil deste bispo e mártir que aqui publicamos:

Oscar Arnulfo Romero nasceu em agosto de 1917 numa família modesta em Ciudad Barrios (El Salvador). Aos 14 anos, ingressa no seminário, mas seis anos depois afasta-se para ajudar a família que estava com dificuldades. Passa a trabalhar nas minas de ouro com os irmãos. Retoma os estudos e é enviado para Roma para estudar teologia, na Universidade Gregoriana. Romero é ordenado sacerdote em 1942, regressa a El Salvador e assume uma paróquia do interior. Foi depois transferido para a catedral de San Miguel, onde fica por 20 anos. Sacerdote dedicado à oração e à atividade pastoral, dedica-se a obras de caridade, mas sem nenhum particular empenho reconhecidamente social.

Em 1970 é nomeado Auxiliar de San Salvador. O Arcebispo Luis Chávez y Gonzalez busca atualizar a linha pastoral de acordo com o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín. Mas Romero não se identifica integralmente com a linha pastoral proposta. Em 1974 é nomeado bispo da diocese de Santiago de Maria no meio de um contexto político de forte repressão, sobretudo contra as organizações camponesas.

No ano seguinte, a Guarda Nacional executa cinco camponeses e D. Romero celebra missa pelas vítimas. Ele não faz uma denúncia explícita do crime, mas escreve uma carta severa ao presidente Molina.

Em 1977, D. Óscar Romero é nomeado Arcebispo de San Salvador. Pouco tempo depois, é assassinado o jesuíta padre Rutílio Grande, empenhado na luta do povo e ligado a D. Romero. Esse é o momento em que ele reavalia a sua posição e coloca-se corajosamente junto dos oprimidos, denunciando a repressão, a violência do Estado e a exploração imposta ao povo pela aliança entre os setores político-militares e económicos, apoiada pelos Estados Unidos da América. O Arcebispo denuncia também a violência da guerrilha revolucionária. As suas homilias são transmitidas pela rádio católica dando esperança à população e provocando a fúria dos governantes.

Em outubro de 1979, um golpe de Estado depõe o ditador Humberto Romero. Uma junta de civis e militares assume o poder, e nesse cenário, exército e organizações paramilitares assassinam centenas de civis (entre eles sacerdotes). A guerrilha responde com execuções sumárias.

Em fevereiro de 1980, D. Romero escreve ao presidente dos EUA, Jimmy Carter, um apelo para que ele não envie ajuda militar e económica ao governo salvadorenho e para não financiar a repressão ao povo. A 24 de março do mesmo ano, D. Oscar Romero é assassinado por um franco-atirador, enquanto celebrava a missa na capela do Hospital da Divina Providência em S. Salvador.

Para inúmeras comunidades cristãs do continente americano, Oscar Romero passou a ser considerado santo desde o dia do seu martírio. Chamam-lhe S. Romero da América Latina pelo seu empenho em favor da paz, sua luta contra a pobreza e a injustiça.

Podem as religiões ajudar a superar a crise ecológica?

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Leonardo Boff

Pela primeira vez depois de anos, os 192 países se puseram de acordo na COP21 de Paris em fins de 2015, de que o aquecimento global é um fato e que todos, de forma diferenciada mas efetiva, devem dar a sua colaboração. Cada saber, cada instituição e especialmente aquelas instâncias que mais movem a humanidade, as religiões, devem oferecer o que podem. Caso contrário, corremos o risco de chegarmos atrasados e de enfrentarmos catástrofes como nos tempos de Noé.

Abstraímos o fato de que cada religião ou igreja possuem suas patologias, seus momentos de fundamentalismo e de radicalização a ponto de haver cruéis guerras religiosas, como houve tantas entre muçulmanos e cristãos. Agora, o que se pede, é ver de que forma, a partir de seu capital religioso positivo, estas religiões podem chegar a convergências para além das diferenças e ajudar a enfrentar a nova era do antropoceno (o ser humano como o meteoro rasante ameaçador) e a sexta extinção em massa que está já há muito tempo em curso e se acelera cada vez mais.

Tomemos como referência as três religiões abraâmicas por serem do espaço cultural.

Primeiro, vejamos rapidissimamente a contribuição do judaísmo. A Bíblia hebraica é clara ao entender a Terra como um dom de Deus e que nós fomos colocados aqui para cuidá-la e guardá-la. “A Terra é minha e vós sois hóspedes e agregados” (Lev 25,23). Não podemos como nenhum hóspede normal faria, sujá-la, quebrar seus móveis, danificar seu jardim e matar seus animais domésticos Mas nós o fizemos. Por isso há a tradição do Tikkum Olam, da “regeneração da Terra” como tarefa humana pelas danos que lhe temos provocado. Há também senso de responsabilidade face aos não humanos. Assim antes de comer, cada um deve alimentar seus animais. Não se pode tirar uma ave do ninho que está cuidando dos filhotes. O “dominar a Terra” (Gn 1,28) deve ser entendido à luz de “cuidar e guardar” (Gn 2,15) como quem administra uma herança recebida de Deus.

O Cristianismo herdou os valores do judaísmo. Mas acrescentou-lhe dados próprios: o Espírito Santo fixou morada em Maria e o Filho, em Jesus. Com isso assumiu de alguma forma todos os elementos da Terra e do universo. A Terra é entregue à responsabilidade dos seres humanos mas eles não possuem um direito absoluto sobre ela. São hóspedes e peregrinos e devem cuidar dela. São Francisco de Assis introduziu uma atitude de fraternidade universal e de respeito a cada um dos seres, até das ervas silvestres. Pelo fato de o Deus cristão ser relacional, pois é Trindade de Pessoas, sempre relacionadas entre si, faz com que o próprio universo e a tudo o que existe seja também relacional, como o Papa Francisco tão bem expressou em sua encíclica.

O Islamismo está na esteira do judaísmo e do cristianismo. Também para ele a Terra e a natureza são criação de Deus, entregues à responsabilidade do ser humano. No Alcorão se diz que temos nossa morada aqui por um curto momento e apenas podemos desfrutar de seus bens (Sura, 2,36). O Altíssimo e Misericordioso nos dá pela riqueza e a diversidade da natureza sinais que lembram constantemente de sua misericórdia com a qual dirige o mundo. (Sura 45,3). A entrega confiante a Alá (islam) e a própria jihad (luta pela santidade interior) implicam cuidar de sua criação. Hoje muitos muçulmanos despertaram para o ecológico e de Singapura a Manchester pintaram suas mesquitas todas de verde.

Há uns pontos convergentes nestas três religiões: entender a Terra como dom e herança e não como objeto a ser simplesmente usado a bel-prazer, como o entendeu a modernidade. O ser humano tem responsabilidade face ao que recebeu, cuidando e guardando (fazê-la frutificar e conferi-lhe sustentabilidade); ele não é dono mas guardião. A Terra com sua riqueza remete continuamente ao seu Criador.

Estes valores são fundamentais hoje, pois a tradição científico-técnica tem tratado a Terra como mero objeto de exploração, colocando-se fora e acima dela. Somos Terra (Gn 1,28). Por isso há um parentesco com ela, nossa sustentadora.

Ademais todas as religiões desenvolvem atitudes que são imprescindíveis atualmente: o respeito à Terra e a tudo o que nela contém pois as coisas são muito anteriores a nós e possuem um valor em si mesmas; a veneração face ao Mistério do universo. Respeito e veneração não apenas ao Alcorão ou à hóstia consagrada mas a todos os seres, pois são sacramentos de Deus.

Essas atitudes impõem limites ao poder dominador, hoje colocando o equilíbrio da Terra em risco e ameaçando a nossa subsistência. A tecnociência é fundamental para superar a crise ecológica. Mas somente ela é insuficiente, pois precisamos de uma nova forma de relação de sinergia e de respeito para com os ciclos e os ritmos da natureza. Há um tipo de tecnociência que chegou a ser irracional por ter criado um aparato militar que nos pode liquidar a todos. Como todo saber, ela também deve conhecer limites éticos, impostos pela própria viva que quer continuar a viver e a conviver com os demais seres da Casa Comum. Senão para onde iremos? Seguramente não à montanha das bem-aventuranças mas ao vale de lágrimas.

Leonardo Boff, teólogo, articulista do JB on line, escritor, é autor de “A Terra na palma da mão:uma nova visão do planeta e da humanidade”, Vozes 2016.

Minoridade

Palavra Nova esta! Dá impressão que foi Francisco de Assis que inventou! Se não foi ele, o certo é que foi ele quem a Encarnou e Viveu! Vem do latim: “minor”, que pode ser traduzida como humildade, pequenez, serviço, despojamento, desapropriação, simplicidade. Se opõe a poder, prestígio, fama, status, aparência, deslumbre!

“O maior seja como o menor, e quem manda, como quem serve”.
(Lc 22, 26)

“Sendo de condição divina, não considerou o ser igual a Deus como algo a se apegar ciosamente, mas esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo. Humilhou-se e foi obediente até a morte e morte de cruz”
(Epístola de São Paulo)

É uma característica essencial para quem quer levar uma Vida Franciscana! Pode-se dizer queMINORIDADE É A ARTE DE PASSAR DESPERCEBIDO. É como numa partida de futebol, quando não se fala do juiz, quando ele não é nem percebido é porque é um ótimo árbitro! É A ARTE DA DESCOMPLICAÇÃO! É ser como a água… que procura sempre o lugar mais baixo, mais simples para passar…e ali escorre calma e tranqüila; mesmo quando encontra um obstáculo… bate de leve, mas passa de lado sem criar maiores problemas.

A Minoridade faz-nos solidários com os últimos da sociedade”
(Regra Não-Bulada, 9)

A MINORIDADE É UM TESOURO DA ESPIRITUALIDADE!

Por isso podemos dizer que ela tem uma DIMENSÃO VERTICAL, isto é, uma Confiança e um Abandono radical ao Deus da Vida. Abandonar-se inteiramente na Grandeza de Deus! Deus dá e o Humano recebe! Nada guarda para si…mas transforma o que recebe em Serviço, Doação, Generosidade.

“É preciso que Ele cresça e eu diminua”
(Jô 3,30)

Se no latim é “minor” no hebraico é “anaw”, “anawin”, que quer dizer os Menores de Deus! ” Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós o Altíssimo Senhor do céu e da terra e eu um miserável vermezinho vosso ínfimo servo!” Se houver um deslumbramento, somente diante da Potência de um Deus que se faz Pequeno. Francisco imitou este Deus que se fez menor na pessoa de Jesus Cristo. O Verbo de Deus se humilhou para cumprir uma missão junto ao gênero humano. Deixou as riquezas e as glórias celestiais para experimentar os limites da terra dos humanos. Viveu simples com os simples, pobre com os pobres, transparente com todos. Por isso que Francisco diz: “A extraordinária condescendência que o Senhor do Universo, Deus e Filho de Deus, de tal maneira se humilha, que por nossa salvação se esconde debaixo de uma pequena forma de pão!” E exclama também: “Ó sublime humildade! Ó sublimidade humilde! ” Um Deus que escolhe o menor lugar para servir e alimentar a todos!

“Nada desejem a não ser o louvor de Deus, o progresso da Ordem, o bem de suas almas, a salvação de todos os irmãos”
(Espelho da Perfeição” 80)

Francisco diz que o humano vale somente aquilo que é diante de Deus e mais nada! A Minoridade é buscar a força de Deus e ser instrumento da bondade divina! É ser como a IRMÃ LUA : deixar passar a Luz do Grande Outro! Sem vida e sem água a Lua podia ser nada… mas pelo contrário, ela reflete a luz oculta do Irmão Sol! Não é o centro focal do universo, mas não deixa de brilhar!

A MINORIDADE É UM TESOURO DA CONVIVÊNCIA!

Por isso podemos dizer que ela tem uma DIMENSÃO HORIZONTAL, isto é, uma atitude de acolhida, uma atitude de Prontidão Constante! É ser por demais ACESSÍVEL A TODOS! É ter uma disposição interior que nos exige aceitar como nós somos, aceitar os outros do jeito que eles são… sem nos considerar superior aos outros, ou mais dignos, ou mais capazes… Ser Menor é não se prender a cargos, ofícios, títulos, honrarias…

MINORIDADE É O CONTRÁRIO DE PUBLICIDADE!

Não é uma disposição artificial de humilhação, mas sim uma apreciação justa, objetiva e precisa do Bem e do Mal que existe em nós! O verdadeiro menor sabe a justa medida de todas as coisas! Sabe tomar o lugar que lhe corresponde e comporta-se com naturalidade! Não faz grandes exigências… mas faz muito bem o que é para ser feito. Serve sem esperar recompensa.

A Minoridade sabe conviver com gente desprezada, pobre, enferma, com os excluídos e os mendigos do caminho. Mas não agride ou julga os que se vestem com luxo, comem com abundância, tudo possuem… O menor examina-se a si mesmo antes de criticar os outros.

“A Minoridade faz-nos solidários com os últimos da sociedade”
(Regra Não-Bulada, 9)

“Todas coisas pequeninas da vida, quando postas em prática, concretizam o Minorismo. Mas também fazer o gesto que a outra pessoa precisa e que ninguém se lembra de fazer. Fazê-lo com delicadeza, de tal forma que a gente se complete com o outro, para que ele também se sinta bem de Deus”
(Dom Paulo Evaristo Arns)

Criação: Frei Vitório Mazzuco F°

Silêncio e oração: Papa em Auschwitz e Birkenau

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Cracóvia (Polônia) – O mistério do mal marca a sexta-feira (29/07) do Papa Francisco na Polônia. O Pontífice fez uma pausa na festa da juventude mundial para se interrogar sobre o sofrimento humano, visitando os campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau em silêncio e oração.

A pé, Francisco atravessou o arco de ingresso com a escrita em alemão Arbeit Mach Frei (o trabalho liberta) e se dirigiu ao chamado “Bloco 11”, onde se deteve em oração silenciosa na praça diante do edifício – local em que São Maximiliano Kolbe ofereceu a sua vida para salvar outro prisioneiro, um pai de família.

Diante do prédio, o Papa foi acolhido pela Primeira-Ministra, Beata Maria Szydlo, e cumprimentou individualmente 10 sobreviventes do campo de concentração. O último deles entregou uma vela ao Pontífice, que ele acendeu e ofereceu como dom ao local, detendo-se mais uma vez em oração diante do muro usado para o fuzilamento dos prisioneiros.

Na sequência, Francisco entrou no edifício para rezar na “cela 18”, onde S. Maximiliano Kolbe pagou a pena destinada ao pai de família, que consistia na morte lenta, através da privação de água e comida. Depois de duas semanas de agonia e diante da obstinação do franciscano em rezar e entoar hinos a Maria, o sacerdote polonês morreu por envenenamento no dia 14 de agosto de 75 anos atrás, em 1941. Na saída, o Pontífice assinou o Livro de Ouro.

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Três quilômetros separam Auschwitz de Birkenau. Ao chegar na entrada principal deste segundo campo, Francisco percorreu de carro elétrico a ferrovia até a praça do Monumento às Vítimas das Nações. Ali o aguardavam cerca de mil convidados, a Primeira-Ministra e o Diretor do Museu de Auschwitz-Birkenau.

O Pontífice passou diante das lápides comemorativas nas várias línguas dos prisioneiros e depois de uma oração silenciosa, depositou uma vela. A seguir, encontrou 25 “Justos entre as nações”, isto é, pessoas não judias que receberam um reconhecimento por arriscarem suas vidas durante o Holocausto para salvar judeus do extermínio nazista. Um rabino entoou o Salmo 130 em hebraico, que depois foi lido em polonês por um sobrevivente.

Na parte da tarde, o Papa voltará a se interrogar sobre o mistério do mal visitando o maior hospital pediátrico da Polônia, localizado em Prokocim. Todos os anos, o hospital oferece tratamento a 30 mil crianças, além de 200 mil consultas efetuadas.

O último compromisso de Francisco nesta sexta-feira é a celebração da Via-Sacra com os jovens, na esplanada de Blonia. O tema das estações é inspirado nas 14 obras de misericórdia corporais e espirituais.

Cracóvia (RV) – A visita do Papa aos campos de concentração de Auschwitz e Birkenau foi assunto entre os jovens na manhã desta sexta-feira, (29/07). Muitos aproveitaram a ocasião para recordar a visita no centro do Holocausto, assim como o bispo que conduziu a catequese, e os sacerdotes presentes.

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Papa vai na ferida: guerra não é religiosa, mas interesses, por dinheiro, por recursos naturais, pela dominação

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Em entrevista aos jornalistas que o acompanhavam a Cracóvia, na Polônia, para a Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco mostrou que é um dos raros líderes mundiais disposto a falar a verdade em lugar de pegar carona nas histerias discriminatórias.

 – Repete-se muito a palavra segurança, mas a [palavra] verdadeira é guerra. O mundo está em guerra, guerra aos bocados.

Falando do assassinato do padre Jacques Hamel, durante a tomada de reféns na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, próximo de Rouen, norte de França, Francisco disse que falava de “uma guerra a sério, não de guerra de religiões”.

 -Falo de guerra de interesses, por dinheiro, por causa dos recursos naturais, pelo domínio das populações.

O fundamentalismo não se expressa apenas no Estado Islâmico, mas em toda a vestimenta de buscar ‘a tranquilidade do passado’  com a recusa de que a velha ordem, injusta e excludente, é inviável no mundo que cresceu em gente e anulou as distâncias, pela comunicação e economia globalizadas.

Teologia e hambúrgueres Afinal, o que isso tem a ver com teologia?

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Fabrício Veliq*

Na última semana recebi um grande amigo em minha casa. Como menu, optamos por fazer hambúrgueres, tanto por ser algo que gostamos, quanto por ser mais fácil e rápido de se preparar. No entanto, ao invés de pedirmos o hambúrguer em um tele entrega, resolvi eu mesmo fazê-los.

Para se fazer um hambúrguer é necessário somente carne e gordura. Nada mais. No entanto, o que dá o sabor e a suculência no hambúrguer é o devido equilíbrio entre a quantidade de carne e a quantidade de gordura utilizada. Se utilizarmos muita carne e pouca gordura, o hambúrguer tende a ficar seco demais devido ao calor na frigideira na hora de fritá-lo; se, porém, colocarmos muita gordura, provavelmente, ele se desmanchará na frigideira, uma vez que a gordura se derreterá totalmente, deixando-o sem consistência. Equilibrar carne e gordura é fundamental para que se tenha um bom resultado no final e seja possível comer um bom hambúrguer quando bater aquela fome.

Talvez você esteja se perguntando: mas, afinal, o que isso tem a ver com teologia? A meu ver, tudo. Um bom teólogo é aquele que consegue fazer o equilíbrio entre a quantidade de carne e gordura no seu fazer teológico. Aqui, para questões meramente didáticas, consideremos a carne como o conhecimento teológico e a gordura como a práxis cristã, sem o intuito de polarizar os dois termos.

Não dificilmente vemos diversos teólogos e diversas teólogas que tem enorme conhecimento sobre as Escrituras, sobre os documentos da Igreja, sobre os dogmas, sobre a história da Igreja e dos cristãos; são exímios pregadores e exímias pregadorase, algumas vezes até intimidam àqueles com quem falam dado seus conhecimentos. No entanto, não dificilmente, não se engajam nos problemas de suas comunidades, não se importam com as condições dos menos favorecidos, vivendo assim em um mundo somente de conhecimento teórico. Com o passar do tempo, esses teólogos e essas teólogas se tornam secos e sem sabor. Você até percebe que ali está alguém com grande qualidade, porém se tornou intragável devido ao seu conhecimento desvencilhado da prática.

Da mesma forma, há teólogos e teólogas que só se preocupam com a prática cristã, desvencilhado do aprofundamento acerca das questões que perpassam o conhecimento teológico. São aqueles e aquelas preocupados em fazer algo, que sentem o chamado forte no seu coração e querem sair a todo canto pregando, construindo igrejas, fazendo discipulado, etc. Por mais nobre que isso seja, sem o conhecimento teológico é grande o estrago que, muitas vezes, os bem-intencionados e bem-intencionadas causam para onde vão. Uma vez que só podemos oferecer aquilo que temos, esses teólogos e essas teólogas passam a ensinar somente suas experiências e, na maioria das vezes, observando e julgando todas as situações por meio delas. Com o passar do tempo, esses teólogos e essas teólogas fazem com que a comunidade não adquira a consistência necessária para prosseguir na caminhada cristã.

Assim como um bom hambúrguer, o teólogo e a teóloga necessitam do equilíbrio entre a carne (conhecimento teológico) e a gordura (prática cristã) de maneira que possa suprir tanto as necessidades intelectuais dos membros de sua comunidade, como também se importar com as questões nas quais o conhecimento teórico pouco ajuda. Uma vez adquirido esse equilíbrio, o teólogo e a teóloga devem tentar mantê-lo de maneira constante para que o crescimento da comunidade seja permanente e seja algo de saboroso para o lugar onde ela está inserida.

A proporção, caso o leitor queira tentar fazer um hambúrguer em casa, é de 20 a 30% de gordura para cada quantidade de carne. Como exemplo, caso se tenha 1kg de carne, misture 200 a 300 gramas de gordura para obter um hambúrguer equilibrado. Para o caso da teologia, recomendo sempre que seja 50% para o conhecimento teológico e 50% para a práxis cristã.

*Fabrício Veliq é mestre e doutorando em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG.Atualmente ministra cursos de teologia no curso de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí.
http://domtotal.com/noticia.php?notId=1049975

Revoluções silenciosas: a convivialidade

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Com a queda do muro de Berlim em 1989 e com ele o socialismo que fazia o contraponto (independentemente de seus graves erros internos) ao capitalismo, este terminou triunfalmente ocupando todos os espaços na economia e na política. Com a chegada ao poder de Margareth Thatscher na Inglaterra e de Ronald Reagan nos USA, a lógica capitalista ganhou livre curso: liberalização completa dos mercados com a ruptura de todos os controles, a introdução do estado mínimo, das privatizações, da concorrência sem fronteiras e do crescimento sem qualquer consideração para com a natureza.

Essa assim chamada de“mundialização feliz” não foi tão feliz assim.

O prêmio Nobel de economia Joseph Stigliz pôde escrever ainda em 2011: ”somente o 1% dos mais ricos fazem funcionar a economia e o inteiro planeta em função de seus interesses”(“Of the 1% by 1% em Vanity Fair, maio 2011). Em razão disso um dos maiores bilionários, o especulador Warren Buffet se vangloriava:”sim, a luta de classes existe, mas é a minha classe, a dos ricos, que conduz a luta e a estamos ganhando”(Entrevista na CNN de 2005).

Só que todos esses endinheirados nunca colocaram em seus calculus o fator ecológico, os limites dos bens e serviços naturais, tidos como desprezíveis externalidades. Isso ocorre também nos debates econômicos em nosso país, retardatário nesta questão, à exceção de alguns poucos como L.Dowbor entre outros poucos.

Ao lado da hegemonia mundial do sistema do capital, crescem por todas as partes revoluções silenciosas. São grupos de base, cientistas e outros com sentido ecológico que estão ensaiando alterntivas a este tipo de habitar o planeta Terra. A continuar estressando de forma impiedosa a Terra, esta poderá dar o troco e provocar um abalo, capaz de destruir grande parte de nossa civilização.

É num contexto assim dramático que surgiu um movimento chamado de “Os convivialistas” que reúne por ora mais de 3200 pessoas do mundo inteiro (vejawww.lesconvivialistes.org). Procuram o viver juntos (dai convivialidade), cuidando uns dos outros e da na natureza, não negando os conflitos mas fazendo deles fatores de dinamismo e criatividade. É a politica do ganha-ganha.

Quatro princípios sustentam o projeto: o princípio da comum humanidade. Com todas as nossas diferenças, formamos uma única humanidade, a ser mantida unida.

O princípio da comum socialidade: o ser humano é social e vive em vários tipos de sociedades que devem ser respeitadas em suas diferenças.

O princípio de individuação: mesmo sendo social, cada um tem direito de afirmar sua individualidade e singualridade, sem prejudicar os outros.

O princípio da oposição ordenada e criadora: os diferentes podem se opôr legitimamente mas sempre tendo o cuidado de não fazer da diferença uma desigualdade.

Esse princípios implicam consequências éticas, políticas, econômicas e ecológicas que não cabe aqui detalhar.

O importante é começar: a partir de baixo, com o bioregionalismo, com as pequenas unidades de produção orgânica, com a geração de energia a partir dos dejetos, com a convivência com o semi-arido, com a proteção das mataas ciliares e das nascentes de água doce, com um sentido de auto-limitção e justa medida, vivendo um consumo frugal compartido entre todos. São as revoluções silenciosas que estão acumulando energia para, num momento maduro da história, poder fazer a grande transformação e a passagem da era do antropoceno para a era do ecozoico.

É importante hoje acentuar a convivialidade porque atualmente há muitos que não querem mais viver juntos.

A convivialidade como conceito, foi posta em circulação por Ivan Illich (1926-2002) com seu livro A convivialidade (1975). Ele foi um dos grandes pensadores proféticos do século XX. Austríaco, viveu grande parte de sua vida nas duas Américas e por anos em Petrópolis. Para ele a convivialidade consiste na capacidade de   fazer conviver as dimensões de produção e de cuidado; de efetividade e de compaixão; de modelagem dos produtos e de criatividade; de liberdade e de fantasia; de equilíbrio multimensional e de complexidade social: tudo para reforçar o sentido de pertença universal.

A convivialidade pretende também ser uma resposta adequada à crise ecológica. Ela pode evitar um real crush planetário.

Importa restaurar o pacto natural coma Terra e o social entre os povos, articulando sempre ambos conjuntamente. O primeiro parágrafo do novo pacto será o sagrado princípio da auto-limitação e da justa medida; em seguida, o cuidado essencialpor tudo o que existe e vive, a gentilezapara com os humanos e o respeito para com a Mãe Terra. Tudo isso não se alcançará sem dar primazia ao capital humanístico-espiritual sobre o capital meramente material, sob o qual ainda vivemos.

É possível organizar uma sociedade boa, uma Terra da boa-esperança (Sachs e Dowbor) na qual as pessoas preferem cooperar e partilhar em vez de competir e acumular ilimitadamente. Estas são as condições básicas de uma felicidade possível neste mundo.

Leonardo Boff articulista do JB on line escreveu com M.Hathaway, O Tao da libertação: explorando a ecologia de transformação, Vozes 2012.

Boaventura de Sousa Santos: Quinze questões para uma nova esquerda

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“É trágico que, em tempos recentes, tenha sido mais fácil à forças importantes de esquerda (em geral, de orientação social-democrática ou de centro-esquerda) realizar alianças com forças de direita do que com outras forças de esquerda. Mas as dificuldades na concretização de articulações de esquerda não são, em geral, da responsabilidade de apenas um setor da esquerda. Infelizmente, o sectarismo tem-se distribuído generosamente. As teses seguintes falam de esquerda no singular para designar o campo de consensos práticos que devem subjazer às alianças entre as esquerdas.”

Via Instituto Humanitas Unisinos
Leia a matéria completa no site do CEBI http://goo.gl/xvFC9l

Povos indígenas: vidas às margens das rodovias no RS e das decisões judiciais e políticas

 

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“Dor, sofrimento e injustiça”. Com essas palavras Silvino Werá da Silva, cacique da Terra Indígena Irapuá, localizada entre os municípios de Cachoeira do Sul e Caçapava do Sul, Rio Grande do Sul, definiu para a equipe do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que o acompanhou em audiência no Ministério Público Federal (MPF), os sentimentos de sua comunidade. E completou: “Vivo na beira da estrada a minha vida toda. Crio meus filhos de baixo de lona à espera da demarcação da nossa terra, que fica do outro lado da estrada (BR 290, no Km 299). Eu até quis desistir, mas não consigo. Vivemos por causa da terra. Ela é tudo o que temos e somos, mas nela não nos deixam pisar. Ela é nosso sonho, é nosso ritual, é nosso alimento, é nossa vida”.

Como não se emocionar ao ouvir essas palavras? Não há como não se comover ao ver seus filhos, netos, esposa e sua comunidade na margem de uma estrada federal onde não há habitação, água potável, matas, animais, alimentos. Crianças nascem e, quando sobrevivem, crescem sob lonas geladas no inverno e escaldantes no verão.

Esse é o contexto desumano a que estão submetidas essas pessoas, cujas vidas estão à margem de tudo. E eu, mais uma vez, me emocionei. Já experimentei grande emoção diante da alegria resistente dos Guarani e Kaingang. Mas, desta vez, o sentimento foi de angústia e indignação profundas. Não é justo que pessoas sejam submetidas à condição de exilados, que sejam impedidos de desfrutar do direito ancestral sobre suas terras porque estas foram apropriadas indevidamente pelo Estado e entregues a um punhado de fazendeiros que nelas plantam pasto para engordar bois no Rio Grande do Sul, ou soja para também engordar bois na China e na Europa.

Sob as lonas pretas os indígenas vivem. Acreditam numa “terra sem mal”. Acreditam que a terra é para ser cuidada e, por isso, Nhanderu – Deus – a presenteou aos povos. Não a entregou para causar sofrimento, dor e nem morte. Essa dádiva não deve ser destinada exclusivamente a alguns privilegiados, e sim deve gerar vida em abundância para todos. Sob o ponto de vista dos guarani, os juruá – brancos – precisam aprender a conviver com a terra e respeitá-la. Mas, quando o lucro e o poder são colocados como metas, a vida passa a valer quase nada e se perde o sentido ético da existência humana.

Os Guarani Mbya valorizam a paz, não suportam o conflito. Suas formas de resistência envolvem a presença discreta e o diálogo, e não o enfrentamento direto. Em função disso, são muitas vezes ignorados, vítimas da omissão do poder público ou de sua ação direta – em Irapuá, por exemplo, os Guarani foram removidos pelo estado do Rio Grande do Sul e colocados distantes de suas terras tradicionais. Retornaram, resistem, reivindicam a demarcação, permanecendo à margem da rodovia, num pequenino fragmento de terra que compõe aquela em que se pode ser gente, em que se pode viver o Tekó, o jeito de ser Guarani.

Com seus corpos e vidas postos à margem, eles confirmam que não é qualquer terra que pode ser boa para viver, mas aquelas reconhecidas em suas cosmo-ontologias. É lá que estão as condições – materiais e espirituais – para viver plenamente. Os Guarani e os Kaingang não gostam de viver em acampamentos, não é parte de suas práticas tradicionais, não se acostumam com a vida em condições precárias, eles persistem, resistem, acreditam que suas terras serão demarcadas porque é só nelas que se pode existir.

Contudo, o governo federal determinou a paralisação de todas as demarcações das áreas indígenas há pelo menos três anos. Assim, as comunidades indígenas são condenadas a uma existência de precariedades. No Rio Grande do Sul, além de Irapuá, existem outros 21 acampamentos à beira de rodovias, e são dezenas em condições semelhantes em todo o país.

As razões para que as comunidades indígenas sejam mantidas, por décadas, nesta absurda situação ligam-se ao sistema de governo que temos. Nele, estimula-se a propriedade, a concentração de terras, a produção em larga escala. A partir dessa lógica, os governantes, mesmo tendo a responsabilidade constitucional de demarcar as terras e assegurar aos povos indígenas o seu usufruto, não o fazem. Suas ações (e omissões) demonstram estarem atrelados política e economicamente aos proprietários que, em sua maioria, adquiriram os bens de modo ilegal ou ilegítimo. Ilegal porque muitos grilaram terras ou se apossaram violentamente delas, e ilegítima porque, quando os títulos foram concedidos pelo Estado, os governantes sabiam que as terras eram habitadas por indígenas ou quilombolas.

É neste contexto que se deve ler e analisar as ações e omissões do Poder Executivo, que é negligente em sua responsabilidade de executar políticas públicas, assegurar vida digna a todas as pessoas e possibilitar o acesso à educação, saúde, saneamento básico, moradia.

Também, é neste contexto que se deve analisar decisões judiciais contra demarcações de terras. No âmbito da Justiça Federal, especialmente nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil, foram proferidas decisões que contrariam dispositivos constitucionais garantidores dos direitos dos povos indígenas. Lamentavelmente, os inimigos dos povos indígenas tentam emplacar artimanhas ou subterfúgios jurídicos em tribunais superiores para legitimar o que é ilegítimo ou ilegal.

Como não têm conseguido descaracterizar o direito constitucional dos povos indígenas às suas terras, tentam sustentar teses anti-indígenas no Poder Judiciário. É o caso do chamado “marco temporal da Constituição Federal de 05 de outubro 1988”. Trata-se de uma anomalia jurídica, a partir da qual se afirma que, se os “índios” não estavam na posse da terra no ano de 1988, perderiam, por isso, o direito de reivindicar a demarcação. Argumentam também que os “índios” somente teriam direito a uma terra se estivessem, até a referida data da promulgação da Constituição, em renitente esbulho, ou seja, disputando-a de modo conflitivo – em guerra com os brancos – ou pleiteando a área requerida na Justiça. Portanto, alega-se que os indígenas – que antes da Constituição Federal de 1988 eram tutelados pelo Estado – deveriam ter ingressado em juízo contra os invasores de suas terras, o que lhes era vedado.

Desconsidera-se, com a tese do marco temporal, a própria ação do estado brasileiro que promoveu a expulsão ou remoção dos povos indígenas de suas terras e as destinou a propriedade privada através de titulações indevidas. Ignora-se também que o reconhecimento do direito à terra aos indígenas já estava assegurado desde à época do império e consolidado nas Constituições de 1934 e as subsequentes.

Ao que tudo indica, falta a quem defende a tese do marco temporal, um estudo mais aprofundado da história de massacres e de expulsões a que foram submetidos os povos indígenas. Recomenda-se, neste caso, o estudo do “Relatório Figueiredo”, por exemplo.

Cabe aos poderes públicos cumprirem o que determina a Constituição da República, especialmente em seu Artigo 231, no qual se afirma que: os índios têm o direito originário sobre as terras que tradicionalmente ocupam, ou seja, este direito é anterior a própria Lei Maior; as terras indígenas são inalienáveis, indisponíveis e os direitos sobre elas são imprescritíveis; compete à União demarca-las e fazer respeitar todos os seus bens. E, além disso, a lei esclarece que a propriedade das terras não é dos povos indígenas, mas da União, cabendo a eles apenas o seu usufruto exclusivo.

A realidade de desrespeito e de violências contra os povos indígenas no Brasil evidencia a intenção de beneficiar ruralistas, empresários do agronegócio, da mineração ou empresas de energia elétrica. São estes setores, em síntese, que sustentam um Estado governado por políticos autoritários, racistas e corruptos. Eles ignoram as pessoas que vivem à margem, sob as lonas, pois estas não movem a engrenagem que mantém e fortalece as estruturas do poder econômico.

Parece haver uma estreita sintonia entre alguns governantes, alguns membros do legislativo e alguns juízes, quando se consuma a injustiça e se despejam famílias indígenas, que são condenadas a permanecer à margem de rodovias. Neste sistema de poder, a trágica situação vivida pelos povos indígenas não comove e não impacta. E, assim, nem a lei, nem o direito, nem a justiça, nem a dignidade humana prevalecem.

Fonte: http://cimi.org.br

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